sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Papa: nem maquiagens nem hipocrisia, só verdades no coração


Cidade do Vaticano (RV) – O Senhor nos dê a graça da “verdade interior”. Esta foi a oração do Papa na missa celebrada na manhã de sexta-feira (20/10) na capela da Casa Santa Marta.

Francisco comentou a Carta de São Paulo aos Romanos, em que se exorta a aderir com um ato de fé a Deus, explicando qual seja o “verdadeiro perdão de Deus”, isto é, o perdão gratuito que vem da Sua graça, da Sua vontade, e não certamente do que pensamos obter com as nossas obras.

“As nossas obras são a resposta ao amor gratuito de Deus, que nos justificou e que nos perdoa sempre. E a nossa santidade é justamente receber sempre este perdão. É o Senhor, Ele nos perdoou o pecado original e nos perdoa todas as vezes que O procuramos. Nós não podemos perdoar os nossos pecados com as nossas obras, somente Ele perdoa. Nós podemos responder com as nossas obras a este perdão.”

No Evangelho do dia, de Lucas, prossegue o Pontífice, Jesus nos faz entender “outro modo de buscar a justificação”, propondo-nos a imagem “dos que se creem justos pelas aparências”: ou seja, os que sabem fazer “cara de santo”, como “se fossem santos”, diz Francisco. “São os hipócritas.” Dentro eles, “está tudo sujo”, mas externamente querem “aparecer” justos e bons, mostrando que jejuam, rezam ou dão esmola. Mas dentro do coração não têm nada, “não têm substância”, têm “uma vida hipócrita”, a verdade deles é inexistente:

“Essas pessoas maquiam a alma, vivem de maquiagem, a santidade é uma maquiagem para eles. Jesus sempre nos pede para sermos verdadeiros, mas verdadeiros dentro do coração. E, se alguma coisa aparecer, que apareça esta verdade, aquilo que temos dentro do coração. Por isso se dá este conselho: quando rezar, reze escondido; quando jejuar, aí sim, maquie-se um pouco, para que ninguém veja no rosto a fraqueza do jejum; e quando der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que faz a direita, faça escondido.”

Eles usam “a justificação da aparência”, afirmou o Papa. São “bolhas de sabão” que hoje existem e amanhã não existem mais:

“Jesus nos pede coerência de vida, coerência entre aquilo que fazemos e aquilo que vivemos dentro. A falsidade faz muito mal, a hipocrisia faz muito mal, é um modo de viver. No Salmo, pedimos a graça da verdade diante do Senhor. É belo o que pedimos: 'Senhor, contei o meu pecado, não o escondi, não encobri a minha culpa, não maquiei a minha alma. Eu disse: ‘Confessarei ao Senhor as minhas iniquidades’ e o Senhor tirou a minha culpa e o meu pecado’. A verdade sempre diante do Senhor, sempre. E esta verdade diante de Deus é aquela que abre o caminho para que o Senhor nos perdoe.”

A hipocrisia se torna assim um “hábito”: portanto, a estrada indicada por Francisco não é acusar os outros, mas aprender a “sabedoria de acusar a si mesmos”, sem encobrir as nossas culpas diante do Senhor.

Fonte: http://br.radiovaticana.va/

domingo, 15 de outubro de 2017

Feliz Dia do Professor!

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Mensagem do Papa Francisco aos brasileiros pelos 300 anos de Aparecida


Cidade do Vaticano (RV) – “Não se deixem vencer pelo desânimo. Confiem em Deus, confiem na intercessão de nossa Mãe Aparecida.” Esta é a exortação do Papa Francisco ao povo brasileiro, no dia em que a nação celebra a sua Padroeira.

Com “saudades” do país, Francisco conclui a mensagem com um encorajamento: “O Brasil, hoje, necessita de homens e mulheres que, cheios de esperança e firmes na fé, deem testemunho de que o amor, manifestado na solidariedade e na partilha, é mais forte e luminoso que as trevas do egoísmo e da corrupção”.

Texto da mensagem do Papa Francisco

Querido povo brasileiro
Queridos devotos de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil
Minha saudação e minha bênção especial para todos vocês que estão vivendo em Cristo Jesus o Ano Mariano do Jubileu dos 300 anos do encontro da Imagem da Virgem Mãe Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul.

Em 2013, na ocasião de minha primeira viagem apostólica internacional, tive a alegria e a graça de estar no Santuário de Aparecida e rezar aos pés de Nossa Senhora, confiando-lhe o meu pontificado e lembrando o povo brasileiro com a acolhida tão calorosa, que vem do seu abraço e coração generoso. Naquela ocasião, inclusive, manifestei meu desejo de estar com vocês no ano jubilar; mas a vida de um Papa não é fácil. Por isso, quis nomear o Cardeal Giovanni Battista Re como Delegado Pontifício para as celebrações do dia 12 de outubro. Confiei a ele a missão de garantir assim a presença do Papa entre vocês!

Ainda que não esteja fisicamente presente, quero entretanto, por meio da Rede Aparecida de Comunicação, manifestar meu carinho por este povo querido, devoto da Mãe de Jesus. O que deixo aqui são simples palavras, mas desejo que vocês as recebam como um fraterno abraço nesse momento de festa.

Em Aparecida – e repito aqui as palavras que proferi em 2013 no altar do Santuário Nacional – aprendemos a conservar a esperança, a deixar-nos surpreender por Deus e a viver na alegria. Esperança, querido povo brasileiro, é a virtude que deve permear os corações dos que creem, sobretudo, quando ao nosso redor as situações de desespero parecem querer nos desanimar. Não se deixem vencer pelo desânimo. Não se deixem vencer pelo desânimo. Confiem em Deus, confiem na intercessão de nossa Mãe Aparecida. No Santuário de Aparecida e em cada coração devoto de Maria podemos tocar a esperança que se concretiza na vivência da espiritualidade, na generosidade, na solidariedade, na perseverança, na fraternidade, na alegria que, a sua vez, são valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

Em 1717, quando foi retirada das águas pelas mãos daqueles pescadores, a Virgem Mãe Aparecida já os inspirou a confiar em Deus que sempre nos surpreende. Peixes em abundância, graça derramada de modo concreto na vida dos que estavam temerosos diante dos poderes estabelecidos. Deus os surpreendeu. Pois. Aquele que nos criou com amor infinito, nos surpreende sempre! Deus nos surpreende sempre!

Nesse Jubileu festivo em que comemoramos os 300 anos, daquela surpresa de Deus, somos convidados a sermos alegres e agradecidos. “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl4,4). E que essa alegria que irradia dos seus corações transborde e alcance cada canto do Brasil, especialmente as periferias geográficas, sociais e existenciais que tanto anseiam por uma gota de esperança. O singelo sorriso de Maria, que conseguimos vislumbrar em sua imagem, seja fonte do sorriso de cada um de vocês diante das dificuldades da vida. O cristão jamais pode ser pessimista! O cristão jamais pode ser pessimista!

Por fim, agradeço ao povo brasileiro pelas orações que diariamente me oferecem, especialmente durante as celebrações da Santa Missa. Rezem pelo Papa e tenham certeza de que o Papa sempre reza por vocês. Juntos, de perto ou de longe, formamos a Igreja, Povo de Deus.  Cada vez que colaboramos, ainda que de maneira simples e discreta, com o anúncio do Evangelho, tornamo-nos, assim como Maria, um verdadeiro discípulo e missionário. E, o Brasil, hoje, necessita de homens e mulheres que, cheios de esperança e firmes na fé, deem testemunho de que o amor, manifestado na solidariedade e na partilha, é mais forte e luminoso que as trevas do egoísmo e da corrupção.
Com saudades do Brasil, com saudades do Brasil, concedo-lhes a Bênção Apostólica, pedindo a Nossa Senhora Aparecida que interceda por todos nós!

Assim seja.

Fonte: http://br.radiovaticana.va/

terça-feira, 10 de outubro de 2017

História de Nossa Senhora Aparecida


Foi em 1717 que uma imagem simples e quebrada transformou a fé de um povo até receber o título de Padroeira do Brasil. 

Tudo começou quando os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, foram encarregados de conseguir peixe para o banquete que a Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá iria oferecer a Dom Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar, que na época também era o Governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, e estava visitando a região no período de 17 a 30 de outubro de 1717.

Foi após várias tentativas de pesca, que os três pescadores tiraram das águas escuras do Rio Paraíba uma imagem de Nossa Senhora, que veio nas redes em dois pedaços: primeiro o corpo e em seguida, rio abaixo, a cabeça.João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia depois de colocar a imagem dentro do barco, puderam vivenciar a ação da Mãe de Deus.

Os pescadores que antes não tinham conseguido pescar nada, encheram as suas redes com uma quantidade abundante de peixes. 

Antes de levarem os peixes para o banquete, entregaram os pedaços da estátua a Silvana da Rocha Alves, esposa de Domingos, irmã de Felipe e mãe de João, que reuniu as duas partes com cera, e a colocou num pequeno altar na casa da família, agradecendo a Nossa Senhora o milagre dos peixes. Nascia ali uma devoção, reunindo todos os sábados os moradores da região para rezarem o terço e cantarem a ladainha.



Entre 1717 e 1732 a imagem peregrinou pelas regiões de Ribeirão do Sá, Ponte Alta e Itaguassú. Em 1732 Felipe Pedroso entregou a imagem a seu filho Atanásio Pedroso que construiu o primeiro oratório aberto ao público.Em virtude da expansão da devoção a Nossa Senhora ‘Aparecida’ das águas o vigário de Guaratinguetá, padre José Alves Vilela, e alguns devotos, construíram no ano de 1740 uma pequena capela. Na capela acontecia a reza do terço e o cântico das ladainhas, mas não se celebrava a Eucaristia. 

Em 1743, o vigário pe. Vilela fez um relatório dos milagres e da devoção do povo para com Nossa Senhora Aparecida e enviou ao Bispo do Rio Janeiro, Dom Frei João da Cruz, para que ele aprovasse o culto e autorizasse a construção da primeira igreja em louvor a imagem que ficou conhecida como Mãe Aparecida. A aprovação aconteceu em 5 de maio em 1743.



A igreja foi construída no Morro dos Coqueiros, atual colina onde está localizado o centro da cidade de Aparecida, em terra doada pela viúva Margarida Nunes Rangel, com escritura passada em 6 de maio de 1744. A inauguração da igreja, que deu também origem ao Santuário, aconteceu na festa de Santa Ana, no dia 26 de julho de 1745. Nesta ocasião foi inaugurado também, o povoado com o nome de ‘Capela de Aparecida’. No dia 25, a imagem foi levada em solene procissão a nova igreja e colocada no nicho do altar. No dia 26 aconteceu a benção da imagem e a celebração da primeira missa.

 
Esse foi o primeiro santuário que acolheu multidões.

Foi construído em taipa de pilão e não resistiu ao tempo. Em 1844 apresentou risco de desmoronamento e o setor administrativo da capela resolveu pela construção de um novo templo.

Um espaço para acolher ex-devotos

A igreja inaugurada pelo pe. Vilella, anterior à Basílica Velha, já possuía a Sala dos Milagres em 1745. Nesse período os objetos de promessas eram poucos e bem simples. A Sala das Promessas de Aparecida teve diversos nomes e locais: ‘Casa dos Milagres’, ‘Quarto dos Milagres’, Sala dos Milagres; ocupou ainda muitos lugares em todos estes anos. Em 1974 a Sala das Promessas chegou ao subsolo do novo Santuário.



A fé e as demonstrações de afeto a Nossa Senhora Aparecida se estenderam para além da região onde ela foi encontrada, surgindo em 1782 na cidade de Sorocaba (SP), uma capela dedicada a Mãe Aparecida. Essa foi a primeira de tantas capelas construídas Brasil afora.

Diversas pessoas ilustres passaram pelo Santuário de Aparecida para demonstrar sua devoção

1822

Dom Pedro I, durante sua viagem ao Rio de Janeiro e São Paulo, passou no Santuário de Aparecida. D. Pedro,então, príncipe regente, quis rezar diante da imagem de Aparecida, prometeu-lhe consagrar o Brasil, caso resolvesse favoravelmente sua complicada situação política. Isto ocorreu no dia 22 de agosto de 1822. Quinze dias depois, em 7 de setembro, em São Paulo, nascia o Brasil independente, pelo brado histórico do príncipe que se tornaria o primeiro imperador com o nome de D. Pedro I.

1865

O imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina estiveram em 1843 e em 1865 na capela de Aparecida, para rezar diante da imagem. 
A festa da Aparecida no ano de 1868, até então celebrada em 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, foi encerrada com a participação de uma pessoa especial. A princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, quis participar das celebrações ao lado de seu marido, o Conde d'Eu, na esperança de obterem da Senhora Aparecida a graça de um herdeiro.

1868

Para manifestar sua devoção, a princesa doou à imagem um manto, ornado com 21 brilhantes, representando as 20 Províncias do Império mais a capital.

1884

Anos depois, em 1884, a princesa Isabel voltava a Aparecida em reconhecimento pela graça recebida. Feliz, vinha acompanhada não só do esposo, mas dos três herdeiros, os príncipes D. Pedro, D. Luís e D. Antonio.
A princesa novamente quis honrar a imagem da Senhora Aparecida oferecendo-lhe dessa vez, uma coroa de ouro 24 quilates, 300 gramas, cravejada de brilhantes. Essa mesma coroa serviu, vinte anos depois, para a solene coroação da Imagem, por ordem do Papa São Pio X.



A inauguração da Matriz Basílica 

Em 24 de junho de 1888 Dom Lino D. R. de Carvalho, bispo de São Paulo inaugurou a igreja conhecida como ‘Igreja de Monte Carmelo’ (Basílica Velha). Essa construção teve como personagem principal Frei Joaquim do Monte Carmelo, pois foi ele quem se dedicou integralmente aos projetos dessa obra.

Matriz Basílica recebe o título de Santuário

Em 1893 houve muitas mudanças significativas com a criação da Paróquia de Aparecida e a concessão à “Basílica Velha” do título de Episcopal Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, assinada por Dom Lino Deodato Rodrigues, Bispo de São Paulo em 28 de novembro.

A construção do novo Santuário

A primeira ideia de construção surgiu em 1917, por ocasião das celebrações do bicentenário do Encontro da Imagem. O projeto tomou forma ainda sob o arcebispado de Dom Duarte Leopoldo e Silva em São Paulo, mas sua realização estava condicionada à conclusão das obras da Catedral da Sé.

O acordo com nove proprietários de lotes no Morro das Pitas em Aparecida foi fechado no começo do mês de Setembro para a construção do novo Santuário.

Simbolicamente, o local das futuras obras recebeu, no dia 8, uma procissão com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A solenidade de lançamento da pedra fundamental do novo Santuário teve a participação do clero e de autoridades civis em 10 de setembro de 1946. Porém na madrugada ela foi roubada. E em agosto de 1954, com a plataforma da construção e a canalização do córrego da Ponte Alta que passava aos pés do Morro das Pitas, foi renovado o ato da Bênção da pedra fundamental. O Cardeal Legado Dom Giovani Piazza celebrou missa às 10h30 e, após a missa, o Pe. Antão Jorge, Vigário da Basílica, presidiu a benção e o lançamento da Nova Pedra Fundamental.

O projeto da nova Basílica foi encomendado pelo Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, em setembro de 1947, ao arquiteto Benedito Calixto de Jesus. A estrutura e os cálculos do concreto armado eram do engenheiro civil Paulo Franco Rocha. O início efetivo da construção ocorreu em 11 de novembro de 1955. 


A primeira missa no local aconteceu no dia 11 de setembro de 1946, presidida pelo Cardeal Motta.

O primeiro atendimento aos romeiros em 21 de Junho de 1959.

As atividades religiosas no Santuário, em definitivo, passaram a ser realizadas a partir do dia três de outubro de 1982, quando aconteceu a transladação da Imagem de Aparecida da antiga basílica para a basílica nova.

Na manhã do dia três, o Arcebispo de Aparecida, Dom Geraldo Maria de Moraes Penido fez a entrega do templo, à Matriz-Basílica de Aparecida, ao redentorista e vigário da cidade Padre Elpídio Tabarro DalBó.  A imagem de Aparecida foi embarcada num carro do Corpo de Bombeiros e levada em cortejo pela cidade até o altar montado na Esplanada do Santuário, para uma celebração eucarística.


No final da cerimônia, a imagem foi entronizada definitivamente em seu trono na Catedral-Basílica de Aparecida.

O reconhecimento de Santuário Nacional

No dia três de outubro de 1983, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – declarou, oficialmente, a Basílica de Aparecida como Santuário Nacional.

12 de Outubro - Dia da Padroeira do Brasil

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) em sua Assembleia de 1953 determinou que a festa da Padroeira do Brasil fosse celebrada no dia 12 de outubro. Uma das razões para a escolha dessa data foi a aproximação da época do encontro da Imagem, que ocorreu na segunda quinzena de outubro de 1717.Por ocasião da visita do Papa II ao Brasil, o então Presidente da República, General João Batista Figueiredo, promulgou a Lei n. 6.802, de 30 de junho de 1980, “declarando feriado federal o dia 12 de outubro para o culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida”, conforme consta no Diário Oficial da União de 1º de julho de 1980.

Fonte: www.a12.com

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Convite para a apresentação do Coral da Guarda Civil Metropolitana


Rafael Tobias de Aguiar

Foto

Rafael Tobias de Aguiar nasceu em Sorocaba no dia 4 de outubro de 1794, filho do Coronel Antônio Francisco de Aguiar, negociante e administrador do Registro de Tropas em Sorocaba, e de Gertrudes Eufrosina de Aguirre.
Em 1798 foi inscrito pelo pai no Quadro de Regimento de Cavalaria da Vila. Aos treze anos veio para São Paulo para dar continuidade aos estudos de primeiras letras iniciados com os monges beneditinos, onde fez cursos de Latim, Retórica e Filosofia.

Com a morte do pai, em 1818, retornou a Sorocaba e o sucedeu na administração dos bens da família enquanto proprietário, fazendeiro e comerciante, acumulando, também, funções públicas no Registro de Animais, na Real Fábrica de Ferro de Ipanema, tornando-se destacado arrematador de impostos, o que o ligava às maiores fortunas locais.
Entrou na política em 1821 quando foi nomeado eleitor de comarca para eleger os deputados às cortes constituintes de Lisboa. Nessa época, o voto era indireto e a condição de votar e ser votado – eleitor e candidato - estava vinculada à posse de determinada quantia de riquezas. Em 1822 armou combatentes para integrarem o Batalhão dos Paulistas em defesa ao Príncipe D. Pedro durante a campanha de Independência.

Em 1824 foi eleito membro do Conselho da Província de São Paulo. Foi, também, nomeado pelo imperador para o Conselho de Estado, composto por membros vitalícios, criado por D. Pedro I após a dissolução da Assembléia Constituinte, que deveria ter elaborado a primeira constituição. Passou a residir definitivamente em São Paulo em 1830. Assumiu sucessivas vezes o cargo de deputado à Assembléia Geral Legislativa de São Paulo e o de Presidente da Província por dois mandatos, o de 1831/35 e 1840/41.No mandato de 1835 defendeu frente a Assembléia Legislativa Provincial a continuidade das obras do Jardim Publico,visando o embelezamento da cidade, que era tão desprovida de infra-estrutura como calçamentos.Já em 1841 o brigadeiro averiguou a impossibilidade de adaptar a estrada do Velho Caminho do Mar aos veículos,dessa forma abriu uma nova “picada”, a “estrada da Maioridade”.

Foi condecorado por seus serviços com a comenda da ordem de Cristo, dignitário da imperial ordem da Rosa e o posto de brigadeiro.

Na sua trajetória política, Rafael Tobias de Aguiar, partidário de idéias liberais, apresentava-se sempre contrário à centralização do poder. Em 17 de maio de 1842, os liberais paulistas proclamaram em Sorocaba, capital revoltosa paulista, Rafael Tobias de Aguiar como novo presidente interino, o qual assumiu a liderança da Revolução Liberal. Esta desencadeada pelo fato de que em 1841 foi elaborada uma lei que retomava o projeto centralizador defendido pelos conservadores.

Em 14 de junho do mesmo ano casou-se com Domitila no oratório particular de sua mãe. Embora seja um casamento tardio, considerando sua idade de 47 anos, era comum que o filho homem da elite estivesse financeiramente estabelecido para selar tal compromisso. Em termos da elite, significava o futuro da família e de seu patrimônio.
No dia 20 de junho, após choques com a tropa legalista chefiada pelo brigadeiro Caxias, que entrou vitorioso em Sorocaba, Rafael Tobias de Aguiar fugiu para o Rio Grande do Sul, onde foi preso em novembro. No mês seguinte, doente, foi levado para o Rio de Janeiro, onde ficou preso na Fortaleza da Laje até 1844, ano da concessão de anistia geral aos implicados na revolta.

Continuou a militar na política até os 63 anos, quando faleceu a bordo do navio Piratininga na baía de Guanabara. Seu corpo, embalsamado e trazido por Domitila para São Paulo, foi sepultado em 26 de outubro de 1857 no jazigo da Ordem Terceira da Igreja de São Francisco.

Fonte: http://www.museudacidade.sp.gov.br/solar-rafaeltobias.php

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Memória de São Francisco de Assis

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Tempo Comum

Lc 9,57-62


“Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus.”

No evangelho deste dia, somos chamados a não pormos as mãos no arado e olhar para trás. Assim também fez São Francisco, que procurou gloriar-se na cruz do Senhor, renunciando a sua própria vontade.

Para Francisco, o ponto crucial é estar em espírito e verdade, sentindo a presença constante de Deus pela pessoa de Jesus Cristo e mostrar que Jesus é o centro, Caminho, Verdade e Vida, para que o discipulado aconteça, numa dinâmica em confronto constante com Cristo, de modo a levar-nos a conversão num conformar-se a Ele.

Pela abertura de coração, o Espírito do Senhor imprimirá em nós a graça santificadora a partir da nossa decisão em fazer a sua vontade pelo exercício de fé. Porém, quanto mais fé tivermos, mais sensibilidade teremos de sentir a presença viva de Cristo, levando-nos ao compromisso, a ser sacrário e ao mesmo tempo templos do Espírito Santo, assumindo uma nova identidade cristã em Espírito, Verdade e Vida, a exemplo de Francisco, que se fez menor produzindo um movimento de comunhão com Deus, a natureza e os irmãos.

Que São Francisco de Assis abençoe as famílias e os seus seguidores no carisma. Paz e Bem!

Reflexão feita pelos noviços

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Manhã franciscana de fé e devoção em São Paulo

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Moacir Beggo

Mais do que a bênção dos animaizinhos, a Festa de São Francisco de Assis, desde o dia 3, com o Trânsito (passagem), até  4 de outubro, é sempre um momento celebrativo, reflexivo e muito provocativo. Principalmente em tempos da Encíclica Laudato Si’. Os frades que presidiram as Celebrações Eucarísticas na manhã desta festa franciscana foram enfáticos em citar o Papa Francisco e seu pedido de socorro pela Mãe Terra.

São Francisco de Assis é Padroeiro da Paróquia da Vila Clementino e do Convento na região central de São Paulo. Os dois lugares são referências neste dia, onde o povo demonstra sua fé e devoção no santo que se encantava com o jeito de Deus humanizar-se com extrema humildade e simplicidade.

O Definidor da Província da Imaculada, Frei Gustavo Medella, presidiu a Missa das 10h30 no Convento São Francisco, que neste 2017 também está celebrando 370 anos de fundação. Frei Medella fez sua homilia a partir do canto de entrada, a conhecida oração “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”.

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“Onde houver ódio, que eu leve amor… É um propósito bonito, muito conforme a espiritualidade cristã. Só que nenhum desses propósitos que aparecem nessa oração, pela qual temos tanto carinho, podem ser cumpridos se faltar o pedido introdutório que contém esta oração, que é: ‘Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz’. Porque Francisco sabia que, sem Deus, nada podemos fazer. Dizia Francisco que se de nós for tirada a graça de Deus, só sobram os vícios e os pecados. ‘Ah, mas Francisco tinha uma visão muito negativa do ser humano!’, pode alguém dizer. Não tinha, não! Ele tinha uma visão realista e sabia que era limitado, cheio de pecados e dificuldades, mas profundamente amado por Deus. Quando estamos abertos a esta graça, podemos ser, sim, instrumento de paz, de amor e de todo o bem”, explicou o frade.

Segundo Frei Gustavo, para fazermos tudo isso que a canção nos propõe – o amor, a esperança, a alegria, a luz -, precisamos ter os reservatórios destas virtudes cheios. “E aí onde nós vamos buscar? Nos valores intuídos e ensinados por Francisco que aparecem nesta música. Devemos buscar, antes de tudo, como dizia Francisco, o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar. E nós conseguimos esse santo modo de operar através da oração e da devoção”, acrescentou o presidente da celebração.

Depois, disse o frade, se estamos conectados com Deus, percebemos que essa conexão implica, necessariamente, em uma conexão com os irmãos. “E aí entra o valor da fraternidade. Sozinhos nós não conseguiremos caminhar muito. Nós vamos cansar, nós vamos sucumbir no meio do caminho”, alertou o frade.

“O Papa Francisco, na Laudato Si’, ao elencar todos os problemas que assolam o planeta, como a poluição das águas, a falta de recursos, a desigualdade social, diz que são problemas tão complexos que, por mais boa vontade que uma pessoa tenha ou um grupo isolado tenha para resolver, não vai conseguir. É necessário um espírito de conversão que perpasse e abrace toda a humanidade, para além daquilo que nos difere, seja elemento de fé, de cultura, de raça, de modo de pensar. Para além de tudo isso é urgente que construamos um espírito real e verdadeiro de fraternidade”, insistiu.

Segundo o frade, a espiritualidade franciscana, mesmo sendo espiritualidade cristã, católica, nos lança para esse espírito de diálogo, tão procurado e propagado pelo Papa Francisco. “E a Fraternidade Franciscana se estende à Fraternidade Universal com todos os bens criados. E é por isso que hoje é dia de trazer os nossos animais para receber as bênçãos, de pedir também bênçãos sobre nós, sobre as situações difíceis que estamos vivendo, mostrando que todos seres humanos, seres criados, brotamos da mesma matriz amorosa que é coração de Deus, aquele que nos criou”, lembrou.

Frei Gustavo disse, então, que um terceiro elemento, além da conexão com Deus e com os irmãos, é o olhar de conversão. “Reconhecer que o primeiro lugar, onde precisa de amor para não dar espaço ao ódio, é o nosso coração, porque às vezes podemos ter a ilusão que dentro de mim é só amor. Mas não é assim. Quantas vezes diante de uma topada, temos ódio da pedra que estava no caminho; diante de uma fechada do trânsito, temos ódio daquele que foi imprudente. Então, o primeiro lugar, onde o ódio, o egoísmo, a desordem e a falta de paz precisam ser vencidos, é dentro do nosso próprio coração. Isso nós só conseguimos através da graça de Deus no espírito de oração e devoção. Todas essas virtudes estão interligadas”, frisou, pedindo a inspiração de São Francisco para que o Senhor nos mostre o caminho de uma vida mais pacífica, harmoniosa, feliz, onde todos sejam respeitados e possam, de verdade, se sentirem amados por Deus, “porque conseguem encontrar em nós – aqueles que admiram Francisco e que desejam seguir a Cristo – o testemunho de amor, de paz e esperança que procuram”.

Durante toda a manhã,  a igreja esteve cheia. Ivone Aparecida da Silva participou da Celebração Eucarística das 9 horas, presidida por Frei Vanilton Leme. Durante todo o tempo, “Luna” esteve no seu colo, comportada e atenta. Só olhou desconfiada na oração do Pai Nosso quando uma pessoa ao lado colocou a mão no ombro de Da. Ivone. “Gosto muito de animais. Mas a Luna não é minha, mas de minha filha, que não pôde vir hoje aqui”, explicou.

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Bem próximo estava “Ozzy”, também no colo de sua protetora. O cãozinho só tem o nome do barulhento roqueiro Ozzy Osbourne, porque ali esbanjava tranquilidade. “Minha sobrinha é a dona dele e ela é roqueira”, explicou a artesã Maria de Fátima Tavares de Nascimento, que reside na av. São João, próxima do Convento. “Sou muito devota de São Francisco e adoro os animais. Acho que quando uma pessoa trata bem dos animais ela também respeita o ser humano. Basta ter sentimentos”, observou Maria de Fátima.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

TRÂNSITO

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O Trânsito de São Francisco é uma celebração que faz memória dos últimos momentos do santo na terra através de uma piedosa encenação. No Convento São Francisco foi celebrado ontem (3/10), às 18 horas.

Frei Diego Melo fez a pregação e chamou a atenção que esta data, 3 de outubro de 1226, pode ser celebrada como uma simples recordação dos últimos momentos de vida de São Francisco, ou seja, um fato acontecido há mais de oito séculos, “que em nada toca a nossa vida concreta, servindo apenas para uma rápida e passageira emoção e, de certa forma, como um tranquilizante de nossas consciências”.

Mas Frei Diego fez a seguinte provocação: “Há outra forma de memória, que é uma recordação mais desafiadora e até mesmo desconfortante. Trata-se da recordação do passado da qual surgem novas e desafiadoras perspectivas para o presente e para o futuro. Essa segunda maneira de fazermos memória desse trânsito de São Francisco, em que procuramos tirar lições para a nossa atualidade, talvez esteja mais próxima daquilo que Francisco mesmo nos pediu e advertiu, quando na sua sexta Admoestação lembrava que seria ‘uma grande vergonha para nós, servos de Deus, terem os santos praticado obras dignas de serem exaltadas e nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram'(Adm 6)”, disse.

Participaram desta celebração os frades das três Fraternidades da Província em São Paulo, religiosos (as), a OFS, Jufra, jovens vocacionados e paroquianos.



Foto tirada pela OFS

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Feliz festa de São Francisco de Assis!

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Caríssimos irmãos e irmãs,

Que o Senhor lhes dê a Paz e todo o Bem!

Na oração das primeiras Vésperas da Solenidade de São Francisco de Assis, proclamamos a seguinte antífona no responsório breve: “Francisco, pobre e humilde, entra rico nos céus, com hinos celestes é honrado”. Este binômio, “pobre e humilde” se repete na oração conclusiva de todas as horas canônicas: “Ó Deus, que fizestes o seráfico Pai São Francisco assemelhar-se ao Cristo por uma vida de humildade e pobreza, concedei que, trilhando o mesmo caminho, sigamos fielmente o vosso Filho, unindo-nos convosco na perfeita alegria”.

Pobreza e humildade são duas virtudes-irmãs exaltadas pelo próprio Pai Seráfico na sua Saudação às Virtudes: “Senhora santa pobreza, o Senhor te salve com tua irmã, a santa humildade… A santa pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo. A santa humildade confunde a soberba e todos os homens que há no mundo e igualmente todas as coisas que há no mundo” (SV 2.11-12).

Neste ano, por ocasião da Solenidade de São Francisco de Assis, desejo destacar a “virtude da santa pobreza” vivida e abraçada por “Francisco, pobre e humilde”. E o motivo é este: No dia 13 de junho deste ano, justamente na Festa de Santo Antônio, o Papa Francisco editou um belíssimo texto intitulado “Não amemos com palavras, mas com obras”, instituindo o dia 19 de novembro como Dia Mundial dos Pobres.

A Pobreza abraçada por Francisco de Assis é resposta dada por quem não se fez “surdo ao Evangelho” (1Cel 22): “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus” (cf. LTC 29,1-6). Assim, a referência e o núcleo central da pobreza vivida por Francisco é a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo, da forma como prescreveu na Regra: “Como peregrinos e viandantes que servem ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmolas com confiança; disso não se devem envergonhar, porque o Senhor se fez pobre por nós, neste mundo” (RB 6,4).

A convicção da “sublimidade da altíssima pobreza” é fundamental para São Francisco e todos os seus seguidores. Ele estabeleceu a virtude da pobreza de Jesus Cristo como: critério vocacional para abraçar esta forma e regra de vida; apelo para a desapropriação total, especialmente a alegria do viver “sem nada de próprio”, com a demitização do “eu”; incentivo para um estilo de vida sóbrio como peregrinos e itinerantes; fundamento para a gratuidade da “graça de trabalhar com fidelidade e devoção”; apelo ao desapego e deposição de cargos ou mandos; um modo fraternal de relacionar-se com o Criador e as criaturas; atitude permanente de restituição ao Senhor pelos dons recebidos; acolhimento da Irmã Morte como gesto último e derradeiro para devolver com gratuidade o sopro da vida que um dia recebemos do Criador.

O Papa Francisco, ao proclamar o Dia Mundial dos Pobres, recorda o abraço de Francisco de Assis ao leproso, afirmando: “Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos”. A experiência de Francisco, na linguagem do Papa, deveria sensibilizar os cristãos “a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida”. E mais: “Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na eucaristia” (n. 3). E ainda, no mesmo texto, o Papa é categórico ao usar este imperativo: “Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres” (n. 4).

Para além da reflexão e a exemplo do Pobre de Assis, o Papa Francisco nos provoca a realizarmos ações e gestos que deem visibilidade a este Dia Mundial dos Pobres, tanto nas nossas Fraternidades como na ação evangelizadora. Por exemplo: ter momentos de encontro e amizade, de solidariedade e de ajuda concreta; convidar os pobres para a mesa da comunhão fraterna e eucarística; aproximar-nos dos pobres e tê-los como hóspedes privilegiados na nossa mesa, etc. Eu sonho com o retorno desses gestos! Enviem-nos os seus registros (fatos e fotos), não para nossa vanglória, mas para partilhar entre irmãos a alegria do abraço ao “leproso”. É ele que transforma as nossas amarguras em “doçura para a alma e para o corpo” (Test 3).

Que nesta solenidade do Seráfico Pai São Francisco possamos retomar a escalada do caminho que nos leva aos esponsais místicos com a Senhora Santa Pobreza, tão magnificamente descrito no 3º capítulo do Sacrum Commercium:
“Apertado é o caminho, irmãos, e estreita a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram. Fortalecei-vos no Senhor e no poder de sua força, pois tudo que é difícil vai ser fácil para vós. Deponde a carga da vontade própria, lançai fora o peso dos pecados, e cingi-vos como homens fortes. Esquecidos do que está atrás, ansiai o quanto puderdes pelo que está à frente de vós. Digo-vos que todo lugar que vosso pé pisar será vosso. Pois diante de vós há um espírito, o Cristo Senhor, que vos atrairá aos cumes da montanha com vínculos de amor. Coisa extraordinária, irmãos, é desposar a Pobreza, mas facilmente poderemos gozar dos seus amplexos, pois se tornou como viúva a senhora dos povos, vil e desprezível a todos a rainha das virtudes. Ninguém há na região que ouse reclamar, ninguém que se nos oponha, ninguém que tem direito possa proibir essa salutar aliança. Todos os seus amigos a desprezaram e se tornaram seus inimigos. Quando acabou de dizer estas coisas, todos começaram a andar atrás de São Francisco”.

Feliz festa de São Francisco de Assis!
Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM

Ministro Provincial da Província da Imaculada Conceição do Brasil

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Trânsito de São Francisco de Assis

Trânsito de São Francisco de Assis

Ao cair da tarde de 3 de outubro de 1226, a febre aumentou e as forças reduziram-se como uma chamazinha que sai e não sai do pavio quase seco de óleo. Então Francisco quis ser colocado sobre a terra e pediu que cantassem. E ele também cantou, com os seus, o salmo 141, que fala do desejo de ir para Deus:

“Em voz alta ao Senhor eu imploro,

em voz alta suplico ao Senhor!

Eu derramo na sua presença

o lamento da minha aflição,

diante dele coloco minha dor!

Quando em mim desfalece a minh’alma,

conheceis, ó Senhor, meus caminhos!

Na estrada por onde eu andava

contra mim ocultaram ciladas.

Se me volto à direita e procuro,

não encontro quem cuide de mim

e nem tenho aonde fugir;

não importa a ninguém a minha vida!

A vós grito, Senhor, a vós clamo

e vos digo: ‘Sois vós meu abrigo,

minha herança na terra dos vivos’,

Escutai meu clamor, minha prece,

porque fui por demais humilhado!”

Quando, levados pela melodia, os frades começaram a cantar:

“Arrancai-me, Senhor, da prisão,

e em louvor bendirei vosso nome!

Muitos justos virão rodear-me

pelo bem que fizestes por mim”.

Francisco havia deixado seu corpo sobre a terra.

O Canto enfraqueceu e se apagou na boca dos frades, que recitaram o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como conclusão do salmo entre lágrimas e emocionados.

Fez-se silêncio na cabana. Parecia que a natureza ao redor tivesse emudecido.

Carta Encíclica de Frei Elias sobre o Trânsito de São Francisco, pág. 1453, das Fontes Franciscanas:

“Era luz verdadeira a presença de nosso irmão e Pai Francisco, não só para nós que compartilhávamos da mesma profissão de vida, mas também para os que estavam longe. Era, pois, luz, enviada pela luz que iluminava os que estavam nas trevas e na sombra da morte, para dirigir seus passos no caminho da paz. Isto ele fez, como verdadeira luz do meio-dia, que nascendo do alto, iluminava o seu coração e acendia a sua vontade com o fogo de seu amor… Seu nome é celebrado até os confins mais longínquos e todo o universo admira as maravilhas de sua obra.

(…) Alegremo-nos porque antes de ser arrebatado de nós, qual outro Jacó, abençoou todos os seus filhos e perdoou a todos por qualquer erro que tivesse cometido  ou pensado contra ele…

(…) Enquanto era vivo, tinha um aspecto descuidado, não havia beleza em seu rosto; nenhum membro havia restado nele que não estivesse dolorido. Devido à contração dos nervos, seus membros estavam rígidos como os de um cadáver. Mas depois de sua morte, seu semblante ficou belíssimo, brilhando com admirável candura, alegrando a visão. Portanto, irmãos, bendizei o Deus do céu e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque Ele usou de misericórdia para conosco. Guardai a lembrança de nosso Pai e Irmão Francisco para louvor e glória daquele que o engrandeceu entre os homens e o glorificou perante os anjos. Rezai por ele, conforme ele mesmo  pediu antes de morrer e invocai-o para que Deus nos faça participantes com ele de sua santa Graça. Amém.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Convento e Santuário São Francisco – São Paulo (SP) - Festa de S.Francisco

02 convento e santuario sf


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Francisco de Assis, um homem feito oração

Transformado não só em orante, mas na própria oração (totus non tam orans quam oratio factus), unia a atenção e o afeto num único desejo que dirigia ao Senhor.
(2Cel 95)

Segundo Celano, Francisco de Assis é a personificação da oração. Dificilmente poder-se-ia ter encontrado uma fórmula mais sintética e mais verdadeira para descrever a dimensão orante de São Francisco. Todo ele se tinha transformado em oração. Ele é o homem do ininterrupto diálogo com o Senhor. Depois de sua conversão, Francisco passa a viver na atmosfera de Deus.  O Poverello percorreu um longo e maravilhoso itinerário em seu relacionamento com Deus: há os suspiros profundos de insatisfação com sua vida quando é chamado a se dirigir a novos horizontes; percorre as planícies onde estão seus irmãos os homens, mormente seus irmãos na vocação de seguimento do Senhor e da forma do santo Evangelho; há essa comunhão constante e amorosa com o Senhor Jesus; passa pela exaltação da bondade do Criador manifestada no sol e nas estrelas, na água e na mãe terra; atinge o píncaro mais solene na configuração do santo a Cristo Jesus no alto do Tabor franciscano que é o Alverne. Ali Francisco poderia efetivamente dizer com Paulo: “Já não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (01 2,20).

Nosso intuito não é fazer um estudo exaustivo sobre o tema da oração em Francisco. Há riquíssima e abundante bibliografia sobre o tema (1). Queremos apenas chamar atenção para alguns aspectos da figura de Francisco que o tornam um homem, feito oração. Num primeiro momento veremos como o Deus grande e altíssimo foi tomando conta do interior de Francisco e o seduzindo. Tudo em Francisco, também a oração, só se entende a partir da sequela de Cristo. Importante, no contexto deste estudo, chamar atenção para o caráter fundamental do manuseio do Livro da Cruz. Embora atraído pelo silêncio e disposto a estar solitariamente unido ao Senhor, Francisco é o homem que reza com os irmãos e chega mesmo a se tornar o maior cantor dos bens de Deus derramados na criação.

1. Dar lugar a um Outro

A oração é, efetivamente, um mistério. É uma experiência que se faz e não um discurso que se profere. Tem muito a ver com a amizade e o amor. É relacionamento entre a fraqueza e a plenitude, o amante e a amada, o esposo e a esposa. Pela oração, o homem tenta aproximar-se de seu Senhor que é amor, fogo, exigência, fonte de vida, misericórdia, paz e plenitude. Francisco viveu o relacionamento com Deus como plenitude inebriante. Os louvores ao Deus altíssimo, escritos por São Francisco no
final de sua vida, no verso da bênção dada a Frei Leão: “… Vós sois o Forte… o Grande… o Altíssimo… a Delícia do amor… a Sabedoria… a Humildade… a Beleza… nossa eterna vida, ó grande e maravilhoso Deus, Senhor onipotente, misericordioso Redentor” (LDA). Curioso observar que neste texto, escrito quase no final de sua vida, haja tão pouca alusão a Cristo. Sente-se neste escrito um transbordamento talvez não encontrado em outro místico da história da Igreja. Tem-se a impressão de que
o Amante seduziu o amado. Esta sedução foi tão forte que seu biógrafo chegou a afirmar que o santo estava separado de Deus «apenas pela parede da carne” e “procurava estar sempre presente no céu” (cf. 2Cel 94).

Desde o momento de sua conversão, Francisco é alguém que procura fazer espaço em si para a chegada de um Outro. Assim, ele começou a ser trabalhado pelo Espírito. Michel Hubaut concebe a oração em São Francisco como abertura ao Espírito (2). Foi fazendo lugar dentro de si para acolher um Outro e viver em função dele. Houve um momento na trajetória de Francisco em que era preciso romper com ânsias e desejos, ambições e projetos pessoais. O processo da conversão de Francisco é marcado por um período de vazio, de não sentido, de espera de alguma coisa. Os dias longos passados na prisão de Perúsia, a prolongada enfermidade, os sonhos que povoavam tumultuadamente seu interior foram levando Francisco do exterior para o interior, do aparente para o essencial, do ilusório para a verdade. Nesse período, Francisco vive na atmosfera de perguntas, questionamentos, insatisfações. “Que queres de mim? Que queres que eu faça? Por que esta insatisfação dentro de mim? Estas questões são bem parecidas com aqueles que se colocam todos os que começam a aventura da entrega de suas vidas ao Mistério de Deus.

Mjchel Hubaut ainda observa: “O Espírito o orienta rumo ao futuro imprevisto de Deus. Nele desperta uma ‘faculdade interior’ e descobre que capaz de colocá-lo em relação com Deus. Se o homem tem dificuldade em entrar em contato com Deus é porque perdeu o caminho do seu ‘coração’ que se tornou, como diz São Paulo, ‘sem inteligência e obscurecido’, covarde e inútil” (3). Os grandes orantes sempre foram pessoas que visitaram seu interior a fim de que lá encontrassem Alguém que os queria
plenificar. Quem quer fazer essa experiência de plenitude despoja-se de tudo, toma distância de sua autossuficiência, renuncia a si mesmo. Sem esse vazio interior, vazio de si, muitas vezes doloroso, não há possibilidade da chegada do Outro.

Eloi Leclerc mostra como Francisco começa a despojar-se de glórias humanas e do desejo do prestígio. Experimenta uma insatisfação com tudo o que realiza. Aos poucos vai se dirigindo para uma região de profundidade. Francisco seria o homem da profundidade. “A partir deste dia (pouco antes da conversão), inaugura-se, na vida de Francisco, um período de silêncio. Uma necessidade imperiosa de silêncio toma conta dele. Procura afastar-se da agitação mundana e do mundo dos negócios. Esforça-se, segundo a expressão de Tomás de Celano, ‘por reter Jesus Cristo em seu interior’ (1Cel 6). A superfície do mundo tão cheia de brilho não mais o atrai. Procura a profundidade de uma caverna ou a sombra de uma capela solitária nos campos. Lá acha o seu tesouro, diz ele. Passa aí horas a fio. Tornou-se um homem chamado pela profundidade”(4).

Quem reencontra o caminho do coração e se dirige às regiões da profundidade começa um novo êxodo ou empreende uma viagem como a de Abraão: deixa suas seguranças, sua parentela, a terra firme em que costumava pisar e se dirige para horizontes novos que Deus haverá de lhe indicar. O que vai acontecer é mistério que está nas mãos e no coração de Deus. Certamente maravilhas poderão ser operadas se o convidado tiver a coragem de despojar-se a si mesmo de planos e projetos e acolher a visita do Inesperado.

Francisco experimentará durante toda a sua vida uma imperiosa necessidade da oração silenciosa e de espaços de recolhimento. A vida e a trajetória de Francisco são pontilhadas de lugares ermos e de eremitérios. Descobre o gosto pelo silêncio na vetusta e arruinada capela de São Damião. Mais tarde, as clarissas viveriam ali intensíssima contemplação silenciosa. Os biógrafos são generosos em lembrar esses lugares silenciosos e eremíticos: Poggio Bustone, Greccio, Fonte Colombo, Rivo Torto,
Narni. Lugar de silêncio e de oração era o Alverne, píncaro de sua vida de união com Deus, monte da transfiguração dolorosa desse amante de Deus. Desejou sempre com grande intensidade a vida eremítica. Queria o retiro exterior nos bosques, nas fendas dos rochedos e nas capelas abandonadas. “Quando rezava nos matos e nos lugares desertos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda a parte, batia no peito e, achando-se mais escondido que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao Pai, conversava com o amigo, brincava com o esposo” (2Ce1 95).

Nestas longas e intermináveis jornadas de oração, Francisco foi acolhendo a visita do Espírito, acolhendo um dom que ele mesmo, por suas próprias forças, nunca poderia se oferecer. A oração não é em primeiro lugar alguma coisa que fazemos, mas uma acolhida que damos. O orante permite que Deus se aposse dele: “Quer andasse ou parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter consagrado a ela todo o seu coração e todo o seu corpo, toda a sua atividade e todo o seu tempo. Compenetrado destas verdades jamais desprezava por negligência qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se apresentavam, seguia-as cuidadosamente e, enquanto duravam, procura gozar da doçura que lhe comunicavam” (LM 10,1-2). Francisco não é mais dono de si, de sua história, de seu presente e de seu futuro. Está sempre nas mãos do Altíssimo esperando suas novas manifestações, sempre no mistério da fé. Forçosamente, o Deus Altíssimo dos cristãos se manifesta na pobreza e no aniquilamento de Cristo Jesus. Por isso, o seguimento de Jesus será caminho de amadurecimento de sua oração que vai se tornar “crística”.

2. No seguimento de Jesus

Na trajetória espiritual de Francisco ficou claro que sua vida seria seguimento de Cristo. “A Regra e a vida destes irmãos é esta: viver em obediência, em castidade, sem propriedade; e seguir a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo (RNB 1,1-2). Logo depois destas palavras da Regra não Bulada, Francisco evoca os textos do seguimento: vender tudo, renunciar a si mesmo e tomar a cruz, deixar terras, esposa e esposo para a construção do Reino. Não é aqui o lugar de desenvolver a temática do seguimento de Cristo em alguns pontos característicos e precisos. Sabemos que os acontecimentos foram se atropelando em sua vida. Depois de um terrível vazio em seu interior vai vislumbrando uma presença que ia enchendo de júbilo seu coração. Coloca-se diante do Crucifixo de São Damião e vê que seus lábios mexem. O Crucificado pede que ele seja reconstrutor de sua casa que estava em ruínas. Ouve depois as palavras do Amor no Evangelho da festa de São Matias e compreende que precisa ir pelo mundo com seus irmãos, sem calçados, sem sacola, sem bagagem anunciando a paz e o amor do Amor que não era amado. Em toda esta trajetória Francisco descobre o despojamento, aniquilamento, pobreza e humildade de Jesus, de sua Mãe e dos apóstolos. Sabemos que foi fundamental nesta sequela de Cristo o encontro com o leproso.

Todos os estudiosos do franciscanismo voltam-se sempre às primeiras linhas do Testamento de Francisco: “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia para com eles. E enquanto me retirava deles, justamente antes o que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo” (Test 1-3).

Francisco começa a abandonar o mundo de Assis. Não externa, mas interiormente ele deixava uma maneira de viver. Entrava no universo do Evangelho marcado pela necessidade do seguimento de Cristo. Deixava o mundo perverso e entrava no mundo do Senhor para depois voltar, transfigurado e diferente, a esse mesmo mundo que tinha saído e saía das mãos do Altíssimo e bom Senhor, criador das flores, verduras e vento. Fundamental foi o encontro de Francisco com o trapo humano do leproso. Esse marginalizado era vestígio gritante do leproso que é Cristo. Pensando no amor de Cristo por todos os homens, Francisco toma uma dupla decisão: associar-se a todos os pequenos da terra e viver de tal forma que nada impedisse a concretização do amor de Cristo em todos. Seu estilo de vida deveria ser testemunho claro de um mundo renovado, nascido da penitência.

A partir do seguimento de Cristo em tudo, a oração de Francisco necessariamente passa a se identificar com a realização da vontade de Deus. Nas Cartas que escreveu, Francisco não cessa de repetir essa verdade: Cristo colocou sua vontade na realização da vontade de Deus (cf. 2CtFi 10). O projeto de realizar a vontade de Deus, à imitação de Cristo, transforma toda a vida de Francisco em acolhida orante dos desígnios do Pai. Não são os que fazem discursos a respeito de Deus que entram na nova ordem do Reino, mas os que fazem a vontade do Pai (cf. Mt 7,21-23). O homem de oração é aquele que vive atento, na vida de todos os dias, a realizar o projeto de Deus para o mundo. O Amor de Deus se patenteia em Jesus e o discípulo do Senhor ouve o Filho Amado do Pai. A partir da cruz de Jesus nascem exigências novas: fraternidade sem restrições, abolição de privilégios, mundo sem barreiras, atitudes de humildade e entrega, respeito pelos homens que são amados por Deus e foram objeto de seu amor crucificado. O Amor que se fez cruz quer a libertação integral do homem, mormente do pecado. O contato orante do discípulo não poderá limitar-se à penumbra de uma gruta ou à solidão de uma igreja abandonada. Todas as servidões humanas, todos os pesos da opacidade da carne impedem o sucesso definitivo do gesto amoroso do Deus-Homem que morre na cruz. “Em todos os tempos, os símbolos que mantêm o homem prisioneiro são sempre fundamentalmente os mesmos, havendo somente a predominância de um ou de outro, aqui e ali. São eles: o sofrimento físico que atinge a vida, o sofrimento moral dos mais fracos provocado por várias formas de prepotência, tirania, violência; a marginalização e a intolerância para com os pobres, as mulheres, as crianças; o aproveitamento dos mais indefesos e dos mais fracos, favorecido e perpetrado por sutis estruturas dominadas por interesses econômicos; a exclusão da plena inserção na comunidade civil e eclesiástica devido a instituições que se colocam acima dos indivíduos ou de movimentos não-institucionais ou se substituam às prerrogativas individuais; os condicionamentos indevidos das religiões; a incompreensão para com a fraqueza moral dos homens”(5).

Iluminado pela dimensão do seguimento de Cristo, a oração de Francisco se identifica plenamente com o fazer a vontade de Deus colocando seus passos nos passos de Cristo. A oração da caverna se une à prática da missão no meio do mundo, lugar onde se decide o amanhã dos homens. Trata-se de um ir pelo mundo. Inspirando-se no texto da Legenda Perusina, E. Lehmann afirma que a cela não está vinculada de maneira absoluta a um lugar concreto ou a um espaço. E uma maneira de viver. “Embora vades em viagem, seja santo o vosso conversar, como se estivésseis no vosso eremitério ou na vossa cela, visto que, onde quer que estejamos ou por onde andarmos, levamos conosco a nossa cela, que é nosso irmão Corpo; e a Alma é o eremita, que mora dentro para orar e contemplar o Senhor” (LP 80) (6).

3. Lendo nas páginas do Livro da Cruz

A vida de Francisco, depois de sua conversão, é emoldurada por duas fortes imagens da cruz: a cruz de São Damião e a cruz do Alverne. Diante do belo e sereno crucifixo de São Damião, Francisco teria proferido esta prece: “Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas de meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Dai-me, Senhor, o (reto) sentir e conhecer, a fim de que possa cumprir o sagrado encargo que acabais de me dar”. Liga cruz e desejo de fazer a vontade de Deus. Ao longo de sua trajetória haverá de manifestar seu amor e sua união à cruz: “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que estão no mundo inteiro e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo” (Test 5).

Ninguém pode negar quanto ele amava as palavras de Jesus. Mas é certo que ele tinha mais gosto e mais facilidade em ler a vontade de Deus nas páginas do Livro da Cruz. Boaventura lembra um curioso detalhe durante a permanência de Francisco com seus irmãos no tugúrio de Rivotorto: “Entregavam-se ali a santos e piedosos exercícios; sua oração devota e quase nunca interrompida era mais mental do que vocal, pois não dispunham de livros litúrgicos pelos quais pudessem rezar as horas litúrgicas. Mas na falta desses, revolviam dia e noite o livro da Cruz de Cristo, que sempre tinham à vista, incitados pelo exemplo e pela palavra do amantíssimo Pai, que frequentemente lhes pregava com inefável doçura as glórias da Cruz de Cristo” (LM4,3).

No final de sua vida, depois de ter encontrado a cruz dos sofrimentos de seu corpo e de toda sorte de contrariedades com o andamento de sua Ordem, Francisco haverá de encontrar a cruz luminosa do Alverne. Na verdade não poucas adversidades pontilharam sua caminhada. Algumas vezes as cruzes lhe chegaram devido à sua falta de critério em mortificações corporais. Muitas delas se exprimiam em doenças e enfermidades. A maior delas parece ter chegado devido ao fato de não poder conservar em sua família religiosa o espírito primitivo dos inícios. No final da caminhada, ele chega à solidão do Alverne. Os Fioretti transcrevem densa e belíssima oração de Francisco antes de vislumbrar o Serafim alado e de ser marcado com os sinais da carne do crucificado: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças eu te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora de tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta em meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores” (Consid. Estig, 3). O que se passa no Alverne é a conclusão de uma vida de união intensa com Deus. Ali se misturam dor e amor. Os grandes místicos sempre souberam paradoxalmente unir amor e dor. Tendo recebido os estigmas tornou-se efetivamente um outro Cristo. Neste momento cessam as palavras. Há uma fusão de amor vivida e experimentada que foi visibilizada nos estigmas que Francisco cobriu discretamente para não serem vistos. Eram os segredos do Rei.

4. Rezar com os outros

Por mais que Francisco fosse atraído pela solidão das grutas, ele sabe e quer rezar com os outros e ser sacerdote da criação inteira. Já dissemos que Francisco recomendava que os frades levassem sua “cela” interior pelo mundo afora. Nesta parte de nosso estudo queremos chamar atenção para a recitação das horas canônicas da Igreja e para sua oração com e pela criação. Seria grave falta de compreensão da figura deste homem feito oração se não levássemos em consideração estes dois aspectos.

Elemento fundamental do modo de vida de Francisco e dos seus era a fraternidade. Evidentemente esses andarilhos que eram os frades deviam se reunir muitas vezes. Mesmo quando eram muito poucos, um ponto de encontro marcado era para o Ofício divino. Francisco e Clara compreenderam que o Ofício era um dom recebido da Igreja. Fiel e devotamente os frades menores e as pobres irmãs haveriam de ser fiéis à recitação das horas canônicas. Tanto uns quanto outros se haviam constituído em famílias dentro da Igreja. E essa Igreja lhes confiava a bela tarefa de rezar com ela e nela, como membros de um grande Corpo.

“Embora a celebração do Ofício divino não apareça tematizada com amplitude e detalhes nos escritos e nas biografias de Francisco e Clara, sem dúvida, os dados que nos são oferecidos nos permitem dizer que para eles celebrar o Ofício divino era uma, e a primeira, das atividades que o seguimento de Cristo lhes impunha. Esta celebração era expressão de sua devoção, comunhão com a oração de Cristo em seus mistérios e dom que a Igreja faz à Fraternidade, por meio do qual os irmãos se unem em  fraternidade dentro da comunhão eclesial” (7). Não podemos esquecer que o próprio Francisco escreveu um ofício próprio, o da paixão, que retrata seu conhecimento da estrutura da oração da Igreja e coloca em realce o mistério da encarnação/paixão de Jesus.

A vontade de Francisco aparece claramente expressa em seus escritos. Tanto na RNB quanto na RB o ofício é colocado em relação ao jejum. “Rezem os clérigos o ofício divino, por isso podem ter breviários, segundo a ordem da Santa Igreja romana, exceto o Saltério (RB 3,1). “… todos os irmãos, sejam clérigos ou leigos, recitem o ofício divino, as ações de graças e demais orações, como é de sua obrigação” (RNB 3,3). Francisco emprega palavras duras no seu Testamento. Considerando-se homem simples, bastante enfermo assim se exprime: “E embora eu seja simples e enfermo quero contudo ter sempre junto a mim um clérigo que reze comigo o ofício segundo manda a Regra (29)”. Demonstra assim uma atitude de total fidelidade a esta missão que a Igreja lhe confiou e mesmo quando já se poderia considerar dispensado, quer um companheiro que o ajude a louvar a Deus com a oração da Igreja. “E todos os irmãos estejam obrigados a obedecer de igual modo aos seus guardiães e a rezar o ofício segundo manda a Regra. E se acaso houver quem não reze o ofício segundo o preceito da Regra e introduzir um modo diferente ou não seja católico, todos os irmãos, onde quer que estiverem e acharem um deles, são obrigados sob obediência a levá-lo ao custódio mais próximo do lugar onde o tiverem encontrado (Test 30s). São palavras bastante duras e que só
podem ser entendidas a partir da concepção que Francisco tem da dependência com a Igreja Romana e suas determinações e também ao fato de ver nesse ofício uma oração da fraternidade que revive os mistérios de Cristo. Mais duras ainda são suas palavras na CtOr. Ali ela aborda duas questões: a necessidade de rezar com o coração e não simplesmente de forma bela a agradar os ouvidos dos homens e o problema dos irmãos que não querem observar o ofício divino. “Rogo, pois insistentemente ao ministro geral Frei H(elias), meu senhor, que faça observar a Regra por todos inviolavelmente, e que os clérigos digam o oficio divino com devoção diante de Deus, atendendo não tanto à harmonia da voz mas antes à sua concordância com o espírito, de modo que a voz se una ao espírito, e o espírito se harmonize com Deus. Assim, eles podem agradar a Deus pela pureza do coração e não lisonjear os ouvidos do povo pela delícia da voz. Quanto a mim prometo observar rigorosamente estes pontos, à medida em que o Senhor me der sua graça, e quero que os irmãos que estão comigo o observem no ofício divino e nos demais exercícios regulares. Mas aqueles irmãos que não quiserem observar, não os considerarei nem como católicos, nem como irmãos: nem quero vê-los nem falar-lhes, enquanto não mudarem de atitude…» (CtOr 40-44).

Dos textos transcritos podemos compreender que a recitação do Ofício divino não era uma atividade optativa dos frades. Tratava-se de uma obrigação. Tratava-se de incumbência dada pela Igreja e marcada pela força da Regra. Não se trata simplesmente de um formalismo a ser observado. Será preciso rezar a partir do coração, “com pureza de coração”. Os irmãos, desta forma, estariam unidos à Igreja já que eram uma fraternidade constituída na Igreja. Não se pode deixar de colocar em evidência a união desejada pelo Fundador com os mistérios de Cristo. Os frades estariam unidos ali à oração de Cristo, única verdade e único caminho para o Pai. Assim, a oração se coloca na linha do seguimento. Francisco não se faz homem de oração isoladamente. Quer se consumir diante de Deus no coração de sua fraternidade que é célula da Igreja.

Dentro da mesma perspectiva do rezar com os outros situa-se a oração de Francisco no coração do mundo criado. Francisco não despreza o mundo. Sempre soube vincular sua oração com a natureza. Desapropriado de tudo, sem alimentar em seu interior o sentido de posse e dominação sobre pessoas e sobre a natureza, Francisco é o homem que se considera constantemente um agraciado. Recebe irmãos e recebe os dons da criação. Evidentemente, o momento mais sublime do louvor de Deus em suas criaturas proferido por Francisco é o Cântico do Irmão Sol. Não é aqui o lugar de examinar exaustivamente o teor desta prece nem situá-la em seu verdadeiro contexto. Limitamo-nos a poucas observações, sempre tendo em mente nosso assunto que é mostrar Francisco como homem feito oração.

Transcrevemos dois textos dos biógrafos que mostram essa fraternização com o criado e ao mesmo tempo a forma de oração desse homem que em tudo andava procurando vestígios do Amado e via na criação toda como que uma “caligrafia de Deus”.

“Embora desejasse sair logo deste mundo como se fosse um exílio de peregrinação, este feliz viajante sabia aproveitar o que há no mundo, e bastante. Usava o mundo como um campo de batalha com os príncipes das trevas, mas também como um espelho claríssimo da bondade de Deus. Louvava o Criador em todas as suas obras e sabia atribuir os atos a seu Autor. Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e enxergava a razão e a causa vivificantes através dos espetáculos que lhe davam prazer.
Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo e que todas as coisas boas clamavam: ‘Quem nos fez é ótimo’. Seguia sempre o Amado pelos vestígios que deixou nas coisas e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono” (2Cel 165). “Nós que vivemos com ele vimo-lo rejubilar-se interior e exteriormente à vista de todas as criaturas. Era tal o seu amor por estas maravilhosas criaturas que, ao tocá-las ou vê-las, seu espírito parecia não mais pertencer à terra, mas ao céu. Por causa do grande consolo que recebeu destas criaturas, compôs pouco antes de sua morte os ‘Louvores ao Senhor nas suas criaturas’ para incitar os corações dos que os ouvissem a louvar a Deus e para louvar, ele próprio, ao Senhor nas suas criaturas” (EP 118).

Francisco não é um orante solitário. Reza com seus irmãos. Compõe orações que todos poderiam recitar. Une-se também aos seres irracionais e inanimados. Sabe que a fonte de todos é o único Pai. Francisco tem consciência pleníssima da paternidade universal de Deus que generosamente transborda nas criaturas todas. A criação é uma carta enviada pelo Pai aos seus filhos os homens que se tornam assim cantores e sacerdotes de todo o criado. Neste sentido, o Cântico do Sol é expressão do mais alto louvor da criação. E. Leclerc define este Cântico como um grande impulso na direção de Deus. Esse elã é tão veemente que desaparece num ato de adoração e de silêncio diante daquele “que humano algum é digno de mencionar”. Nesse momento, Francisco se inclui humildemente entre todas as criaturas e seu louvor é tão perfeito que se torna também magnífica exaltação das criaturas (8).

Conclusão

Toda a vida do Poverello era oração. Nada está desvinculado da comunhão com Deus. Francisco é um contemplativo na ação. Sabemos da importância que ele dava ao trabalho manual. Queria que seus frades sempre trabalhassem e quem não o soubesse, que aprendesse alguma coisa porque abominava o “irmão mosca”. “Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção, de maneira que afugentem o ócio, inimigo da alma, e não percam o espírito de oração e de piedade ao qual devem servir todas as coisas temporais” (RB 5,1-2). O trabalho é uma graça, como também a oração é graça. Há uma fundamental unidade entre vida contemplativa e vida ativa. Francisco não está  sugerindo que, durante a realização do trabalho, os frades se entreguem a orações vocais ou análogas. É sempre o Espírito, o dom de Deus, que valoriza tudo na vida. O trabalho e qualquer atividade precisam ser realizadas em união profunda com Deus. Tudo tem que ser piedoso e devoto. Francisco une contemplação e ação (9).

Francisco sempre busca a Deus. Procura-o e ouve sua voz na solidão. Era um homem habituado ao silêncio das profundezas e da profundidade. Acolhe esse Senhor no mal amado, imagem de Cristo. Reage contra toda negligência com os irmãos amados por Deus. Rezar é amar o irmão e adotar um estilo de vida consentâneo aos desígnios de Deus e tornar possível e conhecida a graça que vem da cruz do Senhor. A oração ganha intensidade quando é feita a partir do amor louco e desmesurado da cruz. Quem lê no livro da Cruz mistura em seu interior dor e amor. A oração se alimenta de toda Palavra que sai da boca de Deus. É realização da Palavra.  O orante une sua voz à voz dos irmãos todos e reza com a Igreja. Não deixa de incluir e inserir em sua oração as criaturas mais insignificantes. Eleva até o Criador o hino de louvor pelo sol, pelas estrelas, pelo vento, pela vida e pela morte. Realmente, Francisco não é somente um grande orante, mas a própria oração.

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1.Não é possível mencionar aqui toda a bibliografia sobre o tema da oração. Limitamo-nos a chamar atenção para alguns trabalhos: Lehmann, L., Tiefe und Weite. Der iniversale Grundzug in den Gebeten das Franziskus von Assisi, Werl/Westf., 1984; Id., Franziskus, Meister des Gebets. Komentar zu den Gebeten des hl. Franz von Assisi. WervWestf. 1989; Mariani, E., Preghiera, em Dizionario Francescano, 1984, col. 1431-1454; Pedroso, J.C.C, Contemplación Franciscana, Reflexiones, em Cuadernos Franciscanos, 84 (1988) p. 3-51; E. Leclerc, François d’Assise (Col. “Les grands maitres à prier”, Troussures, 1988; Barsotti, D. La preghiera di San Francesco, Brescia 1982. A revista Selecciones de Franciscanismo (Valencia, Espanha) apresenta uma resenha de excelentes artigos publicados até 1990 (cf. Selecciones de Franciscanismo, 1990 (56) p. 210-212).
2. Cf. Hubaut, M., El camino franciscano (trad. espanhola do or. francês), Estela, 1984, p. 53-67.
3. Hubaut, M., op. cit., p. 55.
4. Leclerc, E., Francisco de Assis. Retorno ao Evangelho, Petrópolis, p. 35.
5. Pompei, A., Gesù Cristo, em DizionarioFrancescano, Pádua, 1984, col. 646.
6. cf. Lehmann, L., Introducción a la oración de Francisco de Asis, traduzido do alemão:
Franziskus –  Meister des Gebets, em Selecciones de Franciscanismo 56(1990) p. 167.
7. Lopez, S., Liturgia, em Dizionario Francescano, Pádua, 1984, 885.
8. Cf. Leclerc, E., Francisco de Asis, Maestro de Oración, em Selecciones de Franciscanismo 56(1990) p. 227.


Texto de Almir R. Guimarães, publicado nos “Cadernos Franciscanos/5”, Cefepal e Vozes, 1993

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/