terça-feira, 25 de outubro de 2016

Uma vida no Convento São Francisco (SP)


Desde que foi transferido para o Convento São Francisco de São Paulo, para fazer os estudos de Filosofia e Teologia, em 24 de junho de 1762, Frei Galvão não deixou mais a capital paulista. Até a sua morte, em 1822, ele viveu como frade do Convento. Mesmo residindo no Recolhimento da Luz, a partir de 1819, ele não deixou de ser frade com residência no Convento dos franciscanos. Para residir no recolhimento, teve autorização dos superiores franciscanos e do Bispo.

Portanto, durante 60 anos, Frei Galvão construiu uma história no Convento São Francisco.

O Convento São Francisco foi uma das grandes casas de formação para religiosos e candidatos ao clero secular. Os frades que lá moravam dedicavam-se a todos os tipos de trabalhos apostólicos, como também à pregação de missões populares pelo interior da Capitania.

Segundo o livro “História e Vida de Frei Galvão”, de Frei Paulo Back, durante esse tempo de estudos, em São Paulo, o jovem sacerdote Frei Antônio de Sant’Ana Galvão começou a chamar a atenção dos confrades franciscanos e dos fiéis, tanto pela sua piedade como pelas demonstração de qualidades excepcionais de seu caráter. Tornou-se, assim, uma pessoa muito querida.

Em 23 de julho de 1768, o Capítulo Provincial atribui a Frei Galvão as tarefas de pregador, confessor e porteiro do Convento São Francisco. Nos capítulos de 1770 e 1773, Frei Galvão foi mantido por seus superiores nessas tarefas e funções.

Mais tarde ele foi nomeado para ser confessor do Recolhimento de Santa Teresa, primeira casa religiosa de vida contemplativa em São Paulo.

Foi eleito guardião do Convento São Francisco em 1798 e reeleito em 1801. Enquanto construía o novo Recolhimento da Luz, foi nomeado Definidor e Visitador dos Conventos do Sul, funções mais altas na hieraquia da Província franciscana.

Sobre as “Pílulas de Frei Galvão”


Frei Walter Hugo de Almeida

As pílulas de Frei Galvão nasceram do grande amor, zelo e caridade que Frei Galvão tinha para com os doentes. Um dia, não podendo visitar um rapaz que estava com muitas dores, escreveu em um papelzinho uma invocação à Virgem Imaculada, e disse ao portador: “leve ao enfermo e diga-lhe para tomar isso com fé e devoção à Maria”. Daí aconteceu a cura. Posteriormente, fez a mesma coisa para uma senhora em perigo de morte, no parto. Ela e o filho se salvaram.

Quando ele morreu, as Irmãs Concepcionistas, a quem ele orientava espiritualmente, faziam estas pílulas e as distribuíam ao povo que acorria às portas dos mosteiros. Há quase duzentos anos, existe a tradição das Pílulas Milagrosas de Frei Galvão.

Que são as pílulas? Um sacramental, objeto de fé. Um sacramental liga-se profundamente à fé, ao Mistério de Jesus, Salvador. O Sacramental sempre se relaciona com Cristo, Maria ou os santos.

Exemplos: uma imagem, uma medalha, o terço etc. No caso das pílulas, trata-se de um sinal de fé e de devoção que Frei Galvão tinha à Virgem Imaculada. As pílulas são expressões do seu amor e compaixão para com os doentes, sinal de sua confiança na proteção de Maria. Devem ser tomadas em espírito de fé e devoção.

Temos notícias constantes das inúmeras graças e curas alcançadas por meio da Novena das Pílulas de Frei Galvão. Destinam-se aos enfermos do corpo ou do espírito. A cada enfermo, costumamos distribuir uma novena: isto é, uma oração para se rezar 9 dias e um pacotinho com 3 pílulas. Toma-se uma no 1° dia; outra, no 5º dia; e a terceira no último dia da novena. Não costumamos enviar grandes quantidades para uma pessoa distribuir. Nosso costume é endereçar a Novena das Pílulas para uma pessoa concreta. O quanto possível, jamais distribuí-las para que alguém faça ‘estoque’ para atender outras pessoas.

BÊNÇÃO DAS PÍLULAS

1. Acolhida:
A bênção figura entre os Sacramentais na Igreja e prepara o cristão para receber os frutos da Salvação que Cristo nos trouxe.
Toda bênção é um louvor, um reconhecimento a Deus Pai, fonte de todas as graças. É por isto que a Igreja distribui bênçãos e abençoa, invocando o nome de Cristo Jesus e fazendo o sinal da cruz de Cristo sobre objetos e pessoas. Vamos agora abençoar as Pílulas de Frei Galvão – um sacramental – em atitude de fé e de devoção à Virgem Imaculada e ao Bem-aventurado Frei Galvão.

2. Palavra de Deus: (Mt 4,23-25)
Jesus percorria a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo. Sua fama chegou a toda a Síria.
Traziam a Jesus os que sofriam de algum mal: os atacados de doenças e dores diversas e ele as curava… Grandes multidões o seguiam da Galiléia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e da Transjordânia’.
Palavra da Salvação.

3. Bênção das Pílulas
S – A nossa proteção está no nome do Senhor!
T – Que fez o céu e a terra!
S – Rogai por nós, Bem-aventurado Frei Galvão
T – Para que sejamos dignos das promessas de Cristo
S – Oremos: Ó Pai de Misericórdia, Deus de toda a consolação, que nos consolais por vosso Filho Jesus, no Espírito Santo, e acompanhais com vossa bênção particular as que sofrem tribulações e enfermidades do corpo e do espírito.
Nós vos suplicamos que, pela intercessão de Maria Imaculada e do vosso servo, o Bem-Aventurado Frei Galvão, abençoai estas pílulas, objetos sacramentais da fé e da devoção do vosso povo santo; fazei, Senhor, que todos os que na fé, e pela fé, delas fizerem uso, possam receber a graça da cura, conforme a vossa santíssima vontade. Amém (Abençoar com água benta)

Onde obter as pílulas:
1. Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz
Tel.: (11) 3311-8745
Av. Tiradentes, 676
CEP: 01102-000 – São Paulo (SP)

Santo Antônio de Sant’Ana Galvão


Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, ou simplesmente Frei Galvão,  foi canonizado no dia 11 de maio de 2007, pelo Papa Bento XVI, em uma grande celebração no Campo de Marte, em São Paulo. Liturgicamente,  Santo Antônio de Sant’Ana Galvão é celebrado em 25 de outubro, a data da sua beatificação pelo saudoso Papa João Paulo II. Frei Galvão morreu em 23 de dezembro de 1822 e está sepultado no Mosteiro da Luz, em São Paulo. Contudo, este santo brasileiro, que era frade desta Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, viveu 60 anos no Convento São Francisco, no Largo São Francisco, em São Paulo.

Segundo Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, ter um santo que viveu entre nós tem um significado muito especial. “Significa, antes de tudo, que os santos não são mitos inventados pela fantasia humana, nem caíram do céu, como seres superiores, que não fazem parte da nossa experiência histórica. São pessoas reais, com endereço e história pessoal, com familiares e parentes, e que também lutaram pela vida e sofreram. Os nossos santos são membros da família humana, irmãos de caminhada da comunidade eclesial. Mas foram grandes cristãos, que viveram um intenso amor a Deus e aos irmãos, deixaram um testemunho de fé e caridade, que serviu e serve ainda como referência: muitas outras pessoas, olhando para eles ou aproximando-se deles, sentiram-se encorajadas a imitar seus exemplos e a viver como eles. Os santos são grandes amigos de Deus, que já alcançaram a “casa do Pai”e agora vivem na companhia de Deus; e também são nossos amigos, totalmente interessados em que nós alcancemos igualmente a vida eterna e estejamos, um dia, em sua companhia. Por isso nós podemos recorrer à sua intercessão e eles pedem a Deus por nós”.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Juventude Franciscana se reúne em Bebedouro

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A Juventude Franciscana (Jufra) do Estado de São Paulo se reuniu nos dias 14, 15 e 16 de outubro no Educandário Santo Antônio na cidade de Bebedouro para realização do Congresso Ordinário Avaliativo 2016. Com o tema: “A minha Juventude é Franciscana” e o lema: “Ide sem medo, para servir!”, cerca de 90 Jufristas do Estado, representantes da Ordem Franciscana Secular e membros do Secretariado Nacional da Jufra do Brasil fizeram a maravilhosa experiência de fraternidade conosco e participaram de momentos importantes para a caminhada da Jufra de São Paulo.

Na noite da sexta-feira começaram a chegar as primeiras fraternidades, e assim se seguiu durante toda a noite. Na manhã do sábado, após a oração e o café, a cerimônia de abertura compôs a Mesa do Congresso, e, em seguida, a jovem Ana Carolina, ex-jufrista pertencente a OFS de São João Del Rei, refletiu sobre o tema e lema do congresso, de maneira muito clara e interativa com os irmãos e irmãs presentes.

Em seguida, iniciamos a apresentação de relatórios, tanto das fraternidades locais, quanto dos membros do Secretariado Regional. Ao final dos relatórios, os jovens foram liberados para o banho e para conversarem, e foi a vez de falar diretamente com os irmãos da OFS. Nossa animadora fraterna regional, Maria Stefani, apresentou a cartilha da animação fraterna aos irmãos da OFS presentes, e o secretário regional, Mateus, apresentou pistas e propostas de como iniciar uma fraternidade de Jufra, apoiado na cartilha de novas fraternidade da Jufra do Brasil.

O espaço também foi de troca de experiências, entre os irmãos da OFS que possuem Jufra nas suas cidades e aqueles que ainda não possuem. Logo mais à noite participamos junto com a comunidade da Celebração Eucarística, que foi presidida pelo Frei Edvaldo Soares, OFM, assistente espiritual da Jufra das Chagas. Após o jantar, o Secretariado Fraterno Regional se reuniu de modo extraordinário para eleger o novo secretário fraterno regional de Formação, sendo eleito o irmão Vinicius, da fraternidade das Chagas em São Paulo.

Em seguida, as fraternidades fizeram apresentações culturais, mostrando muita criatividade e dinamismo. No domingo pela manhã, após a oração e o café, o grupo foi dividido: os irmãos convocados voltaram para a plenária para que fossem aprovadas as alterações do Estatuto Regional da Jufra de São Paulo, e os demais irmãos participaram de uma atividade, onde puderam descobrir um pouco mais o que é a Jufra. O Congresso encerrou com o almoço e a certeza de que o Senhor nos tem abençoado muito, e que muito trabalho ainda precisa ser feito. Revigorados pela graça da fraternidade, retornamos às nossas casas e, em abril de 2018, nos encontraremos novamente em Ribeirão Preto.

Que Santa Rosa de Viterbo, padroeira da Juventude Franciscana, possa abençoar todos nós, jovens, que nos empenhados em buscar cada vez mais viver o Santo Evangelho de maneira alegre e seguindo os passos de Francisco de Assis! Que a mãe Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, cubra-nos com seu manto e nos ajude a sermos perfeitos seguidores de seu Filho.

Secretariado Fraterno da Juventude Franciscana – Sudeste III

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Consagração a Nossa Senhora Aparecida

Oração

Ó Maria Santíssima, que em vossa imagem querida de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil, eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas, mas cheio do desejo de participar dos benefícios da vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos o entendimento, para que sempre pense no amor que mereceis; consagro-vos a língua para que sempre vos louve e propague vossa devoção; consagro-vos o coração para que depois de Deus vos ame sobre todas as coisas.


Recebei-nos, ó Rainha incomparável, no ditoso número de vossos filhos e filhas, acolhei-nos debaixo de vossa proteção; socorrei-nos em nossas necessidades espirituais e temporais, e sobretudo na hora de nossa morte.


Abençoai-nos, ó Mãe Celestial, e com vossa poderosa intercessão fortalecei-nos em nossa fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possamos louvar-vos, amar-vos e render-vos graças no céu, por toda a eternidade.


Assim seja.

Senhora Nossa da Conceição Aparecida



Seis décadas depois de criada a Vila de Guaratinguetá, um certo capitão José Correia Leite, adquiriu terras em Tetequeras, nas margens do Rio Paraíba do Sul, cerca,de três léguas abaixo de Pindamonhangaba. O Porto existente em sua fazenda, ficou então conhecido pelo nome de Porto José Correia Leite (atual Porto Itaguaçú).

Em dezembro de 1716, o rei D. João V, nomeou D. Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, conhecido como Conde de Assumar, para governar como Capitão General a Capitania de São Paulo e Minas Gerais, que pouco depois seria desmembrada em duas, por sugestão dele mesmo. Foi homem importante, viria a ser mais tarde vice-rei da Índia. Embarcou no Rio de Janeiro para Angra dos Reis, Parati e Santos, daí galgou a Serra do Mar e foi a São Paulo, onde tomou posse em 04 de setembro de 1717. Pouco depois seguiu para Minas Gerais, pela chamada estrada real, hospedando-se com toda sua comitiva em Guaratinguetá de 17 a 30 de outubro, à espera de suas bagagens que deixara no porto de Parati.

A Câmara Municipal da Vila de Santo Antonio de Guaratinguetá viu-se em apuros para abastecer a mesa de tão ilustre visitante, por isso convocou os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves, e os mesmos saíram em pescaria pelo Rio Paraíba. Desceram e subiram o rio várias vezes e nada conseguiram, chegando ao Porto “José Correia” o pescador João Alves arremessando sua rede às águas do Rio Paraíba sentiu que algo ali se prendera, puxou-a de volta ao barco e viu que se tratava de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça. Arremessou novamente a rede e apanhou a cabeça da imagem. Os três pescadores sem nada entender continuaram a pescaria, quando para surpresa de todos os peixes surgiram em abundância para aqueles homens.

Segundo o relato daquelas humildes pessoas, foram tantos peixes logo conseguido, depois de “aparecida” a imagem, que a canoa ficou cheia. Até ameaçava afundar. Alegraram-se muito com o ocorrido e foram levar o pescado à Câmara Municipal de Santo Antonio de Guaratinguetá, mas primeiro passaram pela casa de Felipe Pedroso e deixaram a preciosa encomenda confiada aos ciudados de Silvana da Rocha, mãe de João, esposa de Domingos e irmã de Felipe. Puseram-na dentro de um baú, enrolada em panos, separada uma parte da outra.

A casa de Silvana foi o primeiro oratório que teve aquela imagem, e ficou com ela cerca de nove anos, até 1726, data provável de seu falecimento. O marido e o filho, Deus já os chamara antes. Assim tornou-se herdeiro da imagem seu irmão, Felipe Pedroso, o único sobrevivente da milagrosa pescaria. Sua casa foi o segundo oratório, por seis anos, perto da Ponte Sá (proximidade da atual Estação Ferroviária) e também o terceiro, por mais sete anos, na Ponte Alta, para onde se mudara. Em 1739, Felipe Pedroso mudou-se mais uma vez, já velho, para o Itaguaçú, e fez a entrega da imagem a seu filho Atanásio. Até então a imagem ficava dentro do baú, guardada, e só era tirada de lá nas horas da preces, quando era posta sobre uma mesa. Na casa de Atanásio Pedroso, que ficou sendo seu quarto oratório, ela passou a ter altar e oratório de madeira, feitos por ele. Chamava sempre parentes e amigos e com eles rezava o terço e entoava cânticos. O número de devotos começou a aumentar, alguns sentiram-se favorecidos por graças e até por milagres, que apregoavam. A fama da Santa Aparecida foi crescendo e a notícia dos prodígios chegou aos ouvidos do vigário da Paróquia, Padre José Alves, que mandou seu sacristão, João Potiguara, assistir as rezas e observar. Baseado nas informações desse, e tendo ouvido outras pessoas, resolveu o vigário construir uma capelinha ao lado da casa de Atanásio, que, nessas alturas, estava morando no Porto Itaguaçú, onde a imagem fora encontrada.

Consta que o vigário quis levar a imagem para Guaratinguetá, levou-a por duas ou três vezes, mas o povo ia às escondidas e a trazia de volta. Depois corria a notícia de que a imagem fugira de volta para o bairro Itaguaçú. Resolveu o padre José Alves Vilela, no ano de 1743, construir uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros, a qual terminou sua construção dois anos depois, abrindo a visitação pública em 26 de julho de 1745 (dia consagrado a Santa Ana), dia em que foi celebrada a primeira missa.

Assim, 28 anos depois de “aparecida” a imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul, ela teve sua capela, que iria durar 138 anos, até 1883.

Em 1894, chegou em Aparecida um grupo de padres e irmãos da Congregação dos Missionários Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que acorriam aos pés da Virgem Maria para rezar com a Senhora “Aparecida” das águas.
No dia 8 de setembro de 1904, D. José Camargo de Barros coroou solenemente a Imagem de Nossa Senhora Aparecida. Em 29 de abril de 1908, a igreja recebeu o título de Basílica Menor, passados vinte anos, no dia 17 de dezembro de 1928, a vila que se formou ao redor da Igreja no alto do Morro dos Coqueiros tornou-se Município, e em 1929, Nossa senhora foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira oficial, por determinação do Papa Pio XI.

Com o passar do tempo o aumento do número de romeiros foi aumentando e a Basílica tornou-se pequena. Foi então que os Missionários Redentoristas e os senhores Bispos iniciaram no dia 11 de novembro de 1955 a construção da atual Basílica Nova, o maior Santuário Mariano do Mundo. Em 1980, ainda em construção, recebeu o título de Basílica Menor pelo Papa João Paulo II. Em 1984, foi declarada oficialmente Basílica de Aparecida Santuário Nacional, pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Santuário Nacional abre ano jubilar em comemoração aos 300 anos da imagem de Aparecida

6º  dia da Novena 2016 - Allan Ribeiro - JS


Na próxima quarta-feira, 12 de outubro, o país comemora a fé do povo em Nossa Senhora Aparecida. Neste ano as festividades tem caráter especial, pois será aberto o ano Jubilar das comemorações dos 300 anos do encontro da imagem da Padroeira do Brasil.

Na reportagem de Felipe Melo o cardeal arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis destacou a importância do mês de outubro e da abertura do Ano Mariano para o povo brasileiro.

“O Ano Mariano como também o Jubileu dos 300 anos, nós queremos que realmente sejam oportunidades e também compromisso de cumprir aquela palavra que Ela disse: Fazei tudo o que Ele vos disser”, colocou.
::“Ano Mariano é para celebrar, comemorar e reaprender com Nossa Senhora”, afirma CNBB::

O repórter conversou também com o padre João Batista de Almeida, reitor do Santuário de Aparecida que falou sobre a liturgia e os ensinamentos da novena da Padroeira nesse ano de 2016, salientando que o enfoque foi nas devoções Marianas e na oração da Salve Rainha.

Outro destaque da preparação para os 300 anos é a peregrinação de uma imagem fac-símile de Nossa Senhora Aparecida, que está visitando todo o país, recolhendo nas capitais, uma porção de terra para compor a nova coroa da Mãe Aparecida.

O administrador ecônomo do Santuário de Aparecida, padre Daniel Antônio ressalta que essa será a coroa que o povo brasileiro oferece a Mãe Aparecida.

“nós entendemos que a Padroeira do Brasil agora deveria receber uma coroa do povo brasileiro, o ouro que vai ser utilizado é dos devotos e na parte de baixo da coroa tem um recipiente que vai receber a terra dos estados do Brasil”.

Além das homenagens a Nossa Senhora o Santuário também se mobiliza na participação da Campanha de Combate ao Trabalho Infantil. Padre João Batista, reitor do Santuário, afirma que a realização da Semana da Criança tem por objetivo criar uma consciência, que lugar de criança é na escola.

::Tribunal Superior do Trabalho lança em Aparecida campanha nacional contra o trabalho infantil::

Solenidade de Nossa Senhora Aparecida




terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Cântico das Criaturas

Quase moribundo, compôs São Francisco o Cântico das criaturas. Até ao fim da vida queria ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. No outono de 1225, enfraquecido pelos estigmas e enfermidades, ele se retirou para São Damião. Quase cego, sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, deixou para a humanidade este canto de amor ao Pai de toda a criação.

A penúltima estrofe, que exalta o perdão e a paz, foi composta em julho de 1226, no palácio episcopal de Assis, para pôr fim a uma desavença entre o bispo e o prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de outubro de 1226.

A oração do santo diante do crucifixo de São Damião e o Cântico do Sol são as únicas obras de São Francisco escritas em italiano antigo e, por isso, são dos mais importantes documentos literários da linguagem popular. Foi nesta língua que ele certamente ditou a maioria de seus escritos, antes que os irmãos versados em letras os traduzissem para a língua comum da época, o latim.

“Na tradição ocidental Francisco de Assis é visto como uma figura exemplar de grande irradiação. Com fina percepção sentia o laço de fraternidade e de sororidade que nos une a todos os seres. Ternamente chama a todos de irmãos e irmãs: o sol, a lua, as formigas e o lobo de Gubbio. As coisas tem coração. Ele sentia seu pulsar e nutria veneração e respeito por todo ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas tinham o seu lugar, pois do seu jeito elas louvam o Criador.

O coração de Francisco significa um estilo de vida, a expressão genial do cuidado, uma prática de confraternização e um renovado encantamento pelo mundo. Recriar esse coração nas pessoas e resgatar a cordialidade nas relações poderá suscitar no mundo atual o mesmo fascínio pela sinfonia do universo e o mesmo cuidado com irmã e mãe Terra como foi paradigamaticamente vivido por São Francisco.”

Cântico das Criaturas

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pela qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.

Bem aventurados os que sustentam a paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes á tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade

(Leonardo Boff)

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

A saudação de Paz e Bem


A saudação franciscana de “Paz e Bem” tem sua origem na descoberta e na vocação do envio dos discípulos, que São Francisco descobriu no Evangelho e, que ele colocou na Regra dos Frades Menores – “o modo de ir pelo mundo”. Lucas (10,5) fala na saudação “A paz esteja nesta casa”, e Francisco acrescenta que a saudação deve ser dada a todas as pessoas que os frades encontrarem pelo caminho: “O Senhor vos dê a paz”.

No seu Testamento, Francisco revela que recebeu do Senhor mesmo esta saudação. Portanto, ela faz parte de sua inspiração original de vida: anunciar a paz. Muito antes de São Francisco, o Mestre Rufino (bispo de Assis, na época em que Francisco nasceu), já escrevera um tratado, “De Bono Pacis” – “O Bem da paz” e, que certamente deve ter influenciado a mística da paz na região de Assis. Haviam, então, diferentes formas de saudação da paz, entre elas a de “Paz e Bem”.

A paz interior como fundamento da paz exterior

Na Legenda dos três companheiros (58), São Francisco dá para seus frades, o significado único para a paz:

“A paz que anunciais com a boca, mais deveis tê-la em vossos corações. Ninguém seja por vós provocado à ira ou ao escândalo, mas todos por vossa mansidão sejam levados à paz, a benignidade e à concórdia. Pois é para isso que fomos chamados: para curar os feridos, reanimar os abatidos e trazer de volta os que estão no erro”.

Trata-se da paz do coração que conquistaram. Francisco exorta seus frades a anunciar a paz e a testemunhá-la com doçura, porque este é o único caminho de comunicação para atrair todos os homens para a verdadeira paz, a bondade e a concórdia.

A saudação da paz, como primeira palavra que os frades dirigem aos outros, tem o objetivo de abrir os corações à paz, isto é, à força espiritual interior: a paz interior da bem-aventurança e a paz proclamada e dirigida a todos, constituem uma única e mesma realidade.

O Bem da paz – o “Sumo Bem”

Deus Sumo Bem é a experiência fundamental de Francisco, o ponto de partida de sua espiritualidade. Nela se fundamenta a vida franciscana como resposta de amor, configurando o amado ao Amor. Portanto, “Bem” é Deus-Amor, é a caridade.

Deus, o Sumo Bem, chamou a todos a participarem do seu Ser, não no sentido de “soma de todos os bens divinos”, mas Deus, enquanto “bem único”. Por isso, a atitude típica de São Francisco é o êxtase adorante e a decisão de estar sempre a serviço deste Deus; um serviço que nasce da alegria da gratidão. É a atitude que projeta em Deus a completude de si mesmo, que leva a renúncia a tudo, até à posse de Deus. Francisco descobre neste “vazio”, a presença de Deus, unicamente como “dom”.

E é justamente este o sentido da resposta humana, a da conversão ao Bem, ao “Sumo Bem”: aceitar Deus como centro absoluto da própria existência, e inserir-se no seu projeto tornando-se seu colaborador. Desta experiência nasce a “doçura”, que enche a vida de Francisco, a sua necessidade de entregar tudo a Deus (pobreza), de render-lhe graças e louvá-lo sem cessar. Desta experiência nasce também a confiança de tudo arriscar, sabendo que Deus não o deixará desamparado.

“Paz e Bem” – A paz se constrói pela caridade

Portanto, a saudação franciscana de “Paz e Bem” é um programa de vida, é uma forma evangélica de viver o espírito das bem-aventuranças. Nestas duas ‘pequenas’ palavras se esconde um dinamismo e uma provocação: saudar alguém com “Paz e Bem” é o mesmo que dizer: o amor de Deus que trago em meu ser, é a mesma pessoa que reconheço nos outros e no mundo e, por causa d’Ele, devemos viver a caridade – o Bem – entre nós.

Daí que, a paz só se constrói por meio da caridade (o Bem), porque a caridade é “forte como a morte” (ct 8,6); à qual ninguém resiste e, quando vem, mata o mal que fomos para que sejamos outro bem. A caridade gera a paz. A caridade está na paz assim como o espírito da vida está no corpo. A caridade sozinha mantém firmemente unidos na paz os filhos da Igreja; faltando a caridade, esta paz se dissolve. A caridade vivifica os membros de Cristo, os une e os faz estar em harmonia num só corpo. Ela é como um cabo, em cuja parte superior foi aplicado um gancho que liga a divindade à humanidade, o cordão que o senhor colocou na terra e com o qual ergueu o homem para o céu”.

(Mestre Rufino)

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

As três ordens

Primeira Ordem – Ordem dos Frades Menores


Após a conversão, pouco a pouco, ao redor de Francisco se forma um grupo disposto a viver toda essa experiência de comunhão com o mistério de Deus que se lhe revelava. Jovens de Assis, na Itália, vão pelo mundo afora como andarilhos, mas vivendo a experiência de fraternidade. Tudo e todos passam a ser sentidos como irmãos e irmãs, pois o frade não é mais senhor de nada e de ninguém.

“Essa pobreza de itinerantes e mendigos será vivida pelos frades em estreita comunhão com Cristo que não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça e que vivia também da generosidade dos que lhe davam hospedagem…” (Leclerc).

A Ordem Franciscana foi criada como uma Ordem de Irmãos, que assumiam a missão de viver e pregar o Evangelho. Não era uma Ordem Clerical (Ordem composta por sacerdotes), como outras que já existiam. O próprio Francisco não quis ser sacerdote e os primeiros frades também não tinham esse objetivo.

Desde o início, porém, como mostra a história de Frei Silvestre, houve o ingresso de alguns sacerdotes já formados, que desejavam ser franciscanos. Algum tempo depois, sobretudo quando Santo Antônio, professor de Teologia, ingressou na Ordem, passou a ensinar Teologia aos frades e alguns deles passaram a se ordenar sacerdotes.

Mais tarde, devido principalmente às necessidades da Igreja, a maioria dos frades passou a se ordenar. Mas até hoje, dentro da ordem Franciscana, convivem como irmãos, em igualdade de condições, frades sacerdotes e não sacerdotes (estes chamados outrora de irmãos leigos, por não serem sacerdotes), cada um exercendo a sua função.

Esse é, sem dúvidas, um dos aspectos mais belos da Ordem criada por São Francisco.

Mais tarde, a Ordem se dividiu em três ramos: Ordem dos Frades Menores (OFM), Capuchinhos (OFMCap) e Conventuais (OFMConv).

Os termos “franciscanismo” e “franciscano” não reclamam profundos conhecimentos das evoluções linguísticas para revelarem sua origem.

Atrás deles, esconde-se o nome FRANCISCO, que no caso vem especificado com o topônimo de ASSIS.

Segunda Ordem – Clarissas

Francisco, além de fundar a 1ª Ordem Franciscana (masculina), foi também o fundador da 2ª Ordem Franciscana, conhecida também por Ordem de Santa Clara, abrindo assim a vivência do ideal franciscano para o ramo feminino. A primeira religiosa franciscana foi a jovem Clara Offreduccio, mais tarde chamada de Santa Clara de Assis, jovem de família nobre e admiradora de Francisco desde que o conhecera como “Rei da Juventude” pelas ruas e festas de Assis. Passou a admirá-lo mais ainda, quando se tornou um inflamado pregador da alegria e da paz, da pobreza e do amor de Deus, não só através de palavras, mas com o exemplo de sua própria vida.

Era isso precisamente o que almejava a jovem Clara. Não estava satisfeita com os esplendores do palácio de sua família, nem com o sonho do futuro enlace principesco ao qual seus pais a estavam encaminhando. Sonhava com uma vida mais cheia de sentido, que lhe trouxesse uma verdadeira felicidade e realização. O estilo de vida dos frades a atraía cada vez mais.

Depois de muitas conversas com Francisco, aos 18 de março de 1212 (Domingo de Ramos), saiu de casa sorrateiramente em plena noite, acompanhada apenas de sua prima Pacífica e de outra fiel amiga, e foi procurar Francisco na Igrejinha de Santa Maria dos Anjos, onde ele e seus companheiros já a aguardavam.

Frente ao altar, Francisco cortou-lhe os longos e dourados cabelos, cobrindo-lhe a cabeça com um véu, sinal de que a donzela Clara fizera a sua consagração como Esposa de Cristo. Nem a ira dos seus parentes, nem as lágrimas de seus pais conseguiram fazê-la retroceder em seu propósito. Poucos dias depois, sua irmã, Inês, veio lhe fazer companhia, imbuída do mesmo ideal. Alguns anos após, sua mãe, Ortulana, juntamente com sua terceira filha Beatriz, seguiu Clara, indo morar com ela no conventinho de São Damião, que foi a primeira moradia das seguidoras de São Francisco.

Com o correr dos anos, rainhas e princesas, juntamente com humildes camponesas, ingressaram naquele convento para viver, à luz do Evangelho, a fascinante aventura das Damas Pobres, seguidoras de São Francisco, muitas das quais se tornaram grandes exemplos de santidade para toda a Igreja.

As Irmãs Clarissas vivem um estilo de vida contemplativa, sendo enclausuradas. Quer dizer que não têm, normalmente, uma atividade pública no meio do povo, dedicando-se mais à oração, à meditação e aos trabalhos internos dos mosteiros.


Terceira Ordem – Ordem Franciscana Secular

Os franciscanos seculares constituem uma verdadeira Ordem na Igreja. Não formam um mero movimento ou associação qualquer. A OFS é uma ordem reconhecida como tal pela Igreja, que lhe apresenta uma forma de vida chamada Regra.

Como tal, ela é acolhida, aceita e abençoada pela Igreja em todas as partes do mundo. Ela faz parte da grande Família Franciscana e contribui para a plenitude de seu carisma.

A Ordem Franciscana Secular é constituída por Fraternidades abertas a todos os cristãos seculares.

Nelas há lugar para jovens, para casados, viúvos e celibatários no mundo; para clérigos e leigos; para todas as classes sociais, todas as profissões, para todas as raças; para homens e mulheres. Há lugar para todos porque se busca viver segundo o Santo Evangelho como irmão e irmãs da penitência.

O projeto de vida de todo cristão e especialmente de todo franciscano secular é o seguimento da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme os ensinamentos que nos foram revelados através do Santo Evangelho. Por isso, “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro de sua vida com Deus e com os homens (Rg 4; 1Cel, 18, 115).

A OFS se articula em Fraternidades de vários níveis: local, regional, nacional e internacional. E toda fraternidade, de qualquer nível, goza de autonomia administrativa, econômica e financeira. Porém, as fraternidades dos diversos níveis estão coordenadas e ligadas entre si segundo a Regra, as CCGG, o ritual e os estatutos.

As relações entre a Juventude Franciscana (JUFRA) e a OFS devem ser marcadas pelo espírito de uma comunhão vital e recíproca. Por esta razão, a experiência vivida na Juventude Franciscana encontra a sua realização natural na OFS.

A padroeira da Ordem III é Santa Isabel da Hungria (imagem ao lado)

Conheça mais: http://ofs.org.br/

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

domingo, 2 de outubro de 2016

Francisco de Assis, um homem feito oração

Transformado não só em orante, mas na própria oração (totus non tam orans quam oratio factus), unia a atenção e o afeto num único desejo que dirigia ao Senhor.
(2Cel 95)

Segundo Celano, Francisco de Assis é a personificação da oração. Dificilmente poder-se-ia ter encontrado uma fórmula mais sintética e mais verdadeira para descrever a dimensão orante de São Francisco. Todo ele se tinha transformado em oração. Ele é o homem do ininterrupto diálogo com o Senhor. Depois de sua conversão, Francisco passa a viver na atmosfera de Deus.  O Poverello percorreu um longo e maravilhoso itinerário em seu relacionamento com Deus: há os suspiros profundos de insatisfação com sua vida quando é chamado a se dirigir a novos horizontes; percorre as planícies onde estão seus irmãos os homens, mormente seus irmãos na vocação de seguimento do Senhor e da forma do santo Evangelho; há essa comunhão constante e amorosa com o Senhor Jesus; passa pela exaltação da bondade do Criador manifestada no sol e nas estrelas, na água e na mãe terra; atinge o píncaro mais solene na configuração do santo a Cristo Jesus no alto do Tabor franciscano que é o Alverne. Ali Francisco poderia efetivamente dizer com Paulo: “Já não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (01 2,20).

Nosso intuito não é fazer um estudo exaustivo sobre o tema da oração em Francisco. Há riquíssima e abundante bibliografia sobre o tema (1). Queremos apenas chamar atenção para alguns aspectos da figura de Francisco que o tornam um homem, feito oração. Num primeiro momento veremos como o Deus grande e altíssimo foi tomando conta do interior de Francisco e o seduzindo. Tudo em Francisco, também a oração, só se entende a partir da sequela de Cristo. Importante, no contexto deste estudo, chamar atenção para o caráter fundamental do manuseio do Livro da Cruz. Embora atraído pelo silêncio e disposto a estar solitariamente unido ao Senhor, Francisco é o homem que reza com os irmãos e chega mesmo a se tornar o maior cantor dos bens de Deus derramados na criação.

1. Dar lugar a um Outro

A oração é, efetivamente, um mistério. É uma experiência que se faz e não um discurso que se profere. Tem muito a ver com a amizade e o amor. É relacionamento entre a fraqueza e a plenitude, o amante e a amada, o esposo e a esposa. Pela oração, o homem tenta aproximar-se de seu Senhor que é amor, fogo, exigência, fonte de vida, misericórdia, paz e plenitude. Francisco viveu o relacionamento com Deus como plenitude inebriante. Os louvores ao Deus altíssimo, escritos por São Francisco no
final de sua vida, no verso da bênção dada a Frei Leão: “… Vós sois o Forte… o Grande… o Altíssimo… a Delícia do amor… a Sabedoria… a Humildade… a Beleza… nossa eterna vida, ó grande e maravilhoso Deus, Senhor onipotente, misericordioso Redentor” (LDA). Curioso observar que neste texto, escrito quase no final de sua vida, haja tão pouca alusão a Cristo. Sente-se neste escrito um transbordamento talvez não encontrado em outro místico da história da Igreja. Tem-se a impressão de que
o Amante seduziu o amado. Esta sedução foi tão forte que seu biógrafo chegou a afirmar que o santo estava separado de Deus «apenas pela parede da carne” e “procurava estar sempre presente no céu” (cf. 2Cel 94).

Desde o momento de sua conversão, Francisco é alguém que procura fazer espaço em si para a chegada de um Outro. Assim, ele começou a ser trabalhado pelo Espírito. Michel Hubaut concebe a oração em São Francisco como abertura ao Espírito (2). Foi fazendo lugar dentro de si para acolher um Outro e viver em função dele. Houve um momento na trajetória de Francisco em que era preciso romper com ânsias e desejos, ambições e projetos pessoais. O processo da conversão de Francisco é marcado por um período de vazio, de não sentido, de espera de alguma coisa. Os dias longos passados na prisão de Perúsia, a prolongada enfermidade, os sonhos que povoavam tumultuadamente seu interior foram levando Francisco do exterior para o interior, do aparente para o essencial, do ilusório para a verdade. Nesse período, Francisco vive na atmosfera de perguntas, questionamentos, insatisfações. “Que queres de mim? Que queres que eu faça? Por que esta insatisfação dentro de mim? Estas questões são bem parecidas com aqueles que se colocam todos os que começam a aventura da entrega de suas vidas ao Mistério de Deus.

Mjchel Hubaut ainda observa: “O Espírito o orienta rumo ao futuro imprevisto de Deus. Nele desperta uma ‘faculdade interior’ e descobre que capaz de colocá-lo em relação com Deus. Se o homem tem dificuldade em entrar em contato com Deus é porque perdeu o caminho do seu ‘coração’ que se tornou, como diz São Paulo, ‘sem inteligência e obscurecido’, covarde e inútil” (3). Os grandes orantes sempre foram pessoas que visitaram seu interior a fim de que lá encontrassem Alguém que os queria
plenificar. Quem quer fazer essa experiência de plenitude despoja-se de tudo, toma distância de sua autossuficiência, renuncia a si mesmo. Sem esse vazio interior, vazio de si, muitas vezes doloroso, não há possibilidade da chegada do Outro.

Eloi Leclerc mostra como Francisco começa a despojar-se de glórias humanas e do desejo do prestígio. Experimenta uma insatisfação com tudo o que realiza. Aos poucos vai se dirigindo para uma região de profundidade. Francisco seria o homem da profundidade. “A partir deste dia (pouco antes da conversão), inaugura-se, na vida de Francisco, um período de silêncio. Uma necessidade imperiosa de silêncio toma conta dele. Procura afastar-se da agitação mundana e do mundo dos negócios. Esforça-se, segundo a expressão de Tomás de Celano, ‘por reter Jesus Cristo em seu interior’ (1Cel 6). A superfície do mundo tão cheia de brilho não mais o atrai. Procura a profundidade de uma caverna ou a sombra de uma capela solitária nos campos. Lá acha o seu tesouro, diz ele. Passa aí horas a fio. Tornou-se um homem chamado pela profundidade”(4).

Quem reencontra o caminho do coração e se dirige às regiões da profundidade começa um novo êxodo ou empreende uma viagem como a de Abraão: deixa suas seguranças, sua parentela, a terra firme em que costumava pisar e se dirige para horizontes novos que Deus haverá de lhe indicar. O que vai acontecer é mistério que está nas mãos e no coração de Deus. Certamente maravilhas poderão ser operadas se o convidado tiver a coragem de despojar-se a si mesmo de planos e projetos e acolher a visita do Inesperado.

Francisco experimentará durante toda a sua vida uma imperiosa necessidade da oração silenciosa e de espaços de recolhimento. A vida e a trajetória de Francisco são pontilhadas de lugares ermos e de eremitérios. Descobre o gosto pelo silêncio na vetusta e arruinada capela de São Damião. Mais tarde, as clarissas viveriam ali intensíssima contemplação silenciosa. Os biógrafos são generosos em lembrar esses lugares silenciosos e eremíticos: Poggio Bustone, Greccio, Fonte Colombo, Rivo Torto,
Narni. Lugar de silêncio e de oração era o Alverne, píncaro de sua vida de união com Deus, monte da transfiguração dolorosa desse amante de Deus. Desejou sempre com grande intensidade a vida eremítica. Queria o retiro exterior nos bosques, nas fendas dos rochedos e nas capelas abandonadas. “Quando rezava nos matos e nos lugares desertos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda a parte, batia no peito e, achando-se mais escondido que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao Pai, conversava com o amigo, brincava com o esposo” (2Ce1 95).

Nestas longas e intermináveis jornadas de oração, Francisco foi acolhendo a visita do Espírito, acolhendo um dom que ele mesmo, por suas próprias forças, nunca poderia se oferecer. A oração não é em primeiro lugar alguma coisa que fazemos, mas uma acolhida que damos. O orante permite que Deus se aposse dele: “Quer andasse ou parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter consagrado a ela todo o seu coração e todo o seu corpo, toda a sua atividade e todo o seu tempo. Compenetrado destas verdades jamais desprezava por negligência qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se apresentavam, seguia-as cuidadosamente e, enquanto duravam, procura gozar da doçura que lhe comunicavam” (LM 10,1-2). Francisco não é mais dono de si, de sua história, de seu presente e de seu futuro. Está sempre nas mãos do Altíssimo esperando suas novas manifestações, sempre no mistério da fé. Forçosamente, o Deus Altíssimo dos cristãos se manifesta na pobreza e no aniquilamento de Cristo Jesus. Por isso, o seguimento de Jesus será caminho de amadurecimento de sua oração que vai se tornar “crística”.

2. No seguimento de Jesus

Na trajetória espiritual de Francisco ficou claro que sua vida seria seguimento de Cristo. “A Regra e a vida destes irmãos é esta: viver em obediência, em castidade, sem propriedade; e seguir a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo (RNB 1,1-2). Logo depois destas palavras da Regra não Bulada, Francisco evoca os textos do seguimento: vender tudo, renunciar a si mesmo e tomar a cruz, deixar terras, esposa e esposo para a construção do Reino. Não é aqui o lugar de desenvolver a temática do seguimento de Cristo em alguns pontos característicos e precisos. Sabemos que os acontecimentos foram se atropelando em sua vida. Depois de um terrível vazio em seu interior vai vislumbrando uma presença que ia enchendo de júbilo seu coração. Coloca-se diante do Crucifixo de São Damião e vê que seus lábios mexem. O Crucificado pede que ele seja reconstrutor de sua casa que estava em ruínas. Ouve depois as palavras do Amor no Evangelho da festa de São Matias e compreende que precisa ir pelo mundo com seus irmãos, sem calçados, sem sacola, sem bagagem anunciando a paz e o amor do Amor que não era amado. Em toda esta trajetória Francisco descobre o despojamento, aniquilamento, pobreza e humildade de Jesus, de sua Mãe e dos apóstolos. Sabemos que foi fundamental nesta sequela de Cristo o encontro com o leproso.

Todos os estudiosos do franciscanismo voltam-se sempre às primeiras linhas do Testamento de Francisco: “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia para com eles. E enquanto me retirava deles, justamente antes o que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo” (Test 1-3).

Francisco começa a abandonar o mundo de Assis. Não externa, mas interiormente ele deixava uma maneira de viver. Entrava no universo do Evangelho marcado pela necessidade do seguimento de Cristo. Deixava o mundo perverso e entrava no mundo do Senhor para depois voltar, transfigurado e diferente, a esse mesmo mundo que tinha saído e saía das mãos do Altíssimo e bom Senhor, criador das flores, verduras e vento. Fundamental foi o encontro de Francisco com o trapo humano do leproso. Esse marginalizado era vestígio gritante do leproso que é Cristo. Pensando no amor de Cristo por todos os homens, Francisco toma uma dupla decisão: associar-se a todos os pequenos da terra e viver de tal forma que nada impedisse a concretização do amor de Cristo em todos. Seu estilo de vida deveria ser testemunho claro de um mundo renovado, nascido da penitência.

A partir do seguimento de Cristo em tudo, a oração de Francisco necessariamente passa a se identificar com a realização da vontade de Deus. Nas Cartas que escreveu, Francisco não cessa de repetir essa verdade: Cristo colocou sua vontade na realização da vontade de Deus (cf. 2CtFi 10). O projeto de realizar a vontade de Deus, à imitação de Cristo, transforma toda a vida de Francisco em acolhida orante dos desígnios do Pai. Não são os que fazem discursos a respeito de Deus que entram na nova ordem do Reino, mas os que fazem a vontade do Pai (cf. Mt 7,21-23). O homem de oração é aquele que vive atento, na vida de todos os dias, a realizar o projeto de Deus para o mundo. O Amor de Deus se patenteia em Jesus e o discípulo do Senhor ouve o Filho Amado do Pai. A partir da cruz de Jesus nascem exigências novas: fraternidade sem restrições, abolição de privilégios, mundo sem barreiras, atitudes de humildade e entrega, respeito pelos homens que são amados por Deus e foram objeto de seu amor crucificado. O Amor que se fez cruz quer a libertação integral do homem, mormente do pecado. O contato orante do discípulo não poderá limitar-se à penumbra de uma gruta ou à solidão de uma igreja abandonada. Todas as servidões humanas, todos os pesos da opacidade da carne impedem o sucesso definitivo do gesto amoroso do Deus-Homem que morre na cruz. “Em todos os tempos, os símbolos que mantêm o homem prisioneiro são sempre fundamentalmente os mesmos, havendo somente a predominância de um ou de outro, aqui e ali. São eles: o sofrimento físico que atinge a vida, o sofrimento moral dos mais fracos provocado por várias formas de prepotência, tirania, violência; a marginalização e a intolerância para com os pobres, as mulheres, as crianças; o aproveitamento dos mais indefesos e dos mais fracos, favorecido e perpetrado por sutis estruturas dominadas por interesses econômicos; a exclusão da plena inserção na comunidade civil e eclesiástica devido a instituições que se colocam acima dos indivíduos ou de movimentos não-institucionais ou se substituam às prerrogativas individuais; os condicionamentos indevidos das religiões; a incompreensão para com a fraqueza moral dos homens”(5).

Iluminado pela dimensão do seguimento de Cristo, a oração de Francisco se identifica plenamente com o fazer a vontade de Deus colocando seus passos nos passos de Cristo. A oração da caverna se une à prática da missão no meio do mundo, lugar onde se decide o amanhã dos homens. Trata-se de um ir pelo mundo. Inspirando-se no texto da Legenda Perusina, E. Lehmann afirma que a cela não está vinculada de maneira absoluta a um lugar concreto ou a um espaço. E uma maneira de viver. “Embora vades em viagem, seja santo o vosso conversar, como se estivésseis no vosso eremitério ou na vossa cela, visto que, onde quer que estejamos ou por onde andarmos, levamos conosco a nossa cela, que é nosso irmão Corpo; e a Alma é o eremita, que mora dentro para orar e contemplar o Senhor” (LP 80) (6).

3. Lendo nas páginas do Livro da Cruz

A vida de Francisco, depois de sua conversão, é emoldurada por duas fortes imagens da cruz: a cruz de São Damião e a cruz do Alverne. Diante do belo e sereno crucifixo de São Damião, Francisco teria proferido esta prece: “Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas de meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Dai-me, Senhor, o (reto) sentir e conhecer, a fim de que possa cumprir o sagrado encargo que acabais de me dar”. Liga cruz e desejo de fazer a vontade de Deus. Ao longo de sua trajetória haverá de manifestar seu amor e sua união à cruz: “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que estão no mundo inteiro e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo” (Test 5).

Ninguém pode negar quanto ele amava as palavras de Jesus. Mas é certo que ele tinha mais gosto e mais facilidade em ler a vontade de Deus nas páginas do Livro da Cruz. Boaventura lembra um curioso detalhe durante a permanência de Francisco com seus irmãos no tugúrio de Rivotorto: “Entregavam-se ali a santos e piedosos exercícios; sua oração devota e quase nunca interrompida era mais mental do que vocal, pois não dispunham de livros litúrgicos pelos quais pudessem rezar as horas litúrgicas. Mas na falta desses, revolviam dia e noite o livro da Cruz de Cristo, que sempre tinham à vista, incitados pelo exemplo e pela palavra do amantíssimo Pai, que frequentemente lhes pregava com inefável doçura as glórias da Cruz de Cristo” (LM4,3).

No final de sua vida, depois de ter encontrado a cruz dos sofrimentos de seu corpo e de toda sorte de contrariedades com o andamento de sua Ordem, Francisco haverá de encontrar a cruz luminosa do Alverne. Na verdade não poucas adversidades pontilharam sua caminhada. Algumas vezes as cruzes lhe chegaram devido à sua falta de critério em mortificações corporais. Muitas delas se exprimiam em doenças e enfermidades. A maior delas parece ter chegado devido ao fato de não poder conservar em sua família religiosa o espírito primitivo dos inícios. No final da caminhada, ele chega à solidão do Alverne. Os Fioretti transcrevem densa e belíssima oração de Francisco antes de vislumbrar o Serafim alado e de ser marcado com os sinais da carne do crucificado: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças eu te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora de tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta em meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores” (Consid. Estig, 3). O que se passa no Alverne é a conclusão de uma vida de união intensa com Deus. Ali se misturam dor e amor. Os grandes místicos sempre souberam paradoxalmente unir amor e dor. Tendo recebido os estigmas tornou-se efetivamente um outro Cristo. Neste momento cessam as palavras. Há uma fusão de amor vivida e experimentada que foi visibilizada nos estigmas que Francisco cobriu discretamente para não serem vistos. Eram os segredos do Rei.

4. Rezar com os outros

Por mais que Francisco fosse atraído pela solidão das grutas, ele sabe e quer rezar com os outros e ser sacerdote da criação inteira. Já dissemos que Francisco recomendava que os frades levassem sua “cela” interior pelo mundo afora. Nesta parte de nosso estudo queremos chamar atenção para a recitação das horas canônicas da Igreja e para sua oração com e pela criação. Seria grave falta de compreensão da figura deste homem feito oração se não levássemos em consideração estes dois aspectos.

Elemento fundamental do modo de vida de Francisco e dos seus era a fraternidade. Evidentemente esses andarilhos que eram os frades deviam se reunir muitas vezes. Mesmo quando eram muito poucos, um ponto de encontro marcado era para o Ofício divino. Francisco e Clara compreenderam que o Ofício era um dom recebido da Igreja. Fiel e devotamente os frades menores e as pobres irmãs haveriam de ser fiéis à recitação das horas canônicas. Tanto uns quanto outros se haviam constituído em famílias dentro da Igreja. E essa Igreja lhes confiava a bela tarefa de rezar com ela e nela, como membros de um grande Corpo.

“Embora a celebração do Ofício divino não apareça tematizada com amplitude e detalhes nos escritos e nas biografias de Francisco e Clara, sem dúvida, os dados que nos são oferecidos nos permitem dizer que para eles celebrar o Ofício divino era uma, e a primeira, das atividades que o seguimento de Cristo lhes impunha. Esta celebração era expressão de sua devoção, comunhão com a oração de Cristo em seus mistérios e dom que a Igreja faz à Fraternidade, por meio do qual os irmãos se unem em  fraternidade dentro da comunhão eclesial” (7). Não podemos esquecer que o próprio Francisco escreveu um ofício próprio, o da paixão, que retrata seu conhecimento da estrutura da oração da Igreja e coloca em realce o mistério da encarnação/paixão de Jesus.

A vontade de Francisco aparece claramente expressa em seus escritos. Tanto na RNB quanto na RB o ofício é colocado em relação ao jejum. “Rezem os clérigos o ofício divino, por isso podem ter breviários, segundo a ordem da Santa Igreja romana, exceto o Saltério (RB 3,1). “… todos os irmãos, sejam clérigos ou leigos, recitem o ofício divino, as ações de graças e demais orações, como é de sua obrigação” (RNB 3,3). Francisco emprega palavras duras no seu Testamento. Considerando-se homem simples, bastante enfermo assim se exprime: “E embora eu seja simples e enfermo quero contudo ter sempre junto a mim um clérigo que reze comigo o ofício segundo manda a Regra (29)”. Demonstra assim uma atitude de total fidelidade a esta missão que a Igreja lhe confiou e mesmo quando já se poderia considerar dispensado, quer um companheiro que o ajude a louvar a Deus com a oração da Igreja. “E todos os irmãos estejam obrigados a obedecer de igual modo aos seus guardiães e a rezar o ofício segundo manda a Regra. E se acaso houver quem não reze o ofício segundo o preceito da Regra e introduzir um modo diferente ou não seja católico, todos os irmãos, onde quer que estiverem e acharem um deles, são obrigados sob obediência a levá-lo ao custódio mais próximo do lugar onde o tiverem encontrado (Test 30s). São palavras bastante duras e que só
podem ser entendidas a partir da concepção que Francisco tem da dependência com a Igreja Romana e suas determinações e também ao fato de ver nesse ofício uma oração da fraternidade que revive os mistérios de Cristo. Mais duras ainda são suas palavras na CtOr. Ali ela aborda duas questões: a necessidade de rezar com o coração e não simplesmente de forma bela a agradar os ouvidos dos homens e o problema dos irmãos que não querem observar o ofício divino. “Rogo, pois insistentemente ao ministro geral Frei H(elias), meu senhor, que faça observar a Regra por todos inviolavelmente, e que os clérigos digam o oficio divino com devoção diante de Deus, atendendo não tanto à harmonia da voz mas antes à sua concordância com o espírito, de modo que a voz se una ao espírito, e o espírito se harmonize com Deus. Assim, eles podem agradar a Deus pela pureza do coração e não lisonjear os ouvidos do povo pela delícia da voz. Quanto a mim prometo observar rigorosamente estes pontos, à medida em que o Senhor me der sua graça, e quero que os irmãos que estão comigo o observem no ofício divino e nos demais exercícios regulares. Mas aqueles irmãos que não quiserem observar, não os considerarei nem como católicos, nem como irmãos: nem quero vê-los nem falar-lhes, enquanto não mudarem de atitude…» (CtOr 40-44).

Dos textos transcritos podemos compreender que a recitação do Ofício divino não era uma atividade optativa dos frades. Tratava-se de uma obrigação. Tratava-se de incumbência dada pela Igreja e marcada pela força da Regra. Não se trata simplesmente de um formalismo a ser observado. Será preciso rezar a partir do coração, “com pureza de coração”. Os irmãos, desta forma, estariam unidos à Igreja já que eram uma fraternidade constituída na Igreja. Não se pode deixar de colocar em evidência a união desejada pelo Fundador com os mistérios de Cristo. Os frades estariam unidos ali à oração de Cristo, única verdade e único caminho para o Pai. Assim, a oração se coloca na linha do seguimento. Francisco não se faz homem de oração isoladamente. Quer se consumir diante de Deus no coração de sua fraternidade que é célula da Igreja.

Dentro da mesma perspectiva do rezar com os outros situa-se a oração de Francisco no coração do mundo criado. Francisco não despreza o mundo. Sempre soube vincular sua oração com a natureza. Desapropriado de tudo, sem alimentar em seu interior o sentido de posse e dominação sobre pessoas e sobre a natureza, Francisco é o homem que se considera constantemente um agraciado. Recebe irmãos e recebe os dons da criação. Evidentemente, o momento mais sublime do louvor de Deus em suas criaturas proferido por Francisco é o Cântico do Irmão Sol. Não é aqui o lugar de examinar exaustivamente o teor desta prece nem situá-la em seu verdadeiro contexto. Limitamo-nos a poucas observações, sempre tendo em mente nosso assunto que é mostrar Francisco como homem feito oração.

Transcrevemos dois textos dos biógrafos que mostram essa fraternização com o criado e ao mesmo tempo a forma de oração desse homem que em tudo andava procurando vestígios do Amado e via na criação toda como que uma “caligrafia de Deus”.

“Embora desejasse sair logo deste mundo como se fosse um exílio de peregrinação, este feliz viajante sabia aproveitar o que há no mundo, e bastante. Usava o mundo como um campo de batalha com os príncipes das trevas, mas também como um espelho claríssimo da bondade de Deus. Louvava o Criador em todas as suas obras e sabia atribuir os atos a seu Autor. Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e enxergava a razão e a causa vivificantes através dos espetáculos que lhe davam prazer.
Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo e que todas as coisas boas clamavam: ‘Quem nos fez é ótimo’. Seguia sempre o Amado pelos vestígios que deixou nas coisas e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono” (2Cel 165). “Nós que vivemos com ele vimo-lo rejubilar-se interior e exteriormente à vista de todas as criaturas. Era tal o seu amor por estas maravilhosas criaturas que, ao tocá-las ou vê-las, seu espírito parecia não mais pertencer à terra, mas ao céu. Por causa do grande consolo que recebeu destas criaturas, compôs pouco antes de sua morte os ‘Louvores ao Senhor nas suas criaturas’ para incitar os corações dos que os ouvissem a louvar a Deus e para louvar, ele próprio, ao Senhor nas suas criaturas” (EP 118).

Francisco não é um orante solitário. Reza com seus irmãos. Compõe orações que todos poderiam recitar. Une-se também aos seres irracionais e inanimados. Sabe que a fonte de todos é o único Pai. Francisco tem consciência pleníssima da paternidade universal de Deus que generosamente transborda nas criaturas todas. A criação é uma carta enviada pelo Pai aos seus filhos os homens que se tornam assim cantores e sacerdotes de todo o criado. Neste sentido, o Cântico do Sol é expressão do mais alto louvor da criação. E. Leclerc define este Cântico como um grande impulso na direção de Deus. Esse elã é tão veemente que desaparece num ato de adoração e de silêncio diante daquele “que humano algum é digno de mencionar”. Nesse momento, Francisco se inclui humildemente entre todas as criaturas e seu louvor é tão perfeito que se torna também magnífica exaltação das criaturas (8).

Conclusão

Toda a vida do Poverello era oração. Nada está desvinculado da comunhão com Deus. Francisco é um contemplativo na ação. Sabemos da importância que ele dava ao trabalho manual. Queria que seus frades sempre trabalhassem e quem não o soubesse, que aprendesse alguma coisa porque abominava o “irmão mosca”. “Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção, de maneira que afugentem o ócio, inimigo da alma, e não percam o espírito de oração e de piedade ao qual devem servir todas as coisas temporais” (RB 5,1-2). O trabalho é uma graça, como também a oração é graça. Há uma fundamental unidade entre vida contemplativa e vida ativa. Francisco não está  sugerindo que, durante a realização do trabalho, os frades se entreguem a orações vocais ou análogas. É sempre o Espírito, o dom de Deus, que valoriza tudo na vida. O trabalho e qualquer atividade precisam ser realizadas em união profunda com Deus. Tudo tem que ser piedoso e devoto. Francisco une contemplação e ação (9).

Francisco sempre busca a Deus. Procura-o e ouve sua voz na solidão. Era um homem habituado ao silêncio das profundezas e da profundidade. Acolhe esse Senhor no mal amado, imagem de Cristo. Reage contra toda negligência com os irmãos amados por Deus. Rezar é amar o irmão e adotar um estilo de vida consentâneo aos desígnios de Deus e tornar possível e conhecida a graça que vem da cruz do Senhor. A oração ganha intensidade quando é feita a partir do amor louco e desmesurado da cruz. Quem lê no livro da Cruz mistura em seu interior dor e amor. A oração se alimenta de toda Palavra que sai da boca de Deus. É realização da Palavra.  O orante une sua voz à voz dos irmãos todos e reza com a Igreja. Não deixa de incluir e inserir em sua oração as criaturas mais insignificantes. Eleva até o Criador o hino de louvor pelo sol, pelas estrelas, pelo vento, pela vida e pela morte. Realmente, Francisco não é somente um grande orante, mas a própria oração.

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1.Não é possível mencionar aqui toda a bibliografia sobre o tema da oração. Limitamo-nos a chamar atenção para alguns trabalhos: Lehmann, L., Tiefe und Weite. Der iniversale Grundzug in den Gebeten das Franziskus von Assisi, Werl/Westf., 1984; Id., Franziskus, Meister des Gebets. Komentar zu den Gebeten des hl. Franz von Assisi. WervWestf. 1989; Mariani, E., Preghiera, em Dizionario Francescano, 1984, col. 1431-1454; Pedroso, J.C.C, Contemplación Franciscana, Reflexiones, em Cuadernos Franciscanos, 84 (1988) p. 3-51; E. Leclerc, François d’Assise (Col. “Les grands maitres à prier”, Troussures, 1988; Barsotti, D. La preghiera di San Francesco, Brescia 1982. A revista Selecciones de Franciscanismo (Valencia, Espanha) apresenta uma resenha de excelentes artigos publicados até 1990 (cf. Selecciones de Franciscanismo, 1990 (56) p. 210-212).
2. Cf. Hubaut, M., El camino franciscano (trad. espanhola do or. francês), Estela, 1984, p. 53-67.
3. Hubaut, M., op. cit., p. 55.
4. Leclerc, E., Francisco de Assis. Retorno ao Evangelho, Petrópolis, p. 35.
5. Pompei, A., Gesù Cristo, em DizionarioFrancescano, Pádua, 1984, col. 646.
6. cf. Lehmann, L., Introducción a la oración de Francisco de Asis, traduzido do alemão:
Franziskus –  Meister des Gebets, em Selecciones de Franciscanismo 56(1990) p. 167.
7. Lopez, S., Liturgia, em Dizionario Francescano, Pádua, 1984, 885.
8. Cf. Leclerc, E., Francisco de Asis, Maestro de Oración, em Selecciones de Franciscanismo 56(1990) p. 227.

Texto de Almir R. Guimarães, publicado nos “Cadernos Franciscanos/5”, Cefepal e Vozes, 1993

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

sábado, 1 de outubro de 2016

O ponto de partida: o encontro com Cristo


Éloi Leclerc

Francisco não nasceu “irmão universal”, mas tornou-se o “irmão universal”, a preço de uma total reviravolta. Como adolescente e como jovem, ele não era aquele homem de paz que admiramos. É claro que seus primeiros biógrafos no-lo apresentam como um ser afável, cortês, aberto aos outros. Entretanto, sob essas aparências sedutoras, ocultava-se um fundo de violência, uma vontade de conquista e de poder.

Nascido em Assis, em 1181, filho de um rico negociante de tecidos, Francisco cresceu no seio de uma família que pertencia à classe emergente, gananciosa e ávida de poder. Nas comunas medievais que se libertaram da tutela feudal, os ricos burgueses, com os comerciantes à testa, pretendem gerir eles próprios seus negócios e exercer o poder.

Levado por esta força social ascendente, também o jovem Francisco nutre grandes ambições. Gosta de aparecer, de brilhar como um sol, de estar acima dos outros, de fazer-se aclamar rei da juventude dourada de Assis.

Com a idade, suas ambições cresceram. Não desejava continuar no negócio de seu pai e ser apenas um comerciante de tecidos. Seus sonhos eram audaciosos, atingiam as estrelas. Esse jovem burguês aspirava tornar-se cavaleiro e até príncipe! Inteligente, hábil e afortunado, podia esperar tudo. Se, dormindo, lhe acontecia sonhar com a casa de comércio de seu pai, ele a via transformada num palácio cujas numerosas salas resplandeciam com o fulgor de todo tipo de armas. E era para ele que brilhavam todas essas armas. Para ele e seus cavaleiros. Seu olhar juvenil, subjugado pela glória, o levava à conquista do mundo.

Ora, a glória naquela época se adquiria com a guerra. E eis que precisamente a guerra se oferece a ele: acaba de estourar entre Assis e Perúsia, a cidade vizinha e rival. Francisco se alista na milícia da comuna. Participa na batalha de Ponte San Giovanni. Mas o combate termina com vantagem para Perúsia. Francisco é feito prisioneiro.

Quando ele volta a Assis um ano depois, está com a saúde abalada e cai doente. Esta doença que se prolonga e o condena à inatividade e à solidão marca uma virada em sua vida. Francisco faz, então, uma retrospecção sobre si mesmo. Experimenta o vazio e descobre a frivolidade de seus anos de juventude.

Não obstante, com a recuperação da saúde, é novamente tomado por suas ambições e decide aliar-se, em companhia de um jovem nobre de Assis, aos exércitos pontifícios que lutam contra os exércitos imperiais no sul da Itália. Vai, enfim, poder realizar seu sonho, cobrindo-se de glória. Mas o projeto muda repentinamente de direção. Mal chegado a Espoleto, Francisco ouve uma voz interior que lhe sugere voltar a Assis. Ele obedece. Doravante sua única preocupação será procurar saber o que Deus espera dele.

A partir daquele momento, Francisco se retira voluntariamente para a solidão das pequenas igrejas abandonadas da aldeia de Assis. A capela de São Damião é um de seus lugares preferidos. Lá, só na penumbra e no silêncio, ele passa horas rezando, contemplando o Cristo bizantino que orna o santuário. Este Cristo crucificado, mas irradiante de paz, fala-lhe ao coração: revela-lhe como é profundo o amor de Deus pelos humanos. É uma revelação impressionante. E Francisco é arrebatado e comovido pelo esplendor deste amor. Através da humanidade de Cristo e de sua vida totalmente entregue, ele acaba de descobrir o olhar misericordioso de Deus sobre o homem.

E seu olhar sobre si mesmo também muda. Seus olhos se abrem e ele vê agora o reverso daquela sociedade mercantil da qual ele é um dos privilegiados. O mundo das comunas, tão cioso de suas liberdades recentemente conquistadas, também tem seus deserdados, seus entregues à própria sorte: os pobres, os humildes, os leprosos. Até aquele dia, Francisco passou ao lado de sua miséria sem vê-la. Agora, ele se sente como que impelido para essas pessoas pobres que se tornam seus novos amigos.

O próprio Francisco contou, em seu Testamento, a mudança radical que se operou então em sua vida e até em sua sensibilidade profunda: “O Senhor me concedeu, a mim Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo, se me converteu em doçura da alma e do corpo”.

Texto do livro “O Sol Nasce em Assis”, de Éloi Leclerc, Editora Vozes.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/