domingo, 27 de novembro de 2016

Advento, tempo de desacelerar

Frei Gustavo Medella

Já é Natal na… (não vou dizer o nome da loja para não fazer merchandising gratuito). E assim começam as propagandas no rádio, TV, internet, outdoors, cartazes, com lâmpadas, bolas, árvores e bonecos de neve que não derretem sob os 40ºC do verão brasileiro. É hora de pensar em presentes, compras, 13º (menos para quem é funcionário do Estado do Rio), viagens, festas, cardápios, sobremesas, roupas. As pessoas ficam em polvorosa, sentem-se ansiosas, têm a impressão de sempre estarem atrasadas, correm, suam e se cansam porque em toda parte as cores e os sons anunciam insistentemente que “Já é Natal”.

Calma… Não precisamos necessariamente entrar neste frenesi, que faz lembrar o dilúvio do tempo de Noé, ao qual Jesus faz referência no Evangelho deste 1º Domingo do Advento (Mt 24,37-44). Aliás, quando nos deixamos levar por esta roda viva da publicidade e do mercado corremos o grave risco de não perceber que o Senhor vem, mas vem discreto, simples e de mansinho, afinal ele vem Menino, vem Criança.

É por isso que há este privilegiado tempo do Advento: para que as pessoas se desfaçam de expectativas ilusórias, para que retomem o essencial de suas vidas, repensem as escolhas e prioridades. É um tempo bonito de silêncio, espera e serenidade. De treinar os sentidos a partir do coração, para se perceber as manifestações sutis do Verbo que não podem ser notadas no tumulto e na correria. Advento, tempo de desaceleração, de encontrar a beleza do simples e a grandeza do Pequeno.

Portanto, não precisa correr tanto. Você tem quatro semanas para se preparar, mas com calma e docilidade. Mesmo que a ceia seja simples, os presentes, poucos, sem pompas ou badalações, o mais importante é enfeitar bem o coração, atendo-se no que é essencial. Ainda não é Natal, mas com certeza será, tanto mais cada um conseguir se preparar.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Nossa Senhora das Graças


Maria concebida sem pecado

Um dos mais valiosos presentes da Santíssima Virgem para a humanidade, foi dado no dia 27 de novembro de 1830, por meio de Santa Catarina Labouré, humilde freira da Congregação das Filhas da Caridade. Isto foi na Rua De Lubac, no centro de Paris, na Capela da Medalha Milagrosa.

Nesse dia, segundo relata a Vidente, Nossa Senhora apareceu-lhe mostrando nos dedos anéis incrustados de belíssimas pedras preciosas, “lançando raios para todos os lados, cada qual mais belo que o outro”.

Em seguida, formou-se em torno da Virgem uma moldura ovalada no alto da qual estavam escritas em letras de ouro as seguintes palavras, a bela jaculatória:

“Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”.

Esta foi uma prova do céu de que Nossa Senhora é Imaculada, concebida sem pecado original; vinte e quatro anos depois o Papa Pio IX proclamava solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria no dia 8 de dezembro de 1854; e quatro anos após Nossa Senhora aparece em Lourdes e diz a Santa Bernadete: “Eu Sou a Imaculada Conceição”. Quantas provas de sua Imaculada Conceição!

A Virgem apareceu sobre um Globo, a Terra, pisando a cabeça da Serpente e segurando nas mãos um globo menor, oferecendo-o a Deus, num gesto de súplica. E diz a Santa Catarina: “Este globo representa o mundo inteiro e cada pessoa em particular”. De repente, o globo desapareceu  e suas mãos se estenderam suavemente, derramando sobre o globo brilhantes raios de luz. E Santa Catarina ouviu uma voz que lhe dizia:

“Fazei cunhar uma medalha conforme este modelo. Todos os que a usarem, trazendo-a ao pescoço, receberão grandes graças. Estas serão abundantes para aqueles que a usarem com confiança.” Em 1832, uma violenta epidemia de cólera assolou a cidade de Paris. Foram, então, cunhados os primeiros exemplares da medalha, logo distribuídos aos doentes. À vista das graças extraordinárias e numerosas obtidas por meio dessa medalha, o povo p´-passou a chamá-la de Medalha Milagrosa. Em pouco tempo, essa devoção difundiu-se pelo mundo inteiro, e foi enriquecida com a composição de uma Novena.

Nossa Senhora foi a única criatura que nunca ofendeu a Deus, por isso o Anjo a chama de “cheia de Graça”; assim, ela encanta o coração de Deus e Este lhe atende todas as súplicas como nos mostra as Bodas de Caná da Galiléia. Se os nossos pecados dificultam a nossa comunhão com Deus e nos impedem de obter suas graças, isto não ocorre com Nossa Senhora, então, como boa Mãe, ela se põe como nossa magnífica intercessora.

Mais do que em outros dias, hoje é dia de Graças; peça tudo o que desejar a Nossa Senhora das Graças e já comece a agradecer; pois, se for para o seu bem, Deus lhe concederá pelas mãos benditas de Sua Mãe querida. Afinal, ela é a Filha predileta do Pai, a Esposa bendita do Espírito Santo e a Mãe Santa do Filho de Deus. O que ela não consegue de Deus?

Prof. Felipe Aquino

Fonte: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2012/11/27/nossa-senhora-das-gracas/

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Isabel da Hungria, a princesa entre os pobres


Queridos irmãos e irmãs:

Santa Isabel da Hungria, chamada também de Isabel de Turíngia, nasceu em 1207, na Hungria. Os historiadores discutem onde. Seu pai era André II, rico e poderoso rei da Hungria, o qual, para reforçar seus vínculos políticos, havia se casado com a condessa alemã Gertrudes de Andechs-Merania, irmã de Santa Edwirges, que era esposa do duque de Silésia. Isabel viveu na corte húngara somente nos primeiros quatro anos da sua infância, junto a uma irmã e três irmãos. Ela gostava de música, dança e jogos; recitava com fidelidade suas orações e mostrava atenção particular aos pobres, a quem ajudava com uma boa palavra ou com um gesto afetuoso.

Sua infância feliz foi bruscamente interrompida quando, da distante Turíngia, chegaram alguns cavaleiros para levá-la à sua nova sede na Alemanha central. Segundo os costumes daquele tempo, de fato, seu pai havia estabelecido que Isabel se convertesse em princesa de Turíngia. O landgrave ou conde daquela região era um dos soberanos mais ricos e influentes da Europa no começo do século XIII e seu castelo era centro de magnificência e de cultura. Mas, por trás das festas e da glória, escondiam-se as ambições dos príncipes feudais, geralmente em guerra entre eles e em conflito com as autoridades reais e imperiais. Neste contexto, o conde Hermann acolheu com boa vontade o noivado entre seu filho Ludovico e a princesa húngara. Isabel partiu de sua pátria com um rico dote e um grande séquito, incluindo suas donzelas pessoais, duas das quais permaneceriam amigas fiéis até o final. São elas que deixaram preciosas informações sobre a infância e sobre a vida da santa.

Após uma longa viagem, chegaram a Eisenach, para subir depois à fortaleza de Wartburg, o maciço castelo sobre a cidade. Lá se celebrou o compromisso entre Ludovico e Isabel. Nos anos seguintes, enquanto Ludovico aprendia o ofício de cavaleiro, Isabel e suas companheiras estudavam alemão, francês, latim, música, literatura e bordado. Apesar do fato do compromisso ter sido decidido por razões políticas, entre os dois jovens nasceu um amor sincero, motivado pela fé e pelo desejo de fazer a vontade de Deus. Aos 18 anos, Ludovico, após a morte do seu pai, começou a reinar sobre Turíngia. Mas Isabel se converteu em objeto de silenciosas críticas, porque seu comportamento não correspondia à vida da corte. Assim também a celebração do matrimônio não foi fastuosa e os gastos do banquete foram distribuídos em parte aos pobres. Em sua profunda sensibilidade, Isabel via as contradições entre a fé professada e a prática cristã. Não suportava os compromissos. Uma vez, entrando na igreja na festa da Assunção, ela tirou a coroa, colocou-a aos pés da cruz e permaneceu prostrada no chão, com o rosto coberto. Quando uma freira a desaprovou por este gesto, ela respondeu: “Como posso eu, criatura miserável, continuar usando uma coroa de dignidade terrena quando vejo o meu Rei Jesus Cristo coroado de espinhos?”. Ela se comportava diante dos seus súditos da mesma forma que se comportava diante de Deus. Entre os escritos das quatro donzelas, encontramos este testemunho: “Não consumia alimentos sem antes estar certa de que procediam das propriedades e dos bens legítimos do seu marido. Enquanto se abstinha dos bens adquiridos ilicitamente, preocupava-se também por ressarcir àqueles que tivessem sofrido violência” (nn. 25 e 37). Um verdadeiro exemplo para todos aqueles que desempenham cargos: o exercício da autoridade, em todos os níveis, deve ser vivido como serviço à justiça e à caridade, na busca constante do bem comum.

Isabel praticava assiduamente as obras de misericórdia: dava de beber e de comer a quem batia à sua porta, distribuía roupas, pagava as dívidas, cuidava dos doentes e sepultava os mortos. Descendo do seu castelo, dirigia-se frequentemente com suas donzelas às casas dos pobres, levando pão, carne, farinha e outros alimentos. Entregava os alimentos pessoalmente e cuidava com atenção do vestuário e dos leitos dos pobres. Este comportamento foi informado ao seu marido, a quem isso não apenas não desagradou, senão que respondeu aos seus acusadores: “Enquanto ela não vender o castelo, estou feliz!”. Neste contexto se coloca o milagre do pão transformado em rosas: enquanto Isabel ia pela rua com seu avental cheio de pão para os pobres, encontrou-se com o marido, que lhe perguntou o que estava carregando. Ela abriu o avental e, no lugar dos pães, apareceram magníficas rosas. Este símbolo de caridade está presente muitas vezes nas representações de Santa Isabel.

Seu casamento foi profundamente feliz: Isabel ajudava seu esposo a elevar suas qualidades humanas ao nível espiritual e ele, por outro lado, protegia sua esposa em sua generosidade com os pobres e em suas práticas religiosas. Cada vez mais admirado pela grande fé de sua esposa, Ludovico, referindo-se à sua atenção aos pobres, disse-lhe: “Querida Isabel, é Cristo quem você lavou, alimentou e cuidou” – um claro testemunho de como a fé e o amor a Deus e ao próximo reforçam e tornam ainda mais profunda a união matrimonial.

O jovem casal encontrou apoio espiritual nos Frades Menores, que, desde 1222, difundiram-se em Turíngia. Entre eles, Isabel escolheu o Frei Rüdiger como diretor espiritual. Quando ele lhe narrou as circunstâncias da conversão do jovem e rico comerciante Francisco de Assis, Isabel se entusiasmou ainda mais em seu caminho de vida cristã. Desde aquele momento, dedicou-se ainda mais a seguir Cristo pobre e crucificado, presente nos pobres. Inclusive quando nasceu seu primeiro filho, seguido de outros dois, nossa santa não descuidou jamais das suas obras de caridade. Além disso, ajudou os Frades Menores a construir um convento em Halberstadt, do qual o Frei Rüdiger se tornou superior. A direção espiritual de Isabel passou, assim, a Conrado de Marburgo.

Uma dura prova foi o adeus ao marido, no final de junho de 1227, quando Ludovico IV se associou à cruzada do imperador Frederico II, recordando à sua esposa que esta era uma tradição para os soberanos de Turíngia. Isabel respondeu: “Não o impedirei. Eu me entreguei totalmente a Deus e agora devo entregar você também”. No entanto, a febre dizimou as tropas e o próprio Ludovico ficou doente e morreu em Otranto, antes de embarcar, em setembro de 1227, aos 26 anos. Isabel, ao saber da notícia, sentiu tal dor, que se retirou em solidão, mas depois, fortificada pela oração e consolada pela esperança de voltar a vê-lo no céu, interessou-se novamente pelos assuntos do reino. Outra prova, porém, a esperava: seu cunhado usurpou o governo de Turinga, declarando-se verdadeiro herdeiro de Ludovico e acusando Isabel de ser uma mulher piedosa incompetente para governar. A jovem viúva, com seus três filhos, foi expulsa do castelo de Wartburg e começou a procurar um lugar para refugiar-se. Somente duas de suas donzelas permaneceram junto dela, acompanharam-na e confiaram os três filhos aos cuidados de amigos de Ludovico. Peregrinando pelos povoados, Isabel trabalhava onde era acolhida, assistia os doentes, fiava e costurava. Durante este calvário, suportado com grande fé, paciência e dedicação a Deus, alguns parentes, que haviam permanecido fiéis a ela e consideravam ilegítimo o governo do seu cunhado, reabilitaram seu nome. Assim, Isabel, no início de 1228, pôde receber uma renda apropriada para retirar-se ao castelo familiar em Marburgo, onde vivia também seu diretor espiritual, Frei Conrado. Foi ele quem contou ao Papa Gregório IX o seguinte fato: “Na Sexta-Feira Santa de 1228, com as mãos sobre o altar da capela da sua cidade, Eisenach, onde havia acolhido os Frades Menores, na presença de alguns frades e familiares, Isabel renunciou à sua própria vontade e a todas as vaidades do mundo. Ela queria renunciar a todas as suas possessões, mas eu a dissuadi por amor aos pobres. Pouco depois, construiu um hospital, recolheu doentes e inválidos e serviu em sua própria mesa os mais miseráveis e abandonados. Tendo eu a repreendido por estas coisas, Isabel respondeu que dos pobres recebia uma especial graça e humildade” (Epistula magistri Conradi, 14-17).

Podemos ver nesta afirmação certa experiência mística parecida com a vivida por São Francisco: de fato, o Pobrezinho de Assis declarou em seu testamento que, servindo os leprosos, o que antes era amargo se transformou em doçura da alma e do corpo (Testamentum, 1-3). Isabel transcorreu seus últimos 3 anos no hospital fundado por ela, servindo os doentes, velando com os moribundos. Tentava sempre levar a cabo os serviços mais humildes e os trabalhos repugnantes. Ela se converteu no que poderíamos chamar de mulher consagrada no meio do mundo (soror in saeculo) e formou, com outras amigas suas, vestidas com um hábito cinza, uma comunidade religiosa. Não é por acaso que ela é padroeira da Terceira Ordem Regular de São Francisco e da Ordem Franciscana Secular.

Em novembro de 1231, foi vítima de fortes febres. Quando a notícia da sua doença se propagou, muitas pessoas foram visitá-la. Após cerca de 10 dias, ela pediu que fechassem as portas, para ficar a sós com Deus. Na noite de 17 de novembro, descansou docemente no Senhor. Os testemunhos sobre sua santidade foram tantos, que apenas quatro anos mais tarde, o Papa Gregório IX a proclamou santa e, no mesmo ano, consagrou-se a bela igreja construída em sua honra, em Marburgo.

Queridos irmãos e irmãs, na figura de Santa Isabel, vemos como a fé e a amizade com Cristo criam o sentido da justiça, da igualdade de todos, dos direitos dos demais e criam o amor, a caridade. E dessa caridade nasce a esperança, a certeza de que somos amados por Cristo e de que o amor de Cristo nos espera e nos torna, assim, capazes de imitá-lo e vê-lo nos demais. Santa Isabel nos convida a redescobrir Cristo, a amá-lo, a ter fé e, assim, encontrar a verdadeira justiça e o amor, como também a alegria de que um dia estaremos submersos no amor divino, no gozo da eternidade com Deus. Obrigado.

Benedictus PP XVI

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Um modelo de zelo para salvar o mundo


“Eles nos oferecem, Irmãos Menores, um modelo de zelo, em sentido evangélico, para salvar o mundo. Mostram-nos que precisamos realmente manter-nos fiéis à nossa vocação franciscana. Quanto mais nos comprometermos com os franciscanos seculares, tanto mais nos inseriremos nos interesses que Francisco teve para com o povo em sua situação vital. Estamos lado a lado e reciprocamente nos necessitamos. Mesmo quando os irmãos têm certo sentido da tradição franciscana e também têm o tempo e a possibilidade de chegar a determinadas áreas, também aí necessitamos dos franciscanos seculares para apoiar-nos e completar-nos.

“Porém também eles precisam de nós, porque querem compartilhar o carisma e a tradição franciscanas que estamos obrigados a comunicar-lhes. Isto não significa que eles não nos possam comunicar, mas que nós tenhamos algo de especial para oferecer-lhes. Eles necessitam deste apoio de nossa parte, necessitam da orientação que provém da condição de serem membros de uma Ordem espalhada pelo mundo inteiro. Os franciscanos seculares necessitam também que lhes demos uma visão mais ampla da vocação franciscana, assim como nós também necessitamos deles para conseguirmos uma visão mais ampla dos acontecimentos específicos de sua vida”.

John Vaughn, O.F.M, ex-Ministro Geral

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Regra da Ordem Franciscana Secular


CAPÍTULO I – A Ordem Franciscana Secular (OFS) ou Terceira Ordem Franciscana

1. Entre as famílias espirituais, suscitadas na Igreja pelo Espírito Santo, a Família Franciscana reúne todos aqueles membros do Povo de Deus, leigos, religiosos e sacerdotes, que se sentem chamados ao seguimento do Cristo, na trilha de São Francisco de Assis.
Por modos e formas diversas, mas em recíproca comunhão vital, esses procuram tornar presente o carisma do comum Pai Seráfico na vida e na missão da Igreja.

2. No seio da dita família ocupa unia colocação específica a Ordem Franciscana Secular. Esta se configura como uma união orgânica de todas as fraternidades católicas espalhadas pelo mundo e abertas a todos os grupos de fiéis. Nelas os irmãos e as irmãs, impulsionados pelo Espírito a conseguir a perfeição da caridade no próprio estado secular, comprometem-se pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra, confirmada pela Igreja.5

3. A presente Regra, após o “Memoriale Propositi”(1221) e após as Regras aprovadas pelos Sumos Pontífices Nicolau IV e Leão XII, adapta a Ordem Franciscana Secular às exigências e expectativas da Santa Igreja nas novas condições dos tempos. A sua interpretação compete à Santa Sé, porém a aplicação será feita pelas Constituições Gerais e por Estatutos particulares.

CAPÍTULO II: A forma de vida

4. A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o exemplo de São Francisco de Assis que fez do Cristo o inspirador e o centro da sua vida com Deus e com os homens. Cristo, dom de Amor do Pai, é o caminho para Ele, é a verdade na qual o Espírito Santo nos introduz, é a vida que Ele veio dar em superabundância. Os franciscanos seculares se empenhem, além disso, na leitura assídua do Evangelho, passando do Evangelho à vida e da vida ao Evangelho.

5. Os franciscanos seculares, portanto, procurem a pessoa vivente e operante do Cristo nos irmãos, na Sagrada Escritura, na Igreja e nas ações litúrgicas. A fé de Francisco, que ditou estas palavras: “Nada vejo corporalmente neste mundo do altíssimo Filho de Deus se não o seu santíssimo Corpo e o santíssimo Sangue”, seja para eles inspiração e orientação da sua vida eucarística.

6. Sepultados e ressuscitados com Cristo no Batismo, que os torna membros vivos da Igreja, e a ela mais fortemente ligados pela Profissão, tornem-se testemunhas e instrumentos de sua missão entre os homens, anunciando Cristo pela vida e pela palavra.

Inspirados por São Francisco e com ele chamados a reconstruir a Igreja, empenhem-se em viver em plena comunhão com o Papa, os Bispos e os sacerdotes num confiante e aberto diálogo de criatividade apostólica.

7. Como “irmãos e irmãs de penitência”, em virtude de sua vocação, impulsionados pela dinâmica do Evangelho, conforme o seu modo de pensar e de agir ao de Cristo, mediante uma radical transformação interior que o próprio Evangelho designa pelo nome de “conversão” a qual, devido à fragilidade humana, deve ser realizada todos os dias. Neste caminho de renovação, o sacramento da Reconciliação é sinal privilegiado da misericórdia do Pai e fonte de graça.

8. Assim como Jesus foi o verdadeiro adorador do Pai, façam da oração e da contemplação a alma do próprio ser e do próprio agir.

Participem da vida sacramental da Igreja, principalmente da Eucaristia, e se associem à oração litúrgica em uma das formas propostas pela mesma Igreja, revivendo assim os mistérios da vida de Cristo.

9. A Virgem Maria, humilde serva do Senhor, disponível à sua palavra e a todos os seus apelos, foi cercada por Francisco de indizível amor e foi por ele designada Protetora e Advogada da sua família. Que os franciscanos seculares testemunhem a Ela seu ardente amor pela imitação de sua incondicionada disponibilidade e pela efusão de sua confiante e consciente oração.

10. Unindo-se à obediência redentora de Jesus, que submeteu sua vontade à do Pai, cumpram fielmente as obrigações próprias da condição de cada um nas diversas situações da vida, e sigam o Cristo, pobre e crucificado, testemunhando-o, mesmo nas dificuldades e perseguições.

11. Cristo, confiado no Pai, embora apreciasse atenta e amorosamente as realidades criadas, escolheu para Si e para sua Mãe uma vida pobre e humilde. Assim, os franciscanos seculares procurem no desapego um justo relacionamento com os bens temporais, simplificando suas próprias exigências materiais. Estejam conscientes, pois, de que, segundo o Evangelho, são administradores dos bens recebidos em favor dos filhos de Deus.

Assim, no espírito das “Bem-aventuranças”, se esforcem para purificar o coração de toda a inclinação e cobiça de posse e de dominação como “peregrinos e forasteiros” a caminho da casa do Pai.

12.Testemunhas dos bens futuros e comprometidos pela vocação abraçada à aquisição da pureza do coração, desse modo se tornarão livres para o amor a Deus e aos irmãos.

13. Assim como o Pai vê em qualquer homem os traços do seu filho, Primogênito entre muitos irmãos, os franciscanos seculares acolham todos os homens com humilde e benevolente disposição, como um dom do Senhor e imagem de Cristo.

O senso de fraternidade os tornará alegres e dispostos a identificar-se com todos os homens, especialmente com os mais pequeninos, para os quais procurarão criar condições de vida dignas de criaturas remidas por Cristo.

14. Chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, a fim de construir um mundo mais fraterno e evangélico para a realização do Reino de Deus, cônscios de que “cada um que segue o Cristo, Homem perfeito, também se torna ele próprio mais homem”, exerçam com competência as próprias responsabilidades no espírito cristão de serviço.

15. Estejam presentes pelo testemunho da própria vida humana, e ainda por iniciativas corajosas, individuais e comunitárias, na promoção da justiça, em particular, no âmbito da vida pública, comprometendo-se em opções concretas e coerentes com sua fé.

16. Estimem o trabalho como um dom e como uma participação na criação, redenção e serviço da comunidade humana.

17. Em sua família vivam o espírito franciscano da paz, da fidelidade e do respeito à vida, esforçando-se para fazer dela o sinal de um mundo já renovado em Cristo.
Os esposos, em particular, vivendo as graças do matrimônio, testemunhem no mundo o amor de Cristo à sua Igreja. Por uma educação cristã simples e aberta, atentos à vocação de cada um, caminhem alegremente com os filhos em seu itinerário humano e espiritual.

18. Tenham, além disso, respeito pelas criaturas, animadas e inanimadas, que “do Altíssimo recebem significação” e procurem com afinco passar da tentação do aproveitamento para o conceito franciscano da Fraternização universal.

19. Como portadores de paz e conscientes de que ela deve ser construída incessantemente, procurem os caminhos da unidade e dos entendimentos fraternos mediante o diálogo, confiando na presença do germe divino que existe no homem e na força transformadora do amor e do perdão.

Mensageiros da perfeita alegria, em qualquer situação, procurem levar aos outros a alegria e a esperança. Inseridos na Ressurreição de Cristo, que dão verdadeiro sentido à Irmã Morte, encaminhem-se serenamente ao encontro definitivo com o Pai.

CAPÍTULO III: A vida em fraternidade

20. A Ordem Franciscana Secular se divide em fraternidade de vários níveis: local, regional, nacional e internacional. Cada qual delas tem sua própria personalidade moral na Igreja. Essas fraternidades dos diversos níveis estão coordenadas e ligadas entre si segundo a norma desta Regra e das Constituições.

21. Nos diversos níveis, cada fraternidade é animada e dirigida por um Conselho e um Ministro (ou Presidente), que são eleitos pelos Professos de acordo com as Constituições. Seu serviço, que é temporário, é um cargo de disponibilidade e de responsabilidade em favor de cada indivíduo e dos grupos.

As fraternidades, internamente, se estruturam de acordo com as Constituições, de modo diverso, segundo as variadas necessidades dos seus membros e das suas regiões, sob a direção do respectivo Conselho.

22. A fraternidade local tem necessidade de ser erigida canonicamente, e assim se torna a célula primeira de toda a Ordem e um sinal visível da Igreja, que é uma comunidade de amor. Ela deverá ser o ambiente privilegiado para desenvolver o senso eclesial e a vocação franciscana e também para animar a vida apostólica de seus membros.

23. Os pedidos de admissão à Ordem Franciscana Secular são apresentados a uma fraternidade local, cujo Conselho decide sobre a aceitação dos novos lrmãos.

A incorporação na fraternidade se realiza mediante um tempo de iniciação, um tempo de formação de, ao menos, um ano e pela Profissão da Regra. Em tal itinerário gradual está empenhada toda a fraternidade, também no seu modo de viver. Quanto à idade para a Profissão
e ao distintivo franciscano, é assunto a ser regulado pelos Estatutos. A profissão, por sua natureza, é um compromisso perpétuo.

Os membros que se encontram em dificuldades particulares cuidarão de tratar dos seus problemas com o Conselho num diálogo fraterno. A separação ou demissão definitiva da Ordem, se realmente necessária, é ato de competência do Conselho da Fraternidade, de acordo com a norma das Constituições.

24. Para estimular a comunhão entre os membros, o Conselho organize reuniões periódicas e encontros freqüentes, também com outros grupos franciscanos, especialmente de jovens, adotando os meios mais apropriados para um crescimento na vida franciscana e eclesial, estimulando cada um para a vida de fraternidade. Uma tal comunhão é continuada com os irmãos falecidos pelo oferecimento de sufrágios por suas almas.

25. Para as despesas que ocorrem na vida da fraternidade e para as necessárias obras do culto, do apostolado e da caridade, todos os irmãos e irmãs oferecem uma contribuição na medida de suas próprias possibilidades. Seja um cuidado das fraternidades locais contribuir para o pagamento das despesas dos Conselhos das Fraternidades de grau superior.

26. Em sinal concreto de comunhão e de co-responsabilidade, os Conselhos, nos diversos níveis, de acordo com as Constituições, solicitarão aos Superiores das quatro Famílias Religiosas Franciscanas, às quais, desde séculos, a Fraternidade Secular está ligada, religiosos idôneos e preparados para a assistência espiritual. Para favorecer a fidelidade ao carisma e a observância da Regra e para se terem maiores auxílios na vida da fraternidade, o Ministro (ou Presidente), de acordo com seu Conselho, seja solícito em pedir periodicamente a visita pastoral aos competentes Superiores religiosos e a visita fraterna aos responsáveis de nível superior, segundo as Constituições.

“E todo aquele que isto observar, seja repleto no cëu da bênção do altíssimo Pai, e seja na terra cumulado com a bênção do seu dileto Filho, juntamente com o Santíssimo Espírito Paráclito”.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Exortação de São Francisco aos Irmãos e Irmãs da penitência


Em nome do Senhor!

Dos que fazem penitência

Todos os que amam o Senhor, de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente, com todas as suas forças (Mc 12,30) e amam a seu próximo como a si mesmos (Mt 22,29), e odeiam o próprio corpo com seus vícios e pecados, e que recebem o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e fazem dignos frutos de penitência; quão felizes são estes e estas que assim agirem e perseverarem até o fim, porque sobre eles repousará o Espírito do Senhor (Is 11,2) e Ele fará neles sua habitação e sua morada (Jo 14,23), e eles são filhos do Pai Celestial (Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 12,50).

Somos esposos, quando a alma fiel está unida a Nosso Senhor Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai, que está nos céus (Mt 12,50). Somos mães, quando o trazemos em nosso coração e em nosso corpo (lCor 6,20) pelo amor divino e por uma consciência pura e sincera; e o damos à luz pelas obras santas que, pelo exemplo, devem ser luz para os outros (Mt 5,16).

Como é honroso ter no céu um Pai santo e grandioso! Como é santo ter um tal esposo, consolador, belo e admirável! Como é santo e como é amável ter um tal irmão e um tal filho agradável, humilde, pacífico, doce, amorável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo, que entregou sua vida por suas ovelhas (Jo 10,15) e por nós orou ao Pai, dizendo: Pai santo, guarda-os em teu nome (Jo 17,11), os que me deste no mundo; eram teus, mas tu mos deste (Jo 17,6). E as palavras que me deste, eu as dei a eles e eles as receberam e creram em verdade que saí de ti e conheceram que tu me enviaste (Jo 17,8).

Rogo por eles, não pelo mundo (Jo 17,9). Abençoa-os e santifica-os (Jo 17,17) e por eles eu próprio me santifico (Jo 17,19). Não rogo somente por eles, mas também por quantos hão de crer em mim mediante a palavra deles (Jo 17,20), para que sejam santificados na unidade (Jo 17,23), como nós (Jô 17,11).

Pai, quero que, onde eu estou, eles estejam comigo para que vejam a minha glória (Jo 17,24) no seu remo (Mt 20,21). Amém.

Dos que não fazem penitência

Todos aqueles e aquelas que não vivem em espírito de penitência e não recebem o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e praticam vícios e pecados, e caminham atrás da má concupiscência e dos maus desejos da sua carne e não cumprem o que prometerem ao Senhor e com seu corpo servem ao mundo, aos desejos carnais, às solicitudes deste mundo e às preocupações desta vida; dominados pelo demônio, do qual são filhos e cujas obras praticam (Jo 8,41), estão cegos, porque não reconhecem a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não possuem a sabedoria espiritual, porque não têm o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai; dos quais está escrito: A sabedoria deles foi devorada (Sl 106,27) e: Malditos os que se afastam dos teus mandamentos (51 118,21).

Percebem e o reconhecem, têm consciência e praticam o mal e perdem deliberadamente suas almas. Reparai, ó cegos, iludidos por vossos inimigos; pela carne, pelo mundo e pelo demônio; porque é agradável ao corpo praticar o pecado, e amargo fazê-lo servir a Deus, porque todos os vícios e pecados saem do coração do homem e de lá procedem, como diz o Senhor no Evangelho (Mc 7,21). E nada tendes de bom neste mundo, nem no futuro.

E julgais possuir por longo tempo as coisas deste mundo, mas estais enganados, porque virá o dia e a hora na qual não pensais, que desconheceis e ignorais. O corpo adoece, a morte se avizinha e assim o homem morre de uma morte infeliz. E onde, quando e tal modo como venha a morrer um homem em pecado mortal, sem penitência e reparação – e ele pôde fazer penitência mas não o fez – o demônio lhe arranca a alma do corpo sob tal angústia e medo, que ninguém é capaz de conhecer, senão aquele próprio que o experimenta. E ser-lhe-ão tirados (Lc 8,18; Mc 4,25) todos os talentos e os poderes e a ciência e a sabedoria (2Cr 1,12) que julgavam possuir. E deixam os seus bens aos parentes e aos amigos e depois que estes se apoderaram deles e os distribuíram entre si, disseram: Maldita seja a sua alma, porque pôde ter dado e ganho mais para nós do que aquilo que conseguiu.

O corpo, comem-no os vermes e assim eles perderam o corpo e a alma neste mundo passageiro, e irão para o inferno, onde serão atormentados para sempre.

Ao conhecimento de todos a quantos chegar esta carta, rogamos, por aquele amor que é Deus (lJo 4,16), que recebam benignamente estas palavras odoríficas de Nosso Senhor Jesus Cristo. E os que não sabem ler, façam-nas ler muitas vezes; e guardem-nas na memória, pondo-as santamente em prática até o fim, pois elas são espírito e vida (Jo 6,64).

E os que não o fizerem, terão de prestar contas no dia do juízo (Mt 12,36), perante o tribunal de Nosso Senhor Jesus Cristo (Riu 14,10).

(Esser, K: Opuscula S. Patris Francisci, Edítiones CoIlegii S. Bonaventurae, Ad Claras Aquas, Grotraferrata, 1978 p. 108-112)

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Santa Isabel, padroeira da Ordem Franciscana Secular


Diz a lenda que Isabel foi invocada mesmo antes de nascer. Um vidente anunciou seu glorioso nascimento como estrela que nasceria na Hungria, passaria a brilhar na Alemanha e se irradiaria para o mundo. Citou-lhe o nome, como filha do rei da Hungria e futura esposa do soberano de Eisenach (Alemanha).

De fato, como previsto, a filha do rei André, da Hungria, e da rainha Gertrudes, nasceu em 1207. O batismo da criança foi uma festa digna de reis. E a criança recebeu o nome de Isabel, que significa repleta de Deus.

Ela encantou o reino e trouxe paz e prosperidade para o governo de seu pai. Desde pequenina se mostrou de fato repleta de Deus pela graça, pela beleza, pelo precoce espírito de oração e pela profunda compaixão para com os sofredores.

Tinha apenas quatro aninhos quando foi levada para a longínqua Alemanha como prometida esposa do príncipe Luís, nascido em 1200, filho de Hermano, soberano da Turíngia. Hermano se orientava pela profecia e desejava assegurar um matrimônio feliz para seu filho.

Dada a sua vida simples, piedosa e desligada das pompas da corte, concluíram que a menina não seria companheira para Luis. E a perseguiam e maltratavam, dentro e fora do palácio.

Luis, porém, era um cristão da fibra do pai. Logo percebeu o grande valor de Isabel. Não se impressionava com a pressão dos príncipes e tratou de casar-se quanto antes. O que aconteceu em 1221.

A Santa não recuava diante de nenhuma obra de caridade, por mais penosas que fossem as situações, e isso em grau heróico! Certa vez, Luis a surpreendeu com o avental repleto de alimentos para os pobres. Ela tentou esconder… Mas ele, delicadamente, insistiu e… milagre! Viu somente rosas brancas e vermelhas, em pleno inverno. Feliz, guardou uma delas.

Sua vida de soberana não era fácil e freqüentemente tinha que acompanhar o marido em longas e duras cavalgadas. Além disso, os filhos, Hermano, de 1222; Sofia, de 1224 e Gertrudes, de 1227.

Estava grávida de Gertrudes, quando descobriu que o duque Luis se comprometera com o Imperador Frederico II a seguir para a guerra das Cruzadas para libertar Jerusalém. Nova renúncia duríssima! E mais: antes mesmo de sair da Itália, o duque morre de febre, em 1227! Ela recebe a notícia ao dar à luz a menina.

Quando Luis ainda vivia, ele e Isabel receberam em Eisenach alguns dos primeiros franciscanos a chegar na Alemanha por ordem do próprio São Francisco. Foi-lhes dado um conventinho. Assim, a Santa passou a conhecer o Poverello de Assis e este a ter freqüentes notícias dela. Tornou-se mesmo membro da Familia Franciscana, ingressando na Ordem Terceira que Francisco fundara para leigos solteiros e casados. Era, pois, mais que amiga dos frades. Chegou a receber de presente o manto do próprio São Francisco!

Morto o marido, os cunhados tramaram cruéis calúnias contra ela e a expulsaram do castelo de Wartburgo. E de tal forma apavoraram os habitantes da região, que ninguém teve coragem de acolher a pobre, com os pequeninos, em pleno inverno. Duas servas fiéis a acompanharam, Isentrudes e Guda.

De volta ao Palácio quando chegaram os restos mortais de Luís, Isabel passou a morar no castelo, mas vestida simplesmente e de preto, totalmente afastada das festas da corte. Com toda naturalidade, voltou a dedicar-se aos pobres. Todavia, Lá dentro dela o Senhor a chamava para doar-se ainda mais. Mandou construir um conventinho para os franciscanos em Marburgo e lá foi morar com suas servas fiéis. Compreendeu que tinha de resguardar os direitos dos filhos. Com grande dor, confiou os dois mais velhos para a vida da corte. Hermano era o herdeiro legitimo de Luis. A mais novinha foi entregue a um Mosteiro de Contemplativas, e acabou sendo Santa Gertrudes! Assim, livre de tudo e de todos, Isabel e suas companheiras professaram publicamente na Ordem Franciscana Secular e, revestidas de grosseira veste, passaram a viver em comunidade religiosa. O rei André mandou chamá-las, mas ela respondeu que estava de fato feliz. Por ordem do confessor, conservou alguma renda, toda revertida para os pobres e sofredores.

Construiu abrigo para as crianças órfãs, sobretudo defeituosas, como também hospícios para os mais pobres e abandonados. Naquele meio, ela se sentia de fato rainha, mãe, irmã. Isso no mais puro amor a Cristo. No atendimento aos pobres, procurava ser criteriosa. Houve época, ainda no palácio, em que preferia distribuir alimentos para 900 pobres diariamente, em vez de dar-lhes maior quantia mensalmente. É que eles não sabiam administrar. Recomendava sempre que trabalhassem e procurava criar condições para isso. Esforçava-se para que despertassem para a dignidade pessoal, como convém a cristãos. E são inúmeros os seus milagres em favor dos pobres!

De há muito que Isabel, repleta de Deus, era mais do céu do que da terra. A oração a arrebatava cada vez mais. Suas servas atestam que, nos últimos meses de vida, frequentemente uma luz celestial a envolvia. Assim chegou serena e plena de esperança à hora decisiva da passagem para o Pai. Recebeu com grande piedade os sacramentos dos enfermos. Quando seu confessor lhe perguntou se tinha algo a dispor sobre herança, respondeu tranqüila: “Minha herança é Jesus Cristo !” E assim nasceu para o céu! Era 17 de novembro de 1231.

Sete anos depois, o Papa Gregório IX, de acordo com o Conselho dos Cardeais, canonizou solenemente Isabel. Foi em Perusa, no mesmo lugar da canonização de São Francisco, a 26 de maio de 1235, Pentecostes. Mais tarde foi declarada Padroeira da Ordem Franciscana Secular.

FREI CARMELO SURIAN, O.F.M.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Liturgia: Como temos cuidado de nossos templos?

Frei Gustavo Medella

Templo é ambiente sagrado, é morada do divino, é ponto de encontro de pessoas entre si e de pessoas com Deus. Templo é lugar, lugar onde vive gente, onde habita Deus. Nosso corpo é templo, nosso coração é templo, nosso planeta é templo. As leituras desta Festa da Dedicação da Basílica de São João do Latrão, a Festa da Unidade da Igreja Universal, nos levam a refletir:

• De que forma temos habitado nossos templos?
• Com que espírito temos administrado nossos templos?
• Agimos com espírito de vendilhão, que usa, usurpa, explora e quer tirar vantagem? Ou com o Espírito de Jesus, que cuida, zela, olha e se consome?

A primeira leitura, do livro de Ezequiel (Ez 47,1-2.8-9.12), se reveste de significado forte no contexto em que vivemos. Fala da água que brota do templo e que leva a vida por onde passa. Falta-nos água – conforme nos atesta a grave crise do Sistema Cantareira – falta-nos vida, falta-nos interesse pela vida. O espírito do mercado, do consumo desenfreado, do “cada um por si” seca as fontes que nos garantem a sobrevivência tanto material quanto existencial.

Precisamos mais do que nunca ser chacoalhados por Jesus, como foram os vendilhões do templo. E caso a conversão não venha por uma opção de fé ou por uma escolha ética, a própria natureza nos converterá, com métodos certamente bem mais duros e incisivos do que as chicotadas e os gritos do Senhor. Os alertas dos cientistas, as mudanças climáticas, a escassez de água, os surtos de doenças já são sinais claríssimos que nosso templo-planeta já chegou a seu limite. Ilimitados prosseguem nossos caprichos, nosso egoísmo, nossas ambições, sinais de uma humanidade em desumanização. Ainda é tempo de mudar… No entanto, mais um pouco e não mais será. Quem se habilita a dar o primeiro passo numa nova direção?

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Alicerce da Igreja

Dom José Alberto Moura

A igreja-templo deve ser usada para ajudar a Igreja-povo realizar sua missão, que se baseia no alicerce de Jesus Cristo. A conversão para segui-Lo é essencial na vida de quem quer viver sua fé nele. Usar do templo e do ser membro da Igreja, família de Cristo, devem levar a pessoa a realizar o projeto de Deus, sustentado na pessoa do Filho e em sua Palavra. O templo é o lugar da reunião dos seguidores do Mestre para realizar o culto e ter o alimento dos dons de Deus para dar suporte à vida de fé transformadora e libertadora de todo tipo de escravidão. Esta deve ser superada com a erradicação do egocentrismo, das injustiças, discriminações e exclusões. Fé sem ação conseqüente da mesma leva a pessoa ao intimismo religioso, que faz da religião um comércio ou troca com Deus. Leva a pessoa a buscar para si benesses, curas e soluções de problemas na ordem econômica, de cunho subjetivo e social, sem colocar em prática os preceitos de Deus, com um compromisso de promoção da justiça e do bem comum.

O profeta Ezequiel fala do templo donde se originam águas fertilizantes da vida. Elas provêm da graça divina, como verdadeira Igreja encarregada de abastecer o povo com a riqueza de dons, para dar consistência de realização da vida para todos (Cf. Ezequiel 47,1-12). De fato, a Igreja instituída por Jesus, é encarregada de oferecer meios da graça divina para ajudar a humanidade a ter força para a realização de sua história. Nesta, cada ser humano terá consistência e alimento sobrenatural para conseguir sua plena realização. Sem a graça de Deus nenhum ser humano é capaz de se realizar plenamente, pois, tem sede de amor infinito, que só o Criador pode oferecer. Ele o faz como quer e encarregou sua Igreja de indicar o caminho para todos: “Vós sois luz do mundo” (Mateus 5,14).

Paulo lembra que o alicerce da Igreja é Jesus Cristo: “Ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí, já colocado: Jesus Cristo” (1 Coríntios 3,11). Sua Igreja só tem sentido na efetivação da missão a ela outorgada pelo Mestre. Assim como o próprio Senhor expulsou os vendedores do templo de Jerusalém (Cf. João 2,13-22), a Igreja, povo de Deus, deve esvaziar-se de tudo o que a tira de sua missão de santificar, promover a vida em plenitude, expulsar de si todo tipo de discórdia, interesses mesquinhos, orgulho, triunfalismo, hegemonia, uso indevido do que é material, apego ao relativo como sendo absoluto, autoritarismo e toda forma de opressão.

Como é bela a missão da Igreja de Cristo, que humaniza, ergue os caídos, dá esperança, promove os excluídos, dialoga, faz ver a verdade e erradica o erro, incentiva os carismas, potencializa o pavio ainda fumegante do que existe de bom na pessoa humana, reconhece os valores dos outros, sabe dar vez, promove a fraternidade, a justiça, o bem da família, da vida e de toda a sociedade!

Ser Igreja de Cristo leva a pessoa a assumir a missão de encantar, de mostrar que seguir o Mestre é o melhor bem para todos e faz a sociedade perceber o valor de construir a história com verdadeiro amor, zelo e ajuda de cada um para o bem de todos. É cuidar do grande navio da história, que deve ser de benefício para todos. Seu bem estar é de responsabilidade de cada um.

Dom José Alberto Moura, CSS, é Arcebispo de Montes Claros (MG). 
Fonte: www.cnbb.org.br

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

São João Latrão: a Basílica de São Francisco de Assis


Basílica de Latrão é considerada a igreja-mãe de todas as igrejas católicas, por ser a catedral do Papa, bispo de Roma. A igreja originária foi construída pelo imperador Constantino, durante o pontificado de papa Melquíades no séc. IV, no terreno doado por Fausta, esposa do Imperador. Nela foram realizados os quatro primeiros Concílios Ecumênicos realizados no Ocidente: em 1123 para resolver a questão das Investiduras, (o provimento em algum cargo eclesiástico por parte do poder civil): em 1139, sobre questões disciplinares; em 1179 para tratar da forma de eleição do Papa; em 1215, sobre várias heresias e a reforma eclesial.

Em 1209, no local onde hoje está a atual Basílica, Francisco e seus onze companheiros receberam a aprovação do papa Inocêncio III para iniciar sua forma de vida. Antes, conta-nos as legendas, o papa “tinha visto em sonhos que a basílica de Latrão prestes a ruir, mas sendo sustentada por um religioso, homem pequeno e desprezível, que a sustentava com seu ombro para não cair. E disse: ‘Na verdade este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja’.

Foi por isso que aquele senhor acedeu tão facilmente ao seu pedido e, a partir daí, cheio de devoção de Deus, sempre teve especial predileção pelo servo de Cristo” (2Cel 17).

A atual construção data de 1735, e a assistência religiosa na Basílica está confiada aos frades Franciscanos.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Memória de finados

Irmãos e irmãs,
paz e bem!

Em sintonia com nossa devoção franciscana...

Segue o caminho do programa da Rede Vida de Televisão em que nosso Assistente Espiritual Frei Gustavo fala sobre o luto e o dia de finados.

"quando enterramos alguém a quem amamos,
devemos nos perguntar, como estamos vivendo?...
As pessoas são sempre mais importantes que as coisas"



http://www.redevida.com.br/programa/tribuna-independente/comentaristas/como-encarar-e-superar-o-processo-de-luto.html

Solenidade de Todos os Santos e Encontro Fraterno

No domingo dia 6 de novembro em que celebramos a solenidade de Todos os Santos a fraternidade das Chagas participou da Santa Missa celebrada pelo Frei Mário Tagliari, OFM. Em sua homilia ressaltou que todos os filhos de Deus estão no caminho de santidade. Que ser santo, não quer dizer não pecar ou ser santo de altar. Uma vez que, apesar de existirem muitos santos reconhecidos pela Igreja e que são para nós um testemunho de vida, ainda existem tantos outros que não estão no altar, mas viveram uma vida santa. Ser santo significa arrepender-se e reconhecer que pecou, reconhecer-se pequeno, menor. Sentir vergonha de ter pecado. Ter a consciência de que somos e temos limitações, mas crendo que seremos salvos não por nosso merecimento, mas pela graça de Deus, lavados pelo sangue de Cristo. 
 
Logo após um momento de café nos reunimos para a formação com o tema: A Mística da Paz em Francisco e Clara que o próprio Frei Mário conduziu. Respondendo algumas questões dos irmãos e interagindo com a descrição sobre esses santos, humildes e servos do Senhor. Para Francisco, o miserável vermezinho, ínfimo servo de Deus. 
 
Que o nosso ser franciscano, o ser penitente, não esteja apenas em abster-se disso ou daquilo, mas no saber amar, no saber perdoar, saber fazer a vontade de Deus em nossa vida. Vivendo uma harmonia, onde a paz reina, mesmo nas dificuldades e conflitos. Vivendo numa harmonia entre o "eu" e Deus, porém também entre o "eu" e os irmãos... fazendo misericórdia para com eles e agraciados pela misericórdia do Senhor. Transformando o nosso ser em paz e bem.
 
Após o almoço a fraternidade reuniu-se na Igreja para o encerramento com a Hora Santa Franciscana, experienciando um forte momento de espiritualidade com a oração e adoração diante do Santíssimo Sacramento.



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Manhã de Espiritulaidade e Celebração Penitencial Franciscana


É com alegria que nós da equipe da FFBSP convidamos você e sua fraternidade para uma Manhã de Espiritualidade e Celebração Penitencial.

Dia: 26 de novembro de 2016(Sábado)

Horário: 9h15 às 12h

Local: Salão da OFS – Largo São Francisco, 181 ao lado da Igreja das Chagas

Valor: Uma contribuição espontânea (levar no dia)

Assessor: Frei Gilson Miguel Nunes,OFMConv

Vamos participar e celebrar juntos, neste ano Jubilar da Misericórdia, a graça da conversão e perdão!


É tão boa nossa união e convivência! Venha, com sua presença fraterna, nossa manhã será mais cheia de Espiritualidade!

Obs: Envie para o email: regionalsp.cffb@gmail.com o nome e número de pessoas que vão participar de sua fraternidade.


Sororal e fraterno abraço,

Pela Equipe

Ir.Ana Lucia,ffdp

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Francisco de Assis e a irmã morte


Frei Vitório Mazzuco

Tema estranho quando olhamos a partir dos limites de nossa compreensão e aceitação. Mas é natural em se tratando de Francisco de Assis, que preparou o momento de sua passagem deste mundo para a eternidade. Reuniu os Irmãos, recebeu os doces e a presença de sua amiga Jocoba de Settesoli, compôs um hino às Criaturas para ser cantado naquela hora, arrumou um despojado leito na terra nua. Por amar intensamente a vida, não teve medo da morte. Morreu no outono de 1226 em meio às metamorfoses da estação, o amadurecimento das folhas, o cair para o chão, renascer em todos os galhos e florescer; esconder nos confinados canteiros do inverno e renascer na Eterna Primavera.

Francisco venceu-se e, no vencer-se, destruiu seus medos, sobretudo o medo da morte. Porque reconstruiu o Reino, se sentiu seguro nele para sempre. Abraçar a morte fez parte de seu ser livre. Sêneca, na carta a Lucilius, escrevia: “Quem faz assim pratica a liberdade do pensamento, pois quem aprendeu a morrer, desaprendeu ser escravo”. Francisco não se prendeu a nada, foi livre para o regresso ao Paraíso. Ao fazer de sua morte uma celebração tirou o trágico do instante. Viveu a vida moldando cada dia o eterno. Para ele, cada segundo da vida continha toda a vida em sua plenitude, por isso não sabia do último dia. Disse que todos devem recomeçar; fazer a sua parte.

Desejou o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Fez disso a expressão de sua vontade. Compilou uma anotação de todas as maravilhas que viu na vida. Cantou um cântico de luz na sombra da morte. Sabia que ia chegar ao céu e ser imediatamente reconhecido por todos os  sofridos leprosos  que chegaram antes, e pelo  Filho do Homem, que ia identificar e contemplar nele a mesma tatuagem da Paixão, as marcas  do Amor, fundidas num  grande e acolhedor abraço!

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Quando algum dos nossos termina a caminhada…


Frei Gustavo Medella (*)

CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS

Caminho… Caminhada… É comum, na espiritualidade, lançar-se mão desta metáfora no intuito de ilustrar o dinamismo da história humana. A vida não é estática. É movimento, mudança, percurso, trajeto. Não poucas vezes, na Sagrada Escritura e na vida dos Santos, o caminho se apresenta como rota de conversão, de amadurecimento, de tomada das grandes decisões. Basta recordar a peregrinação do Povo de Israel, 40 anos pelo deserto, retornando do exílio para a terra prometida, das muitas andanças de Jesus Cristo e de Francisco de Assis, quando este volta das Apúlias para sua terra natal, com desejo ardente de atender ao convite do Senhor. Movimento, mudança, questionamento e insegurança quase sempre são elementos constituintes destas caminhadas.

Na vida individual tal fenômeno também é perceptível: cada pessoa experimenta na própria história os efeitos do caminho empreendido. Relações, decisões, alegrias, decepções e dúvidas dão a tônica desta caminhada, até o dia em que, às vezes lenta, às vezes abruptamente, ela chega ao fim. A certeza da finitude funciona como uma espécie de bússola ou, mais modernamente falando, de um GPS que orienta as escolhas e opções de cada um.

Monteiro Lobato, com arte e maestria, dá voz à personagem Emília: “A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais […] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre. – E depois que morre?, perguntou o Visconde. – Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

Apesar de ser caminhada individual, a existência humana é uma obra em aberto, principalmente no que diz respeito às relações que permite criar. No paradoxo humano, cada individualidade é fruto de uma relação que tende a expandir suas tramas configuradas pela consanguinidade, pela identificação, pela simpatia, pela amizade, pela necessidade. E é neste aspecto que o tema da finitude ganha força e repercussão, não na história de quem finda sua caminhada, mas se lança como desafio imperativo para quem permanece na estrada. Lidar com a partida daquele que se ama é tarefa inadiável e intransferível, é o preço que se paga por se viver relacionalmente.

E é sobre este nó da trama vital que a presente reflexão deseja se debruçar, principalmente no que diz respeito à abordagem pastoral da questão, revelando o rosto de uma Igreja companheira e solidária com seus filhos e filhas que atravessam este obscuro vale em sua caminhada de vida: a partida de um ente querido. O termo “Igreja” aqui compreendido de forma ampla, na presença dos ministros, ordenados ou instituídos, na atuação de uma pastoral específica, na disponibilidade de uma comunidade capaz de se solidarizar.

Em um primeiro momento, algumas considerações a partir da espiritualidade cristã. Logo após, o texto se ocupará em tecer comentários a partir de situações que a própria prática pastoral apresenta, a saber: A partida como coroamento de uma longa caminhada; a partida de quem atravessa o calvário da doença; a partida repentina. É evidente que a complexidade e a variação quase infinita dos arranjos das inúmeras possibilidades individuais ultrapassam de longe os poucos aspectos aqui descritos. Eles são apenas alguns acenos aproximativos que buscam provocar a reflexão.

1.  ALGUNS OLHARES A PARTIR DA ESPIRITUALIDADE

1.1  A vida do justo e a sabedoria do Antigo Testamento

O Livro da Sabedoria traz reflexões que abordam diferentes situações da vida, mais ou menos agradáveis. “A vida dos justos está nas mãos de Deus” (Sb 3,1) é uma constatação do autor que aborda a última passagem do ser humano, peregrino e viajante por natureza. É a passagem desta vida para a vida eterna.

A justiça é um bem divino e o ser humano que pauta sua vida na busca e no cultivo dela se aproxima cada vez mais de Deus. Não é à toa que, no Livro de Jeremias, Deus aparece designado como “Senhor, nossa justiça” (Jr 23,6).

Na história da Salvação muitos foram denominados justos; todos aqueles que souberam conduzir suas vidas pelos caminhos do Senhor. No Novo Testamento, aparece, por exemplo, o justo José, pai adotivo de Jesus, que se lançou de corpo e alma como colaborador efetivo do projeto de Deus.

Quem vive justamente parte como justo e é acolhido com amor pelo Senhor. Importante é lembrar que viver retamente não significa passar pela existência sem cometer erros. Os tropeços e enganos fazem parte da história humana. Mais importante do que evitá-los a qualquer preço, às vezes às custas de um escrúpulo paralisante, é cultivar, cada um em si, um auto-reconhecimento das próprias limitações e, apesar delas, seguir em frente, com confiança na misericórdia de Deus.

E o justo sabe bem disso. “A vida dos justos, ao contrário, está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos, aqueles pareciam ter morrido, e seu fim foi considerado como desgraça. Os insensatos pensavam que a partida dos justos do nosso meio era um aniquilamento, mas agora estão na paz. As pessoas pensavam que os justos estavam cumprindo uma pena, mas esperavam a imortalidade. Por uma breve pena receberão grandes benefícios, porque Deus os provou e os encontrou dignos dele. Deus examinou-os como ouro no crisol, e os aceitou como holocausto perfeito. No dia do julgamento, eles resplenderão como fagulhas no meio da palha. Eles governarão as nações, submeterão os povos, e o Senhor reinará para sempre sobre eles. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que lhe são fiéis viverão junto dele, no amor, pois a graça e a misericórdia estão reservadas para seus escolhidos”. (Sb 3,1-9).

1.2  O grão de trigo e as “pequenas mortes” de cada dia

“Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto”.(Jo 12,24). Conforme expresso no Evangelho de João, Jesus Cristo lança mão da comparação com o grão de trigo para referir-se a si mesmo. Ele queria desta forma mostrar que sua morte, ainda que sofrida e injusta, seria fonte de vida para o mundo. E a principal garantia de Cristo era sua total fidelidade ao projeto do Reino de Deus. Ele foi fiel até o fim. Outro elemento a ser destacado é que o sangue derramado na cruz foi o coroamento do processo de toda a vida de Cristo. Em cada gesto de acolhida, em cada palavra de estímulo, em cada cura ou ensinamento, o mestre estava se entregando por inteiro, para que todos tivessem vida, e vida em abundância (Cf. Jo 10,10).

O acontecido ao grão de trigo também se aplica à existência do ser humano. Todo sacrifício realizado em benefício do próximo não deixa de ser uma pequena morte, mas é morte que gera a vida. Bom exemplo é o da mãe que, de madrugada, se levanta para acudir seu bebê que está chorando. Naquele momento ela morreu para seu sono, para sua preguiça, para a vontade de ficar dormindo. Foi capaz de se sacrificar porque alguém que ela ama estava precisando de seu socorro. Outra situação de “morte para si mesmo” é o casamento: mais uma vez se morre para gerar vida. Marido e mulher precisam se transformar mutuamente, um se adequando ao outro. Caminhando desta forma são capazes de construir uma união feliz. A vida, portanto, é um constante morrer, mas esta constatação não deve ser motivo de tristeza ou medo. Ela pretende apenas recordar que vida e morte caminham de mãos dadas, uma gerando a outra.

1.3  São Francisco e seu encontro com a irmã morte

Poucos instantes antes de morrer, por volta de 1226, São Francisco pediu a seus irmãos que o despissem e que o colocassem nu sobre a terra. Era o coroamento de uma experiência profunda de Deus, o Deus da vida. Em Cristo, Francisco conseguiu enxergar a beleza e a grandiosidade do amor do Pai e, por isso, transformou sua vida em um perene louvor a Deus, pautado em profundo amor e respeito por todos os seres humanos e pelos bens da criação.

Francisco já partiu há quase 800 anos, mas sua experiência continua a inspirar milhões de homens e mulheres em todo mundo. O Santo de Assis, descobrindo profundamente amado por Deus, o Sumo Bem, Único e Verdadeiro Bem, conseguiu transmitir este amor para além das fronteiras de seu tempo e de seu espaço.

Foi modelo de vida até o fim. Francisco bem sabia que tudo aquilo era e tinha havia recebido como dom gratuito, e por isso não queria tomar posse de nada, nem das coisas, nem da natureza, nem da pessoa. Soube viver em profunda gratuidade e, assim, apesar de todos os sofrimentos (físicos inclusive), conseguiu ser uma pessoa realizada e feliz.

Quando chegou sua hora, Francisco encheu seu coração de esperança e conseguiu chamar a morte de “novo nascimento”. Não se trata de um fim, mas de uma transformação, do ingresso em uma nova maneira de existir. No Cântico das criaturas, Francisco louva e agradece a Deus por todos os benefícios que Ele realizou (e realiza) na criação. E não deixa de fora a “Irmã Morte Corporal”, escrevendo assim: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. (…) Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!”

Francisco de Assis ensina que a vida é dom, presente de Deus. No momento da partida de alguém querido, esta recordação é muito salutar, pois alia à dor e à tristeza um profundo sentimento de gratidão e esperança.

2.  PARTIDA E PARTIDAS

Embora seja um só fenômeno, parte integrante da existência, a maneira como ocorre varia de acordo com uma série incontável de fatores. Tendo em vista este aspecto, também a lida pastoral difere de caso a caso. A presença da Igreja neste delicado momento da vida das famílias assume matizes diferentes segundo as circunstâncias do ocorrido. A seguir, algumas pistas de atuação e também poucas reflexões diante de três configurações distintas

2.1  A partida como coroamento de uma longa caminhada

É o caso da existência que, seguindo seu curso natural, chega ao fim, à semelhança de uma vela acesa que, consumida, se apaga. Vêm à lembrança aqueles que partem aos 80, 90 anos, levados pelas limitações da própria idade. Em sua existência, é claro, tiveram momentos de dor, sofrimento e aridez. Porém, com sabedoria, tiveram a capacidade de promover uma síntese positiva de sua história. Evidente que deixam saudades. Cônjuges, filhos, netos, bisnetos e amigos lamentam a partida, choram ao despedir-se daquele ser humano que tanto marcou a história deles. No entanto, parece que nestes casos a própria existência oferece os elementos capazes de auxiliar quem fica na busca de um sentido para o fato: “Papai descansou, cumpriu sua missão!” – Não é incomum, nestes casos, ouvir de filhos e filhas, por exemplo, este tipo de afirmação.

Permanece a saudade como sentimento profundo, que pode inclusive gerar poesia e canção, como no caso do músico Sérgio Bittencourt. Ao expressar a saudade que sentia de se pai (Jacó do Bandolim), Sérgio compôs a bela peça musical “Naquela mesa”: “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã / Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída, não doía assim / Agora resta uma mesa na sala / E hoje ninguém mais fala do seu bandolim / Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim”.

Nestas situações, a presença de uma Igreja que reza junto à família e aos amigos, que se apresenta com palavras de gratidão a Deus e como semeadora de esperança, se torna útil e oportuna. A celebração no velório, com a presença do ministro, a posterior visitação à família para além da missa de sétimo dia, a comunidade que se une em oração são ações que conferem corpo e consistência à presença eclesial. Soma-se aqui a atuação dos serviços pastorais voltados aos idosos e doentes, em especial o trabalho de visitação constante, da comunhão aos enfermos e outras atuações do gênero.

Há os casos ainda – e não são poucos – em que a família, ou o próprio falecido, não tem ligação direta com qualquer comunidade de fé. Aí também cabe uma presença da Igreja, não de caráter proselitista, mas fundada principalmente na lógica do testemunho, da presença amiga e companheira, da especialista no trato humano, oferecendo, como São Pedro à porta do templo, aquilo que ela tem para dar: “Nem ouro, nem prata, mas Jesus Cristo, o Nazareno” (At 3,6). Quem sabe tal testemunho não desperte no coração de algum dos presentes a vontade viva de se aproximar desta Igreja que traz a Boa-Nova de um Cristo amigo e servidor?

2.2  A partida de quem atravessa o calvário da doença

“O Filho de Deus sofreu, morreu, mas ressuscitou, e exatamente por isso aquelas chagas tornam-se o sinal da nossa redenção, do perdão e da reconciliação com o Pai; tornam-se, contudo, também um banco de prova para a fé dos discípulos e para a nossa fé: todas as vezes que o Senhor fala da sua paixão e morte, eles não compreendem, rejeitam, opõem-se. Para eles, como para nós, o sofrimento permanece sempre carregado de mistério, difícil de aceitar e suportar.” (Papa Bento XVI, na Mensagem para o XIX Dia Mundial do Doente – 2011).

Encontrar nas chagas de Cristo e nas próprias chagas um sinal de redenção não é exercício dos mais fáceis, conforme aponta o Papa Bento XVI. O mistério do sofrimento, quando vivido na própria história, ou na vida daqueles que estão próximos, traz em si um caminhão de questionamentos e muito pouco – ou às vezes nada – de resposta. Muitas vezes são anos a fio de limitação, dor e luta vivenciados pelo enfermo e por aqueles que estão a seu redor, especialmente os mais próximos. Não são poucos os que, ao contemplar tamanha provação, sentem profunda dificuldade em enxergar um sentido para vida que seja capaz de ir além daquele sofrimento macerante, a molde do personagem bíblico Jó, quando diz: .”Pereça o dia em que nasci, e a noite que disse: ‘Foi concebido um menino’”. (Jó 3,3).

A partida de alguém depois de um período de enfermidade, principalmente se esta se estende por muito tempo, provoca em quem fica um misto de sentimentos. Aos mais próximos geralmente surge certo sentimento de alívio, aliado à saudade e à dor da perda, é óbvio. Basta pensar, por exemplo, na figura da filha solteira, já de certa idade, que cuidou anos a fio da mãe octogenária acamada. Nos últimos anos o nível de comunicação se reduzira a alguns olhares esporádicos com certa aparência de consciência. Certamente, para esta filha, dentre o turbilhão de emoções que brotam em seu coração, está o suspiro aliviado de quem acompanhou todo o ciclo de sofrimento ocasionado pela doença.

Além de oferecer o conforto aos que sofrem com esta realidade e iluminá-los a partir da perspectiva da fé, o esforço pastoral deve também identificar os fermentos da ação evangélica de quem se dispõe a acompanhar pessoas que atravessam este tipo de situação-limite. Se a enfermidade é, de acordo com a Igreja, oportunidade para o fiel conformar sua cruz à cruz de Cristo, a presença dos “cireneus” que acompanham estes dramas é também fermento fecundo de amor-doação. É um grito silencioso e eloquente de profecia diante da mentalidade vigente de exaltação do lucro, do sucesso e do prazer a qualquer custo. Eis aí uma grande chance para exemplificar na prática a riqueza e a beleza da proposta cristã. Não se trata de exaltação pessoal de quem se dispôs a doar a própria vida ao cuidado de alguém, mas de iluminar a grandeza deste gesto generoso que tende fortemente ao Evangelho.

À medida que o momento da partida se aproxima, no interior de quem sofre ocorre uma verdadeira batalha de sentimentos, conforme escreve J.B Libanio: “No momento em que o enfermo se depara com a proximidade certa da morte, corta-lhe o coração terrível dor. Sou eu mesmo e por quê? Não, não pode ser verdade. Tempo da negação, do isolamento. Momento difícil para acompanhar o enfermo. Rói-lhe o interior o sentimento de injustiça. Por que ele está nesse estado terminal? Tal percepção vem-lhe de uma intuição que nasce do próprio corpo e das circunstâncias. Embora não se fale da gravidade da doença e ele mesmo conscientemente a silencie, no fundo tudo em volta respira tal situação de fatalidade. Trava-se-lhe dentro a batalha da verdade e da aceitação da verdade a respeito da própria situação. Ele corre atrás de algum médico que lhe diga palavra, ainda que não verdadeira, do consolo da cura. Visita os lugares de milagres. Pessoas que estavam longe da religião, entregam-se a devoções na esperança de vencer a doença. E com a atual abundância de pastores e de grupos carismáticos pregando e semeando curas, o paciente corre atrás deles. Mas o verdadeiro cuidado não nasce de promessas que nos escapam. Porque da desilusão de não se curar brota a revolta. Em vez de bem espiritual, ao acenar aos doentes impossíveis curas, quando o caso já chega ao fim, geramos, não raro, ressentimento. Toca-nos ajudar a pessoa a aceitar a morte na esperança da vida eterna. Aí está a grande mensagem do cristianismo!” [Cuidadores de doentes terminais – Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=40].

2.3  A partida repentina

Nos dois casos descritos até agora, o momento da partida é precedido por um processo mais ou menos longo. No entanto, há situações em que, tragicamente, vidas são ceifadas de repente. São acidentes, assassinatos, suicídios, males súbitos que trazem espanto, desconsolo e até mesmo desespero. São pais que perdem filhos repentinamente, cônjuges que, de uma hora para outra, se veem desamparados e muitos outros dramas humanos.

O cantor e compositor britânico Eric Clapton passou por um terrível momento quando um grave acidente ceifou a vida de seu filho, Conor Clapton, então com quatro anos, em 1991. O menino caiu da janela de um andar altíssimo de um prédio em Nova York.

A partida precoce do menino inspirou Clapton a compor Tears in heaven, o que ajudou o compositor a lidar com a dor da perda. A publicação da música não foi planejada, mas ocorreu mesmo assim, e ela se transformou em um sucesso conhecido em diferentes partes do mundo.

É uma espécie de diálogo de Clapton com o filho e também uma série de perguntas que o autor lança na esperança de um dia contemplar o céu. Certamente a arte é importante aliada nestes momentos de separação. Ela ajuda a pessoa a dar um passo além, a descobrir-se ligada a algo maior do que ela, a Deus. E a dimensão deste Deus infinito, que abraça a toda a criação, faz a pessoa perceber-se parte de uma obra maravilhosa, integrada com todos os seres humanos, inclusive aqueles que já partiram, e com toda a criação.

No caso de Clapton, cantar a partida do filho (uma das dores que mais castiga qualquer ser humano) foi a forma que ele encontrou de se perceber ligado ao menino mesmo depois do ocorrido. A versão em português que segue é uma tradução livre: “Você saberia meu nome / se eu o visse no céu? / Você seria o mesmo, / se eu o visse no céu? / Eu tenho que ser forte, / e seguir em frente. / Porque eu sei que não pertenço ao céu. // Você apertaria minha mão / se eu o visse no céu? / Você me ajudaria a me levantar / se eu o visse no céu? / Encontrarei o meu caminho / atravessando noite e dia. / Porque eu sei que não posso ficar no céu. // O tempo pode trazer você para baixo. / O tempo pode fazer você dobrar os joelhos./ O tempo pode partir seu coração, / fazer você implorar por favor / Implorar por favor. // Atrás da porta / há paz. / Eu tenho certeza / e sei que não haverá mais / lágrimas no céu.

Diante deste tipo de acontecimento, na grande maioria das vezes, a celebração dos velórios conta com participação maciça de elevado número de pessoas e o clima que se espalha no ambiente é de profunda comoção, de nervos à flor da pele. Eis um cenário desafiador para o ministro que, em nome da Igreja, irá rezar junto a uma assembleia atônita e desestruturada humanamente. O que dizer para este povo? Que palavras de conforto podem ser proferidas diante de tal tragédia? Seguem algumas preocupações especiais do ministro nestas ocasiões:

● Fazer-se ouvir. Parentes, amigos e conhecidos se encontram transtornados.

Qualquer mensagem ou palavra proferida parece não penetrar seus corações sobressaltados. Com calma, prudência e confiança na força que vem de Deus, é conveniente que o ministro, aos poucos, tente criar na assembleia um ambiente de escuta, de concentração, de oração. Colocar-se na humildade, como companheiro(a) nesta hora difícil é uma postura que pode ajudar. Ao perceberem este calor humano e esta solidariedade imediata de quem está próximo, certamente os atingidos mais diretamente pela perda terão maior possibilidade de contemplar em Cristo o companheiro por excelência neste momento de profunda dor.

● Manter-se calmo. Jesus Cristo se compadeceu em diversas situações de dor e perda com a qual se deparou. Exemplo mais conhecido foi no episódio da morte de Lázaro, quando, segundo o relato do Evangelho de João (Jo 11,35), veio às lágrimas diante da partida de seu amigo querido. Comover-se significa “mover-se junto”, sentir-se movido pelo que move o outro. É natural que, neste contexto, o ministro também se sinta comovido, que se emocione, que tenha certa dificuldade em conduzir a assembleia em oração. Manter-se calmo, com os “pés no chão”, no entanto, é uma necessidade nesta hora. Ele será um ponto de referência, de apoio àquelas pessoas que “perderam seu chão”. Elas precisam se firmar e a fé na Ressurreição, por causa de Cristo, é o suporte principal de todo o cristão. Cabe ao ministro, portanto, oferecer elementos que levem as pessoas a se confiarem a esta força divina.

● Encontrar as palavras certas. O ponto de partida é sempre a Sagrada Escritura. O ministro deseja, como a inspiração do Espírito Santo, fazer brotar no coração dos presentes uma esperança fundada na fé. Não pretende apontar possíveis explicações para o fato e, muito menos, associar o acontecido à “vontade de Deus”. Busca, com todas as forças, lançar luzes sobre o drama, sempre evocando o amor

e a misericórdia que provêm do Senhor. Informações prévias sobre as circunstâncias do acontecido, sobre a história de vida de quem partiu, costumam ser importante auxílio, embora a tônica da mensagem deva ser a esperança.

● Falar para todos. Este é um item que demanda muita sensibilidade e perspicácia por parte do ministro. Diferente da missa, ou da celebração da Palavra, onde se presume que todos, ou a imensa maioria, sejam cristãos católicos, estes ambientes geralmente são marcados pele heterogeneidade de pessoas. Há católicos praticantes, outros batizados que nunca mais estiveram ligados à Igreja, cristãos de diferentes denominações, membros de outras religiões, agnósticos, ateus. Daí a preocupação em oferecer uma mensagem fiel ao Evangelho e também capaz de vir carregada de sentido para diferentes públicos.

Além da celebração no velório, o quanto possível, as pessoas que sofreram este tipo de perda necessitam de um acompanhamento próximo. A missa de sétimo dia também é momento de extrema comoção. Geralmente são celebrações lotadas. Há famílias que confeccionam camisetas com a foto da pessoa falecida, preparam homenagens, inúmeros parentes, amigos, colegas e conhecidos marcam presença. Um grande desafio para quem preside a missa de sétimo dia nestes casos é introduzir toda a comunidade, inclusive aqueles fiéis que não têm ligação direta com o fato, em uma oração comum em torno do mistério celebrado: a conformação da ressurreição daquele que partiu à Ressurreição do Senhor.

Em artigo recente, o teólogo J. B. Libanio, já citado anteriormente, descreve a forma pela qual a Ressurreição de Cristo confere luz e sentido à dor, ao sofrimento, ao fracasso: “Os cristãos ressignificam a Páscoa para a ressurreição de Jesus. Misturam-se também a desolação e a festa, a alegria e a terrível tristeza. O destino final de Jesus abateu-se sobre os seus seguidores. Morte pior não poderia ter acontecido. Rejeitado pelo povo, excomungado pela religião judaica, abandonado por Javé, traído por um apóstolo, cercado por dois condenados criminosos, nu, morre pregado numa cruz. Nada a celebrar. Tudo a esquecer. Mas ele ressuscita. Pura vida. No entanto, carrega consigo essa morte para dentro da eternidade. Não a rejeita. Aí estão as chagas para simbolizar a continuidade da cruz no corpo glorioso. Lentamente a comunidade primitiva assimila o trauma da morte de Jesus à medida que o experimenta vivo e senhor de todas as coisas. Milhões e milhões depois dele se entregarão à morte para testemunhar a verdade de sua morte e ressurreição. E bilhões e bilhões o fizeram centro de sua vida até o dia de hoje” [A ressurreição mais além da fé – Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=561].

APONTAMENTOS CONCLUSIVOS

O tema da partida é, por sua natureza, desafiante, amplo e complexo. As breves contribuições aqui apresentadas tomam forma de algumas poucas agulhas encontradas em um imenso palheiro. De qualquer forma, fica a provocação dirigida a quem busca se aprofundar no tema, seja por necessidade pastoral, curiosidade existencial ou pela proximidade, no espaço ou no tempo, com a referida temática. Para concluir, seguem alguns pontos já tratados na reflexão, apenas como meio de reforço:

● Elemento constituinte da existência humana, a morte com freqüência se apresenta como desafio principalmente quando diz respeito a alguém de convívio próximo.

● Na perspectiva cristã, não obstante o sofrimento, os questionamentos e a saudade, a Ressurreição de Cristo é o grande alento de força e esperança que enche de luz e dá sentido à partida deste mundo.

● Como momento crucial da história individual da pessoa e do grupo humano à qual ela pertence, a morte demanda, por parte da Igreja, um olhar pastoral repleto de carinho e atenção, que leve em conta as diferentes circunstâncias e situações em que tal fenômeno ocorre.

●  A atuação pastoral nestes casos requer sensibilidade, disposição e testemunho. Mais do que a presença institucional, na condução de cerimônias, faz-se mister uma presença próxima, amiga, companheira e solidária, um verdadeiro ministério de vida e esperança.

●  A presença ministerial nestas ocasiões não se refere somente à figura do ministro ordenado – embora este deva ser o primeiro a nutrir em si e na comunidade esta postura de companheirismo –, mas de toda a comunidade, que, sob iluminação do Espírito Santo, se organiza inteligentemente para dar uma resposta viva, ativa e eficaz a todos que atravessam estes difíceis momentos.

●  Jesus Cristo conferiu sentido à morte por sua ressurreição. Seguindo seus passos, a comunidade cristã busca e sonha contemplar a partida deste mundo como um novo nascimento para a existência plena e definitiva junto ao Senhor.

(*) Frei Gustavo Wayand Medella, OFM, é coordenador da Frente de Comunicação da Província da Imaculada e autor do livro “Há vida após o luto”.

Email: gmedella@gmail.com

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/