quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Frei Almir escreve sobre “O perfil da fraternidade OFS”

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1. Os franciscanos seculares constituem um ramo da Família franciscana. Esta é formada por todos os que têm em comum a missão de tornar presente no mundo a graça, o carisma próprio de São Francisco. No seio desta única Família, a vocação franciscana é vivida por modalidades diferentes e complementares. Entre as concretizações de Fraternidades está a vida franciscana vivida por leigos no mundo.

2. A palavra-chave é Fraternidade. Ora, a Fraternidade é uma comunidade reunida por Francisco por causa de Jesus Cristo e do Evangelho. Reúne na amizade cristãos de diferentes ambientes e meios sociais, de todas as idades e condições de vida. É constituída por membros pertencentes a fraternidades locais.

3. A Fraternidade, na verdade, é um ambiente espiritual onde cada um cresce na vivência do Evangelho e se abre à fraternidade universal. Seus membros, designados de irmãos, se entreajudam a viver o Evangelho à maneira de São Francisco na Igreja e no mundo. Nesse propósito, eles se colocam à disposição uns dos outros tendo como base a Regra.

4. Bem consciente da vocação leiga de seus membros, a Fraternidade ajuda a cada um a assumir sempre mais plenamente suas responsabilidades pessoais, familiares e sociais inerentes ao seu estado secular e a realizar sua missão cristã no mundo.

5. A Fraternidade brota do amor de Cristo. De forma alguma pode ela se dobrar sobre si mesma. Necessariamente é uma comunidade aberta para a Igreja e o mundo. A Fraternidade é solidária a todo o gênero humano e sua história. Seus membros têm como ponto de honra acompanhar a presença no Senhor no mundo. Normalmente, são pessoas habilitadas a ler os sinais dos tempos.

6. A Fraternidade quer ser para cada um de seus membros e para todos os homens um sinal modesto, mas verdadeiro de vida evangélica e de fraternidade universal.

7. Em razão da condição leiga de seus membros, a Fraternidade é uma comunidade ordinariamente dispersa. Por isso, os momentos de reunião são de grande importância. Quando a Fraternidade se reúne em nome de Cristo, a Fraternidade vive um tempo forte. Ali ela manifesta seus traços fundamentais. As reuniões realizadas ao longo do tempo da vida fortalecem a vocação. É essencial, pois que os irmãos participem ativa e regularmente dos encontros de sua Fraternidade. As reuniões haverão de ser muito bem preparadas para que produzam fruto e não cansaço e irritação.

8. A reunião não constitui um fim por si mesma. Sua finalidade é alimentar uma vida que precisa se manifestar ao longo do tempo. É ao longo da existência cotidiana que cada um traduz a realidade espiritual que consiste em ser membro da Fraternidade.

9. A Fraternidade é uma comunidade de irmãos, uma comunidade de escuta da Palavra de Deus, comunidade de oração, comunidade de partilha fraterna. Não se pode esquecer que a Fraternidade constitui uma plataforma onde se forjam missionários do Evangelho.

FREI ALMIR GUIMARÃES
Assistente Regional da OFS

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

sábado, 12 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS


Pais são histórias que atravessam anos. Encarnam valores tais como confiança, força, liderança, sustento, objetividade, proteção. Pais são ideais transformados em projeto de vida, são cuidadores da mulher e dos filhos, do biológico ao espiritual, do afetivo ao material estão ali. Têm um papel determinado na família e na sociedade. Pais são aqueles com quem primeiro brincamos na infância, com quem fizemos o dever de casa; eles repassaram segredos, disseram verdades, repreenderam com o olhar, e fizeram deles os nossos objetivos.

Pais são discretos, hábeis e ousados. Antecipam nossas intenções e guardam bugigangas úteis. Têm tino comercial e compreensão rápida. Buscam incansavelmente o bem dos filhos. Pais entendem os filhos em seus mundos; alegram-se e apoiam tudo o que de bom acontecem aos filhos, e trazem ideias para facilitar caminhos. Pais amam as mães. Pais deixam fluir coisas positivas, dão ânimo, mesmo nas dificuldades. Pais são necessários demais para moldar em nós o melhor de nós!

FELIZ DIA DOS PAIS!

FREI VITÓRIO MAZZUCO FILHO

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A conversão de Clara de Assis


Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM

A conversão é sempre um ato humano-divino, inicia-se na consciência, forja-se nas ações e se manifesta nas entrelinhas das relações humanas. Por seu caráter humano-divino, deve ser, antes de qualquer coisa, um itinerário, que tem início em um momento específico, como fiat – luz – mas, que continua ao longo da vida, através de pequenas e graduais conversões diárias.

Toda a vida é um itinerário de conversão. Foi assim com os grandes santos da História da Igreja, desde os primeiros séculos até os dias de hoje; muitos santos, os quais sabemos os nomes, e outros, que nem sabemos sua identidade, detalhes de suas vidas de santidade, bem-aventurados que permanecem no anonimato, diante dos olhos humanos, mas nunca diante dos olhos de Deus.

Muitos santos e santas morreram no anonimato de uma vida desconhecida e, não raras vezes, incompreendida e desvalorizada. Como esses foram chamados por Deus e deram a sua resposta, nós também o somos, no mistério da Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Somos convidados, cada instante, a subir o monte de nossa própria santificação.

Neste ensaio teremos como companheira de caminhada e exemplo a vida de Clara de Assis. A jovem Clara foi banhada em virtudes e no temor amoroso a Deus, sua alma sempre se impulsionou para o alto. Nosso Senhor, sempre lhe dispôs os meios necessários para isso, por sua Graça e Amor derramados. Essa realidade evidencia-se, em primeiro lugar, pelo surgimento na sua vida e história do pobre de Assis. Disso temos tantos testemunhos, um deles se dá por suas próprias palavras em seu Testamento: 

Depois que o altíssimo Pai celestial, pouco depois da conversão do nosso bem-aventurado Pai São Francisco, se dignou iluminar-me o coração para que, seguindo-lhe o exemplo, fizesse penitência, segundo a luz da graça que o Senhor nos comunicou através da sua vida maravilhosa e da sua doutrina, prometi-lhe voluntariamente obediência juntamente com as poucas irmãs que o Senhor me tinha dado, logo depois da minha conversão.[1]

Clara, conhecendo a fama de Francisco, homem novo, pelas virtudes e ações, quis, movida pelo Espírito Santo, conhecê-lo. Ele, sabendo de sua boa fama, visitou-a. Suas palavras encorajam a nobre dama, de mais reta intenção, a desprezar o mundo e suas falsas esperanças. A nobre dama é uma pessoa que tem a alma aberta a Cristo, ao amor de Deus e a sua Santa Vontade. Por isso, reservou sua vida e sua pureza virginal ao amor do Esposo, desejou fazer de seu corpo um templo só para Deus. Sua personalidade forte se manifesta, ao recusar-se ao casamento em uma época que a mulher não tinha vez nem voz, e tinha de se fazer ouvir. Nesse movimento, Clara tomou Francisco como pedagogo de seu caminho para Deus, para Cristo seu Divino Esposo.

Ouvindo falar de Francisco, cujo nome se ia tornando célebre e que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição tão abandonado pelo mundo, desejou vê-lo e escutá-lo. Neste propósito era movida pelo Pai dos Espíritos (Heb 12, 9), que, por diversos caminhos, a ambos conduzia. Na verdade, a fama de tão prendada menina, despertou em Francisco a vontade de a ver e de com ela dialogar. Levado de zelo pelo Reino, alimentava a esperança de arrebatar esta tão nobre presa à perversidade do século (Gal 1, 4) e entregá-la ao seu Senhor. Visitava-a ele, e ela mais vezes a ele. Mas as visitas eram espaçadas, não dando azo a que qualquer pessoa se apercebesse daquela santa amizade e se corresse o risco de ser desacreditada na opinião pública. Quando Clara saía de casa e se encontrava a sós com o homem de Deus, cujas palavras a inflamavam e cujas obras lhe pareciam sobre-humanas, era acompanhada somente por uma amiga. O Pai São Francisco exortava-a a desprezar o mundo. Demonstrava-lhe com vivacidade como é ilusória a esperança terrena e insensatos os atrativos mundanos. Procurava convencê-la da doçura da união esponsal com Cristo e convidava-a a guardar a joia da virgindade para Aquele ditoso Esposo que por nosso amor se fez homem.[2] 

Clara indica-nos o caminho. É uma pessoa aberta à Graça de Deus. Busca fazer uma experiência que tem como fundamento o amor de Deus e nele busca fundamentar seu itinerário. Mostra-se, em suas atitudes e passos prudentes, uma pessoa de boa índole e retíssima intenção. Desse modo, a conversão esculpe, com um grande, mas delicado formão, no coração e alma, e na mais profunda realidade de si mesmo, o caminhar na radicalidade da ação, gestos e condutas, assim foi com Clara de Assis. A finitude do humano, peregrino da conversão, mergulha na infinidade do divino de Deus, de sua santidade.

Iniciar esse itinerário de conversão não é garantia de santidade. O humano que se abre a esse processo aceita a si mesmo em primeiro lugar, suas limitações e defeitos e os combate, amorosamente, por causa de Deus. Faz de seu pecado o terreno fértil da ação de Deus. Assim, a conversão se dá na aceitação de si, aceitação esta que impulsiona e nutre o caminhar como húmus de sagrada sabedoria do alto. Esse húmus de aceitação e busca sincera, traduzido em humildade, faz mergulhar no mar da Graça gratuita e amorosa de Deus.

Clara, ao sair de casa, sabia que estava dando um novo e primeiro de muitos passos. No entanto, não tinha nenhuma certeza de como, nem onde se daria esse processo, estava nas mãos de Deus e com seu coração unido ao Dele. O que para ela importava nesse caminho é deixar-se guiar pela fé e pela plena confiança em Deus. Nas páginas de sua Legenda temos uma descrição belíssima de como passou do século para a Vida Religiosa, depois de convertida:

Temendo que o pó do mundo manchasse o espelho da alma imaculada e não querendo expor a juventude delicada ao contágio do século, tratou o santo Pai de a libertar o mais depressa possível das trevas da vida mundana. Poucos dias antes do Domingo de Ramos[3], a jovem, de coração inflamado e decidida a mudar de vida, procurou o homem de Deus, para inquirir sobre a forma como devia proceder. O santo Pai ordenou-lhe que se apresentasse bem vestida e adornada e que participasse com o povo na cerimônia de ramos e que na noite seguinte deixasse a cidade (cf. Heb 13, 13), transformando as alegrias mundanas em luto pela Paixão do Senhor (cf. Tig 4, 9). Chegado o Domingo, Clara, sobressaindo pelo aspecto festivo, dirigiu-se com os demais para a igreja. Ali, algo de muito significativo aconteceu. Na altura da distribuição dos ramos, Clara ficou modestamente retraída, no seu lugar. Foi o próprio Bispo[4] que, descendo os degraus, lhe fez a entrega pessoal do ramo. Na noite seguinte, obedecendo às ordens do santo, empreendeu a saída tão desejada em companhia de pessoas de sua confiança. Não lhe parecendo prudente usar a saída do costume, optou por outra, abrindo com as próprias mãos e com uma força de que ela mesma se admirava, uma porta que há muito tempo estava obstruída com madeira e pedras[5]. Desta maneira deixou a casa, a cidade e os familiares e apressou-se a ir para Santa Maria da Porciúncula. Os irmãos que à volta do altar celebravam as sagradas vigílias, receberam a virgem Clara com tochas acesas. Ali se libertou da imundície da Babilônia (Dt 24, 1) e repudiou tudo o que era mundano. Renunciando a todos os adornos, consentiu que os irmãos lhe cortassem os cabelos. Não havia lugar mais adequado para testemunhar o nascimento desta Ordem de florescente virgindade, que esta igrejinha dedicada àquela que é a primeira e mais digna entre todas as mulheres, Mãe e Virgem ao mesmo tempo. Foi neste lugar que, sob a égide de Francisco, teve início a nova família dos pobres. Ficou assim manifesto que ambas as Ordens quiseram começar à sombra da proteção da Mãe de misericórdia. Depois de Clara ter recebido perante o altar de Nossa Senhora as insígnias da santa penitência e de ter desposado Cristo como humilde serva, Francisco levou-a para a Igreja de São Paulo, onde deveria ficar até que o Altíssimo dispusesse doutra maneira.[6]

Destarte, voltemos à primeira premissa de nosso itinerário: a conversão é sempre um ato humano-divino. A busca sincera e reta de Clara é fundada na Encarnação de Cristo, feito homem por amor a nós. Através da vida e exemplo de Clara, Deus faz convite para esculpir em cada alma, iniciando-se assim a plenificação do humano no Divino de Deus, isto é, em sua santidade.

http://www.ofmscj.com.br/?p=5564

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

No coração do minorismo


O texto que colocamos na mão de nossos leitores e nossas leitoras e que aborda uma faceta da espiritualidade evangélica e clariana, ou seja, o minorismo, é quase tradução de  artigo publicado na revista espanhola    Vida Religiosa  (1994) p. 206-213: Clara de Asís. En el corazón de  la minoridad, de  Daniel Elcid. O autor descreve com beleza e profundidade a trajetória de Clara, nossa irmã.
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Esta é uma reflexão sobre Santa Clara sob o prisma do minorismo. Toda a vida dessa mulher se passa sob o signo da simplicidade e da discrição.  Tudo é simples, ela é uma irmã menor. A vida inteira de Clara é vida de amor e, particularmente, vida de amor numa postura num espírito de serviço.

Em Francisco e Clara, “minorismo” não deve ser entendido como categoria social (nobres e plebeus). Minorismo quer dizer um modo evangélico de viver. Quando Francisco afirmava categoricamente que os seus irmãos iriam chamar-se de “menores”, tinha consciência que esse apelativo lhe havia sido revelado por Deus. Desde o começo colocou-o nos mais primitivos esboços de Regra que andou fazendo. O Poverello tinha bem em mente a passagem do Evangelho: “Aquele que quiser ser o maior entre vós, faça-se o menor” (Lc 22, 26). “O menor no reino dos céus, esse será o maior”  (Mt 11,11).  Com Francisco nasceu na Igreja uma das mais nítidas formas “do espírito de infância” do Evangelho.  Clara, por sua vez, o “feminizou”. Nem por isso, Francisco perdeu seu jeito cortês, nem clara os vestígios da aristocracia. Os dois simplesmente sobrenaturalizaram caráter e temperamento. Clara renunciou real e radicalmente à estirpe do sangue – real e radicalmente também – a  aristocracia do espírito. Nela minorismo e elegância não se excluem, adquirem novo e ótimo sentido, humana e divinamente.

Os núcleos vitais de Clara são poucos. Podem ser reduzidos a três: pobreza, fraternidade e  contemplação.  Estas páginas, na verdade, não constituem um estudo sobre o minorismo de Clara, mas uma breve apresentação da Irmã menor que ela foi. Mais uma!

Descendo rumo à pobreza real

Pela manhã houve festa na catedral. À noite a festa foi na Porciúncula, naquele março de 1212. As coisas não começaram ali.  Já haviam passados meses e anos. Deus foi tentando juntar dois caminhos  que pareciam divergentes:  um jovem burguês que havia lutado militarmente contra a nobreza da cidade e de uma jovem da alta linhagem de Assis. Ele, Francisco, feito pobre e mendigo por  Cristo e  Clara que, além de nobre, era rica e formosa. O coração de Clara se deixou arrebatar pela loucura de Francisco. “Pouco depois da conversão de Francisco, o Senhor se dignou por sua misericórdia e graça, iluminar meu coração”. Durante mais de um ano Clara guardou esse segredo como só sabem fazer os enamorados. Na Porciúncula,  Francisco esperava  por Clara, o mais novo membro de sua família.  Naquela noite, Clara veio acompanhada de sua mais fiel amiga, Bona de Guelfuccio. Pelos caminhos, entre árvores, talvez os dois conversassem. Quem sabe Francisco veio acolhê-la ainda no caminho. Entre o desfilar das árvores os dois dialogavam. Dialogavam como fazem os enamorados, dizendo sempre as mesmas coisas. Atenção! Eles não falavam sobre si mesmos.  “Francisco a exortava sempre a que se voltasse para Jesus Cristo”,  atestou  Quer dizer que se convertesse, como ele, à pobreza evangélica onde ele, Francisco, havia  encontrado liberdade, alegria e amor. O amor a Jesus Cristo. Clara suspirava por esse amor. Estava disposta a tudo perder para viver uma tal entrega. Caminhos secretos e colóquios ardorosos amadureceram  a grande decisão.

Pela manhã houve festa na Catedral, no Domingo de Ramos de 1212. Clara assistiu a tudo com suas belas toaletes. Belamente vestida em sua exuberante juventude, como vestida de noiva para o Amor mais ideal. Aconteceu algo inusitado. Todos foram chegando perto do degrau inferior do presbitério para receber o ramo de palma das mãos do Bispo ou por ele abençoada.  Clara, absorta em seu amor interior, não se mexeu do lugar onde estava.  O bispo Guido conhecedor do segredo desta divina abstração, desceu os degraus, foi na direção de Clara e colocou a palma em suas mãos diante dos olhos admirados e curiosos de todos.  Clara, feliz mas ruborizada, considerou o acontecido como um prelúdio preparado por Deus, alguma coisa que não estava no programa.

À noite aconteceu festa na Porciúncula. A façanha tinha sido planejada por Francisco, com pleno acordo de Clara, e com a bênção do senhor À noite quando todos dormiam na casa-palácio dos  Offreduccio,  Clara havia tratado dom  Pacífica, irmã de  Bona. Saíriam pela porta dos mortos, por onde só passavam os cadáveres. Numa volta do caminho a esperavam os companheiros de Francisco que as guiaram até a Porciúncula. Em Santa Maria dos anjos houve o rito inesquecível e sem condições de ser repetido. Clara despojou-se de suas vestes de gala. Francisco cortou os cabelos da jovem e a revestiu com uma túnica simples com um cordão na cintura, um manto de tecido pobre e na cabeça um véu escuro e simples, sinal de consagração  esponsal ao Senhor, naquela noite, naquela pequena família de irmãos menores, nascia a primeira irmã menor.

“A façanha, além disso, foi simbólica descer a ladeira empinada do Subásio para um lugar na planície, foi mais do que uma fuga romântica durante a noite: foi lançar-se heroicamente de um estado para outro, da riqueza para a pobreza, da nobreza para a humildade, da aristocracia para um estilo simples de viver. Foi também  encontrar a verdadeira riqueza e com a mais alta nobreza de espírito A alegria daquela decisão  durou a vida toda. Aquela que pelo  sangue pertencia ao partido dos “maiores”,  passava para sempre para  os lado  dos “menores evangélicos”.

A primeira coisa que fez, enquanto pode, foi vender a herança que lhe tocava e sem reservar nada para si, a distribuiu entre os pobres. Mesmo com exigências da família Clara deu a herança  aos pobres.

O Senhor a fez fecunda de numerosas imitadoras, muitas delas da mesma esfera social sua, começando a Ordem das irmãs pobres com um estilo de vida semelhante ao de Francisco e os seus. Francisco se alegrou com o gênero de viver das irmãs: “Vendo o bem-aventurado Francisco  que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos  nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação  nem humilhação e desprezo do mundo e até julgávamos  tudo isso as maiores delícias, como pôde comprovar frequentemente em nós, a exemplo dos santos e do seus frades, alegrou-se muito no Senhor” (Test de Clara).

Tal plenitude de júbilo tinha como mola o amor, e este amor – este enamoramento tinha nome e sobrenome: “Jesus Cristo pobre e crucificado”. Tudo se fazia por amor a este Senhor que foi colocado  pobre no presépio, pobre viveu e nu foi levado ao patíbulo”. Francisco alimentou essa chama de amor enquanto pode  por meio de seu exemplo e de suas palavras.

“Visto que por divina inspiração vos fizestes filhas e servas do Altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposaste o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do  santo Evangelho, quero e prometo, por mim mesmo e por meus irmãos, ter sempre por vós  um diligente cuidado  e especial solicitude, assim  como tenho por eles” (Forma de vida  para Santa Clara).

“Eu, Frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e perseverar nela até ao fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho para que vivais  sempre nesta santíssima  vida e pobreza. E estai muito atentas para, de maneira alguma, nunca vos afastardes dela pela doutrina ou conselho de alguém” (Última vontade escrita para Santa Clara).

Clara guardava esses escritos como se fossem mais preciosos que o ouro e os incorporou à Regra. Os dois bilhetes de amor se resumiam num apelo à busca da perfeição, da santidade.  Clara e suas irmãs, enamoradas pelo Cristo pobre, fizeram o desponsório com o Rei dos Reis, sentado no trono das estrelas.

No âmbito da fraternidade franciscana

No léxico franciscano há dois substantivos chaves: minorismo e fraternidade. Prefiro fraternidade a minorismo. Franciscamente sendo irmão sou servo de meus irmãos. Foi o que se passou com  Francisco e Clara.  Não pretendiam eles inicialmente fundar uma Ordem.  Deus deu irmãs a Clara e foi surgindo a realidade calorosa da fraternidade, foram se multiplicando essas fraternidades  a ponto de ir se constituindo  uma grande família espiritual. Clara não fundou nada.  Jamais se designou fundadora.  Para ela o fundador e plantador fora sempre Francisco e ela, com gosto, se designava de sua plantinha. “Plantinha” de São Francisco:  próprio e belo  nome com que Clara batizou  seu minorismo.

Evidentemente, Clara passou para a história como verdadeira mãe da fraternidade franciscana feminina. Foi mãe antes de ser abadessa, cargo e título que teve que aceitar por imperativo jurídico e a instâncias persistentes de Francisco.  Tal aconteceu três anos depois de estar exercendo com naturalidade, sem discussão  a “função” de irmã-madre. A partir de então, preferiu usar a expressão “vossa abadessa e mãe”.  Mas a sua última palavra testamentária – como sua assinatura e rubrica final  –  é “vossa mãe e serva”.

Todo seu esforço foi o de criar fraternidade: “mostrem-se sempre as irmãs preocupadas em manter entre si a unidade do amor mútuo”, “amando-se mutuamente” com a caridade de Cristo”, mostrando exteriormente o amor íntimo que alimentam para com todas as irmãs. Seu primeiro  biógrafo  afirma que Clara formava as irmãs  com método certo e delicado amor, especialmente mediante reuniões semanais  de toda a comunidade, momento em que deliberavam  sobre todos os assuntos. “Muitas vezes o Senhor revela à menor o que é mais conveniente”.

Sim, Clara foi uma irmã-mãe e uma mãe-irmã: deitadas e já adormecidas as irmãs no grande dormitório, Clara se levantada discreta e escondidamente e observava cada cama e cobria com carinho as que na inconsciência do sono estavam descobertas para que não viessem a ter resfriado; era complacente  com aquelas que por um motivo ou por outro  tinham dificuldades com o rigor da vida comunitária e fazia assim para que as irmãs ficassem contentes. Quando notava que algumas demonstravam tristeza tomava-as à parte e sondava o motivo de tal tristeza  “consolava a ponto e chorar com elas”. As melancólicas, hoje diríamos as estressadas,  levava-as a um lugar separado, ajoelhava-se a seus pés com o intuito de tomar para si  sua melancolia  e levantava o seu ânimo  com maternais carinhos;  com as enfermos chegava quase a se desmanchar e aquilo que ela fazia transformou em lei na Regra que escreveu:  indagar por si mesma ou por outras irmãs  o que seria útil para aliviar seu sofrimento.

Esta fraternidade materna de Clara e das suas irmãs tornou-se muito dinâmica. Com expressões da bula de canonização  “vivia fechada no estreito espaço claustral de São  Damião, mas os raios da comunidade iluminaram para fora” convertendo os muros do convento em paredes transparentes, sim, vidros transparentes e assim iluminando o mundo.  Não somente multiplicando o número de mosteiros (no momento de sua morte já existiam na Europa mais de cem) mas atraindo pessoas a São Damião, pessoas que vinham pedir oração confiando na eficácia da oração daquelas santas irmãs:   pessoas de toda idade e todas as classes sociais, clérigos e cardeais e até mesmo papas. O próprio Francisco se conectava com Clara e suas irmãs buscando a luz divina nos momentos de crise. E o Papa Gregório IV chegou a considera-la “a mãe de sua salvação”.

Humildade pessoal

Este parágrafo é simplesmente complemento dos anteriores. Se a pobreza e a fraternidade  marcaram o desenvolvimento clariano do minorismo, a humildade constitui o seu miolo mais íntimo: só é evangelicamente menor aquela pessoa que é humilde;  somente a humildade forja  evangelicamente o minorismo, somente ela cria fraternidade evangélica, isto é, com desaparecimento do ego.

Desta maneira foi humilde Francisco e também do mesmo modo Clara, os dois “no seguimento da pobreza e da humildade  do amado Filho de Deus e da gloriosa  Virgem Maria, sua Mãe”.  Os exemplos são numerosos demais nas Fontes. Tomemos uns poucos:  mandava as irmãs executarem alguma coisa sempre com muito respeito, a maior parte das vezes fazia o que precisasse ser feito sem mandar as irmãs;   servi-as com gosto e carinho; lavava seus pés, limpava os vasos das doente.

O autor do artigo destaca um caso narrado no Processo de Canonização. Aconteceu com uma das irmãs externas.  Quando estas voltavam  Clara tinha o hábito de lavar-lhes os pés e, como final do rito, beijá-los. Certa vez, a que tinha sido lavada, no momento em que Clara ia beijar seus pés não suportou tanta  humildade, retirou bruscamente o pé e tocou o rosto da abadessa com o pé.  Clara se regozijou e tomando o pé no ar, beijou-o.  Clara realizava uma ação simbólica  que poderia colocar-se ao lado de tantas outras ações.  Com esse beijo, ajoelhado e afetuoso,   colocou como que o selo de sua característica  firmeza de “mulher-mulher” a serviço de sua humildade e de seu amor, de seu minorismo. Era sua assinatura.

Nos píncaros da contemplação enamorada

No parágrafo anterior comentamos  o dinamismo da humildade de  Clara “para baixo”, para com as irmãs. Agora o autor do artigo pretende examinar a humildade de  Clara para cima, seu minorismo diante do Sublime, sua vida altamente contemplativa.

Afirmemos logo que esta grande contemplativa contemplava Deus  no mais elevado e no mais baixo. O Altíssimo Pai celestial  esteve como luz  suprema no começo de sua vocação e durante o curso de sua vida como o outorgador de toda graça, como meta suprema de sua vida. Queria que ela e suas filhas chegassem até o trono da gloria do grande Deus. Como seu pai e modelo  Francisco  cantava  ao “Altíssimo Onipotente  e Bom  Quando enviava irmãs para a coleta de alimentos pedia que observassem as árvores bonitas e frondosas e louvassem a Deus. Quando vissem os homens também  louvasse a Deus pelas coisas boas que eles fazem. Clara  conheceu e viveu a contemplação  do Absoluto, do Deus Uno em três pessoas e o Espírito.   Tinha a Trindade bem presente em sua vida, mesmo quando trabalhava.  Tanto é assim que escreveu na Regra  essa norma franciscana: “de modo que o trabalho não extinga o espírito da santa oração e devoção a serviço  do qual devem estar todas as coisas temporais”. O relacionamento fixo e fundamental de Clara com  Deus  era de filha com o Pai, da criatura com seu Criador, da devota diante  do Sublime. No Processo se diz:  “Permanecia  muito tempo  prostrada por terra”. Tinha o rosto iluminado quando saia da oração. As irmãs se alegravam como se ela estivesse vindo do céu. Irmã  Benvinda de Perusa chegou a ver em  Clara um halo de luz.

Clara viveu a contemplação do Absoluto nessa dimensão tridimensional  que é o  mistério do Pai  do Filho e do Espírito Santo. Deve-se, no entanto, afirmar sem receio que para ela o mistério  de Deus se reduzia e como que se concentrava  na contemplação “daquele  Filho do Altíssimo que a Virgem deu a luz”, seu “Jesus pobre e crucificado”: em seu minorismo mais radical  ela se humilhava diante de Deus,   ante o Deus aniquilado na encarnação e na paixão. Muitos de seus textos espirituais  que começam com uma breve menção de Deus  terminam na contemplação do  Cristo pobre e crucificado, como se o imenso Sol da divindade se refletisse  com toda claridade no pequeno espelho   do “Filho do Altíssimo e da gloriosa Virgem”. A imagem do espelho foi certamente a mais feliz e perfeita de suas criações literárias. Esse espelho que ela olhava continuamente,  compunha-se de três refrações: na parte inferior o “Rei dos anjos reclinado no presépio” no centro “ os muitos trabalhos  e sofrimentos que suportou para a redenção  do gênero humano” e na parte superior  “seu inefável amor ao padecer livremente no lenho da cruz  e nele morrer com a morte mais infame. Seu método? Olhar, meditar, contemplar.   Talvez dissesse: “Não te esquecerei  jamais, minha alma agonizará dentro de mim”  (Lamentações  3,20):amor por Amor, aniquilamento por Aniquilamento.

Assim como o acontecimento do Alverne constituiu o cume místico da vida de Francisco, com a estigmatização, pode-se dizer que para Clara foi um Tríduo santo. Desde o anoitecer da Quinta-feira santa até a noite do sábado, no lugar habitual de sua oração, permaneceu absorta, alheia a si mesma e a tudo com um olhar  inefavelmente perdido. Uma de suas  filhas,  sua parenta,  entrou onde a Madre estava e testemunhou que ela estava alienada. Até que no sábado,   já de noite,  não pode  mais e acercou-se no rosto de Clara com uma vela acesa  e exigiu que voltasse a si em obediência a São Francisco  que lhe havia ordenado de não passar um dia sem comer.  Clara como que voltando de outro mundo, exclamou:

- Para que esta vela acesa?  Estamos de dia, não é?
– Madre, respondeu a irmã sua parenta –  foi uma noite, passou-se um  dia inteiro e chegou outra noite.
-Bendito seja este sonho, filha amada, porque foi concedido o que eu tanto havia aspirado. Enquanto eu viver não conte a ninguém.

Foi um sonho pascal. Talvez essa monja parente tenha sido Irmã Amada, sua sobrinha, que  Clara havia conquistado  para o amor do Crucificado na flor de sua juventude quando esteve em São Damião para notificar à tia  seu casamento com um cavaleiro.  Esta mesma Irmã Amada  que numa outra noite de sexta  para sábado, a última semana de Clara nesta terra, ouviu sua santa tia  perguntar-lhe,  imersa  no mistério radiante de outro êxtase:  “Não vês o que eu estou vendo? O Rei da glória?”

Estava aniquilada de gozo diante do seu amor crucificado e glorioso

Até o fim

Assim viveu, assim morreu. Poderíamos descrever a sua morte  como o ocaso esplendoroso  de uma contemplativa  “menor” e o foi em todos os pormenores,  preciosos pormenores.  Contentar-me-ei com um só,  como uma pérola final.  Em uma de suas últimas noites agônicas, Clara profere surpreendentemente estas palavras: “Vai segura, porque tens uma boa escolta para o caminho. Aquele que te criou antes de te criar previu que  te santificaria.  Logo que te criou derramou em ti o Espírito  E cuidou de ti como uma mãe cuida do seu pequenino”.

- Com quem estás falando, Madre? Para quem estás dizendo  estas palavras?
– Falo com minha alma bendita.

Falava consigo mesma, esta bendita mulher de sessenta anos, contemplando todo o curso de sua vida sob o arco-íris  da bondade de Deus pairando sobre ela. Era a experiência alegre de sua pequenez  amada e protegida  pelo Senhor sempre e em tudo.  Deixou definitivamente sua assinatura  no epílogo de tudo: “Graças, Senhor, por me teres criado”.

Estrofe culminante de seu divino otimismo vital e canto de cisne de seu minorismo.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

O cuidado na espiritualidade de Santa Clara


Madre Maria Pacífica

Com jubilosa ação de graças, pela celebração do mês clariano, nos dispomos a desenvolver o presente tema, em atenção à solicitação de Frei Gustavo Medella.
Preparando o 90º aniversário da Fundação desta nossa Porciúncula da Gávea – Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos, no Rio de Janeiro, faz-se mister um mergulho nas Fontes de nossa espiritualidade clariana, para sempre mais nos afervorar e revigorar na vivência de tão magnífico carisma.

A Mãe Santa Clara tem particular cuidado pela vocação, quando escreve, no primeiro parágrafo, de seu Testamento: “Entre os benefícios que temos recebido e ainda diariamente recebemos da generosidade do Pai de toda misericórdia e, que devemos agradecer a Ele, o Glorioso, o maior é a nossa vocação. E, justamente porque ela é tão perfeita e tão grande, somos mais ainda obrigadas a dedicar-nos totalmente a ela. Por isso é que diz o Apóstolo: “Reconhece a tua vocação”.

Escreve, ainda, no 2º Capítulo de sua Regra: “Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco, querendo abraçar esta forma de vida…”(1). Havia recebido do seráfico Pai essa terminologia que lhe é tão cara, e a transcreve no Capítulo central da Regra: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celestial, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo uma vida conforme a perfeição do santo Evangelho…(2). Como lâmpada para o caminho, o seráfico Pai entregou a Mãe Santa Clara a Forma de Vida. Está inspirada naquele instante – o Evangelho da Anunciação – em que o fogo eterno do Espírito desceu sobre o feminino, tocou-o e eternizou-o, como lugar de manifestação numa virgem. Com esta luz na alma, a capacidade receptiva dilata-se como um espelho da ternura de Deus(3). Clara, por sua vez, narra seu biógrafo, Tomás de Celano, “como mestra de jovens a serem formadas e qual preceptora encarregada, no palácio do grande Rei, do cuidado das adolescentes, as educava com tal pedagogia e as fazia progredir com tão delicado amor, que não há palavras para exprimir toda a sua dedicação. Primeiramente, ensinava-lhes a afastar o ruído do coração para que pudessem perseverar firmes e unicamente na intimidade com Deus. Depois lhes ensinava a não se deixarem levar pelo amor aos parentes carnais e a esquecer a casa paterna se quisessem agradar a Cristo”(4). Assim, se temos inspiração, podemos realizar grandes obras de arte. A Madre Santa Clara decidiu fazer de sua vida a mais bela obra de arte, tendo como modelo o próprio filho do Altíssimo que Se fez nosso Caminho(5). Seus Escritos, o Testamento, a Regra e as cartas estão repletos de referências ao tema.

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O cuidado pela vocação está muito relacionado com o cuidado pelas irmãs, conforme a orientação apresentada pela seráfica Fundadora sobre o acolhimento à candidata: “Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco, querendo aceitar esta forma de vida…(6). Ao considerar que cada pessoa se apresenta para abraçar a forma de vida, sob inspiração divina, Clara recorda à comunidade a responsabilidade do bom exemplo, já que teremos de dar contas ao divino doador (cf TSC 22). Assim adverte: “O Senhor nos deu um exemplo, um modelo e um espelho, não apenas para os outros, mas também para as nossas Irmãs. Pois elas foram chamadas por Ele à mesma vida à qual Ele nos chamou, a fim de que também elas fossem um espelho e um modelo para os homens do mundo(7).

Uma de suas características mais notáveis no cuidado pelas irmãs é a forma de governo: as decisões não vêm do alto, mas são tomadas de comum acordo, em Capítulo, com a participação de todas. A abadessa “consulte todas as Irmãs a respeito de tudo o que é bom e útil para o convento; pois muitas vezes o Senhor revela ao menor o que é melhor(8). Isso denota como a Fundadora valoriza a opinião de todas, ao mesmo tempo que torna cada Irmã participante e consciente da construção da comunidade. Com sabedoria, profundamente conhecedora da psicologia feminina, sabe que é possível surgirem problemas e delega a cada uma a responsabilidade de ajudar a resolvê-los.

A santa Madre Clara multiplica palavras de ternura quando roga à Abadessa que a suceder particular atenção e cuidado para com suas irmãs. Chega a usar a expressão de que seja como a “serva para com sua senhora”(9). Aliás, a própria expressão “irmãs” é algo totalmente novo na terminologia monástica medieval. O próprio seráfico Pai tratava-as como “senhoras”. A expressão corrente de então era “Dona”. Clara usará 66 vezes em sua Regra a denominação “irmãs”, firmada na experiência pessoal do amor que nutria por suas irmãs de sangue, que depois a seguiram na vocação religiosa. Seguindo os ensinamentos do Divino Mestre, lavava os pés das irmãs externas, quando voltavam do trabalho fora. Nas noites frias, cobria-as com as próprias mãos, enquanto dormiam e, se alguma, como acontece, estivesse triste, ou perturbada, chamava-a à parte e a consolava(10). Lavava ela própria os vasos sanitários das enfermas, recomendando àquela que, depois dela, tivesse o cuidado das Irmãs particular solicitude para com as Irmãs enfermas. Seu Processo de Canonização é rico em testemunhos de todos os que experimentaram a ternura e o socorro da Santa Mãe em todas as suas tribulações.

Também os Irmãos da I Ordem puderam experimentar seu cuidado materno. Fato conhecido é o do Frei Estêvão que, atacado pela loucura, foi, pelo seráfico Pai, encaminhado à Santa. Após confortá-lo com palavras de doçura, Clara deixou-o repousar no local onde ela própria repousava. Ao despertar estava totalmente curado(11). Imagine-se, hoje, permitir a um Frade dormir na cela de uma Irmã, ou na enfermaria do Mosteiro! O fato demonstra a firmeza e a liberdade de espírito da seráfica Fundadora. Tanto seu biógrafo, quanto as testemunhas do processo confirmam, como que querendo salientar a grandeza de alma dessa jovem Abadessa, tão comprometida em aliviar o sofrimento de seus irmãos.

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As Irmãs Clarissas do Mosteiro da Gávea com Dom Orani Tempesta

Tal cuidado reflete-se particularmente na fidelidade à santa pobreza, colocando todo empenho possível para ensinar suas Irmãs a afastar qualquer impedimento à total consagração ao sumo Bem amável!

“Ama totalmente aquele que totalmente se entregou por teu amor!(12)

Era comum então, que os Mosteiros obtivessem suas cartas de privilégio, isto é, certas isenções e favores em face a senhores feudais ou às imposições eclesiais. Clara também pensou em obter um privilégio para que, após sua morte, suas filhas não fossem obrigadas a abandonar o ideal abraçado. Solicitou um inteiramente singular “Privilégio da Altíssima Pobreza”.

Muitos são os testemunhos, tanto no Processo, quanto na Legenda, da firmeza da Santa perante Gregório IX. Desejando este absolvê-la do voto de altíssima pobreza, a Plantinha adquire gigantesca robustez para enfrentar o Pontífice e dele obter a confirmação do Privilégio já obtido do Cardeal Protetor.

Esse documento terá excepcional significado para a Ordem. Gregório IX parece tê-lo escrito como sendo ditado pela Santa, impressionado e motivado por suas veementes súplicas.
A partir desse encanto pela pobreza, à imitação do Pobre de Nazaré, a Mãe Santa Clara compreende o trabalho como uma graça. Retoma, em sua Regra, a expressão do Pai São Francisco: “As irmãs às quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem, a partir da Hora Tércia…”.

“Com o oferecimento de seu trabalho a Deus, os homens se associam à mesma obra redentora de Jesus Cristo que, trabalhando com suas próprias mãos em Nazaré, deu ao trabalho uma dignidade supereminente”(13). Tal ensinamento do Concílio Vaticano II, muitos séculos depois, vem complementar, na Vida Religiosa, o que foi intuição, vivência e ensinamento dos nossos seráficos Fundadores.

Ao aconselhar que o trabalho seja subordinado ao espírito de oração e santa devoção, a grande Mestra idealiza o que vem a ser o dia-a-dia de uma alma franciscana, no cuidado pela vida de oração e contemplação.

Assim, escreve: “Considero-te colaboradora do próprio Deus e sustentáculo dos membros frágeis e abatidos do seu inefável corpo que é a Igreja”(14).

A vida contemplativa tem o domínio da ação e do tempo. Outrossim, contemplar à maneira cristã não é um ‘exercício’ ou uma etapa de itinerário espiritual, mas uma consciência do Presença do Amado no templo da intimidade, da fraternidade e do universo. E quantas vezes resplandece assim na alma a ordem do universo, atraindo à contemplação, em meio à maior atividade produtiva! Sabemos, por experiência, em nosso dia a dia, da necessidade do silêncio contemplativo e orante para executarmos o trabalho em espírito de devoção, em atitude amorosa que unifica o ser! Daí se mergulha na mais pura contemplação, donde emergem as mais belas obras. Haja visto a delicadeza dos trabalhos manuais das Irmãs! Como já dizia o saudoso Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, referindo-se às Clarissas Pobres da Gávea: “É admirável, como as mesmas mãos que cavam com a enxada, semeiam e plantam, depois bordam, com perfeição, os mais belos traços, confeccionando alfaias para o culto divino com indizível delicadeza! E ainda: “Há as que esfregam o chão e os mesmos dedos escrevem belas páginas de espiritualidade!”
Clara, em sua Regra, indica o primado de Deus! Nas cartas, derrama a caridade do Espírito. Ela é a mestra de vida que convida a olhar o “espelho da eternidade”! Seu conselho “olha, considera, contempla” traduz o mesmo ensinamento da Mãe Santíssima: “Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,11).

“Olha” – é o exercício da fé que vê além!

“Considera” – é o esforço de aplicar os sentidos nas manifestações do Senhor – em tudo – mas sobretudo na meditação da Palavra de Deus, a qual fazemos voto de observar. Essa é a Regra!

“Contempla” – é saborear no interior o que os sentidos receberam e guardaram.

Clara recomendava às Irmãs Externas, quando as enviava para servir fora do Mosteiro, que louvassem a Deus ao verem as árvores bonitas, frondosas e belas; e, de maneira semelhante, quando vissem homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas(15).

Sendo o fruto da contemplação o louvor e a perfeita sintonia com a criação, Clara viveu esta plena harmonia. Narram as Testemunhas do Processo de canonização que, estando a Santa Madre muito enferma, de modo a não poder levantar-se, necessitou de uma toalha e, não havendo ninguém para levar-lhe, uma gatinha que havia no Mosteiro começou a puxar e arrastá-la, como podia. Então a senhora disse: “Bobinha, não sabe carregar; por que está arrastando no chão?” Então a gatinha, como se entendesse, pôs-se a enrolar a toalha para que não encostasse no chão. Segundo a Testemunha do Processo, tal fato foi-lhe narrado pela própria Santa!(16).

Seu derradeiro hino de louvor, veio no momento de sua passagem deste mundo, conforme relatam diversas Irmãs em seu Processo de Canonização. Na mais jubilosa contemplação do Rei da Glória, “a virgem, entrando em si, fala silenciosamente à sua alma: ‘Vai segura, porque tens um bom companheiro de viagem. Vai, porque Aquele que te criou, também te santificou e, cuidando de ti como uma mãe vela por seu filhinho, te amou com terno amor. Senhor, sede bendito porque me criastes!”(17).

Enfim, a vida de Clara de Assis, em perfeita sintonia com a criação, acolhe também a irmã morte com solene “Laudato si’!

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MADRE MARIA PACÍFICA DO JESUS CRUCIFICADO

É a abadessa do Mosteiro da Gávea. No último dia 13 de maio, completou 62 anos de vida religiosa. Nasceu há 82 anos na cidade de Andradas, no Sul de Minas Gerais, onde foi batizada como Gláucia Garcia de Almeida. Ingressou na Ordem de Santa Clara em 1955, aos 20 anos.

Bibliografia e citações
1. RSC 1 / 2. RSC 6,1-3 / 3. Vitória Triviño “ Esp. de S. Clara, pg 53 / 4. LSC,36 / 5. TSC 2; cf Jo 14,6 / 6. TSC 2 / 7. TSC, 6 / 7. TSC, 6 / 8. RSC, 4 / 9. 3CSC / 10. Proc. / 11. Proc. 2,15 / 12 3CSC, 8 / 13. Gaudium et Spes, 67 – Iriarte: Letra e Espírito, 79 / 14. 3CSC / 15. Proc, 14 / 16 Proc. 9, 8 / 17. LSC, 46

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Clara de Assis


“Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!”
Caríssimos irmãos e irmãs,

Que o Senhor vos dê a paz e todo o bem!

Por ocasião da Festa de Santa Clara de Assis,  expresso nossos votos de boas festas e nossa comunhão fraterna a todas as pessoas que se encantam com o carisma franciscano, especialmente  nossas Irmãs Clarissas. Que Santa Clara de Assis nos inspire a viver na gratuidade o dom da vida e nos oriente na missão de bem “cuidar de tudo o que existe” na criação (LS 11)!

A Legenda de Santa Clara, quando relata o trânsito final da “Plantinha do Seráfico Pai Francisco” (TestC 37), com refinada delicadeza, apresenta um diálogo entre Clara, a “sua alma bendita”, e “o Rei da glória”, que ela “está vendo”. As Irmãs, que naquele momento estavam presentes e dela cuidavam na fragilidade física, assim testemunharam no Processo de Canonização quando ouviram um murmúrio místico no qual ela dizia a si mesma: “Vai segura, que você tem uma boa escolta para o caminho. Vai, diz, porque aquele que a criou também a santificou; e, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor. Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!” (cf. LSC n 46; PC 3,20; PC 11,3).

Em primeiro lugar, quero unir esta belíssima ação de graças, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, às palavras iniciais do Testamento de Santa Clara: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda a misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação…” (TestC 2-3).

GRATIDÃO

Sem dúvida, entre esses “outros benefícios”, encontra-se a dádiva que Clara, dois dias antes da sua morte, sussurra à sua alma em forma de louvor e ação de graças: a gratidão ao Criador “que a criou”, ou seja, a ação de graças pelo seu chamado à vida. Diariamente, ela louva o Doador de todas as graças, da forma como se expressou na segunda Carta a Inês de Praga: “Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva e todo dom perfeito” (2In 3), ciente de que ela e suas irmãs se fizeram “filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste” (RSC VI,3). Portanto, se filhas do Altíssimo, também foram criadas à imagem e semelhança do Criador que se reflete no Espelho Jesus Cristo que, por sua vez, irradia a “bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade” a ser contemplada “com a graça de Deus” (cf. 4In 18). Esta forma de vida necessita ser criada e renovada todos os dias: “Olhe para dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto…” (4In 15), num caminho penitencial de transformação total para se chegar, pela contemplação, “à imagem da divindade” (3In 13). Portanto, o murmúrio consolador de Clara à sua alma adquire um sentido profundo nesta ‘hora’ existencial quando se prepara para acolher a irmã morte corporal. Assim, a vida não termina na morte porque ela já contempla o “Rei da glória” que assim a “criou e também a santificou”.

Em segundo lugar, desejo unir este santo colóquio de Clara com sua alma e o Rei da glória, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, com o Cântico do Irmão Sol ou Louvores das Criaturas. Sabemos que este Cântico foi composto por São Francisco num momento existencial de crise e de sofrimento. O Pai Seráfico encontrava-se “numa pequena cela de esteiras em São Damião” (CA 83), bem próximo de Irmã Clara e Companheiras. Com o apoio de Frei Elias, ali Francisco se recolheu por cinquenta dias, pois estava muito “atormentado pela enfermidade dos olhos” e outras enfermidades. Certa noite, depois de passar por profundas tribulações, uma voz lhe disse: “Alegra-te e rejubila no meio de teus sofrimentos e tribulações: de hoje em diante vive em paz, como se já participasses do meu reino” (CA 83). No alvorecer do outro dia, dentro desse contexto, Francisco “compõe o Louvor do Senhor pelas criaturas de que nos servimos a cada dia, sem as quais não podemos viver e nas quais o gênero humano ofende o Criador…” (CA 83).

CLARA E O CÂNTICO DAS CRIATURAS

Francisco, no cantar a sacralidade da criação, harmonizando os elementos masculinos e femininos, canta o irmão sol e a irmã lua e as estrelas que “no céu formastes claras e preciosas e belas”; canta o irmão vento e a irmã água “que é mui útil e humilde e preciosa e casta”; canta o irmão fogo e a irmã “mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos com coloridas flores e ervas”. Assim, tão próximo às Irmãs de São Damião, onde viu “erguer-se a nobre estrutura de preciosíssima pérola” (1Cl 19), consciente ou não, Francisco integra no seu louvor às criaturas algumas virtudes que se refletiam na vida das damas pobres de São Damião. Entre essas, destaco a clara lua e estrelas, a virtude da humildade, a preciosidade da castidade e a fecundidade geradora de vida da Mãe-terra, não diferente da fecundidade espiritual que também gera vida na vida dessas mulheres consagradas no amor.

A aproximação do Cântico das Criaturas à vida de Santa Clara torna-se ainda mais evidente nas palavras de exortação de São Francisco, no texto intitulado “Audite Poverelle” (Ouvi Pobrezinhas). A Compilação de Assis nos recorda: “Depois que o bem-aventurado Francisco compôs os Louvores do Senhor pelas criaturas, compôs também algumas santas palavras com canto para maior consolação das damas pobres do Mosteiro de São Damião, mormente porque ele sabia que elas estavam muito atribuladas por sua enfermidade” (CA 84). E, assim, o Arauto do grande Rei cantou para Clara e suas Irmãs, da pequena cela, próxima a São Damião: “Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e províncias sois congregadas: vivei sempre em verdade, para que em obediência morrais. Não olheis a vida exterior, pois aquela do espírito é melhor. Eu vos peço, com grande amor, que tenhais discrição a respeito das esmolas que vos dá o Senhor. Aquelas que estão atormentadas por enfermidades e outras que por elas sobrem fadigas, todas vós, suportai-as em paz, pois vendereis muito caro esta fadiga, visto que cada uma será rainha no céu, coroada com a Virgem Maria”.

Aquela que tinha dificuldade de suportar a claridade da luz e, quem sabe, de enxergar com os olhos do corpo a beleza da criação, depois de uma síntese interior purificada no sofrimento, convida as Irmãs do Mosteiro a contemplar e louvar o Criador com o ocular do espírito, diferente e melhor do que olhar da exterioridade de quem se apropria indevidamente dos bens do Criador.

SIMPLICIDADE

Em terceiro lugar, uno o louvor de Santa Clara, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, à realidade da simplicidade da vida das pobres damas de São Damião. O recolhimento e o silêncio da clausura não as isolam da realidade da vida e da criação. Poderíamos indicar vários fatos e recolher muitos elementos da vida dessas servas de Cristo e analisar o quanto elas se integram na ótica franciscana acerca do cuidado da casa comum (Carta Encíclica Laudato Si’). Se Clara agradece a Deus pelo dom da sua criação, da mesma forma a vida de cada irmã é um dom de Deus. Por isso, ela entende que todas são chamadas a ser, por vocação, “modelo, exemplo e espelho” para restituir o “talento multiplicado” (cf. TestC 15-23).

Irmã Angelúcia, no Processo de Canonização, afirmou: “Quando a santíssima mãe enviava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente, quando vissem os homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas” (PC 14,9). Clara mergulha de cheio na concepção que Francisco tinha da vida e da criação, tão bem formulada no início da Encíclica Laudato Si’: A recordação de “que a nossa casa comum pode ser comparada ora a uma irmã, com quem compartilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe em seus braços” (LS 1).

Na Regra, ao orientar as Irmãs para uma forma de vida centrada na pobreza, Clara adverte a “não aceitar nem ter posse ou propriedade nem por si, nem por pessoa intermediária, e nem coisa alguma que possa com razão ser chamada de propriedade, exceto aquele tanto de terra requerido pela necessidade para o bem e o afastamento do mosteiro. E essa terra não será trabalhada a não ser para a horta e a necessidade delas” (RSC 6, 12-14). Esta concepção de pobreza contrasta com toda a tentação latifundiária de apropriação. E isso Clara repete outras vezes como podemos constatar no Testamento (Cf. TestCl 53), na carta a Inês de Praga quando fala da efemeridade dos “bens terrenos e transitórios” (2In 23) e, principalmente, quando pede à Igreja o Privilégio da Pobreza.

SINAIS SACRAMENTAIS

Também chamo atenção a três ‘sinais sacramentais’ do cotidiano da vida de São Damião (o pão, a água e o azeite) e que, a meu ver, são provocativos se pensarmos no consumismo destruidor do mundo de hoje. Quando Clara fala do exercício ascético do jejum, ela santifica os alimentos como um dom precioso da vida, manifestando-se misericordiosa e justa para com todas as necessidades das coirmãs (TestC 63-66). O pão mendigado (cf PC 3,13), o pão fatiado (PC 6, 16), o pão abençoado “como verdadeira filha da obediência” (Fior 33) é também o pão dos “pobres que ela muito amava” (PC 1,3) e sinal de penitência (RSC 9,2). A irmã água humilde, preciosa e casta, é sacramentalmente usada por Clara para lavar os pés e as mãos das enfermas (PC 1,12). E segundo o relato das Irmãs no Processo de Canonização, com frequência a Mãe Clara repetia o gesto do lava-pés como presença feminina de serviço (Cf. PC 2,3; 3,9; 10,6). No lavar os pés, ela se santifica e, no deixar-se lavar os pés, a sua santidade santificou a água (PC 10,11). A água, enfim, remete Clara à Cruz redentora e ao mistério pascal para recordar diariamente “a água bendita que saiu do lado direito de nosso Senhor Jesus Cristo pendente na cruz” (PC 14,8). Também o azeite faz parte do cotidiano da vida das Irmãs de São Damião. Quando este faltava, a providência divina não as deixava no desamparo (LSC 16).

Enfim, a sobriedade e a austeridade da vida no Mosteiro de São Damião, tanto no comer, como no vestir e no uso do dinheiro, é provocação e chamada de atenção ao nosso modo de viver, muitas vezes inflado pelo supérfluo, ostentado pelo luxo, negligenciado pelo desperdício, empedernido pelo capital e pelo uso do dinheiro. Essas condutas humanas, tão distantes de Santa Clara e de São Francisco de Assis, não deixam de ser um atentado ao Senhor da vida presente na vida dos pobres e uma agressão à “nossa terra oprimida e devastada, que está gemendo como que em dores de parto” (LS 2).

Que a bênção de Santa Clara chegue a todos nós: “O Senhor esteja sempre com vocês e oxalá estejam vocês também sempre com Ele! Amém”.

Fraternalmente.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM
Ministro Provincial

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Jornada do Patrimônio 2017

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Dia 19 de Agosto às 10 horas, na Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco, haverá a palestra com o tema: 
As ordens religiosas e suas festividades: as rotas processionais na Cidade de São Paulo. 
Palestrante: Rosangela Aparecida da Conceição
Endereço: Largo São Francisco, 173 - Sé
Duração: 60 mins.

Esperança e indignação no encerramento Capítulo das Esteiras

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Aparecida (SP) – A manhã do domingo, 6 de agosto, foi de Ação de Graças no Capítulo das Esteiras, que terminou ao meio-dia depois da Celebração Eucarística.

Frei Éderson Queiroz, o presidente da CFFB, passou para os capitulares a sua última mensagem, carregada de indignação pela atual situação do país e, ao mesmo tempo, animou os capitulares a não se acomodarem e a terem esperança. Ir. Cleusa Aparecida Neves, vice-presidente da CFFB, fez um resgate histórico do nascimento do Cefepal até a entidade de hoje e o Secretário Nacional da Juventude Franciscana, Washington Lima dos Santos, leu o documento final do encontro.

“É chegado o momento de recolheram os nossas esteiras e as lançarmos sobre o chão das periferias do mundo, transformando continuamente nossa maneira de Ser, Estar e Consumir em reposta aos apelos do Papa Francisco. A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio”, pede a Carta de Aparecida (veja na íntegra abaixo).

TERRA FRANCISCANA 

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Ir. Cleusa Aparecida Neves, vice-presidente da CFFB

Frei Ederson não economizou nos agradecimentos e homenagens ao finalizar o Capítulo das Esteiras que celebrou os 800 anos do Perdão de Assis, o Jubileu de Ouro da CFFB e os 300 anos da imagem de Nossa Senhora Aparecida. “Que história bonita nós temos na nossa Conferencia. Quantos e quantos e quantas nos assessoraram nos cursos, revistas, nos retiros, nos encontros de preparação para os votos, na animação vocacional e receberam apenas a passagem de ida e volta!”, agradeceu

“A nossa história é uma história santa. Por isso, como o Senhor pediu a Moisés, ele pede a nós hoje: tire as sandálias para entrar nessa terra. A terra franciscana no Brasil é uma terra santa. Tirar as sandálias é tirar o medo, tirar a angústia de que estamos acabando. Tirar as sandálias é tirar a indiferença com tudo aquilo que diz respeito a nossa vida em fraternidade. Tirar as sandálias é dispor-se de novo num caminho juntos. Tirar as sandálias é redescobrir a nossa interdependência. Nós nos dependemos uns dos outros para viver como família franciscana do Brasil. Aliás, o franciscano, a franciscana,  precisa do outro, como nosso pulmão precisa do ar, como o peixe precisa da água. Não há vida franciscana sem o outro. O outro é o grande dom depois que o Senhor me deu irmãos”, lembrou o presidente da CFFB.

Na sua homilia, como presidente da Celebração Eucarística, Frei Ederson refletiu sobre a Transfiguração do Cristo. “Meus irmãos e minhas irmãs. Este Capítulo foi um subir ao Monte Tabor. Saímos das nossas baixadas, dos nossos vales, viemos dos campos e das cidades, até da Espanha teve gente que chegou aqui. De carro, de avião, de ônibus chegamos a Aparecida. E, certamente, quando chegamos aqui, um cansaço, não apenas da viagem, mas da viagem que estamos fazendo no tempo e na história, nos abateu: cansaço dos desencontros, cansaço diante de uma decepção que vai tomando conta da nossa Pátria, pelos desmandos, pela corrupção, pela mentira, por tudo isso de nojento e de sórdido que está acontecendo debaixo dos nossos olhos; cansaço de uma paralisia. Estamos assistindo tudo estupefatos. Perdemos a força de ir para as ruas, de gritar ‘basta’, ‘fora’, sem temer nada e ninguém. Chegamos aqui cansados com as desventuras de nossa vida pessoal, da vida de família, da vida religiosa, do convento, da fraternidade, mas viemos ao Capítulo das Esteiras”, ressaltou o frade capuchinho.

Segundo Frei Éderson, esses dias em Aparecida “a voz do Pai se fez ouvir”. “Pela boca de Frei Vitório, a voz do Pai se fez ouvir; pela boca de Frei Luiz Carlos Susin, a voz do Pai se fez ouvir; pela voz dos testemunhos, pela voz dos irmãos e irmãs do Sinfrajupe, a voz do Pai se fez ouvir. E qual a voz do Pai ouvimos neste dia?”, perguntou.

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Ele emendou: “Família Franciscana, você é meu filho (a) bem amado. É esta voz que nos conecta, esta voz que nos integra, esta voz que cura, essa voz que traz um dinamismo, como deu o dinamismo a Jesus no Rio Jordão.  Quando Jesus ouviu, no Jordão, “tu és meu filho bem amado”, não foi mais possível voltar para Nazaré. Ele tinha que ser voz do Pai. E toda a vida de Jesus, todo o ministério de Jesus outra coisa não foi senão ser a voz do Pai. Família Franciscana você é filha amada”, animou, convocando: “E agora é preciso que cada possa fazer ecoar por esse mundo machucado, ofendido, de pobres maltratados e excluídos, a voz do Pai; é preciso que essa voz do Pai ressoe através de nós, nos nossos gestos, no olhar, na ternura de um abraço, na delicadeza de uma palavra, na proximidade. É preciso que o outro descubra-se filho (a) muito amado. Mas para isso Ele nos pede: escute o meu Filho. E Francisco entendeu bem essa lógica, por isso não se apartava do Cristo, não se apartava do Evangelho, não se apartava da fraternidade, não se apartava dos pobres, dos leprosos, dos mendigos”, salientou.

O frade lembrou que o Filho Amado, de transfigurado será depois desfigurado, será tomado de todas as dores e desatinos da humanidade e se deixa desfigurar na Cruz para nos transfigurar com a força da ressurreição para que não sejamos mais construtores de cruz e nem de realidades que desfiguram. “Tudo o que me desfigura, e através de mim os outros, eu tenho a ver com isso, porque somos filhos da transfiguração. Não somos filhos da desfiguração. E diante dessa realidade da qual estamos mergulhados, que desfigura, que rompe, que rouba a vida, que mata, nós não podemos ficar insensíveis, acomodados e passivamente assistindo. Diante de toda a desfiguração, nós somos discípulos e discípulas da transfiguração”, enfatizou.

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” A festa de hoje é a festa da nossa vocação. A nossa vocação é a glória, a plenitude em Deus. Não há glória e plenitude aqui porque isso é muito pouco e fugaz. A nossa glória é outra. Por isso, no caminho do descimento, no caminho da minoridade, no caminho de mergulhar nas realidades mais profundas da existência, a transfiguração acontecerá. É chegada a hora de partirmos de Aparecida. De retomarmos o nosso cotidiano e tomara a Deus que o nosso cotidiano nunca mais seja o mesmo depois deste Capítulo das Esteiras! Que possamos deixar o coração arder e, neste arder, fazer com que o ardor de Deus e por Deus contamine todas as realidades por onde vivemos!”, desejou.

Frei Gilson Nunes, conselheiro da CFFB, coordenou as equipes de trabalho deste Capítulo e as chamou todas para o palco. “Graças ao coração, ao olhar, a ternura, a maioria nos bastidores, desses irmãos é que o Capítulo Nacional das Esteiras foi esse verdadeiro Pentecostes, esse momento de graça. A vós,  irmãos e irmãs, obrigado de coração e que nós cresçamos cada vez mais na comunhão, na unidade”, agradeceu Frei Gílson.

AGRADECIMENTO À PROVÍNCIA DA IMACULADA

Frei Éderson fez um agradecimento especial a Frei Fidêncio Vanboemmel, Ministro Provincial da Província da Imaculada Conceição. “São muitas as pessoas que construíram a nossa história nesses 50 anos, mas nós queríamos dizer, de modo especial, a Frei Fidêncio que se a Igreja nos deu São Francisco, a Província da Imaculada nos deu as Fontes Franciscanas. Todos nós, de alguma maneira, somos filhos e filhas da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Basta olharmos só uma coisa: as publicações da Família. Lá pode ter dois, três, quatro ou cinco nomes de frades da Província da Imaculada. Aliás, o Cefepal foi para Petrópolis porque lá o Instituto Teológico nos deu suporte. Então, Frei Fidêncio e Frades Menores da Imaculada, a nossa gratidão. Frei Fidêncio teve um gesto muito bonito por nossa Conferência: em cada estado onde está a Província dele – ES, RJ, SP, PR e SC – nomeou um frade para acompanhar o Regional da Família Franciscana do Brasil. Esse é um gesto de anuência, de compromisso, de bem-querer. Muito obrigado, Frei Fidêncio por seu gesto!”

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ÍNTEGRA DO DOCUMENTO FINAL

 CARTA DE APARECIDA

“ Ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. ” LS,49

A Conferência da Família Franciscana do Brasil, celebrando o Capitulo Nacional das Esteiras, consciente de sua missão de “levar ao mundo a misericórdia de Deus”, dirige-se a todas as pessoas de boa vontade: àquelas que continuam acreditando em um mundo de justiça e fraternidade e àquelas que, em meio às contradições e crueldades de nosso tempo, vivem a dor da desilusão e da falta de esperança.

As partilhas realizadas nesses dias nos levam a afirmar: vivemos um verdadeiro Pentecostes. Neste sentido, o Capítulo nos chamou a um revigoramento do Carisma e nos levou a fazer memória da herança, da inspiração originária que deu início ao movimento franciscano. A experiência das esteiras nos leva a retomar nossa vocação enquanto peregrinos e forasteiros.

As bases nas quais foram construídas a nossa história estão marcadas pelo sangue dos pobres e pequenos, indígenas, mulheres e jovens negros, por um extrativismo desmedido e destruidor, por uma economia que exclui a maioria, por destruição de povos, culturas e da natureza. À luz do nosso carisma, compreendemos que se faz necessário construir um novo horizonte utópico que nos comprometa com a construção de um projeto de país com justiça e paz em respeito à integridade da criação.

Somos sensíveis ao grito dos empobrecidos e da Mãe Terra! É preciso agir com misericórdia para com eles e, com indignação diante desse sistema que exclui, empobrece e maltrata, e convocarmos a todos para se unirem à luta que hoje assumimos juntos: participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas.

É chegado o momento de recolhermos nossas esteiras e as lançarmos sobre o chão das periferias do mundo, transformando continuamente nossa maneira de Ser, Estar e Consumir em reposta aos apelos do Papa Francisco.

A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio.  Assistimos, tomados de ira sagrada, à violação dos direitos conquistados, através de muitos esforços, empenhos e articulação pelo povo brasileiro. Por isso, não podemos deixar de nos empenhar junto aos movimentos sociais na luta “por nenhum direito a menos”, contra golpes, reformas retrógadas e abusivas conduzidas por um governo ilegítimo, um parlamento divorciado dos interesses da população e  uma justiça que tem se revelado fora dos parâmetros da equidade “que no lugar de fortalecer o papel do Estado para atender às necessidade e os direitos do mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital”¹.

Dessa Cidade de Aparecida, Nossa Senhora, Padroeira do Brasil, resgatada das águas de um rio, hoje poluído e degradado, nos faz eleger dentre os diversos apelos um compromisso particular com a Irmã Água. Deste modo, nos empenharemos na construção de um processo de reflexão e ação em defesa da água como bem comum, que se dará através da participação da família em jornadas, fóruns e nas iniciativas de fortalecimento dos trabalhos ligados à promoção da Justiça e da Integridade da Criação.

Tudo isso acontece, irmãs e irmãos, porque São Francisco nos ensinou que nos momentos mais difíceis de nossas vidas devemos voltar à Casa da Mãe. Ele e seus irmãos voltavam, com frequência, à pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Nós voltamos ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, neste 300 anos de caminhada com os pequenos desta terra.

“Óh Mãe preta, óh Mariama, Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!”, ainda assim, invocamos suas bênçãos sobre toda a nossa família e sobre um Brasil sedento de “Paz – fruto da justiça, do bem e da Misericórdia de Deus”.

 Conferência da Família Franciscana do Brasil – CFFB

 06 de agosto de 2017

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Programação - Capítulo Nacional das Esteiras – Aparecida/SP


Capítulo Nacional das Esteiras – Aparecida/SP
Tema: “Levar ao mundo a misericórdia de Deus”
Lema: “É preciso voltar à Assis…”

Quinta-feira 03/08/2017 – 1º Dia – Tarde
Moderadora: Irmã Sônia Lunardelli, TC

14h Acolhida e animação
Equipe de Acolhida

14h30 Oração de abertura
Rezar a espiritualidade do Capítulo das Esteiras
Equipe de Liturgia

15h00 Palavras de acolhida
Apresentação do Conselho Diretor
Saudação dos Congressistas
Conselho Diretor

15h30 CONFERÊNCIA DE ABERTURA
800 anos do Perdão de Assis
Tema: Levar ao mundo a Misericórdia de Deus. Lema: É preciso voltar a Assis.
Frei Vitório Mazzucco (Cultura do Encontro)

16h45 Intervalo com lanche
17h15 Apresentação do Capítulo
(indicações e orientações práticas) Frei Diego e Ir. Sônia

17h30 CONT. CONFERÊNCIA –
Tema: Levar ao mundo a Misericórdia de Deus. Lema: É preciso voltar a Assis.
Frei Vitório Mazzucco (Cultura do Encontro)

18h30 Recolhimento do dia – dinâmica mistagógica –corporal
Ingrid/ Vanderlei (OFS)

19h Celebração Eucarística
(centro de eventos) Dom Orlando Brandes

Sexta-Feira 04/08/2017 – 2 º Dia
Moderador: Frei Diego Melo, OFM

08h Animação/Oração da Manhã
Equipe de Liturgia

09h15
CONFERÊNCIA: Levar ao mundo a Misericórdia de Deus – A Misericórdia na perspectiva franciscana
Frei Carlos Susin

10h20 Intervalo – Lanche

10h50 Celebração Eucarística (Centro de Eventos)
Dom Elias Manning

12h00 Almoço

13h45 Animação Equipe de Animação

14h00 Refrão Orante para retomar os trabalhos da tarde
Equipe de Liturgia

14h15 CONFERÊNCIA: Levar ao mundo a Misericórdia de Deus
A Misericórdia na perspectiva franciscana
Frei Carlos Susin

15h15 3 Testemunhos (Realidades de fronteira)
Irmãos e irmãs

15h45 Intervalo com lanche

16h15 CONFERÊNCIA: Levar ao mundo a Misericórdia de Deus – A Misericórdia na perspectiva franciscana
Frei Carlos Susin

17h15 Partilha – Ressonância em grupo Moderador

17h30 Livre – Jantar

]19h30 Celebração Penitencial na Basílica
Equipe de Liturgia

Sábado 05/08/2017 – 3º Dia
Moderadora: Irmã Sônia Lunardelli, TC

09h00 Celebração Eucarística na Basílica
Dom Frei Claudio Cardeal Hummes, OFM e concelebrantes

10h30 Intervalo com lanche

11h00 CONFERÊNCIA: Laudato Si, Cuidado da casa comum, relação da Misericórdia com a criação…
Frei Rodrigo Peret, OFM
Moema Miranda, OFS
Igor Bastos, JUFRA

12h15 Almoço

14h Animação Equipe de Animação

14h30 CONFERÊNCIA: Laudato Si, Cuidado da casa comum, relação da Misericórdia com a criação…
Frei Rodrigo Peret, OFM
Moema Miranda, OFS
Igor Bastos, JUFRA

15h30 Intervalo – Lanche

16h00 OFICINAS Ir. Sonia,
Frei Alvaci e Cida

18h00 Jantar/ Livre

20h00 Confraternização/ Noite Cultural
Frei José Carlos TOR e convidados

Domingo 06/08/2017 4º Dia – MANHÃ
Moderadora: Maria Aparecida Brito, OFS.

08h30 Oração da Manhã
(Centro de Eventos) Equipe de Liturgia

09h00 Retrospectiva/ Ressonâncias
Frei Ederson

10h00 Intervalo

10h30 Celebração Eucarística  (Centro de Eventos)
Frei Ederson

11h30 Envio, Leitura e Aprovação da Carta Aberta atodas as mulheres e homens de boa vontade.
Equipe de redação