quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017

Irmãos e irmãs,
Paz e bem!

Estamos chegando ao final de mais um ano...

Com a graça de Deus realizamos muitos encontros.

Fizemos mutirão para organizar espaços, rasgar papéis e outros. O trabalho em comum é sempre uma grande alegria. Trabalhamos, suamos a camisa, carregamos coisas para lá e para cá, damos muitas risadas.  Vivenciamos em cada encontro um dia muito abençoado e feliz ao lado dos irmãos.

Rezamos no tempo da quaresma a Via Sacra.

Celebramos o dia das mães, dos pais e avós.

Festejamos as festas dedicadas a Maria.

Participamos com alegria do mini - encontro da capital na Fraternidade Santa Inés, do encontro distrital na Fraternidade São Francisco da Vila Clementino, da Jornada Franciscana no Colégio Nossa Senhora Aparecida em Moema e do Capítulo das Esteiras em Aparecida.     

Recebemos novos irmãos que chegam para a experiência da Vida em Fraternidade. É a renovação da Fraternidade. Muito bom!

Choramos e rezamos pela passagem dos irmãos José Eugênio e Helena . Ficaram para sempre em nossas lembranças.

Reunimo-nos em fraternidade no dia do Retiro Anual conduzido com muito carinho pelo Frei Mario Luiz Tagliari, OFM.

Recebemos com muita alegria pela 1ª vez desde o fechamento do Externato São Francisco os ex-alunos e professores acompanhados de seus familiares numa linda e animada celebração Eucarística.
Foi realmente muito bom.

Participamos como fraternidade das festividades dos 370 anos do convento e Santuário São Francisco.

Alegramo-nos com apresentações de concertos na Igreja das Chagas.

Visitamos nossos irmãos idosos e doentes da fraternidade.

Enfim... tudo é graça e bênção de Deus!

Desejamos aos nossos leitores um Ano Novo repleto de bênçãos e graças de Deus!

Por tudo Deus seja louvado!

Maria Nascimento 









































segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Natal na mística franciscana: Natividade


Até o fim de sua vida, Francisco foi solícito em desejar acima de tudo o Espírito do Senhor. E o Espírito não cessou de conduzi-lo num caminho de renúncia de si sempre mais profunda. Mas este despojamento íntimo, longe de ser um empobrecimento de sua verdadeira personalidade, abria nele um espaço cada vez maior de acolhimento, uma capacidade crescente de comunhão e de fraternidade. Nada retendo para si, ele tornou-se presente a toda criatura. Sua pobreza era sua riqueza, a chave do Reino. No espírito de doçura, Francisco nascia ao mesmo tempo para Deus, para o mundo e para si mesmo.

Não há melhor maneira de compreender esse itinerário do que invocando aquele acontecimento que iluminou seus últimos anos. Mais que um simples episódio maravilhoso na sua vida, o Natal que ele celebrou, três anos antes de sua morte, entre as pessoas simples da montanha, foi uma experiência mística, um novo nascimento. Seu primeiro biógrafo não se enganou. Naquela noite, diz ele, Francisco se fez “menino com o Menino (2Cel, 35). O Espírito do Senhor renovava nele seu “advento de doçura”, no auge do rude inverno da natureza e dos homens.

Estamos no fim do ano de 1223, numa pequena aldeia da montanha que domina o vale de Rieti, no centro da Itália. Esta aldeia se chama Greccio. Para seus habitantes, parece que o ano deve terminar como todos os outros: no frio, no isolamento e na pobreza. A primeira neve começou a cair. E a aldeia tomou seu aspecto invernal.

As pequenas casas se escondem sob sua capa branca. As atividades externas vão se tornando raras. As mulheres fiam a lã dentro de casa. Os homens cortam e racham a lenha… E, quando cai a noite, todos reunidos diante da lareira contemplam em silêncio o fogo que crepita e faz sonhar. Eles esperam. O que esperam? O retorno de dias melhores, a primavera, o sol? Sem dúvida, mas acima de tudo um pouco de calor humano, um pouco de amizade e de alegria. Sonham com um sopro de inocência e de ternura. Mas o que pode trazer-lhes naquele instante a verdadeira felicidade?

Em toda a cristandade, através da liturgia do advento, eleva-se de novo a voz suplicante do profeta, o insistente pedido que vem do fundo dos tempos: “Ah! Javé, oxalá rasgasses os céus e descesses…” (Is 63,19). “Céus, destilai orvalho lá do alto; nuvens, fazei chover o Justo…” (Is 45,8). E eis a resposta lá do alto, radiosa, cheia de esperança: “Consolai-vos, consolai-vos, meu povo, diz o vosso Deus, falai ao coração de Jerusalém
e gritai-lhe que seu tempo de escravidão terminou…” (Is 40,1-2).

Mas, em Greccio, não há ninguém para falar ao coração das pobres. Por mais que as pesadas nuvens se abaixem sobre a montanha, caindo em flocos de neve, o céu não se abre e o Justo não dá sinais de descer.

De manhã, não se vê ninguém vindo sobre a neve intacta. E de noite, muito menos, quando as encostas brancas e desoladas se tingem de cor de malva sob os passos da noite. Ninguém. É a imensa solidão do inverno. E como são longas as noites de inverno na montanha! Ouve-se apenas o gemido e o rachar das árvores sob o peso da neve, ao sopro do vento, no bosque vizinho. E às vezes também o uivar dos lobos. Terra regela-
da, terra ansiosa, à expectativa de um pouco de amor, “quando enfim verás nascer a aurora divina?”

Entretanto, os habitantes desta pequena aldeia não ignoram que por todos os cantos do país se fala muito de um homem chamado Francisco, ou o Pobre de Assis. Sua reputação de santidade é grande. Filho de um rico negociante de tecidos, converteu-se ao Evangelho depois de uma juventude um pouco desvairada e esbanjadora. Renunciou à riqueza, às honras, ao poder, à violência. Fez-se pobre por amor de Cristo e para ser o irmão de todos.

Muitos jovens se juntaram a ele, às dezenas, depois às centenas. Agora são milhares. Vêm de todas as camadas da sociedade, de todas as condições. Francisco ensina-lhes a viver segundo o santo Evangelho, em grande fraternidade entre eles e com todos as pessoas. Revela-lhes o verdadeiro rosto de Deus. Não do Deus dos domínios da Igreja, nem das cruzadas, nem do dinheiro, mas do Deus dos pequenos que vêm a nós com doçura. “Vede a humildade de Deus!” – gostava Francisco de dizer-lhes, mostrando-lhes o exemplo de Cristo humilde e pobre.

Mas eis que naquele mês de dezembro de 1223, às vésperas do Natal, Frei Francisco foi como que tomado por um grande desejo. Revelou este desejo aos seus irmãos: “Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro” (ICel, 84).

Naquele tempo ainda não existiam os presépios de Natal, principalmente os presépios vivos. A idéia era completamente nova e até ingênua. Tinha surgido de repente no coração de Francisco, como uma chama de amor. Era uma idéia extraordinária como só os poetas podem ter, pois são eles que nos fazem voltar aos olhos da infância. E, de súbito, reencontramos os segredos perdidos. Um boi e um burro na penumbra de um estábulo, e o Natal nos é restituído com o realismo de sua ternura.

“Ver” e “fazer ver” o altíssimo Filho de Deus, nascendo ao mundo na humildade e na pobreza de um presépio entre animais, nada era mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade de cunho mercantil, onde o soberano era o dinheiro, o que podia ser mais útil do que fazer brilhar a gratuidade de Deus? Num mundo de clérigos ávidos de honra e poder, o que podia ser mais salutar do que lembrar a humildade de Deus? E num tempo de violências, de cruzadas e de guerras santas, o que podia ser mais urgente, mais necessário do que fazer ver a doçura, a mansidão de Deus?

Não, não se tratava simplesmente de uma idéia tocante. Era toda a vida ardente de Francisco, todo o seu ser, toda a sua busca de Deus que se expressava neste desejo de ver o Menino divino na penúria do presépio.

“Reinventar” o Natal, reencontrar a humanidade de Deus, a ternura de Deus, eis o que Francisco queria para si e para seus irmãos e para o mundo inteiro, imaginando aquele presépio vivo. Ele via longe, muito longe. E a coisa mais simples do mundo. Fora dos caminhos comuns, dos caminhos batidos, ele encontrava a fonte oculta da ternura e da fraternidade.

E quem melhor do que as pessoas simples da montanha poderia compreender e acolher esta mensagem? Como outrora os pastores de Belém, eles serão os primeiros a ouvir a Boa Notícia. Sem hesitar, Francisco decide então fazer o presépio em Greccio.

Apressa-se em confiar seu projeto a seu amigo, o Sr. João Velita, que, apesar de sua alta linhagem e seus cargos importantes, é muito simples e achegado aos irmãos. Francisco tem muita estima por ele e lhe diz: “Se quiseres, é em Greccio que vamos celebrar a festa do Natal este ano. Sim, quero ver o Menino divino, com meus olhos de carne, assim como estava no presépio de Belém, dormindo na palha, entre um boi e um burro… Vai, começa a fazer os preparativos…”(ICel, 84)

O Sr. João, inteiramente de acordo com o projeto de Francisco e feliz pela confiança que o Poverelio depositava nele, apressa-se e vai à humilde aldeia da montanha. Que alegria para os habitantes de Greccio e que orgulho também, quando souberam que Frei Francisco, aquele de quem todo mundo fala com veneração, escolheu sua aldeia para lá celebrar a festa da Natividade que se aproximava! E que surpresa e deslumbramento quando o Sr. João lhes fez saber que Fr. Francisco quer que se prepare um estábulo, exatamente como em Belém, com uma manjedoura provida de palha e com um burro e um boi.

No mesmo instante, toda a aldeia acordou de sua letargia. Todos queriam ajudar o Sr. João a preparar a festa. O lugar escolhido foi uma gruta bem grande, no flanco da montanha. Ali foi instalada uma manjedoura com feno. Foi levado para lá um burro e um boi. Em pouco tempo tudo estava pronto. No dia 24 de dezembro ao anoitecer chegou Frei Francisco com alguns frades.

Havia chegado enfim a noite abençoada em que toda a cristandade celebra o nascimento do Salvador. Os moradores de Greccio e das redondezas acorrem em massa com tochas e lanternas. Nos bosques, ressoam seus cantos. E uma noite extraordinária, toda iluminada com centenas de luzes que enchem a gruta e tudo em redor dela. “Uma noite tão deliciosa para os homens como para os animais”, conta Tomás de Celano (ICel, 85).

Francisco “passa a vigília de pé diante do presépio, comovido e cheio de uma indizível alegria” (ICel, 85). Na verdade, ele experimentou naquela noite um longo momento de êxtase. Com os olhos fixos na manjedoura, parecia ver o Menino Deus deitado no feno, entre os animais. Com toda certeza, seu espírito estava em Belém.

Mas o que via então o Poverelio naquela noite de Natal? Não era apenas uma cena maravilhosa. Ele contemplava o mistério do Natal em sua profundidade. Se ele quis este presépio, não foi para oferecer uma representação simplesmente comovedora. Sua visão ia muito mais longe: via toda a criação com Deus num mistério profundo. Queria tudo que existia, tudo que vivia para este instante único, para esta comunhão com a vida divina no Deus-Menino.

Portanto, a vida divina não devia ser buscada fora das fragilidades da vida humana e de suas raízes obscuras, fora da criação material. No Deus-Menino tudo se encontrava. E o que estava oculto se tomava visível. O sentido do mundo se tornava bem claro. A unidade da criação se revelava. Era uma epifania de luz. Não se podia acolher a vida divina sem respeitar toda vida: a vida humana é claro, mas também as formas de vida mais humildes. Não se podia comungar com a vida divina sem fraternizar com toda vida, com toda criatura. Com toda a criação.

E o caminho desta comunhão e desta fraternidade era a humildade do presépio, aquela humildade original que nos aproxima das mais humildes criaturas, aquela proximidade e doçura que nos fazem reintegrar o vasto círculo da criação. Não era exatamente esta a mensagem dos anjos aos pastores na noite de Natal: “Hoje vos nasceu um Salvador. Este é o sinal pelo qual o reconhecereis: encontrareis um recém-nascido, envolto em panos e deitado num presépio…” A criação inteira, com suas criaturas mais humildes, se havia tomado o “berço divino”. Só podia aproximar-se do Menino, só podia encontrá-lo, quem entrasse no presépio, quem se fizesse a si mesmo bem próximo das criaturas mais humildes.

Nesta noite de Natal, em que Deus mesmo vinha a nós na humildade de um estábulo, era pois preciso manifestar um infinito respeito e uma grande ternura para com toda a vida, por humilde que fosse. Francisco queria que, naquele dia, os pobres e esfomeados fossem saciados pelos ricos, e que se concedesse uma ração maior e mais feno para os bois e burros (2Cel, 200). E não esqueceu os passarinhos: “Se eu pudesse falar com o imperador, pediria que promulgasse esta lei geral: que todos que puderem joguem pelas mas trigo e outros grãos, para que nesse dia tão solene tenham abundância até os passarinhos, e principalmente as irmãs cotovias” (ICel, 200).

Toda esta ternura transbordava do coração de Francisco, enquanto contemplava, extasiado, a manjedoura, como se estivesse de fato em Belém e visse o Menino com seus próprios olhos. Renovou-se então para ele, de uma maneira sensível, o mistério de um Deus nascendo nas profundezas da terra, entre os animais. “Uma das testemunhas – conta Tomás de Celano – viu, deitado na manjedoura, um bebê dormindo que acordou quando o santo chegou perto”.

Não devemos deter-nos neste lado maravilhoso do evento sem ver seu significado profundo. Se quiséssemos traduzir de uma maneira simbólica a experiência espiritual de Francisco naquela noite, sem dúvida nada seria melhor do que relatar este traço maravilhoso. Tomás de Celano não se enganou a este respeito. Ele escreve em sua “Vita Secunda”: “Foi nesse lugar [Greccio] que Francisco recordou pela primeira vez o Natal do Menino de Belém, fazendo-se menino com o Menino”. Assim, para o seu biógrafo, esta celebração externa traduzia uma transformação interna: “Fazendo-se menino com o Menino, factus cum Puero puer” (ICel, 86).

Este presépio vivo, no fundo de uma gruta onde acorda um lindo bebê quando Francisco se aproxima, simboliza o nascimento oculto do Deus-Menino nas profundezas da alma, num homem plenamente reconciliado com sua arqueologia. O presépio é a expressão
sensível de uma aproximação interna de Deus por caminhos de humildade e de reconciliação: por caminhos de encarnação.

Atribuem-se ao teólogo Bultmann estas palavras: “Eu quero Cristo sem o presépio”. Querer Cristo sem o presépio é querê-lo sem suas humildes inserções naturais, sem sua matriz cósmica. Numa tal perspectiva idealista, o evento da salvação nada mais tem a fazer com a Terra-Mãe, com tudo que nos liga ao cosmos e à vida; ele se desenrola à primeira vista na pura interioridade, acima de qualquer condição carnal; não nos atinge em nossas raízes vitais e psíquicas. Numa palavra, não assume o destino total do ser humano, deste ser “que lança raízes na natureza animal e, ultrapassando o que é simplesmente humano, se eleva até à divindade” (Jung). A criação material e animal é deixada de lado. Ela não é atingida pelo evento da salvação. Portanto não há reconciliação do homem com suas forças obscuras, nem transfiguração da agressividade, nem da libido. Cristo não desceu às nossas profundezas. A paz do Natal ficou pendurada nas estrelas.

Completamente diferente é o caminho de Francisco. Ele encontra o Menino-Deus na humildade do presépio, fraternizando com nossos irmãos os animais e com toda a vida. Ele o encontra lá onde estão as nossas raízes. Deus, para nascer no homem, tem necessidade do homem todo e primeiramente de suas raízes obscuras, vitais e cósmicas. É com isto que ele conta: “Vede a humildade de Deus”, dizia Francisco aos seus irmãos.

Depois desta longa vigília de oração e de canto na gruta transformada em estábulo, a missa do Natal foi celebrada na manjedoura como altar. Francisco, que tinha vestido a dalmática em sua qualidade de diácono, cantou o Evangelho da Natividade. Com sua voz “vibrante e doce, clara e sonora”, proclamou a Boa-Nova: “Não temais, pois eu vos anuncio uma grande alegria que será para todo o povo: hoje vos nasceu um Salvador…” (Lc 2,10-11).

Depois deste anúncio, Francisco dirigiu-se ao povo, convidando todos a regozijar-se com o evento. Não era um sermão que ele fazia, era sua própria vibração interior que lhes transmitia. Em palavras bem simples, evocou a pequena cidade de Belém e o nascimento do Menino-Deus na pobreza do presépio. Ouvindo-o, tinha-se verdadeiramente a impressão de que naquela noite o céu havia perdido todo o seu orgulho e se havia tomado próximo e fraternal. O Deus de majestade se havia feito nosso irmão em Maria sua Mãe.

Pode-se encontrar um eco da homilia de Francisco na oração que ele compôs para as vésperas de Natal, em seu Oficio:
Naquele dia Deus nosso Senhor concedeu a sua graça
e de noite ressoou o seu louvor.
Este é o dia que o Senhor fez,
alegres exultemos por ele.
Pois foi-nos dado um Menino amável e santíssimo,
nascido por nós à beira do caminho
e deitado numa manjedoura,
porque não havia lugar na estalagem.
Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade.
Alegrem-se os céus, rejubile a terra,
ressoe o mar com tudo o que contém,
rejubilem-se os campos e o que neles existe!…

“Paz na terra!” A mesma paz que Francisco foi anunciar aos cruzados, depois ao sultão, no Oriente Próximo, foi nesta pequena aldeia da montanha que ela floresceu naquela noite de Natal. Não era necessário correr para o país de Jesus para encontrá-la: Greccio se havia tomado uma nova Belém. O Menino-Deus nasce em toda parte onde há seres humanos bastante humildes para reconhecer-se irmãos uns dos outros e de toda criatura.

Trecho do livro “O Sol Nasce em Assis”, de Éloi Leclerc, Vozes, 2000

Éloi Leclerc

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

domingo, 24 de dezembro de 2017

O Natal na mística franciscana: Oração diante do Presépio



Menino das palhas, Menino Jesus,
Menino de Maria, aqui estou diante de ti.
Tu vieste de mansinho, na calada da noite,
no silêncio das coisas que não fazem ruído.

Tu é o Menino amável e santíssimo,
deitado nas palhas porque não havia lugar
para ti nas casas dos homens
tão ocupados e tão cheios de si.

Dá a meus lábios a doçura do mel
e à minha voz o brilho do cantar da cotovia,
para dizer que vieste encher de sentido
os dias de minha vida.

Não estou mais só: tu és o nosso companheiro
de minha vida. Tu choras as minhas lágrimas
e tu te alegras com minhas alegrias
porque tu és meu irmão.

Tu vieste te instalar feito um posseiro
dentro de mim e não quero que teu lugar
seja ocupado pelo egoísmo que me mata
e me aniquila, pelo orgulho que sobe à cabeça,
pelo desespero.

Sei, Menino de Maria, que a partir de agora,
não há mais razão para desesperar
porque Deus grande, belo,
Deus magnífico e altíssimo
se tornou meu irmão.

Santa Maria, Mãe do Senhor e Palácio de Deus,
tu estás perto do Menino que envolves
em paninhos quentes.

José, bom José, carpiteiro de mãos duras,
e guarda de meu Menino das Palhas,
protege esse Deus que se tornou
mendigo de nosso amor.

Menino Jesus,
Hoje é festa de claridade e dia de luz.
Tu nasceste para os homens na terra de Belém.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

O Natal na mística franciscana: A Mensagem Franciscana do Presépio


Segundo a tradição, a primeira representação visualizada, teatralizada e celebrada de um presépio aconteceu no ano de 1223, num bosque próximo de Greccio, na Úmbria, região italiana. Quem tomou esta iniciativa foi Francisco de Assis, e ,com isso, ele passa a ser o primeiro a organizar de um modo plástico a cena da Encarnação do Filho de Deus.

Não é de se discutir se o fato é verídico ou legendário, pois Francisco de Assis foi um apaixonado pelo modo como Deus fez morada no mundo dos humanos, e certamente, mais do que palavras quis mostrar o maior evento de todos os tempos: na carne de um Menino, Deus está para sempre no meio de nós. Vejamos o texto das Fontes Franciscanas: “A mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o Santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina, imitar e seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância, com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo o fervor do coração.

Recordava-se em assídua meditação das palavras e com penetrante consideração rememorava as obras dele. Principalmente a humildade da encarnação e a caridade da paixão de tal modo ocupavam a sua memória que mal queria pensar outra coisa. Deve-se, por isso, recordar e cultivar em reverente memória o que ele fez no dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, no terceiro ano antes do dia de sua gloriosa morte, na aldeia que se chama Greccio. Havia naquela terra um homem de nome João, de boa fama, mas de vida melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com especial afeição, porque, como fosse muito nobre e louvável em sua terra, tendo desprezado a nobreza da carne, seguiu a nobreza do espírito. E o bem-aventurado Francisco, como muitas vezes acontecia, quase quinze dias antes do Natal do Senhor, mandou que ele fosse chamado e disse-lhe: ‘Se desejas que celebremos, em Greccio, a presente festividade do Senhor, apressa-te e prepara diligentemente as coisas que te digo. Pois quero celebrar a memória daquele Menino que nasceu em Belém e ver de algum modo, com os olhos corporais, os apuros e necessidades da infância dele, como foi reclinado no presépio e como, estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno’. O bom e fiel homem, ouvindo isto, correu mais apressadamente e preparou no predito lugar tudo o que o santo dissera.

E aproximou-se o dia da alegria, chegou o tempo da exultação. Os irmãos foram chamados de muitos lugares; homens e mulheres daquela terra, com ânimos exultantes, preparam, segundo suas possibilidades, velas e tochas para iluminar a noite que com o astro cintilante iluminou todos os dias e anos. Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se. E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez com que uma nova Belém. Ilumina-se a noite como o dia e torna-se deliciosa para os homens e animais. As pessoas chegam ao novo mistério e alegram-se com novas alegrias. O bosque faz ressoar as vozes, e as rochas respondem aos que se rejubilam. Os irmãos cantam, rendendo os devidos louvores ao Senhor, e toda a noite dança de júbilo. O santo de Deus está de pé diante do presépio, cheio de suspiros, contrito de piedade e transbordante de admirável alegria.” (Cel 30,4).

Sob a inspiração deste fluo, baseando-se nas Fontes Franciscanas, toda a celebração de Natal ganha um novo vigor interpretativo e celebrativo em toda Itália, da Itália para a Europa e da Europa para o mundo. A cidade de Nápoles transforma a cena de Natal num movimento artístico, e a partir dali e dos anos 1700, o presépio é pura arte.

Unindo a Palavra de Deus, a representação artesanal e o folclore, os presépios vão destacando as típicas figuras regionais, e unem fé e beleza estética. As missões franciscanas levam o presépio para o mundo, e assim, cultura local e tradição cristã mostram o maior feito histórico da cristandade.

O presépio tem a forma dos momentos culturais: barroco, colonial, rococó, renascentista, moderno, vanguardista, arte popular, oriental, latino-americano, indiano e africano. O Deus Menino está no campo, na cidade, nas tendas, favelas e arranha-céu; está no centro urbano e na periferia. Une a força do sinal, do sacramental, do sagrado, da teologia da imagem, a fala da fé.

Nos presépios temos a harmonia das diferenças. O mundo do divino encontra-se com o mundo do humano. A grandeza, a onipotência de um Deus revela-se na fragilidade de uma criança. Ali o mundo animal, ovelhas, boi, burro, queda-se contemplativo abraçado pelo silêncio do mundo mineral: pedras e presentes. Há também o toque brilhante daquela Estrela Guia aproximando o mundo sideral.

As plantas formam o colorido arranjo do mundo vegetal. Anjos e pastores, um pai sonhador e uma mãe silente que guarda tudo no coração; afinal todos são conduzidos pelo mesmo mistério. O curioso e controlador mundo do poder representado pelos Reis Magos vem conferir. Fazer presépios é unir mundos! Aquele Menino fez-se Filho do Humano: veio experimentar a nossa cultura, o nosso jeito, a nossa consangüinidade.

Num presépio cabe todos os rostos! É o grande encontro dos simples, dos normais, dos marginais, dos ternos, fraternos, sofridos e excluídos. Quando o diferente se encontra temos a mais bela paisagem do mundo. Tudo se torna transparente na unidade das diferenças. Num presépio não existe preconceito, existe sim aquela silenciosa e calma contemplação da beleza de cada um, de cada uma. Encarnar-se é morar junto e respeitar o diferente! Paz na Terra aos Humanos de vontade boa e bem trabalhada! Isso é que encantou Francisco de Assis!

O presépio nos lembra que Deus não está no mercado das crenças, nem no apelo abusivo do comércio natalino que faz uma profanização deste universo de símbolos: pinheiros e estrelas, animais e pastores, presépios variados. Deus nem sempre está nas igrejas e nem nas bibliotecas; mas Ele está num coração que pulsa de Amor. Esta é a sacralidade inviolável do Natal: Deus está no seu grande projeto, que é Humanizar-se, fazer valer o Amor, Encarnar o Amor!

Deus não está na violência e nem onde se atenta contra a vida. Deus não está no orgulho dos poderosos nem entre os caçadores de privilégios hierárquicos. Mas Ele está na leveza deste Menino, Filho do Pai Eterno, a grande síntese das naturezas humana e divina.

Ele está aqui na mais bela doação do Sim de José e de Maria. Quando há disponibilidade, todo sonho é fecundo. Ele está onde se faz um presépio: lugar do Bem e da Beleza. É o grande momento de refletir este presente que ele nos dá. Isso é que encantou Francisco de Assis!

O Amor tem que ser Amado! A Verdade e a Beleza têm que ser apreciadas. Este é o lugar de Luz no meio das sombras humanas. A luz vale mais do que todas as trevas. Deus está ali com você e com Francisco diante do presépio, e abraçando você com silêncio, paz, harmonia, serenidade; acolhendo você e passando-lhe Onipresença, Onipotência eterna para a fragilidade da criatura. No presépio, Deus olha você, pessoa humana, contemplando a suprema humildade da Pessoa Divina.

Artigo “A Mensagem Franciscana do Presépio, da Revista Franciscana, uma publicação da FFB

Por Frei Vitório Mazzuco Fº

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

sábado, 23 de dezembro de 2017

O Natal na mística franciscana: Misterioso cartão de Natal


O Natal é a festa das crianças e da divina Criança que se esconde dentro de cada adulto. É altamente inspiradora a crença de que Deus se acercou dos seres humanos na forma de uma criança. Assim ninguém pode alegar que Ele é apenas um mistério insondável, fascinante por um lado e aterrador por outro. Não. Ele se aproximou de nós na fragilidade de um recém-nascido que choraminga de frio e que busca, faminto, o seio materno. Precisamos respeitar e amar esta forma como Deus quis entrar no nosso mundo. Pelos fundos, numa gruta de animais, numa noite escura e cheia de neve “porque não havia lugar para ele nas pousadinhas de Belém”.

Mais consoladora é ainda a ideia de que seremos julgados por uma criança e não por um juiz severo e esquadrinhador. Criança quer brincar. Ela se enturma imediatamente com todas as outras, pobres, ricas, japonesas, negras e loiras. É a inocência originária que ainda não conheceu as malícias da vida adulta.

A divina Criança nos introduzirá na dança celeste e no festim que a família divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo prepara para todos os seus filhos e as suas filhas, não excluídos aqueles que, um dia, foram desgarrados.

Estava refletindo sobre esta realidade benaventurada quando um um anjo, daqueles que cantaram aos pastores nos campos de Belém, se aproximou espiritualmente e me entregou um cartãozinho de Natal. De quem seria? Comecei a ler. Nele se dizia:

“Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês ao olharem o presépio e ao verem lá o Menino Jesus no meio de Maria e de José e junto do boi e do jumento, se se encherem de fé de que Deus se fez criança, como qualquer um de vocês;

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença inefável do Menino Jesus que uma vez nascido em Belém, nunca nos deixou sozinhos neste mundo;

Se vocês forem capazes de fazer renascer a criança escondida nos seus pais, nos seus tios e tias e nas outras pessoas que vocês conhecem para que surja nelas o amor, a ternura, o cuidado com todo mundo, também com a natureza;

Se vocês, ao olharem para o presépio, descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente mal vestidas e se sofrerem no fundo do coração por esta situação e se puderem dividir o que vocês têm de sobra e desejarem já agora mudar este estado de coisas;

Se vocês ao verem a vaquinha, o burrinho, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante no presépio e pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela divina Criança e que todos eles fazem parte da grande Casa de Deus;

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda luminosa e recordarem que sempre há uma estrela como a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos;

Se vocês se lembrarem que os reis magos, vindos de terras distantes, eram, na verdade, sábios e que ainda hoje representam os cientistas e os mestres que conseguem ver nesta Criança o sentido secreto da vida e do universo;

Se vocês pensaram que esse Menino é simultaneamente homem e Deus e por ser homem é seu irmão e por ser Deus existe uma porção Deus em vocês e por causa disso, se encherem de alegria e de legítimo orgulho;

Se pensarem tudo isso então fiquem sabendo que eu estou nascendo de novo e renovando o Natal entre vocês. Estarei sempre perto, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa de Deus que é Pai e Mãe de infinita bondade, para morarmos sempre juntos e sermos eternamente felizes”.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.
Assinado: Menino Jesus

Por Leonardo Boff 

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

O Natal na mística franciscana: A Encarnação do verbo eterno de Deus


Na noite luminosa do Natal celebra-se o mistério central da nossa fé: o Verbo eterno de Deus, “subsistindo na condição de Deus, não pretendeu reter para si ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo por solidariedade aos homens” (Fl 2,6-7). Esse hino sublinha o empenho pessoal do Filho de Deus que renuncia absolutamente a si mesmo e assume a condição de servo (natureza humana), embora subsistindo na condição divina.

O Verbo eterno (Lógos em grego), o Filho de Deus Pai, assume a natureza humana de Jesus, ao encarnar-se no seio da Virgem Maria. Não pode haver maior paradoxo à razão humana do que dizer que o Deus experimentado e vivido pelo cristianismo não é somente o Deus transcendente, eterno e infinito, mas é também o Deus que se autocomunica, por Sua livre graça, na pequenez e na fragilidade de uma criança. Como entender que este homem, criado no tempo, seja ao mesmo tempo Deus? Isso é um escândalo para os judeus e para todos os que adoram e veneram um Deus totalmente inobjetivável.

O Deus experimentado e vivido pelo cristianismo é, sim, santo, absoluto, eterno e infinito, mas bem porque Ele é o máximo que se pode pensar, tem o poder de revelar-se “para fora” de forma tão desconcertante e paradoxal. Ou será que não há nada de desconcertante na declaração joanina de que o Verbo eterno de Deus tornou-se “carne” (Jo 1,14)? A palavra “carne” indica, por um lado, a fragilidade e mortalidade próprias da pessoa humana e, por outro, indica a grandeza do abaixamento (kénôsis) de Deus. A alteza e profundidade do mistério quenótico, que se radicaliza na entrega de Jesus na cruz, transcende infinitamente ao máximo que se pode pensar. Por outras palavras, parafraseando Leonardo Boff, o Deus que em e por Jesus se revela é tão humano e o homem que em e por Jesus emerge é tão divino que a linguagem humana não pode dizer adequadamente.

O Verbo (Filho) eterno do Pai assumiu a natureza humana, conservando a Sua divindade. Isso quer dizer que Jesus Cristo, em pessoa, é humano e divino. Enquanto pessoa, Ele é essencialmente relação. A pessoa toma consciência de si e constrói sua individualidade no relacionamento de doação e de recepção da alteridade do outro. Ora, sabe-se da mútua implicação das três pessoas divinas e do quanto Jesus Cristo doou-se incondicional e gratuitamente a todos, bem como abraçou a cada um em seu amor ilimitado (Mc 2,13-17), inclusive aos inimigos (Mt 5,43-44). E devido ao Seu absoluto desprendimento e inominável receptividade, o eu humano de Jesus foi de tal maneira assumido pelo Lógos, a ponto de dizer, como Paulo: ”Já não sou eu que vivo, mas Cristo [o Lógos] vive em mim” (Gl 2,20). Jesus viveu uma relação tão íntima com Deus, invocado por Ele pelo termo “Abba” (Paizinho), que se igualou a nós em tudo, exceto no pecado.

Pensadores clássicos da Filosofia e da Teologia cristãs colocaram muitas questões acerca da criação do mundo e da encarnação do Filho de Deus. Destacamos primeiramente a seguinte: Por que Deus criou o universo? Entre as muitas respostas figurava a idéia de que Deus criou o mundo porque quis, por pura e absoluta gratuidade do amor, manifestar-se ad extra, isto é, para fora de si mesmo. O Sumo Bem cria o mundo contemplando o Verbo, pois é Nele que se encontram as razões ideais (rationes idealis) de todas as coisas criadas e criáveis no tempo. Assim, o Filho de Deus é o princípio; é o primogênito de toda a criatura porquanto todas as coisas visíveis e invisíveis são criadas à luz do Verbo: “Todas as coisas foram feitas por ele [Verbo] e sem ele nada se fez de tudo que foi feito” (Jo 1, 1-3).

Todavia, a suprema comunicação ad extra de Deus não se dá na criação, mas na encarnação do Seu próprio Filho. Poder-se-ia então pensar que Deus criou o cosmos para possibilitar a Sua encarnação em Jesus de Nazaré. Por isso, ao se colocar a questão da criação do mundo indaga-se também pelo motivo da encarnação do Verbo eterno. Onde se fundamenta a decisão divina de encarnar-se em Jesus Cristo? Teria o Verbo se encarnado simplesmente para resgatar a humanidade do pecado? Tradicionalmente afirma-se que a encarnação foi condicionada pelo pecado humano. Mas será que essa é uma resposta exaustiva à questão: Cur Deus homo? (Por que um Deus-homem?). Será que Deus poderia ter-se utilizado de outros meios para realizar a obra da redenção?

Para Santo Agostinho, Deus poderia, sem dúvida, ter-se utilizado de outros meios para realizar a obra da redenção. Porém, “não existia nenhum outro modo mais conveniente para remediar nossa miséria” (De Trinitate, XIII). Também Santo Anselmo e Santo Tomás de Aquino entendem que o motivo da encarnação é a redenção do pecado do homem. Conseqüentemente, sem o pecado, a encarnação não teria acontecido.

No entanto, para o pensador franciscano João Duns Scotus, a encarnação não é só um pressuposto para o sacrifício redentor, mas é um acontecimento que faz parte do plano de amor do Pai. Duns Scotus afirma que o Verbo seria encarnado, mesmo se o homem não tivesse pecado, visto ser a encarnação totalmente incondicionada. Ao encarnar-se, evidentemente quis a salvação de todos, pois, era conveniente que o fizesse por amor a cada pessoa na sua singularidade. Não se nega, portanto, que a encarnação do Verbo tem também a finalidade redentora. Sabiamente Scotus acentua que a segunda pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, por Sua livre graça, para demonstrar o profundo amor salvífico de Deus pela humanidade pecadora e para conduzir a criação toda à sua plenitude. O Verbo encarnado é simultaneamente o princípio da criação e o fim último para o qual tende a pessoa humana, integrada ao cosmos.

Assim, acenamos para a imensidade do mistério do Natal de Jesus Cristo. A Igreja alerta-nos de que devemos nos preparar adequadamente para a celebração de tão grande mistério. O Deus revelado por Jesus Cristo encarnado é essencialmente um mistério transbordante de amor e, portanto, somente apreensível na experiência (ascese) da liberdade e do amor. E o esforço ascético que precede a solenidade do Natal do Senhor é liturgicamente denominado de “advento”. No advento a humanidade prepara-se para a vinda do Filho de Deus na carne humana de Jesus Cristo. No entanto, o Filho de Deus já veio; o Verbo já se encarnou. Qual é, então, o sentido do advento, se o tempo da espera e das trevas já passou e se o Esperado já veio?

É verdade que Deus veio de forma definitiva para dentro de nossa história, mas apesar disso, Ele é sempre aquele que ainda deve vir para cada um de nós. A natureza humana é assumida pelo Verbo não só por um momento, mas por meio de um ato que se realiza constantemente em cada filho e filha de Deus. O Verbo eterno quer encarnar-se em cada um de nós a ponto de também podermos dizer, como Paulo: ”Já não sou eu que vivo, mas Cristo [o Lógos] vive em mim” (Gl 2,20). No advento espera-se, portanto, que o amor de Deus se revele maximamente em cada criatura humana. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Cada ser humano vive no desejo da redenção e na ânsia do Libertador. Porém, não somente os seres humanos, mas toda a criação espera pela chegada do Reino da Liberdade: “A criação toda geme e sofre em dores de parto até agora e nós também gememos em nosso íntimo esperando a libertação” (Rm 8, 22-23). De fato, o sonho de harmonia cósmica do profeta Isaías ainda não se realizou. O lobo ainda não é hóspede do cordeiro, a pantera não se deita ao pé do cabrito, nem o touro e o leão comem juntos; não é verdade ainda que a vaca e o urso se confraternizam e o leão come palha com o boi; não é ainda verdade que a criança brinca à toca da serpente e o menino mete a mão no buraco do escorpião (Is 11, 6-8). Em suma: a harmonia entre os seres humanos e entre estes e todos os seres da natureza, é ainda um sonho muito distante da realidade. No entanto, Jesus proclamou a grande novidade de que o Reino de Deus já chegou e atua nesta nossa história (Mt 12,28). O Reino de Deus, muito sutilmente, já “está no meio de vós” (Lc 17,21). Mas, enquanto Deus não for tudo em todas as coisas, enquanto não se restabelecer a paz entre todos os seres do universo, continuaremos na expectativa, suplicando como os primeiros cristãos: Vinde, Senhor Jesus!

Enfim, ressaltamos a especial ternura que nosso pai e irmão Francisco de Assis nutriu pela festa do nascimento do Filho de Deus (2Cel 199). Para ele, o Natal do Menino Jesus era a festa das festas porque nesse dia Deus revelou todo o Seu amor para com a humanidade, tornando-se criança pequenina, e porque no Filho encarnado encontramos um modelo para o nosso viver e o nosso agir segundo a vontade de Deus. O “Filho amado” do Pai convoca a todos os seus irmãos e irmãs a responderem amorosamente Àquele que tanto nos amou e a louvá-Lo com todas as criaturas. Então, sim, não será mais advento, mas NATAL.

Frei João Mannes, OFM

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Natal na mística franciscana: Presépio e Eucaristia


A conjunção Belém-Greccio, manjedoura-altar já estava presente na liturgia natalina e também na tradição literário-eclesiástica. De fato, percorrendo o tesouro dos escritos eclesiásticos que nos foram legados pelos séculos anteriores, ficamos impressionados em encontrar repetidas vezes a presença da ligação entre Belém e o altar eucarístico. Como em Belém, assim também Jesus desce entre os homens. Em Belém os pastores trouxeram seus dons. Os fiéis, por sua vez, acorrem com suas ofertas ao altar.

A aproximação entre Belém e eucaristia, aliás, é facilmente intuível. “Belém” significa “casa do pão”. O próprio Jesus se tinha definido como “pão descido do céu”, o “pão da vida”, destinado a nutrir seus fiéis no santo sacrifício. Logo que nasceu foi colocado no presépio, isto é, na manjedoura dos animais. Parece que esta circunstância tenha levado antes de tudo os escritores sacros e os oradores da época a vislumbrar ali uma imagem da eucaristia.

Na liturgia do Natal do assim dito Sacramentário gregoriano anualmente ocorria o seguinte texto: “Este que é o pão dos anjos, no presépio da Igreja se tomou alimento dos animais que crêem”.

De fundamental importância também, porque muito usada, é a glosa ordinária a respeito da Sagrada Escritura (século IX) que, comentando São Lucas, explica: “posto no presépio, isto é, o corpo de Cristo no altar”. Aelredo de Rielvaux (abade cistercense do século XII) escreve: “O presépio de Belém, o altar da Igreja… Não temos nenhum sinal tão grande e evidente do nascimento de Cristo, quanto seu corpo e sangue que diariamente comemos no santo altar. Aquele que uma vez nasceu da Virgem, vemo-lo cotidianamente imolado por nós. Por isso, irmãos, acorramos com presteza ao presépio do Senhor….”. A analogia entre Belém e o altar eucarístico ocorre ainda em outros autores do século XII, como Honório de Autun, Hugo de São Vítor, São Bernardo, Zacarias Crisopolitano, Guarnério de Rochefort, Guerrico de Igny. Este último assim se exprime num sermão natalino: “Irmãos, vós também hoje encontrareis um menino envolto em panos e colocado no presépio do altar”. Pedro de Blois, quase contemporâneo de São Francisco, exprime-se mais ou menos com as mesmas palavras: “Irmãos, embora não sejais pastores, hoje vereis o nosso pequeno, que muitos reis e muitos profetas quiseram ver, havereis de vê-lo colocado no presépio do altar, não em aparência de glória, mas envolto em panos”. A ideia do presépio eucarístico, comum a escritores e oradores daquela época, foi retomada, como é fácil perceber, por miniaturistas e artistas, escultores e pintores. A originalidade de Francisco foi de traduzir de forma plástica, simples e realista, ao alcance de todos, a atualização do mistério do nascimento histórico no mistério sacramental da eucaristia.

Não se pode dizer que, para Francisco bem como para os outros autores citados a esse respeito, a atualização do nascimento de Cristo no mistério da Eucaristia seja entendida em sentido indireto, porque o sacramento da eucaristia atualiza direta e propriamente o sacrifício da cruz e o mistério da ceia.

Texto do “Dicionário Franciscano”, uma publicação da Editora Vozes/Cefepal

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

O Natal na mística franciscana: A vigília solene de Greccio


Três anos antes de sua morte, Francisco resolveu celebrar da forma mais concreta possível, perto de Greccio, o nascimento do Senhor. Dizia: “Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou; como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”.

Francisco mandou, pois, preparar um presépio e trazer muito feno, juntamente com um burrinho e um boi, dispondo tudo ordenadamente. Reuniram-se os irmãos chamados dos diversos lugares. Acorreu o povo, ressoaram vozes de júbilo por toda a parte e a multidão de luzes e archotes resplandecentes junto com os cânticos sonoros que brotavam dos peitos simples e piedosos transformaram aquela noite num dia claro, esplêndido e festivo.

Francisco lá estava diante do rústico presépio em êxtase, banhado de lágrimas e cheio de gozo espiritual. Como era diácono, cantou na missa o Evangelho, com uma voz forte, doce, clara e sonora. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas maravilhosas sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém. Chamava o Cristo Jesus de “menino de Belém”. Pronunciava a palavra “Belém” como o balido de uma ovelha. Também estalava a língua quando falava “menino de Belém” ou “Jesus”, saboreando a doçura dessas palavras.

João de Greccio, soldado presente à celebração, teve uma visão admirável. Viu no presépio, reclinado e dormindo, um bebê extremamente lindo, ao qual o bem-aventurado Francisco tomou entre seus braços, como se quisesse despertá-lo suavemente do sono. Quando terminou a vigília solene, todos voltaram contentes para casa.

Texto do livro “Francisco de Assis, o Homem do Paraíso”, de Leonardo Boff, com ilustrações de Nelson Porto. Publicação da Editora Vozes, que pode ser adquirido na loja virtual www.lojafranciscanos.com.br

Leonardo Boff e Nelson Porto

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O Natal na mística franciscana: Francisco prepara um presépio no dia de Natal


Sua maior intenção, seu desejo principal e plano supremo era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os “passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina”. Estava sempre meditando em suas palavras e recordava seus atos com muita inteligência. Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas.

Precisamos recordar com todo respeito e admiração o que fez no dia de Natal, no povoado de Greccio, três anos antes de sua gloriosa morte. Havia nesse lugar um homem chamado João, de boa fama e vida ainda melhor, a quem São Francisco tinha especial amizade porque, sendo muito nobre e honrado em sua terra, desprezava a nobreza humana para seguir a nobreza de espírito. Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava, e disse: “Se você quiser que nós celebremos o Natal de Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”. Ouvindo isso, o homem bom e fiel correu imediatamente e preparou o que o santo tinha dito, no lugar indicado.

Aproximou-se o dia da alegria e chegou o tempo da exultação. De muitos lugares foram chamados os irmãos: homens e mulheres do lugar, de acordo com suas posses, prepararam cheios de alegria tochas e archotes para iluminar a noite que tinha iluminado todos os dias e anos com sua brilhante estrela. Por fim, chegou o santo e, vendo tudo preparado, ficou satisfeito. Fizeram um presépio, trouxeram palha, um boi e um burro. Greccio tornou-se uma nova Belém, honrando a simplicidade, louvando a pobreza e recomendando a humildade.

A noite ficou iluminada como o dia e estava deliciosa para os homens e para os animais. O povo foi chegando e se alegrou com o mistério renovado em sua alegria toda nova. O bosque ressoava com as vozes que ecoavam nos morros. Os frades cantavam, dando os devidos louvores ao Senhor e a noite inteira se rejubilava. O santo parou diante do presépio e suspirou, cheio de piedade e de alegria. A missa foi celebrada ali mesmo no presépio, e o sacerdote que a celebrou sentiu uma piedade que jamais experimentara até então.

O santo vestiu dalmática, porque era diácono, e cantou com voz sonora o santo Evangelho. De fato, era “uma voz forte, doce, clara e sonora”, convidando a todos às alegrias eternas. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas maravilhosas sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém. Muitas vezes,-quando queria chamar o Cristo* de Jesus, chamava-o também com muito amor de “menino de Belém”, e pronunciava a palavra “Belém” como o balido de uma ovelha, enchendo a boca com a voz e mais ainda com a doce afeição. Também estalava a língua quando falava “menino de Belém” ou “Jesus”, saboreando a doçura dessas palavras.

Multiplicaram-se nesse lugar os favores do Todo-Poderoso, e um homem de virtude teve uma visão admirável. Pareceu-lhe ver deitado no presépio um bebê dormindo, que acordou quando o santo chegou perto. E essa visão veio muito a propósito, porque o menino Jesus estava de fato dormindo no esquecimento de muitos corações, nos quais, por sua graça e por intermédio de São Francisco, ele ressuscitou e deixou a marca de sua lembrança. Quando terminou a vigília solene, todos voltaram contentes para casa.

Guardaram a palha usada no presépio para que o Senhor curasse os animais, da mesma maneira que tinha multiplicado sua santa misericórdia. De fato, muitos animais que padeciam das mais diversas doenças naquela região comeram daquela palha e tiveram um resultado feliz. Da mesma sorte, homens e mulheres conseguiram a cura das mais variadas doenças.

O lugar do presépio foi consagrado a um templo do Senhor e no próprio lugar da manjedoura construíram um altar em honra de nosso pai Francisco e dedicaram uma igreja, para que, onde os animais já tinham comido o feno, passassem os homens a se alimentar, para salvação do corpo e da alma, com a carne do cordeiro imaculado e não contaminado, Jesus Cristo Nosso Senhor, que se ofereceu por nós com todo o seu inefável amor e vive com o Pai e o Espírito Santo eternamente glorioso por todos os séculos dos séculos. Amém. Aleluia, Aleluia.

Tomás de Celano – Primeiro Livro (Fontes Franciscanas)

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/