quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pedro e Paulo, colunas e luzes que brilham no coração dos fiéis do Oriente e Ocidente

Cidade do Vaticano (RV) – Após presidir na Basílica de São Pedro a missa pela Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, o Papa Francisco assomou à janela do apartamento pontifício para rezar o Angelus com os milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro.

Sua alocução, que precede a oração, foi toda dedicada aos dois Apóstolos, cuja fé é o fundamento “da Igreja de Roma, que sempre os venerou como padroeiros”. Todavia – observa o Santo Padre – é “toda a Igreja universal que olha para eles com admiração, considerando-os como duas colunas e duas grandes luzes que brilham não somente no céu de Roma, mas no coração dos fieis do Oriente e do ocidente.

“Se aqui em Roma conhecemos Jesus – explicou o Papa – e se a fé cristã é parte viva e fundamental do patrimônio espiritual e da cultura deste território, isto se deve à coragem apostólica destes dois filhos do Oriente próximo”.

Pedro e Paulo

Estes dois homens “que eram diferentes um do outro: Pedro um “humilde pescador” e Paulo “mestre e doutor”, foram enviados a Roma para pregar o Evangelho:

“Eles, por amor à Cristo, deixaram sua pátria e, independentemente das dificuldades da longa viagem e dos riscos e das suspeitas que encontrariam, desembarcaram em Roma. Aqui eles se tornaram anunciadores e testemunhas do Evangelho entre as pessoas, selando com o martírio a sua missão de fé e caridade”.

E este fato ocorrido nos primórdios do cristianismo, é trazido por Francisco para os tempos atuais:

“Pedro e Paulo hoje retornam idealmente entre nós, percorrendo novamente as ruas desta cidade, batendo na porta de nossas casas, mas acima de tudo dos nossos corações. Eles querem trazer mais uma vez Jesus, o seu amor misericordioso, a sua consolação, a sua paz. Acolhamos a mensagem deles! Façamos tesouro de seu testemunho! A fé firme e sincera de Pedro, o coração grande e universal de Paulo, nos ajudarão a ser alegres cristãos, fiéis ao Evangelho e abertos ao encontro com todos”.

Novos arcebispos

Francisco voltou-se então para a cerimônia por ele presidida esta manhã na Basílica vaticana onde abençoou os Pálios dos Arcebispos Metropolitas nomeados no últimos ano, vindos de diversos países:

“Renovo a minha saudação e o meu augúrio a eles, aos familiares e àqueles que os acompanham nesta peregrinação. Os encorajo a prosseguir com alegria a sua missão a serviço do Evangelho, em comunhão com toda a Igreja e especialmente com a Sé de Pedro, como expressa precisamente o sinal do Pálio”.

Por fim, o Pontífice recordou a presença na mesma cerimônia dos Membros da Delegação vinda a Roma em nome do Patriarca Ecumênico, “o caríssimo irmão Bartolomeu”:

“Também esta presença é sinal das fraternas ligações existentes entre as nossas Igrejas. Rezemos para que se fortaleçam sempre mais os vínculos de comunhão e o testemunho comum”.

Ao concluir, o Papa Francisco confiou a Salus Populi Romani “o mundo inteiro e em particular esta cidade de Roma, para que possa encontrar sempre nos valores espirituais e morais de que é rica o fundamento da sua vida social e da sua missão na Itália, na Europa e no mundo”.

Fonte: Rádio Vaticana

Mini Encontro 26.06.2016

Irmãos e irmãs,
Paz e bem!

Aconteceu no domingo dia 26/06/16 o Mini-encontro da capital na fraternidade Frei Galvão, na Vila Dionísia.

O encontro começou com a santa missa presidida pelo Frei Hipólito Martendal, OFM  e concelebrada pelo padre José, da Paróquia Nossa Senhora de Fátima. O tema: “Olhou-me com misericórdia”, foi tratado desde a homilia e estendeu-se por todo o dia.

Após saboreamos o delicioso café da manhã bem quentinho com pães e bolachas.

Em seguida nos dirigimos para o salão da fraternidade e ao som de cantos franciscanos cada fraternidade foi acolhida com palmas e muito carinho e atenção.

Mesmo com um número reduzido de irmãos e fraternidades, nosso encontro transcorreu bem animado no amor fraterno.

O irmão Marcos Cézar Jasnievski, ministro da fraternidade local, deu as boas vindas aos presentes acolhendo em nome da fraternidade Frei Galvão.

Contamos com a presença do Paulo Amâncio, Coordenador do CRAI (Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes). O CRAI busca promover o acesso a direitos e inclusão social, cultural e econômica dos imigrantes da cidade de São Paulo, por meio de atendimento especializado a esta população, na oferta de cursos e oficinas além do atendimento do acolhimento. A criação do espaço atende a Meta 65 do programa de Metas da atual gestão da Prefeitura de São Paulo, que prevê a criação e implementação de Política Municipal para Migrantes na cidade. O endereço: Rua Japurá, 234 – Bela Vista.
O projeto é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). A gestão do CRAI é realizada em parceria com o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras). O Serviço também conta com o apoio da Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça (SNJ/MJ).

O Paulo descreveu os trabalhos, as expectativas, as parcerias com a Prefeitura,  as dificuldades no atendimento aos imigrantes na cidade de São Paulo. Os imigrantes são milhões de pessoas em todo o mundo que procuram um destino fugindo das guerras, fome e violências e outras tantas perseguições religiosas e políticas.       

E estavam presentes também 04 nigerianos que transmitiram para a assembleia as dificuldades encontradas na chegada e adaptação no Brasil.

Mas que apesar de tudo se sentem felizes em nossa pátria. Foi muito bom!

E para finalizar nosso dia, o Frei Hipólito relatou sua experiência como filhos de imigrantes. Sua família, os desafios de seus antepassados numa terra distante. Comentou também dos trabalhos do Convento São Francisco no acolhimento aos moradores de rua em tempos de inverno na cidade. E fez o fechamento do nosso dia de encontro “No olhar misericordioso do Senhor”!

Para encerrar saboreamos um delicioso café da tarde e despedidas.

Agradecemos à Fraternidade Frei Galvão pela hospitalidade e carinho no recebimento dos irmãos da capital. Que Deus abençoe e todos!

“Como é bonito o encontro dos Irmãos para cantar as Maravilhas do Senhor”!

Por tudo Deus seja louvado!

Maria Nascimento       











segunda-feira, 27 de junho de 2016




Hoje, fazemos memória de Maria, mãe de Jesus, com o nome de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Este título chega entre nós através de um ícone, uma pintura de caráter religioso-místico, que data do período bizantino. Não sabemos quem foi o autor da pintura. A história do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ficou conhecida a partir do século XV, quando esta pintura foi levada da ilha de Creta para Roma e colocada na igreja de São Mateus, onde foi venerada por três séculos.
Destruída a igreja de São Mateus, a célebre imagem permaneceu escondida até que, pela providência de Deus, foi descoberta e devolvida ao culto popular. Em 1866, por ordem do Papa Pio IX, o ícone foi confiado aos cuidados dos Missionários Redentoristas.
Atualmente, o ícone missionário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro se encontra na Igreja de Santo Afonso, em Roma. O centro da pintura não é Nossa Senhora e sim Jesus. Para se chegar a essa conclusão, basta traçar duas linhas imaginárias, uma ao longo do braço da Madona que forma um ângulo que aponta para o Menino. O mesmo indica os dois dedos da Madona, isto é, apontam para a cabeça do Menino Jesus. Isto mostra que o centro é Jesus Cristo, portanto é um ícone cristocêntrico. Maria é, assim, "aquela que indica o caminho", ou como é mais conhecida: "a via de Cristo". Nota-se também o olhar significante de Maria, isto é, o seu olhar está direcionado a quem olha o quadro e, ao mesmo tempo, a sua cabeça indica seu Filho Jesus. Deve-se observar a sandália do Menino que está desatada e mostra seu pé. Conforme a tradição oriental, mostrar a planta do pé é dizer que se é homem. 
Assim, esta cena indica que Jesus mostra a planta do seu pé para dizer que ele é verdadeiramente homem. Outro ponto importante a se observar, se refere às cores das vestes e seus significados. No quadro a Madona se veste com túnica vermelha e manto azul. E o Menino se veste de túnica verde com faixa vermelha e manto ocre. Na simbologia oriental, verde e vermelho significam divindade. O azul e o ocre significam humanidade.

Colaboração: Padre Evaldo César de Souza, CSsR
ORAÇÃO Ó Virgem do Perpétuo Socorro, Santa Mãe do Redentor, socorre o teu povo que ressurgir. Concede a todos a alegria de caminhar para o futuro numa consciente e ativa solidariedade com os mais pobres, anunciando de modo novo e corajoso o Evangelho de teu Filho, fundamento e cume de toda a convivência humana que aspira a uma paz justa e duradoura.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Natividade de São João Batista

24
Lc 1, 57-66.80

“E tu, menino serás chamado profeta do Altíssimo.”

Na história, em geral, dá- se um destaque especial ao nascimento de personalidades importantes. O evangelista também dá ao nascimento de São João Batista, um destaque, mas um destaque incomum, pois seus pais “Zacarias e Isabel” vivem a vergonha de serem idosos e não terem filhos.

Mas, é a eles que o olhar de Deus se volta: deles nascerá o profeta que vai dar fim ao tempo das promessas “A lei e os profetas chegaram até João. Daí em diante, o Reino de Deus é anunciado, e todos se esforçam para entrar nele a qualquer custo”. (Lc16, 16). E preparar os caminhos do Messias libertador dos pobres.

O nascimento de São João (nome que significa Deus tem piedade) é uma dádiva a seus pais e motivo de alegria para os vizinhos. Mas, principalmente, é razão de esperança: de uma criança algo novo há de vir.

Diante de seu filho, Zacarias entoa um cântico, que trata da visita de Deus por meio de Jesus. É em Jesus que se encontra a força que vai livrar dos inimigos e formar um povo que viva em santidade e justiça. João irá à frente proclamar a todos que a visita de Deus está para ocorrer, com vistas em uma nova história, na direção da paz e da realização do Reino de Deus e da Salvação de todos nós.

Reflexão feita pelos noviços.


Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Encontro 19.06.2016

Irmãos e irmãs,
Paz e bem!

Aconteceu no dia 19 de Junho a santa missa das 9 horas realizada na Igreja das Chagas, presidida pelo Frei Gustavo G Medella, OFM, assistente espiritual da fraternidade e concelebrada pelo Frei Diego Atalino de Melo, OFM.

Rezamos pelos benfeitores, aniversariantes e sufrágio dos senhores Antonio Washington Simões, pai de nossa irmã Edna Simões, falecido no dia 07/06/16 e Raimundo Honório de Carvalho, irmão de nossa irmã Maria Luzia de Carvalho, falecido no dia 08/06/16.

Ao final da celebração entregamos nosso cartão de condolências em nome dos irmãos e irmãs da fraternidade e o abraço de acolhimento e solidariedade ás nossas irmãs. A dor do irmão é a dor da fraternidade. A alegria do irmão é a alegria da fraternidade, somos família!

Em seguida, Frei Gustavo chamou à frente os aniversariantes do mês de junho e toda a assembleia cantou os parabéns.

Contamos também com a presença de um grupo de vocacionados à vida consagrada dos frades menores que foram chamados á frente e receberam uma salva de palmas e a bênção final.

No café nova homenagem aos aniversariantes com cantos festivos e bolo. Muito bom!

Após participamos do momento formativo e em seguida o almoço e reza da coroa franciscana e despedida.

Aos aniversariantes do mês de Junho desejamos muitas bênçãos e graças.

Às nossas irmãs Edna e Luzia que recebam de Deus o conforto e a paz interior juntamente com seus familiares no momento difícil do luto.

Por tudo Deus seja louvado!

Maria Nascimento 
















Convite para o Mini Encontro da Capital - 26.06.2016

Prezados irmãos e irmãs,

O nosso Mini-Encontro será na Fraternidade, Frei Galvão no dia 26 de junho de 2016. “O fundamental da vida humana é relacionar-se. Clara e Francisco, namoraram, olhos nos olhos, um crucifixo Glorioso. Iluminaram-se de preces, a linguagem mais expressiva de quem ama. Os dois abraçaram a Pobreza na riqueza de Amar. Na paz fecundante de são Damião. Os sonhos floriram e amadureceram” (Frei Vitório Mazzuco).

Conto com a presença de todos irmãos e irmãs para conversarmos e fortalecermos a  nossa vocação belíssima, partilhando o que de mais precioso temos.

Um grande e fraternal abraço.
Nercy

domingo, 19 de junho de 2016

AS CORES DE SÃO FRANCISCO

Dante Alighieri disse que ele foi “uma luz que brilhou sobre o mundo".

Francisco Bernadone era filho de um rico vendedor de tecidos em Assis. Por isso, vestia-se com as mais belas roupas, com as mais lindas cores que se podia conceber. Era muito alegre e simpático, mas sentia um vazio em sua alma que era opaca e sem cor.

Quando Francisco Bernadone se despiu na praça de Assis, ele abria mão dos tecidos coloridos e se tornava Francisco de Assis. As cores, ainda estavam presentes, só que agora elas vinham de sua alma humilde e caridosa.

A exposição, “As Cores de São Francisco”, explora essas cores exuberantes de Francisco de Assis, dessa pessoa linda que ajudava a todos e animais que precisavam, reconstruía igrejas, estruturou e apresentou uma nova forma de vivenciar a fé, irradiava cores intensas para quem quisesse ver.

A exposição é GRATUITA na Igreja das Chagas do Seráphico Pai São Francisco, no Largo de São Francisco, 173 – Centro - São Paulo, e começa no dia 14/06 e vai até o dia 30/06 das 10 às 16 horas aos sábados das 10 às 13 horas. A Paróquia, datada de 1676, é uma atração à parte por sua beleza.

Entre e divirta-se com as peças que montamos e vivencie a beleza da vida e obra de Nosso Querido Pai São Francisco de Assis!





quarta-feira, 15 de junho de 2016

Festa de Santo Antônio 2016

Irmãos e Irmãs,
Paz e bem!

Aconteceu no dia 13 de junho a tradicional Festa de Santo Antonio no Largo São Francisco.
O Largo amanheceu bem animado com a presença dos fiéis e devotos do Santo tão querido em nosso Brasil.

Ao longo do dia as missas animadas e participativas empolgavam a todos.

A alegria, o entusiasmo tomava conta de todos que se movimentavam nas barracas e nas Igrejas.

Juntamente com a Paróquia vendemos nosso tradicional bolo de Santo Antonio além de artesanatos e doces.

Agradeço aos irmãos e irmãos na realização da Festa de Santo Antonio, bem como aos colaboradores na manutenção da Igreja das Chagas.

Vivemos um dia de Fraternidade!

Que Deus em sua infinita bondade e misericórdia conceda a todos muitas bênçãos e graças.

Por tudo Deus seja louvado!

Maria Nascimento













 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Iconografia antoniana



Do grego, ícone (eicón) traz consigo uma idéia de imagem, representação de uma coisa sagrada. Iconografia, como derivada, é a ciência que caracteriza o estudo, a descrição e os conhecimentos de imagens.

Há, de certa forma, na palavra um relativo equívoco, uma vez que ícone é uma representação plana (quadro) e não tridimensional (imagem). Mas como modernamente iconografia é a ciência dos quadros e imagens sacras, vamos lá. Quase como sinônimo, temos a palavra iconologia.

Toda imagem, toda obra de arte, tem em si uma leitura, feita através de atributos e sinais identificadores. Essa leitura pode mudar de acordo com os tempos, os enfoques históricos e a interposição de ciências particulares.

O artista coloca suas palavras através da obra de arte que ele cria. O público, através dos tempos, estabelece critérios de leitura e releitura das obras de arte, sejam elas mundanas ou sacras.

Os símbolos favorecem a hermenêutica, a leitura interpretativa de uma imagem. Os atributos detalham a simbologia. A iconografia de Santo Antônio – pinturas, estátuas e outras expressões artísticas – apresenta grande variedade e riqueza e propicia uma leitura muito ampla da vida e da santidade do retratado.

Olhando as imagens, santinhos e quadros mais conhecidos, nota-se logo a incidência de alguns traços e símbolos que permitem a diferenciação. Como sabemos a diferença, por exemplo, entre São Jorge e São José?

A iconografia nos dá muitas pistas: um aparece vestido de guerreiro, montado a cavalo, combatendo um dragão. O outro é representado por um homem idoso, com o menino Jesus no colo, e geralmente portando um lírio ou um bastão de peregrino. Uma breve visão iconográfica nos possibilita a identificação.

A iconografia é, sem dúvida, uma bela e significativa expressão da religiosidade popular. O povo cria suas imagens, onde o homenageado é quase sempre jovem, belo, transpira santidade e veste-se, quando não ricamente, pelo menos de modo bem apurado.

É a representação, por exemplo, em imagens de Nossa Senhora, onde ela aparece ricamente vestida, com jóias e coroa de ouro na cabeça. O imaginário popular exacerba-se na representação devocional.

A iconografia inspira a evolução de religiosidade. Nessa práxis, os devotos apreciam mais olhar a imagem ou o santinho, do que ler a biografia ou estudar os escritos ou discursos do santo homenageado.

Na verdade, por uma leitura correta dos símbolos e atributos de uma imagem, podem-se estabelecer alguns traços da biografia de um santo.

Para avançar, vejamos a diferença entre símbolos e atributos, em iconografia.

Os símbolos dão a idéia geral da imagem e alguns critérios de interpretação. Por exemplo, na imagem de Santo Antônio, há símbolos de santidade, pertença à Ordem Franciscana, eleição divina e indicação de que foi pregador.

Esses símbolos, santidade, eleição, pregador e franciscano, são mais ou menos universais e imutáveis. Os atributos, que os caracterizam, o lírio, o menino, a Bíblia e o hábito são mutáveis e sujeitos, a cada época, a um tipo de leitura.

Vejamos os atributos:

a) O hábito franciscano – É um atributo que aparece desde a primeira hora e sempre serviu como mesma chave-de-leitura: quer dizer que ele foi franciscano. No século XV apareceram algumas breves representações que mostravam o santo com um hábito cinza, dos penitentes ou mendicantes; o corte tonsurado do cabelo tem o mesmo significado.

b) O livro (o atributo mais antigo) – Representa o Evangelho e a sabedoria de Antônio, primeiro mestre de Teologia da Ordem dos Frades Menores e doutor da Igreja. Lembra o pregador que arrebatava as multidões com as palavras do Evangelho. Por sua sabedoria bíblica, o Papa Gregório IX chamou-o de “Armário (Arca) do Testamento”.

c) O menino - O menino é visto em três tipos de representação:

1. Em cima do livro: em geral aparece sobre o livro aberto que o santo tem na mão, em gesto de quem abençoa, ou, usando um gesto de origem grega, com os dedos médio e indicador levantados, juntos, como a chamar a atenção para alguém que vai falar (no caso, o santo, pregando); pode representar a visão presenciada pelo Conde Tiso, em sua residência; o estar em cima do livro (Bíblia) evoca a característica de Frei Antônio como pregador do Verbo encarnado; o menino, segundo algumas fontes, nos primeiros tempos, não seria Jesus, mas as crianças, por quem o santo tinha enorme predileção; numa obra de El Greco, o menino (Jesus) aparece como brotando das páginas do livro, onde Antônio mostra a revelação do Verbo.

2. No colo do santo: em outras representações, o livro aparece de lado, e o menino Jesus está no colo de Antônio, numa atitude de extraordinária familiaridade, acariciando-lhe o rosto.

3. Sendo mostrado ao santo, pela Virgem Maria: Um quadro (reproduzido em alguns “santinhos”, mostra a Virgem apresentando o Filho à adoração de Antônio).

d) O lírio – O lírio é um símbolo-atributo que aparece nas representações artísticas após o século XV e se toma popularíssimo; tem dois significados: o mais antigo remete a Pádua; o lírio é a flor da estação na qual Antônio morreu; é a flor do campo, ornamental, perfumada,medicinal e frágil. O outro significado simbólico, posterior ao primeiro, refere-se à pureza, à castidade, à pobreza e ao vigor do testemunho de vida, na entrega do coração virginal a Deus. Há ainda um terceiro atributo, paralelo: a natureza, mostrada, pelos franciscanos, como sinal de Deus.

e) A cruz na mão – A cruz na mão (do século XVI) pode significar duas coisas: o espírito missionário do santo, ou, seu desejo de tomar-se um mártir da fé.

f) Os pés desencontrados - Se observarmos as imagens de Santo Antônio, veremos que seus pés não estão um ao lado do outro, mas um mais à frente do outro; trata-se de um indicativo de “em marcha”, “a caminho”, atitude que sempre caracterizou seu trabalho missionário.

g) A fisionomia adolescente - O rosto jovem, alegre e belo é consequência, como já vimos, daquela perfeição que a religiosidade popular passa à arte, relativamente aos santos e bem-aventurados; significa, também, a jovialidade do espírito do cristão.

h) O pão - Em certas obras de arte antigas (século XVI-XVII) vê-se o santo distribuindo o “pão dos pobres”; esse atributo é o mais recente; apareceu em Messina, na Sicília, em meados do século XIX, durante uma época de fome.

i) A chama - A chama de fogo que aparece em alguns ícones, especialmente orientais, simboliza o amor divino, o zelo e a paixão do santo por Jesus e seu Evangelho.

j) A nogueira - Esta é uma representação não muito conhecida; pouco antes de morrer, com falta de ar, Frei Antônio pediu que armassem sua cela no topo de uma nogueira frondosa, possivelmente nas propriedades do Conde Tiso. O santo já estava doente; falam em hidropisia e asma; há quem suspeite de obesidade (“adquirira certa corpulência…”) e diabetes; ali, além da altura (que proporcionava o ar fresco), o odor das resinas da árvore mantinha-o defendido dos mosquitos; pois mesmo ali vinha gente ouvir sua palavra. Uma pintura renascentista mostra o santo em cima da árvore, pregando ao povo, sentado, com a Bíblia na mão, como se estivesse numa cátedra, tendo, abaixo de si, São Boaventura, na época, o coordenador geral dos franciscanos; o estar na árvore é figura do desprender-se da vida terrena, já que o santo estava nos últimos dias de vida.

l) O terço – Para explicitar que Santo Antônio era um homem de oração, a iconografia do século XVI representou-o com um terço pendurado à cintura. O terço foi criado por São Domingos de Guzman (f 1221), utilizando antigos modelos orientais.

Há vários aspectos da vida, das pregações e dos milagres de Santo Antônio constantes de sua iconografia. O “sermão aos peixes”, em Rimini, o “coração do avarento dentro do cofre”, em Florença, “a mula ajoelhada diante do Santíssimo” em Rimini, fazem parte desse emocionante acervo, criado por mestres da pintura. A morte do santo, em Arcella, e lá fora as crianças fazendo o miraculoso anúncio, está magistralmente pintada numa obra de Murillo.

A icnografia leva-nos, como foi dito, a uma leitura analítica mais atenta de todos os símbolos e atributos que a devoção popular e oficial creditaram aos santos. Iconografia é para se ver e entender, independentemente de valores estéticos. Uma obra de arte, seja um quadro sofisticado ou uma rude representação popular, não é para ser achada bonita ou feia, mas para ser entendido o seu sentido.

No caso místico, as imagens de Deus e dos santos servem para criar aquela aproximação física que nossas carências reclamam, para um ajutório de memória, e para avivar a fé, relembrando as práticas e os sacrifícios daquele que está ali retratado.

E nós, hoje? Somos daqueles que entendemos que, pelo fato de possuirmos essa ou aquela imagem em nossa casa, já temos comunhão com quem está ali representado? Há pessoas que vão à igreja, oram diante das imagens, acendem velas e esquecem-se de reverenciar a Cristo, vivo e presente ali na Eucaristia. Somos desses?

Temos formação suficiente que nos dê uma exata noção entre santidade e divindade, imagem, representação, mediação, pessoa e divindade?

Extraído do livro “Santo Antônio, a realidade e o mito”, de Carmen Sílvia Machado Galvão e Antônio Mesquista Galvão, da Editora Vozes


domingo, 12 de junho de 2016

O Pão de Santo Antônio


À luz da Teologia do culto dos santos, podemos perceber que Santo Antônio, por ter sido um “homem enamorado de Cristo e do seu Evangelho”, apresenta uma mensagem muito rica. Poderíamos desdobrá-la a partir dos símbolos com os quais ele é representado, como o Livro dos Evangelhos. o Menino Jesus sobre o Livro, a Cruz, o lírio.

Aqui gostaríamos de deter-nos no símbolo do pão. O pão constitui um elemento inseparável de toda a devoção a Santo Antônio, independente de sua origem. Ele até se chama “Pão de Santo Antônio”.

A história do “Pão de Santo Antônio” remonta a um fato curioso que é assim narrado: “Antônio comovia-se tanto com a pobreza que, certa vez, distribuiu aos pobres todo o pão do convento em que vivia. O frade padeiro ficou em apuros, quando, na hora da refeição, percebeu que os frades não tinham o que comer: os pães tinham sido roubados”.

Atônito, foi contar ao santo o ocorrido. Este mandou que verificasse melhor o lugar em que os tinha deixado. O Irmão padeiro voltou estupefato e alegre: os cestos transbordavam de pão, tanto que foram distribuídos aos frades e aos pobres do convento.

Até hoje na devoção popular o “pãozinho de Santo Antônio” é colocado, pelos fiéis nos sacos de farinha, com a fé de que, assim, nunca lhes faltará o de que comer.

Mais do que a lenda da origem do “Pão de Santo Antônio”, importa perceber toda a riqueza do seu simbolismo. Sem dúvida ele revela toda a riqueza da dimensão apostólica da vida de Santo Antônio.

Por curiosidade interessei-me em saber se havia alguma estátua de Santo António com o pão em sua figuração. Assim, certo dia, entrei por acaso na igreja de Santa Luzia no Castelo, no Centro do Rio de Janeiro. Encontrei no fundo da igreja uma Imagem de Santo Antônio, tendo sobre o braço esquerdo o Livro dos Evangelhos, com o Menino Deus sentado sobre o livro, segurando um cesto repleto de pães, enquanto Santo Antônio com a mão direita oferece um pão a alguém. Era o que procurava.

Fato é que, através de Santo Antônio, Jesus continua a realizar o grande milagre da multiplicação dos pães. Jesus tem compaixão da multidão faminta e multiplica o pão para saciar-lhe a fome.

Mas se olharmos para as narrações da multiplicação dos pães, vemos que Jesus nunca age sozinho. Pede a colaboração dos apóstolos: “Dai-lhes vós mesmos de comer; quantos pães tendes, ide ver”. Voltando de sua procura, trouxeram-lhe cinco pães e dois peixes. Deu ordens para que fizessem sentar-se à multidão, em grupos, na relva verde. Jesus dá graças sobre os pães e os peixes e dá aos discípulos para distribuí-los. E no fim foram ainda os apóstolos que recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e restos de peixe (cf. Mc 6,35-44).

O grande milagre de Jesus está em multiplicar sua presença e sua ação nos seus discípulos. Através deles é que Jesus quer saciar a fome da multidão faminta, tanto da fome corporal como espiritual. Através dos seus discípulos Jesus deseja ser alimento, deseja ser o pão para a vida do mundo.

O pão simboliza tudo. Simboliza a vida. simboliza a fraternidade. Quando se diz que falta o pão, dizemos que falta a comida, falta o alimento, falta o necessário para a vida. Por isso, Jesus ensina a pedir o pão de cada dia, em outras palavras, que Deus nos conceda a vida, para que possamos realizar a sua vontade, para que o seu Reino venha, e, assim, seu nome seja santificado, ele que é nosso Pai.

Como diz Santo Irineu: A glória de Deus é a vida do ser humano. Por isso, diz São Tiago em sua carta: “A religião pura e imaculada diante de Deus Pai é visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e conservar-se sem mancha neste mundo” (1,27).

Há duas maneiras de se fazer a memória e assim tomar presente Jesus Cristo hoje na Igreja, nos cristãos, no mundo: A primeira é a memória ritual ou celebrativa, principalmente pelos sacramentos e de modo especial pela Eucaristia. O segundo modo é pela memória testamentária.
É viver o testamento de Jesus Cristo transmitido na última Ceia, isto é, viver o sentido do lava-pés: viver o novo mandamento, ser também Corpo dado e Sangue derramado, a exemplo de Jesus Cristo.

São duas expressões da ação de graças, da Eucaristia, são duas maneiras de se viver a Eucaristia. Uma sem a outra é estéril; uma alimenta a outra. Não há verdadeira Eucaristia celebrada sem que também sejamos pão partilhado para a vida do próximo, a exemplo de Jesus Cristo.

Talvez o maior milagre que Santo Antônio continua realizando é justamente que sua mensagem, sua caridade, continuam presentes em tantas obras de caridade, em tantas “Pias Uniões de Santo Antônio”, em tantas mulheres e homens também, capazes de dedicarem toda a sua capacidade de amor e de serviço ao próximo necessitado junto a igrejas dedicadas a Santo Antônio através do pão de Santo Antônio.

Quantas senhoras que dão seu tempo, sua dedicação para assistirem famílias e pessoas necessitadas! As contribuições em dinheiro oferecidas pelos fiéis para o “Pão de Santo Antônio” ou entregues aos frades “para os seus pobres”.

Tudo isso poder-se-ia acusar de paternalismo. Não. Nosso Senhor mesmo disse: Pobres sempre tereis entre vós (cf. Jo 12,8). Penso que em relação a eles devemos distinguir dois aspectos: As obras de misericórdia fazem parte da vida evangélica, da vida cristã.

Contando a parábola do bom samaritano, Nosso Senhor nos ensina claramente que cada um deve aproximar-se do necessitado, ser próximo daquele que necessita de compaixão. Fazer o que estiver em nossas mãos para auxiliá-lo em sua necessidade.

Poderão dizer: Devemos promover a pessoa, dar-lhe o anzol para que possa pescar. Contudo se não tiver força nem para segurar o anzol será preciso dar-lhe também e, em primeiro lugar, o peixe. Claro que num segundo momento, ou simultaneamente, vem a promoção, que consistirá em criar todo um conjunto de condições para que a pessoa tenha condições de se autopromover. Através de suas imagens se percebe que Santo Antônio não retém o Menino Deus para si.

Apresenta-o, oferece-o a todos. Esta oferta transforma-se concretamente em pão, em alimento, e promoção das pessoas, principalmente das mais necessitadas.

Santo Antônio foi, sem dúvida, o grande pregador do Evangelho, o anunciador da verdadeira doutrina sobre Jesus Cristo. Encontrou Jesus Cristo e o seu mistério no estudo e na meditação dos Santos Evangelhos. Mas não o reteve para si.

Ele continua revelando esta faceta da vida evangélica e apostólica à Igreja dos nossos dias, convocada para a nova evangelização. Importa, porém, que os pregadores do Evangelho hoje também o vivam, também tenham encontrado nele o Cristo Jesus.

Só assim, o testemunho, o anúncio de Jesus Cristo será proclamado com novo ardor, será autêntico, e, por isso, eficaz. Como Antônio, o grande pregador, o missionário incansável, o homem de oração, todos os cristãos que aderem a Cristo, que são batizados e recebem o Espírito Santo como Dom do Pai e do Filho, no Sacramento da Crisma, também são chamados a viver sua vocação profética.

Ser profeta significa antes de tudo dar o testemunho do novo mandamento da caridade. Significa imitar Deus que é amor. É viver o amor na comunidade conjugal, na comunidade familiar, na comunidade social. Ser profeta e profetisa é revelar Deus neste mundo através do amor e apontar para Deus, imitando-o no seu amor em todas as circunstâncias da vida, é levar uma vida segundo o Evangelho.

Não só os apóstolos, não só os Bispos e os sacerdotes e os religiosos e religiosas devem pregar ou anunciar o Evangelho. Também o fiel leigo participa desta missão da Igreja. Desta forma ele se transforma em pão multiplicado para saciar a multidão faminta.

Quais as modalidades de sua pregação? Primeiro, sendo fiel à sua vocação cristã de viver na graça de Deus. Na medida em que ele estiver em comunhão com Deus, já está realizando um apostolado. Mas não basta evangelizar-se.

O cristão leigo também é chamado a evangelizar: pelo exemplo de vida cristã, ou pelo testemunho; pela palavra de exortação e de edificação quando se lhe oferecer a ocasião; pela ação, participando das diversas Pastorais da Igreja em suas diversas dimensões: a comunhão e a participação, nos ministérios leigos, nos diversos serviços da Comunidade, na Pastoral vocacional; na colaboração com as missões da Igreja, indo eventualmente para terras de missão; na Catequese; nos diversos serviços na Liturgia; no Ecumenismo; na dimensão sóclo-transformadora, ajudando a construir um mundo mais justo e fraterno.

Mas é próprio do apostolado ou da evangelização do cristão leigo, a consagração do mundo através de sua ação, nos diversos estados de vida, nos diversos campos de trabalho e nas mais variadas profissões: no mundo do trabalho, do esporte, da arte, das ciências, da política, da justiça, da promoção da Paz, da Justiça, da Ecologia.

São fundamentalmente dois os modos de agir do Divino Espírito Santo na vida do cristão. Ele suscita vida, faz surgir a vida. Eis o sopro de Deus na manhã da criação, o sopro de Jesus Cristo, na manhã da ressurreição. Mas, por outro lado. ele faz com que a vida se desenvolva e chegue à perfeição. No Batismo ele nos faz filhos de Deus, nos faz renascer pela água, símbolo de vida. Mas esta vida não pode permanecer como uma semente.

Deve germinar, nascer, crescer e produzir frutos, ser fecunda, multiplicar-se. Eis o sentido da Crisma. Para que possa realizar sua vocação e missão batismals, o cristão é ungido pelo Espirito Santo na Crisma.

Assim como a Páscoa é a celebração do Batismo, o Pentecostes celebra a Crisma, reavivando na Comunidade Eclesial o Dom do Espirito Santo, para que possa realizar em sua vida a mensagem do Evangelho como discípulo e discípula de Cristo, e contribuir para a construção de um mundo mais justo e mais fraterno. Não está aqui também o “Pão de Santo Antônio” multiplicado nos cristãos, o própio Cristo Jesus como Corpo dado e Sangue derramado para que o mundo tenha vida e a tenha em abundância?

Através de Santo Antônio. Nosso Senhor está convidando continuamente os cristãos a pensarem no bem do próximo, a amarem o próximo como a si mesmos e a darem uma atenção especial ao necessitado, ao pobre. Claro que não se trata apenas do pão de Santo Antônio, da esmola oferecida ao frade ou ao Convento, com as palavras: “para os seus pobres”.

Esta doação tem também o valor de um símbolo, de uma celebração, como a contribuição material colocada na salva na hora da preparação das oferendas. Através da esmola ou da contribuição colocada em comum, o cristão que deseja ser discípulo de Cristo, que deseja viver segundo a mensagem do Evangelho, celebra a generosidade e a dadivosidade do Deus Criador, e a de Jesus Cristo, o Redentor que deu a própria vida para que os seres humanos tenham vida.

Através de sua oferta, o cristão celebra a própria vocação de poder imitar a dadivosidade e a generosidade de Deus criador e de Jesus Cristo, pois como diz Jesus: “Recebestes de graça, de graça dai” (Mt 10,8). É uma graça poder dar. poder partilhar.

Dar de graça, ser generoso, pensar no bem comum, no bem do próximo, promover a vida do próximo, eis o mistério revelado no símbolo do pão de Santo António. Não se dá apenas uma esmola. Podemos e devemos dar o trabalho, o tempo, a atenção, o perdão, a seriedade e a honestidade em nossa ação profissional que vale muito mais do que o dinheiro.

Sim, o milagre do Pão de Santo Antônio continua até hoje em seus devotos. Ele nos ensina e nos ajuda a sermos mais cristãos. Nele manifesta-se a espiritualidade pascal, dos atos de amor, das ações de serviço ao próximo, da promoção do ser humano, para que tenha vida e a tenha em abundância.

A devoção a Santo Antônio constitui elemento integrante da tradição religiosa do povo brasileiro. Esteve presente desde o Inicio de sua evangelização e continua vivo em nossos dias. Por isso, na nova evangelização e no aprofundamento da fé cristã do povo brasileiro, a devoção aos santos em geral e, especialmente, a Santo Antônio, terá que ser respeitada e cultivada na Pastoral da Igreja no Brasil.

Importa estar atenta ao que o nosso povo tem como seu e valoriza, para, a partir daí, ajudá-lo a encontrar sempre mais intensamente a Cristo e chegar por Cristo ao Pai em comunhão com o Espírito Santo

A nova evangelização no Brasil passa pelo culto dos santos, e, de modo especial por Santo Antônio, quando este santo vem apresentado por João Paulo II como um homem “enamorado de Cristo e do seu Evangelho”.

Extraído da Revista “Grande Sinal”, autoria de Frei Alberto Beckhauser, ofm


sábado, 11 de junho de 2016

Bênçãos de Santo Antônio





Bênção de Santo Antônio 
O Senhor Jesus Cristo esteja junto de nós,
para nos defender;
dentro de nós, para nos conservar;
à frente de nós, para nos guiar;
atrás de nós, para nos guardar;
sobre nós, para nos abençoar.
Ele que, com o Pai e o Espírito Santo,
vive e reina pêlos séculos dos séculos. Amém.
A bênção de Deus Todo-Poderoso,
Pai, Filho e Espírito Santo,
desça sobre nós e permaneça para sempre.
Amém.

Bênção de Santo Antônio
Eis a Cruz do Senhor,
afastem-se para longe de nós
todos os inimigos da salvação.
Venceu o Cristo Jesus,
nosso Senhor e Salvador.
Em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo, Amém.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Homem do Evangelho e da Solidariedade


Fernando nasceu em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto de 1191. Seus pais eram de nobre linhagem: Fernando Martins Afonso de Bulhões e Maria Taveira. Moravam bem de frente à catedral. Nessa escola episcopal, Fernando recebeu a instrução cristã e elementar. Adolescente ainda entrou para o seminário dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, de onde ele mesmo pediu transferência para Coimbra (a quase 200 quilômetros de distância) a fim de continuar seus estudos. com mais sossego, sem a atrapalhação das contínuas visitas de parentes e amigos que queriam persuadi-lo a desistir da “sua” vocação. Fernando era um jovem que sabia o que queria: dedicar-se de corpo e alma a Deus e aos estudos da Bíblia Sagrada. Na cidade universitária – Coimbra ­porém, ele encontrou uma outra dificuldade no seu desejo de seguir em radicalidade a Palavra de Deus. Na época, o mosteiro de Santa Cruz, onde morava e estudava, era palco de intrigas, fuxicos e brigas por bens materiais entre prelados e reis, monges e leigos. Fernando se empenhou fortemente por estar alheio a toda essa dura, mas triste realidade. Mais do que nunca, dedicou­se a seus estudos escriturísticos e ao seu crescimento espiritual. Um dia encontrou-se com 5 frades franciscanos. Amor à primeira vista: viu neles todo o Evangelho vivido na simplicidade, na alegria, na humildade e na generosidade.

Estavam de saída para Marrocos, para pregar a “PAZ” e o “BEM”, como dizia o fundador deles, Francisco de Assis, ainda vivo, na Itália. Tempos depois, diante das relíquias dos 5 primeiros mártires franciscanos, Fernando não teve mais dúvidas: trocou todo aquele aparato clerical cheio de hipocrisia que ele conhecia pela simplicidade do Evangelho vivido na fraternidade e no anúncio do Reino de Deus a povos pagãos. Trocou até o nome. De Fernando passou a ser chamado Antônio, frei Antônio e, jovem ainda, teve um só desejo: morrer mártir como aqueles 5 frades e “merecer, assim, junto com eles, a coroa da glória.”

Não havia soado ainda, a hora de Deus! O homem propõe. Deus dispõe. Uma febre sem tamanho, na África, deixou-o prostrado meses na cama. Aos poucos também aprende ­com que fadiga! – a seguir o projeto de Deus. Decide voltar a Portugal, sua ter­ra natal. Qual novo Pentecostes, porém, os ventos sopram seu navio na direção da Itália e ali ele começa co­locar-se definitiva­mente nos passos de Deus. Na grande reunião dos frades (3.000) em Assis, encontra-se com Francisco, com milhares de irmãos que segui­am o mesmo ideal e, mais tarde, com Clara de Assis… Mudança radical na sua vida, no seu desejo. Antônio não toma mais ‘ a iniciativa ­talvez pela decisão dura e pedagógica de Marrocos -, mas se entrega incondicionalmente, embora também com certo medo, nas mãos de Deus. Terminada a grande assembléia, em maio de 1221, escolhe o silêncio: nada mais diz sobre sua preparação, seus estudos, sua competência. Ninguém o conhece. Ninguém se interessa por ele. “As almas humildes – escreverá mais tarde com conhecimento de causa -, desconhecidas e felizes por serem esquecidas, são aquelas que imitam mais perfeitamente a vida escondi­da de Jesus de Nazaré” (Sermões). E, assim, a pedido de frei Graciano, ministro provincial da Romanha, no centro da Itália, lá vai frei Antônio fazer parte de um conventinho eremitério situado no cimo do Monte Paulo. Como sacerdote, reza missa aos confrades, mas faz outros serviços necessários à comunidade, como lavar pratos, cuidar da horta, da limpeza, etc.

Dedica-se a longos tempos de oração – contemplação, jejum e penitência. “Em águas turvas, escreverá mais tarde, não se vê espelhado o próprio rosto. Se quiseres que o rosto de Cristo se espelhe em ti, sai do barulho das coisas e guarda tranqüila tua alma “(Sermões).

Finalmente chega a hora de Antônio, que é a hora de Deus. Na cidade de Forli, durante uma ordenação sacerdotal, na catedral lotada de padres, irmãs, freis e fiéis, é convocado pelo superior a fazer a pregação. Daqueles lábios há tanto tempo calados surgem, de repente, como de uma fonte viva de água cristalina, as palavras mais comoventes, os exemplos mais convincentes, os estímulos mais penetrantes. Todos, do bispo ao provincial frei Graciano, dos frades às irmãs, dos padres aos fiéis, to­dos ficam admirados pela eloqüência, pela sabedoria e pela profundidade daquele frade até então desconhecido. Dali para frente, todos chamam a frei Antônio e ele passa a percorrer as estradas, sobretudo as do norte da Itália e as do sul da França e, nos últimos anos, (1229-1231), os caminhos de Pádua, anunciando o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Percorrendo as estradas da Europa, frei Antônio percebe a fraqueza do povo na prática da fé, vítima às vezes das inúmeras heresias e erros da época. Francisco o admira e envia-lhe um bilhete pedindo que a mesma sabedoria que lhe deu uma profunda experiência de Deus, ele a transmita a seus confrades.

“A frei Antônio, meu bispo: Saudações! Muito me agrada que tu ensines a sagrada teologia aos frades, contanto que não se extinga o espírito da santa oração e devoção ao qual tudo deve estar submisso, conforme está escrito na Regra frei Francisco”.

Coisa admirável, maravilhosa. Antonio unia em si a sabedoria e a humildade, a cultura e a simplicidade, a oração e a caridade. Confrades e povo o “adoravam” nesse sentido. Tão alto em sua cultura e tão simples no trato com a gente, Doutor da Igreja e amigo dos simples e dos pobres! E o povo ouve suas palavras. Segue seus conselhos. Sente­-se reconfortado em suas lutas. Crianças são por ele abraçadas e abençoadas. Mulheres e esposas são defendidas em seus direitos. Lares são reunidos pela força do amor que ele tão bem sabe suscitar.

E o povo continua a contar: “a mula se ajoelhou diante da Eucaristia. O coração avarento foi encontrado no cofre do seu tesouro. Ele curou o pé decepa­do de um jovem. Ele pregou aos peixes. Ele defendeu os agricultores diante do terrível Ezzelino da Romano…’

E, assim, passou frei Antônio seus últimos anos, curando e consolando os outros e tendo, para si, cansaço, doenças e penitência. Após uma intensa atividade de pregações e confissões de Quaresma em Pádua, retira-se na tranqüilidade da localidade de Camposampiero.

Mas, em junho de 1231, sente as forças faltarem-lhe completamente. Pede para voltar a Pádua. Percorre os 20km em carro de boi, moribundo. Em Arcella, às portas da cidade de Pádua, num quartinho humilde do convento das Irmãs Clarissas Franciscanas, exala o último suspiro, cantando com voz tênue: “Gloriosa Senhora – sobre as estrelas exaltada – alimentaste em teu seio Aquele que te criou”. Olhando um ponto fixo, consegue ainda exclamar: “Estou vendo o meu Senhor”. E morre. Não chegara aos 40 anos. Onze meses depois, em 30 de maio de 1232, na catedral de Espoleto, Itália, foi proclamado Santo pelo papa Gregório IX.

Mensageiro de Santo Antônio – Junho de 1999

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A misericórdia nos sermões de Santo Antônio


Frei Clarêncio Neotti

 Tema sempre presente

O tema da misericórdia está muito presente nos Sermões de Santo Antônio. Tanto a misericórdia de Deus para com as criaturas, quanto a misericórdia do homem para com seus semelhantes. De modo acentuado, a misericórdia de Jesus Salvador e de sua santa Mãe Maria, a rainha da misericórdia. Tanto a misericórdia no singular, como virtude necessária, quanto as misericórdias no plural, visíveis nas boas ações de ajuda, especialmente nas chamadas ‘obras de misericórdia’. Tanto a misericórdia como fonte de outras boas qualidades, quanto misericórdia como consequência de atitudes fortes como o perdão, a compaixão e a obrigatoriedade de reparar maldades cometidas.

Que é misericórdia?

Ao menos duas vezes Santo Antônio define o que seja a misericórdia. No sermão do quarto domingo depois de Pentecostes, escreve: “Misericordioso é aquele que tem compaixão da miséria alheia”. Santo Antônio usa propositadamente a palavra ‘miséria’ em contraposição à ‘misericórdia’, coisa que já fizera Santo Agostinho, seu mestre, no livro A Cidade de Deus, 9, 5: “O campo da misericórdia é tão grande quanto o da miséria humana; por isso a misericórdia é a compaixão pela miséria alheia”. Nas Confissões, várias vezes, Santo Agostinho aproxima as duas palavras. No sermão para o 16º domingo depois de Pentecostes, Santo Antônio cunha esta belíssima frase: “Ó Senhor, se me retiras a tua misericórdia, caio na miséria eterna”.

A segunda vez que Santo Antônio define a misericórdia encontro-a no sermão para o 22º domingo depois de Pentecostes. Santo Antônio comenta a parábola do devedor cruel (Mt 18,21-30), contada por Jesus, quando Pedro lhe perguntou quantas vezes deveria perdoar ao irmão pecador. Vamos ao texto: “A misericórdia do Senhor purifica a alma dos vícios, enche-a da riqueza dos carismas, cumula-a com as delícias celestiais. A primeira mortifica o coração contrito. A segunda suaviza-o para o amor. A terceira com a esperança dos bens supernos, inunda o coração com uma espécie de celeste orvalho. E isto é óbvio pela tríplice interpretação da palavra misericórdia. De fato, misericórdia quer dizer o que dá o coração miserável e isto convém à primeira misericórdia. Igualmente misericórdia significa aquele que depõe o rigor do coração e isto convém à segunda. Em terceiro lugar, misericórdia traduz-se por uma espécie de suavidade admirável que inunda o coração e isto convém à terceira. Compadecido, logo, com a tríplice misericórdia daquele servo, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida”.

O latim medieval de Santo Antônio não é fácil de traduzir. Além do mais, suas palavras muitas vezes têm sentido subliminar. Vou tentar dizer o texto acima com palavras minhas: Jesus se compadeceu do empregado, perdoou-lhe a dívida e deixou-o ir em paz. Jesus agiu assim, porque era Deus misericordioso. A misericórdia de Deus age de três maneiras: purifica o coração arrependido, enriquece-o com o amor e o enche de alegria, refazendo nele a esperança dos bens eternos. O vício torna o coração miserável. A misericórdia o limpa. A misericórdia leva Deus a não ser rigoroso, mas benigno. A misericórdia leva Deus a ser suave com o pecador. A suavidade, a generosidade e o perdão fazem parte integrante da misericórdia.

O Pai das Misericórdias

Recolho primeiro alguns textos de Santo Antônio, que falam diretamente da misericórdia de Deus Pai, ou seja, daquele Deus de quem Paulo na carta aos Efésios disse “ser rico em misericórdia, porque muito nos amou e nos deu a vida em Cristo” (Ef 2,4). Para Santo Antônio, a misericórdia de Deus é sem limites. Lembra esta verdade no sermão do 3º domingo da Quaresma: “A misericórdia de Deus é maior do que toda a malícia do pecador”. “E porque a misericórdia de Deus não tem medida, ele ouvirá a tua oração”.

Longamente fala Antônio da misericórdia divina no sermão do 16º domingo depois de Pentecostes, comentando a ressurreição do jovem de Naim e sua restituição à mãe viúva. Ele vê no jovem morto a figura de toda a humanidade, morta porque estava no pecado e não tinha a vida em plenitude de Jesus Cristo: “Na restituição do pecador convertido à sua mãe (a Jerusalém celeste) há a profundidade da misericórdia divina. Ó profundidade da divina clemência, longe da compreensão da inteligência humana, porque não tem conta a sua misericórdia. Tendo Deus disposto, como se diz no livro da Sabedoria (11,21), todas as coisas com medida, conta e peso, não quis incluir nestas leis com estes limites a sua misericórdia, antes, ela é que os inclui e os circunda. Por toda a parte está a sua misericórdia, mesmo no inferno, porque não pune tanto quanto exige a culpa do delinquente. Da misericórdia do Senhor, diz o salmista (119,64), está cheia toda a terra, e todos nós, miseráveis, recebemos de sua plenitude. Pela misericórdia de Deus, sou aquilo que sou (1Cor 15,10). Sem ela, nada sou. Ó Senhor, se me retiras a tua misericórdia, caio na miséria eterna. A tua misericórdia é a coluna do céu e da terra. Se a retirares, tudo cairá. Mas as tuas misericórdias são muitas, na frase de Jeremias (Lm 3,22), porque não fomos destruídos. Muitas, na verdade! Quantas vezes pecamos mortalmente, de fato, pela alma ou pelo corpo, e não fomos imediatamente sufocados pelo demônio. Tantas vezes devemos atribuir à infinita misericórdia do Senhor o ainda vivermos! É que ele espera a nossa conversão, e por isso não permite sermos sufocados pelo demônio. Logo, por tantas misericórdias devemos dar graças ao Pai misericordioso; quantas vezes pecamos e não fomos eliminados! Ó miseráveis, porque somos ingratos perante tamanha misericórdia? Deu-lhes tempo de penitência, diz Jó (24,23), e a criatura abusa disto para se ensoberbecer. E entesoura para si ira para o dia da ira. Compadece-te, pois, da tua alma, porque as misericórdias do Senhor são antigas. Ele não se esquece de ter compaixão de quem se considera digno de compaixão”.

No sermão para o 14º domingo depois de Pentecostes, acentua muito a infinita misericórdia de Deus, que se manifesta em todas as circunstâncias: “O justo, se for cortado pelo machado do pecado mortal, não deve desesperar da misericórdia de Deus, que é maior que a sua miséria, mas ter esperança, porque tornará a reverdecer pela penitência”.

Jesus, encarnação da Misericórdia

Para Santo Antônio a misericórdia do Pai se manifesta, sobretudo, na encarnação e na paixão de Jesus: “A misericórdia, isto é, a Encarnação e a Paixão, devemos tê-la diante dos olhos do nosso entendimento”, escreveu no sermão do 16º domingo depois de Pentecostes. Jesus é a encarnação da misericórdia divina na Anunciação, misericórdia que extrapola todos os limites no Calvário e na manhã de Páscoa e se derrama sobre nós, abrindo-nos as portas do céu. Santo Antônio fala da misericórdia de Jesus particularmente na ressurreição do jovem de Naim (Lc 7,11-17), na ressurreição da filha de Jairo e na mesma página a cura da hemorroíssa (Lc 8,40-56), nas parábolas do bom samaritano (Lc 10,30-37), do filho pródigo (Lc 15,11-32), do devedor perdoado (Mt 18,21-27) e da mulher Cananeia, que lhe pediu pela filha possessa (Mt 15,21-28). Observe-se que são quase todos comentários a páginas de Lucas, o evangelista da misericórdia.

Santo Antônio vê na figura do samaritano a pessoa de Jesus: “O samaritano é o Senhor, feito homem por nós. Empreendeu a viagem da vida terrena e veio até junto do machucado, veio feito semelhante ao homem e reconhecido na condição de homem, aproximou-se e se compadeceu de nós, e nos concedeu a sua misericórdia (Sermão para o 13º domingo depois de Pentecostes). Pouco depois, no mesmo sermão, lembrando-se do corpo místico que formamos com Cristo (1Cor 12,27), escreve: “Vemos que o estrangeiro de Jerusalém, para quem a misericórdia era obrigatória, foi mais próximo que o sacerdote ou o levita, ainda que tivessem o mesmo sangue. Ninguém nos é mais vizinho do que aquele que nos curou as feridas, porque faz uma só cabeça com os membros”.

Na explicação do evangelho que fala da ressurreição da filha de Jairo (24º domingo depois de Pentecostes), Santo Antônio se detém sobre o momento em que Jesus a pega pela mão: “Tomou-a pela mão. Jesus toma a nossa mão na sua quando, por sua misericórdia, nos dá o querer, o conhecer e o poder. A mão desta misericórdia reconstrói a pessoa quando dá o conhecer e o querer; acaba-a, quando dá o poder”. Ou seja, Jesus não faz as coisas pela metade. Refaz nossa inteligência e a nossa vontade, para que possamos compreender o bem e segui-lo, porque a pessoa viva normal precisa da inteligência e da vontade. Mais, no mesmo sermão, acrescenta: “Com a mão da misericórdia livra-nos do poder das trevas e transfere-nos para o reino de seu amor”.

No segundo sermão para o segundo domingo da Quaresma, Santo Antônio demora-se em analisar por que Jesus se calava diante do pedido insistente da mulher pagã, nas proximidades de Tiro e Sidônia: “Jesus não respondeu palavra à Cananeia. Ó arcano do divino conselho! Ó profundo e imperscrutável mistério da eterna sabedoria! O Verbo, que no princípio existia junto do Pai, por meio do qual tudo foi feito, não responde à mulher Cananeia, à alma penitente, uma palavra! O Verbo, que torna soltas as línguas das crianças, que dá a boca e a sabedoria, não responde uma palavra! Ó verbo do Pai, criador e conservador de tudo, providência e sustento de quanto existe, responde-me ao menos uma palavra para mim, mulher infeliz, a mim, penitente! E provo, com a autoridade do teu profeta Isaías, que deves responder. De fato, o Pai, a teu respeito, promete aos pecadores, dizendo em Isaías (55,11): A palavra que sair de minha boca não tornará para mim vazia, mas fará tudo quanto eu tenha querido, e surtirá os seus efeitos naquelas coisas para as quais eu a enviei. E que quis o Pai? Certamente que recebesses o penitente, lhe respondesses uma palavra de misericórdia. Acaso não disse: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou? Filho de Davi, tem, portanto, piedade de mim! Responde uma palavra, ó Verbo do Pai! Igualmente provo com a autoridade do teu profeta Zacarias que deves ter piedade e responder. Assim de ti ele profetizou (13,1): Naquele dia haverá para a casa de Davi uma fonte aberta, para lavar as manchas do pecador. Ó fonte de piedade e de misericórdia, que nasceste de terra bendita da Virgem Maria, que foi da casa e família de Davi, lava as manchas do pecador! Por que é que o Verbo não responde uma palavra? Certamente para excitar o ânimo do penitente a maior arrependimento e estímulo de dor maior. Por isso, dele fala a esposa nos Cânticos (5,6): Procurei-o e não o encontrei. Chamei por ele e não me respondeu”.
Misericordiosos como o Pai

Muitas vezes Santo Antônio liga a misericórdia de Deus ao arrependimento, à dor de ter pecado. No sermão acima chega a dizer que Deus demora em manifestar misericórdia, para que o pecador tenha tempo de se arrepender. O pecador tem, portanto, parte ativa, no recebimento da misericórdia. No sermão para o 22º domingo depois de Pentecostes, observa a respeito do penitente: “O peso da dor, a capacidade de amar, o comprimento da esperança, a humildade do coração chamam a misericórdia”.

Santo Antônio não só falou muito da misericórdia de Deus Pai, não só mostrou que toda a pregação de Jesus está baseada na misericórdia, mas lembrou insistentemente que devemos ser misericordiosos como o Pai; que a vida do cristão é uma vida trançada de obras e de pensamentos misericordiosos. E até chegou a dizer que a misericórdia de Deus pode estar condicionada à misericórdia que temos e fazemos, como Jesus condicionou o perdão de Deus ao perdão que nós dermos. Assim escreve no 23º domingo depois de Pentecostes: “Quem é misericordioso para com os outros terá para ele a misericórdia de Deus”. No sermão para o 16º domingo depois de Pentecostes, Santo Antônio pede ao povo de nunca esquecer a misericórdia de Deus: “Como o rei Davi, deverás ter sempre a misericórdia diante dos teus olhos”. No sermão para a Páscoa, comenta a sarça ardente. Primeiro, diz que o nome ‘Moisés’ significa ‘varão da misericórdia’. Depois, observa que a chama sai do meio de uma sarça e comenta: a sarça é o pobre, coberto de espinhos, atribulado, faminto, nu e aflito. E acrescenta: “Que estes espinhos punjam teu coração, para que tenhas misericórdia do necessitado”.
Maria, mãe de Misericórdia

Ainda uma palavra sobre Maria, mãe e rainha da misericórdia. Santo Antônio fala de Maria e se mostra teólogo mariano em ao menos 16 sermões. Assim, escreve no segundo sermão para o terceiro domingo da Quaresma: “Pecador, refugia-te em Maria. Ela é a cidade do refúgio. Como outrora, o Senhor separou cidades de refúgio para os que tivessem cometido crimes involuntários (Nm 35,11-14), assim agora a misericórdia do Senhor deu refúgio de misericórdia ao nome de Maria até para os homicidas voluntários”. E afirma no sermão para a festa da Purificação: “Maria é chamada mãe de misericórdia. É misericordiosa para os miseráveis, é esperança para os desesperados”.

No sermão para a festa da Assunção, falando das razões de Deus para levá-la em corpo e alma ao céu, exclama: “Ó inestimável dignidade de Maria! Ó inenarrável sublimidade da graça! Ó inescrutável profundidade da misericórdia! Nunca tanta graça nem tanta misericórdia foram nem podem ser concedidas a um anjo ou a um homem, como a Maria Virgem Santíssima, que Deus Pai quis fosse mãe de seu próprio Filho, igual a si, gerado antes de todos os séculos”.

Orações para pedir Misericórdia

Muitos outros textos de Santo Antônio sobre a misericórdia podiam ser citados. Alguns baseariam uma conferência inteira, como a relação entre misericórdia e confiança, misericórdia e penitência, misericórdia e julgamento. Não resisto transcrever três orações do Santo, tiradas de três sermões diferentes.

A primeira é do domingo da Quinquagésima:

“Sê para mim um Deus protetor, reza o Salmo (31,3-4). Com teus braços estendidos na cruz, protege-me e defende-me, como a galinha protege e defende os pintinhos debaixo das asas. No teu lado, traspassado pela lança, encontre eu lugar de refúgio, onde possa esconder-me dos inimigos. Se eu cair, possa eu me abrigar junto de ti e não de outrem. Sê para mim, que sou cego, um guia: dá-me a tua mão misericordiosa e alimenta-me com o leite da tua graça”.

Busco a segunda no sermão para o 3º domingo depois de Pentecostes:

“Senhor, olha para mim e tem compaixão de mim, porque me vejo só e pobre. Olha para o meu abatimento e para o meu trabalho e perdoa todos os meus pecados. Olha para mim com olhar da misericórdia, tu que olhaste para Pedro. Tem compaixão de mim! Perdoa-me os pecados! Acompanha-me, porque me sinto sozinho! Vejo-me pobre e vazio, vem encher o meu vazio”.

Tomo a terceira do sermão para o 4º domingo depois de Pentecostes:

“Para podermos chegar à glória eterna, roguemos ao Senhor Jesus Cristo, Pai misericordioso, que nos infunda a sua misericórdia, a fim de termos misericórdia para conosco e para com os outros. E não julguemos nem condenemos ninguém. Perdoemos aos que pecam contra nós e demos a todos os que nos pedem o que temos e o que somos. Isto se digne conceder-nos aquele que é bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Assim seja!”.