segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sudeste III da Ordem Franciscana Secular elege novo Conselho

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Com o tema “Fiéis à Regra para restaurar a Igreja, a vida fraterna e a sociedade”, foi realizado de 19 a 21 de agosto, no Seminário de Agudos (SP), o Capítulo Ordinário Eletivo da Fraternidade Regional Sudeste III/SP, da Ordem Franciscana Secular do Brasil. O lema escolhido foi “Prometi, fiel serei”. O Ministro Nacional Vanderlei Suelio Gomes presidiu o Capítulo e o Assistente Espiritual Nacional, Frei Alexandre Patucci, OFMConv., fez uma brilhante reflexão sobre o tema do Capítulo, antecedendo a votação, que contou com a presença de 173 capitulares.


“É importante destacar o quanto no percurso de Francisco de Assis a primeira coisa que ele acabou restaurando, foi a si mesmo! Este ponto liga-se aquilo que se propõe como lema: “Eu prometi, fiel serei”! Ou seja, tal ‘restauração’ só toma cargo a partir deste ‘eu’ que promete: ‘Fiel serei’. Mas ser fiel a quê? Ser fiel aquilo que vislumbramos como sentido de vida: A Regra, que de fato, mais do que regras no sentido de normas e leis, expressa para nós ‘Vida’, sentido de vida, uma forma de viver e ser, e que para nós se manifesta a partir de algo muito concreto: a Fraternidade! Francisco quando falava da Regra dizia que ‘a Regra e a vida dos irmãos é esta..’ (art. 4)”, explicou Frei Alexandre.

O frade convidou os participantes a não verem a Regra como peso. “Francisco foi conhecido como ‘jogral de Deus’. Por isso seria interessante pensar a regra, a modo de ‘jogral’ ou ‘jogo': Todo jogo ou brincadeira possui regras. Não se vê nelas algo negativo que impede a liberdade, antes se vê nelas aquilo que possibilita o jogo e a brincadeira! E sempre aquele que joga ou brinca faz experiência de liberdade! A liberdade de Jesus Cristo, a liberdade dos filhos de Deus que Paulo aborda em suas cartas (“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, Gl 5,1): a liberdade que Francisco encontrou: jogral de Deus, jogando o jogo do Reino, poeta do Reino! Viver a regra com esta liberdade de espírito, com a criatividade de quem brinca ou joga um bom jogo, e de quem canta os louvores do Senhor!”, ensinou.


Num clima alegre e de fé, foram eleitos para compor o novo Conselho no triênio 2016-2019: Ministro: Antônio Júlio Martins; Vice-Ministro: César Augusto Galvão;Coordenadora de Formação: Bernadete de Lourdes Franco Pereira; 1ª Secretária: Myrthes Maria Vega de Mattos; 2ª Secretária: Rita de Cássia Rocha Bastos Plotegher; 1º. Tesoureiro: Mario Zanchetta Sobrinho; 2º Tesoureiro: Lauro Antonio Baruqui Pirola; Coordenadores do 1º Distrito: Ana Maria Rodrigues de Lima, Fernando Gregório de Oliveira e João Carlos Martins; Coordenadores do 2º. Distrito: João Paulo do Nascimento e Paulo e Paulo Alexandre Ferreira;Coordenadores do 3º Distrito: Angelina Lopes Costa e Paulo Alceu Justen; Coordenadores do 4º Distrito: Eduardo Aparecido Martins de Melo e Ana Cândida de Oliveira Diniz;Coordenadores do 5º distrito: Antônio Flavio Batista e Neolita Soncin; Coordenadora do 6º. Distrito: Ana Angélica Lopes Pereira; Coordenadora do 7º Distrito: Sirlei Gomes; Coordenadores do 8º Distrito: José Juvenal da Silva e Elton Aparecido Michetti. Conselho Fiscal: Cleide Aparecida Marchi, Aldevir Brunini e Jalile Yared de Barros Sene; Conselho Fiscal Suplente: Silvio José de Barros, Antônio Carlos Alves e Edite Costa Beber.

domingo, 21 de agosto de 2016

Nota de falecimento: Frei Wilson Steiner

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Frei Wilson Steiner
* 30/04/1935 + 16/08/2016

Frei Wilson faleceu às 10h15 da manhã do dia 16/08, no Hospital A. C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, para onde fora transferido de Guaratinguetá, no dia 18 de julho, para tratamento de lesões no cérebro e pulmão. Após exames amplos e criteriosos, e devido ao seu estado geral de saúde, os médicos não optaram pela cirurgia mas pelas sessões de radioterapia, que iniciariam hoje. Houve, porém, um agravamento do seu estado na madrugada do dia 13, sábado passado, e ele foi transferido para a UTI, com diagnóstico de pneumonia, coração bastante enfraquecido e pressão arterial muito baixa. Ontem à tarde, Frei Mário Tagliari lhe deu a unção dos Enfermos. Frei Wilson estava lúcido, participou, e, na oração do Pai-Nosso, levantou os braços.


Dados pessoais, formação e atividades


· Nascimento: 30.04.1935 (81 anos de idade), em Forquilhinha – SC;

. Primeira Profissão: 20.12.1958 (57 anos de Vida Franciscana);
· Profissão Solene: 02.02.1962;
· Ordenação Presbiteral: 14.12.1963 (52 anos de Sacerdócio);
· 1959 – 1960 – Curitiba – estudos de Filosofia;
· 1961 – 1964 – Petrópolis – estudos de Teologia;
· 1965 – Rio de Janeiro – ano pastoral;
· 17.12.1965 – Blumenau – assistente do diretor e orientador espiritual do Colégio Santo Antônio;
· 28.01.1971 – diretor do Colégio Santo Antônio e professor;
· 14.12.1982 – São Paulo – São Francisco – vigário paroquial e vigário da casa;
· 18.01.1986 – Petrópolis – guardião;
· 21.01.1989 – Rondinha – vigário da casa e mestre dos frades estudantes;
· 10.01.1995 – São Paulo – São Francisco – guardião;
· 22.11.2000 – Guaratinguetá – Postulantado – vigário da casa, vice-mestre e professor; assistente das irmãs Franciscanas de Siessen e das Irmãs da Terceira Ordem Seráfica; em 20.05.2002, foi eleito guardião, serviço que desempenhou até 07.11.2003.
O frade menor

Frei Wilson era filho do casal Leonardo e Carlota Arns Steiner, e, nos seus dados biográficos, destacou a “fantástica experiência da vida em família grande onde todos aprendiam a repartir com todos”. Ele ocupava o quarto lugar entre os 16 filhos do casal Steiner, sendo 8 homens e 8 mulheres. Segundo ele, os pais viveram para os filhos, tendo a educação e a religiosidade como fundamentos da vida em família. “O Terço e a Oração pelas Vocações não faltavam em família”, dizia. Foi esse espírito que deu para a Igreja mais dois religiosos: a Irmã Esther (já falecida) e Dom Leonardo Ulrich Steiner, que também escolheu fazer parte de outra grande família: a franciscana.

“A distribuição das tarefas, o cuidado pelos irmãos menores, a coerência dos pais, a dedicação ao trabalho, o espírito de união me marcaram muito”, revelava Frei Wilson, recordando o tempo que em vivia no campo, em Forquilhinha. “O contato com a natureza ainda hoje exerce o impacto de um livro aberto para meditação. Gostava e gosto das noites com banho de lua, das madrugadas de frio quando levantava cedo para arrebanhar as vacas e fazer a ordenha. Tinha loucura por animais, principalmente de montaria. Não perdia uma missa das 6 horas da manhã quando escalado como coroinha nem as adorações do Santíssimo dos domingos à tarde”, recordava.

Segundo ele, a vila onde morava era uma grande família. “Domingo, o grande dia do encontro com todos nos horários da missa. Depois as visitas à tarde na casa de algum parente ou conhecido. O café colonial, as tangerinas…”, acrescenta.

São Francisco de Assis entrou em sua vida através dos frades: Frei Félix com seu bom humor, D. Pascásio e Frei Clemente Tambosi. Mas, para ele, a vocação surgiu do cultivo da vivência religiosa em família. “Nunca ninguém sugeriu ou canalizou. Os ouvidos se familiarizaram com os sinos das Ave-Marias chamando para o culto, e a convivência com os frades”. Frei Wilson também lembra que as missões pregadas pelos missionários franciscanos em 1948 ajudaram-no a tomar a decisão de, em 1949, ingressar no Seminário de Rio Negro, onde cursou a primeira série ginasial. Depois seguiu para Agudos, também Seminário Menor, onde ficou até o final do Científico em 1957. “Rio Negro me marcou com as pontas agudas dos seus ciprestes, a gruta e o estilo de castelo do seu prédio”, recordava.

Sua primeira missão ou transferência como religioso franciscano foi Blumenau, como orientador do Colégio Franciscano Santo Antônio. Em 1968 assumiu o cargo de diretor do Colégio. “Entendo cargo como serviço e ser serviço talvez seja o que mais alegria me dá nas coisas que faço”, definia, revelando que era muito empenhado nos compromissos assumidos.

Frei Wilson também se definia como uma pessoa introvertida, tímida e muito emotiva, escondida numa “capa de seriedade”. “Tenho capacidade para escuta, mas preciso fazer um esforço incrível para que não aconteça exatamente o contrário quando as coisas não andam como devem”, dizia, citando grosseria e estupidez como comportamentos inaceitáveis. “Gosto de leitura e música clássica. Abomino grandes concentrações, não gosto de barulho e algazarras de festanças. Divirto-me servindo para que os outros se possam divertir”, confessava.

Não tinha um trabalho preferido, mas sobrava dedicação ao confrade que foi mestre de muitos frades. “A gente acaba gostando das coisas que faz, quando feitas com gosto. Preferência é uma questão de opção e escolha. Servir é a vocação típica do frade menor”, dizia, reforçando que essa era a ideia-força de sua espiritualidade. “Servir a comunidade e fazer das pequenas coisas, também as que não aparecem, momentos de doação”, completava, revelando que se alimentava da Eucaristia, da Bíblia, dos Escritos de São Francisco e documentos da Igreja.

Seu pensamento sobre a vida franciscana é uma mensagem atualíssima: “Fazer acontecer São Francisco em nosso mundo dividido. Ele que foi capaz de contagiar, graciosamente pela não- violência e pela sua autenticidade na busca do Cristo, no seu tempo. Ser serviço em tudo. A nossa vida religiosa franciscana é fundamentalmente uma experiência do Evangelho. Somos religiosos na escola de Cristo e Francisco”.

R.I.P.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O que fomos fazendo da vida ou a vida foi fazendo de nós?

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UM CERTO MODO DE VIVER

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

1. É curto o espaço entre o nascer e o fim dos dias que nos são dados a viver. Tudo passa depressa, depressa demais. Passamos nós, passa o tempo, passam as coisas, passam as pessoas, passam as modas. Tudo muda. A criança, o adolescente, o rapaz e a moça em plena forma, a idade adulta e depois vem o declínio. Por vezes temos a tentação de dizer que nada é importante, de deixar as coisas correrem, acontecerem e, preguiçosamente, observar esse correr das coisas para o fim, coisas que se repetem, rotineiramente. Temos a tentação de deixar a vida nos levar, viver por viver. Entre o momento em que não existíamos e aquele em que nosso corpo inerte for levado ao cemitério ou a um crematório aconteceu a vida, a minha vida, a nossa vida, que ninguém vive em meu lugar, em nosso lugar. O que estamos fazendo de nossas vidas?

2. Fizemos o propósito de viver cristãmente. Nossos pais, parentes e conhecidos nos orientaram, ou nos encaminharam em que fôssemos adotando um gênero de vida cristão. Pode ter acontecido que tenhamos sido batizados, crismados, que tenhamos recebido a comunhão no corpo de Cristo e tudo o mais que tínhamos direito: bênção da garganta pela intercessão de São Brás, cinzas na fronte no começo da Quaresma, jejum na sexta-feira da Paixão e tudo o mais. Pode ter acontecido que tenhamos vivido tudo isso sem grande profundidade, sem consciência clara a beleza e do esplendor do estilo de vida cristão. Por única graça do Senhor fomos despertados de nossa indolência e de um torpor religioso e nasceu em nós o desejo de viver intensamente nosso seguimento de Cristo. Quisemos deixar a prática de uma religião sem vida e desejamos ser discípulos do Senhor Jesus, vivo e ressuscitado, que foi, por diferentes circunstâncias se insinuando em nossas vidas. Experimentamos como que uma saudade de Deus e nasceu em nós o desejo de sermos cristãos de verdade.

3. Alguns entramos na Ordem Primeira de Francisco de Assis, parte da família espiritual suscitada pelo Santo Espírito. Outros aderiram ao franciscanismo vivido pelos seculares. No seio da família franciscana “ocupa posição específica a Ordem Franciscana Secular que se configura como uma união orgânica de todas as fraternidades católicas espalhadas pelo mundo e abertas a todos os grupos e fiéis. Nelas, os irmãos e irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado secular, são empenhados pela profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante a Regra, confirmada pela Igreja” (Regra, n.2).

4. Reiteramos nossa opção pelo caminho cristão de viver, abraçamos o Evangelho. Tomamos plena consciência de que Cristo vive em nós, que o Espírito do Senhor foi derramado em nossos corações, que morremos e renascemos na paixão, morte e ressurreição do Senhor, revestimo-nos do Evangelho vivo, fomos compreendendo que não existe maior amor do que dar a vida pelos outros. Estas afirmações não são meramente frases feitas salpicadas de água benta, mas convicções que nos animam a partir de nosso nó interior, precisamente lá onde começa nossa vida.

5. Fazemos e queremos continuar a fazer de nossa vida um dom. Recebemo-la de Deus e aos outros vamos doá-la. Não queremos reter nada para nós. Dom no seio de nossa família, junto aos que vivem e trabalham conosco, na comunidade cristã e em nossa fraternidade franciscana secular. Aos poucos vamos nos tornando discípulos ardorosos do Senhor. Nem sempre conseguimos.

6. Os que ingressam na família franciscana são pessoas que não se contentam com a mediocridade e a superficialidade. São discípulos do serafim de Assis, do ardoroso homem do amor a Deus e aos homens. À maneira de Francisco e de Clara buscam corresponder ao amor de Deus no meio do mundo. Não buscam a santidade à maneira dos que professam a vida consagrada, mas no meio do século.

7. Vivem e querem sempre mais viver o fraternismo. Regularmente se reúnem com seus irmãos de ideal. Mas são sempre fraternos: gostam das pessoas, acolhem os diferentes, criam a paz onde há divisão, corrigem firme e carinhosamente os irmãos para que estes não enveredem por mais que não levam a lugar nenhum, têm como ponto de honra lavar os pés dos outros, evitam alimentar sentimentos de competição.

8. Não gostam de estar sob a claridade dos holofotes. Tudo o que fazem, fazem da melhor maneira que podem. Fazem-se presentes sem chamar atenção. Mas também não admitem uma falsa humildade.

9. Podem e devem dizer que são “amigos do Senhor”. Abrem suas vidas para encontros gratuitos, regulares e, por vezes, saborosos com o Senhor mesmo com as tarefas pesadas que precisam exercer em sua vida secular. Fazem o que podem e não podem para não perder o espírito da devoção e da santa oração.

10. Estão dispostos a mudar


• o coração através de constantes revisões de vida, exames interiores e da alegre e grata recepção do sacramento da reconciliação;

• a organização de suas vidas, simplificando tudo o que puderem (comportamento, modo de comer, de vestir-se, de administrar os bens e o dinheiro, de usar o tempo livre;

• a maneira de realizar seus encontros e reuniões que serão suculentos, sinceros, realizados com equilíbrio entre oração, estudo e carinho fraterno, espaços que são verdadeira salas de espera para acolher o Senhor que se faz presente na Palavra proclamada e no rosto dos irmãos;

• o modo de atuar na paróquia e na evangelização; não querem dar a impressão de serem meros “funcionários” de uma firma, “tropa de choque”, mas gente que age e atua com espírito crítico, discernimento preparando os corações para que acolham a novidade esplendorosa de Deus em suas vidas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Lampejos da forma de vida de Santa Clara de Assis



Frei João Mannes, OFM

Na história cristã, Clara é, certamente, a mulher que mais fielmente se conformou ao Filho de Deus encarnado. Por isso, no presente artigo tem-se por objetivo chamar a atenção para alguns aspectos essenciais de sua Forma de Vida, inspirada pelo Senhor e Servo Jesus Cristo através do exemplo e da doutrina de São Francisco. Dar-se-á especial ênfase ao “privilégio da pobreza”, pois, outrora como agora, onde falta amor à pobreza não há autêntica experiência religiosa.

1 – A Forma de Vida começa “em nome do Senhor”

A primeira e originária Forma de Vida professada por Clara e suas Irmãs foi escrita por Francisco de Assis, e devia ser muito semelhante à primeira Regra (Proto-Regra) que ele escreveu para si e para os Frades (cf. RB 1,1; RSC 1,3). Pois, o mistério que dá origem à decisão de Francisco de seguir Jesus Cristo pobre e crucificado e viver aquela maneira ordenada por Cristo no Evangelho do Envio dos Apóstolos é o mesmo que encanta, fascina e converte Clara de Assis ao Evangelho de Jesus Cristo. Mais que em Francisco, Clara tem no mistério da expropriação divina o coração de toda a sua existência religiosa.

No entanto, é importante ter presente a luta intrépida de Clara, até sua morte, para obter a aprovação oficial da Igreja para a Regra que ela mesma escrevera. Essa Regra ou Forma de Vida genuinamente clariana só foi aprovada pelo Papa Inocêncio IV aos 09 de agosto de 1253 e recebida com a Bula papal por Clara no dia 10, portanto, um dia antes de sua morte, 11 de agosto.

Ao abrir a Regra de Santa Clara nos deparamos primeiramente com a Bula do papa Inocêncio IV que confirmou e assegurou a eclesialidade e perpetuidade da Forma de Vida da Ordem das Irmãs pobres. É na e através da Ordem das Irmãs Pobres, canonicamente aprovada pela Igreja, que flui até nós, para nós e para o mundo o espírito originário da Forma de Vida clariana. Sem a Ordem, certamente, não teríamos essa preciosa espiritualidade evangélica que, no decorrer dos séculos, vem encantando tantos homens e mulheres desejosos de seguir Jesus Cristo na vivência radical do Evangelho (cf. DORVALINO, 2009, p. 48-55). Na saudação inicial à senhora Clara, bem como às outras Irmãs, tanto presentes como futuras, o Papa deseja “saúde e bênção apostólica”.

Ao desejar a bênção apostólica às Irmãs, certamente o Papa expressou o seu ardente desejo de que elas fossem sempre imbuídas da força, do vigor e do ânimo que transformou aqueles homens, simples e rudes pescadores, em dedicados apóstolos e exemplares testemunhas de Jesus Cristo e de seu Evangelho. E é bem provável que ao desejar-lhes saúde, a autoridade apostólica expressou o desejo de que as Irmãs fossem sempre de alma pura, salva, livre, desprendida e desapegada de tudo o que pudesse ser impedimento à união total com o Amado Jesus Cristo. Assim, despojada de tudo, a Forma de Vida clariana seria sustentada unicamente pela força, pelo Espírito que nutriu e ratificou a vida dos apóstolos (cf. DORVALINO, 2009, p. 40-41).

Clara de Assis, em seu Testamento, destaca que foi o altíssimo Pai celeste que iluminou o seu coração para fazer penitência:

Depois que o altíssimo Pai celestial, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar o meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e doutrina de nosso bem-aventurado pai Francisco, pouco depois de sua conversão, com algumas irmãs que Deus me dera logo após a minha conversão, eu lhe prometi obediência voluntariamente (TestC 24s; cf. RSC 6,1).

Sem dúvida, o exemplo e doutrina de Francisco teve grande influência na decisão vocacional de Clara. No entanto, ela mesma assegura que o processo de sua conversão teve início porque Deus, o Pai de misericórdia, se dignou iluminar o seu coração, e a elegeu para ser a discípula e esposa amada do seu Filho Jesus. Ademais, assegura a serva de Cristo, que a vida de penitência empreendida por ela é uma voluntária resposta à convocação divina de conformar-se a Jesus Cristo (cf. RSC 6,1). Enfim, a existência religiosa de Clara teve início em Deus, conforme também atesta o título do primeiro capítulo da Forma de Vida da Ordem das Irmãs Pobres: “Em nome do Senhor começa a forma de vida das Irmãs Pobres”.

A expressão “nome” (em nome do Senhor) indica aquilo que o Senhor é essencialmente, isto é, o seu modo de ser de servo. Paradoxalmente o Senhor é aquele que mais serve; o Senhor é aquele que se humilha até o extremo. De modo que, ao iniciar a sua Forma de Vida invocando o nome do Senhor, Clara dispõe-se a viver no vigor, na energia, na disposição do Senhor-servo. A Forma de Vida clariana nasce, cresce, amadurece e se consuma no espírito do Senhor e Servo Jesus Cristo. Portanto, na expressão “em nome do Senhor”, anuncia-se que o sentido fundamental da vida de Clara consiste em deixar-se impregnar e conduzir pelo “espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (RB 10,9).

Por fim vale ressaltar que Clara estava convicta de que a sua Forma de Vida estava sendo gerada pelo Senhor no seio da Igreja (cf. TestC 46). Tinha a consciência de que não estava nesta Vida por iniciativa particular, sua, mas porque Deus a havia escolhido por sua pura benevolência e infinita misericórdia.

2 – Relacionamento esponsal com Jesus Cristo

A Dama Pobre de Assis, por inspiração divina, encontrou o sentido fundamental de sua existência na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que incondicionalmente assumiu a condição humana na forma de Servo, até a morte de Cruz. O mistério da encarnação (kénosis) do Filho de Deus, tal qual aconteceu, em pobreza e humildade, está na raiz da espiritualidade de Santa Clara.

A opção fundamental de vida de Santa Clara é pelo seguimento de Jesus Cristo pobre. Ela “já não queria mais nada a não ser Cristo” (2LV 12). E ao colocar-se diante de Jesus não tinha diante dos olhos um programa de virtudes a serem praticadas, mas estava diante de uma pessoa, que trazia uma proposta capaz de apaixonar e atrair discípulos e discípulas para a grande aventura de viver o Evangelho. O discípulo/a é amante de Alguém que atrai e fascina, porque encarna e concretiza os anseios humanos mais profundos (cf. 2LV 7).

Por conseguinte, a essência da vida de Clara e de suas Irmãs é, antes de qualquer outra coisa, amar uma pessoa, Jesus Cristo, como resposta ao seu amor. “Ame com todo coração a Deus (cf. Dt 111; Lc 10,27) e a seu Filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que ele saia de sua recordação” (Er 11). Entretanto, nós, raramente, nos damos conta de que não somos nós que amamos, quando amamos. É o amor que nos ama, nos leva e nos faz amar o que amamos. Esta é a mística de Santa Clara que, no íntimo do seu coração, deixa-se simplesmente enlevar pelo amor do Amado, e, por isso, todo o seu afeto, amor e caridade para com as Irmãs (cf. LSC 38), aos pobres e doentes são manifestações concretas de sua relação amorosa com Jesus Cristo. É vivendo no amor a Jesus Cristo que se chega a ser morada de Deus (cf. Jo 14,23) e se adquire aquele olhar de fé que, graças a Ele, nos permite contemplar o rosto do Amado no rosto dos irmãos e irmãs.

À medida que Clara, “serva indigna de Cristo e plantinha (em latim plantula = rebento, broto) do bem-aventurado pai Francisco” (RSC 1,3) mergulha na mais íntima solidão de sua alma, reencontra-se a si mesma e a todas as criaturas, que antes abandonara por amor a Deus. Sair de si, desprender-se do eu é achegar-se ao portal da origem de todos os seres. Nesse total desprendimento de si a alma humana entrevê o aceno do Divino que se revela e se esconde no interior de cada criatura. De modo que a clausura material de Clara e de suas Irmãs (cf. RSC 11) não é fuga nem rejeição do mundo, mas é, antes, expressão de um silêncio e recolhimento interior (cf. LSC 36), que possibilita a contemplação de si mesma e de todos os seres do universo, à luz da Palavra criadora que jorra do silêncio eterno de Deus. Na vigência do radical desprendimento e da total disponibilidade revela-se toda a profundidade ontológica das criaturas. Somente Deus é ser, toda a criatura é um sendo que tem de receber o ser de Deus.

Portanto, Clara, com todas as fibras do coração, procurou evitar que “toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo” (RSC 10,6) desviassem o seu coração do único necessário, Jesus Cristo. Ser puro, casto e virginal é ser livre dos apegos que traduzem os falsos absolutos da vida: a autopromoção, o acúmulo de honra, fama, riqueza e poder. Ter o coração puro significa não se deixar sufocar pelos cuidados e solicitudes deste mundo, mas voltar-se totalmente para Deus, de tal maneira que Ele possa habitar no coração de forma permanente (cf. 2LV 29). Foi assim, conservando o seu corpo casto e virginal, que Clara reviveu espiritualmente o mistério da mãe do Senhor, que humildemente dispôs-se à ação transformadora do Espírito Santo e tornou-se efetivamente a mãe do Filho do altíssimo Pai (cf. 3In 24-25).

Entretanto, ser mãe do Filho de Deus e tê-lo como único esposo não é um privilégio exclusivo das Damas pobres. Conforme atesta Francisco na Carta aos Fiéis, todos aqueles e aquelas que realizam as obras do Pai celestial “são esposos, irmãos e mães (cf. Mt 12,50) de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2Fi 50). Essa formulação de Francisco, repetida por Clara, tem base no texto bíblico: “Aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12,50; cf. Mc 3,35).

3 – A graça do “privilégio da pobreza”

Clara sente-se profundamente agraciada por Deus e por isso continuamente dá graças e louvores a Deus por todos os benefícios recebidos, conforme admoesta o apóstolo Paulo: “Em todas as circunstâncias dai graças porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,18).

Entre os vários benefícios outorgados por Deus, está o inestimável dom da vida de todas as criaturas. A vida de todos os seres emerge continuamente do mistério abissal da gratuidade divina que funda a existência finita sem porquê nem para quê, unicamente porque quer manifestar-se ad extra por amor às suas criaturas. Cada criatura é um ente (ens) que tem de receber o ser de Deus. É alhures, portanto, que lhe vem a vida, a inteligência, a vontade ou qualquer outra potencialidade.

Basicamente, foi por graça do Pai celeste que se iniciou nossa história terrena. Ser filho ou criatura significa ter a honra de ser portador da força e do vigor de alguém que tomou a iniciativa de criar-nos, fazer-nos surgir sem nenhum merecimento nosso. De fato, Deus ama com amor eterno cada criatura, não por causa dos méritos da beleza e bondade delas, mas ama simplesmente porque é esse o seu modo próprio e íntimo de ser. Deus é Amor gratuito; de graça é sua benevolência para com todos, até para com os ingratos e maus (Lc 6,35). Compreende-se, então, porque a vida de Clara tornara-se um hino de louvor e de ação de graças Àquele que a criou, guiou e protegeu: “E bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes” (LSC 46,5).

Contudo, não somente o fato de existirmos é dom de Deus. Também nossas boas obras procedem do Sumo Bem, que se comunica a si mesmo no ser e operar de cada criatura. Razão pela qual ninguém poderia se apropriar e se vangloriar de suas boas obras, nem invejar as do seu próximo.

Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito (2In 3-4).

No entanto, motivo de maior louvor e gratidão a Deus é que o ser humano seja capaz de corresponder à bondade de Deus que graciosamente comunica todo o seu ser a cada criatura. Em outras palavras, o ser humano é de uma dignidade especialíssima por ter sido criado e chamado por Deus a ser à imagem e semelhança de Deus. Entre todas as graças recebidas da generosidade do Pai está, pois, o inestimável dom da vocação:

Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida (TestC 2-3).

A alma humana, porque criada à imagem de Deus, é essencialmente receptividade e difusão gratuita de si mesmo. Recebemos nossa vida como dom e com a capacidade de doá-la gratuitamente aos outros à semelhança de Deus que renunciou à sua condição divina e assumiu a condição de Servo, em Jesus Cristo. E ao assumir a condição de Servo, até a morte de Cruz, agraciou-nos com a vocação de sermos semelhantes a Ele. Eis o sentido absoluto do nosso ser e viver: “Ele mesmo, o Pai celeste, que em seu Filho muito amado, Jesus Cristo, vem se dando a cada um de nós num convite e chamado para que a Ele nós também nos doemos do mesmo modo, num encontro de pura gratuidade” (DORVALINO, 2009, p. 216-217).

Sem dúvida, Clara intuiu de forma extraordinária a vocação divina do humano, ou seja, de nada reter para si mesmo para que totalmente nos receba aquele que totalmente se nos oferece (cf. Ord 29). Apropriar-se de qualquer coisa é, na perspectiva clariana, macular a imagem de Deus impressa na alma humana, bem como é ser ladrão, é praticar um roubo a Deus. Apoderar-se de alguma coisa é um ultraje, um abuso à bondade de Deus que distribuiu tudo com copiosa benignidade aos dignos e aos indignos.

Clara lutou até a morte, com todas as fibras do seu coração, pelo “privilégio” de viver em total pobreza. O “privilégio da Pobreza”, como foi chamada a bula de Inocêncio III, foi concedido às Damas Pobres em 1216. O Papa escreveu:

Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez pobre, caminho, verdade e vida… Portanto, como haveis suplicado, corroboramos o vosso propósito da mais alta pobreza com o favor apostólico, concedendo-vos com a autoridade da presente que não possais ser por ninguém obrigados a receber propriedades” (Privilégio da Pobreza, In: FC, p. 142).

Clara amou a pobreza e fez dela o seu modo de vida porque o Filho de Deus, vindo a este mundo, escolheu ser pobre desde Belém até a Cruz. Na concepção de vida clariana, a alegria maior da pobreza consistia precisamente na possibilidade de restituir tudo ao Senhor, a exemplo de Jesus que, totalmente despojado na Cruz, restituiu sua vida (espírito) ao Pai: “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,28-30).

Em síntese, Clara de Assis, ao não abrir mão do privilégio da pobreza, não apenas quis o privilégio de uma vida sem privilégios, mas o privilégio que Deus concedeu a cada ser humano de poder ser semelhante ao Filho encarnado do Pai eterno. O Filho encarnado foi pobre porque seu saber era a sabedoria do Pai, seu querer era a vontade do Pai, seu poder o poder do Pai e seu viver e seu amor eram o viver e o amor do Pai. Na radical pobreza e humildade, Clara participa do destino da vida, do sofrimento e da morte de Jesus Cristo:

Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribulação, vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos (Sl 109, 3). E seu nome, glorioso entre os homens, será  inscrito no livro da vida (2In 21-22).

4 – Fidelidade criativa ao “ponto de partida”

Na Segunda Carta de Clara a Santa Inês de Praga, a serva das pobres damas louva imensamente a decisão de Inês que renunciara a todas as benesses de um casamento imperial para unir-se livremente em matrimônio com o Cristo pobre. Exorta-a, no entanto, de manter sempre viva em sua memória o propósito que fizera por uma pobreza radical por amor a Jesus Cristo. Por outras palavras, exortou-a de jamais perder de vista o princípio, isto é, o “ponto de partida” de sua decisão de unir-se em matrimônio com Jesus Cristo:

Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cf. Ct 3,4) mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho (cf. Rm 14,13), para não cumprir seus votos ao Altíssimo (Sl 49,14) na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou (2In 11-14).

Foi o irrestrito amor do Amante Jesus Cristo que a priori “seqüestrou” o coração de Inês de Praga e acendeu nela um ardentíssimo desejo de deixar todas as vaidades desta terra e unir-se ao Cordeiro imaculado como sua digníssima esposa. Clara exorta-a, então, que ela olhe, considere e contemple sempre esse Filho de Deus, que fixou terna e afetuosamente sobre ela o Seu olhar e suscitou nela uma resposta, consciente e livre, de amor total a Ele (cf. 2In 19-20).

Clara aconselhou a todas as Irmãs, de acordo com a última vontade de Francisco escrita para Santa Clara (cf. UV 1-3), que não se desviassem da pobreza por nenhum preço (cf. TestC 40s. 52-57). Para isso faz-se necessária uma contínua vigilância. Pois, as muitas solicitações do complexo mundo em que vivemos, tanto na ordem do ter, do poder, do saber, como na ordem do prazer, são contínuas ameaças ao “ponto de partida”. Dizendo de outra forma, as solicitações do mundo são tão sedutoras que não somente podem ofuscar, mas até mesmo fazer perder totalmente de vista aquela disposição inicial e o propósito de doar-se livre, responsável e criativamente aos irmãos e irmãs, sob a inspiração da vida e doutrina de Francisco de Assis.

Sem dúvida, a advertência de Clara à Inês estende-se a nós todos, discípulos e discípulas de Jesus Cristo. Pois, em tudo aquilo que fazemos, sentimos um forte apelo à satisfação dos nossos sentidos. A busca da auto-satisfação é, certamente, o maior de todos os perigos, que nos afasta gradativamente da afeição originária de nossa vocação, ou da nossa paixão por Jesus Cristo e compaixão pela humanidade.

Por fim, trazemos uma pequena história, atribuída a S. Kierkegaard, que ilustra muito bem como os muitos trabalhos e solicitações do mundo podem nos fazer perder de vista o “primeiro amor” de nossas vidas:

Certa vez, um europeu que viajava pelo Oriente conheceu uma linda mulher chinesa numa estação de trem. Encantou-se por ela, “amor à primeira vista”, mas tinha dificuldades de comunicar-se, pois não conhecia seu idioma. Quando voltou ao país de origem, ele começou a aprender chinês intensamente, para comunicar-se com sua amada. E assim o fez. Os dois correspondiam-se constantemente e alimentavam o amor de um pelo outro através das cartas. Enquanto isso, ele mergulhou no estudo da língua e da cultura chinesa, num esforço gigantesco, a ponto de tornar-se um especialista no assunto. Então, passou a ser requisitado em muitos lugares, para cursos, palestras e eventos. Não tinha mais tempo para escrever à sua amada, e ela nem sabia mais para onde escrever suas cartas, pois ele estava em constante viagem. O homem tornou-se um personagem importante. Mas o custo foi muito alto: esqueceu a mulher que o motivou a aprender o chinês.

Conclusão

Clara e Francisco são fundamentalmente duas versões distintas e complementares de uma mesma Forma de Vida  instituída por Francisco: Observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na esteira de Francisco, Clara e suas Irmãs se fizeram filhas e servas do altíssimo Pai celeste, e desposaram o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho (FV 1-2). E dirigindo-se ao sucessor do bem-aventurado Francisco e a todos os frades da Ordem, recomenda e confia-lhes suas Irmãs, presentes e futuras, “para que nos ajudem a crescer sempre mais no serviço de Deus e principalmente a observar melhor a santa pobreza (TestC 51). E Francisco afetuosamente promete, por si e por todos os seus irmãos na Ordem, ter sempre por elas um diligente cuidado e especial solicitude (cf. RSC 6, 3-4).

Oxalá, Clara nos inspire hoje e sempre a colocarmos a mente, a alma e o coração no Espelho da Perfeição humana e divina: Jesus Cristo crucificado. Contemplar o Espelho da Perfeição significa deixar-se inflamar cada vez mais no ardor da caridade, da bondade, da compaixão e da misericórdia de Deus manifestada em Jesus Cristo. É isso que Clara deseja e propõe a Santa Inês e a cada um de nós: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade” (4In 27). Pois, o ápice da vida contemplativa inaugurada por Clara de Assis é ver, considerar e agir no mundo com o amor maternal de Deus Pai. “O Senhor que deu o bom começo dê o crescimento (cf. 1Cor 3,6.7) e também a perseverança até o fim” (TestC 79).

SIGLAS

Escritos de São Francisco

2Fi = Carta aos Fiéis (Segunda Recensão)
FV = Forma de Vida para Santa Clara
Ord = Carta a toda a Ordem
RB = Regra Bulada
UV = Última Vontade a Santa Clara

Escritos de Santa Clara

Er = Carta a Ermentrudes
2In = Segunda Carta a Inês de Praga
3In = Terceira Carta a Inês de Praga
4In = Quarta Carta a Inês de Praga
RSC = Regra de Santa Clara
TestC = Testamento de Santa Clara

Fontes biográficas de Santa Clara

FC = Fontes Clarianas 
BC = Bula de Canonização de Santa Clara
LSC = Legenda de Santa Clara
2LV = Legenda Versificada de Santa Clara

BIBLIOGRAFIA

FONTES CLARIANAS. Tradução, introduções, notas e índices de J. C. PEDROSO. Petrópolis: Vozes/CEFEPAL, 1994.

FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. Apresentação Sergio M. Dal Moro; tradução Celso Márcio Teixeira et. al., Petrópolis: Vozes/FFB, 2004.

FASSINI, Frei Dorvalino. Forma de Vida da Ordem das Irmãs Pobres – Leitura e Comentários. Cascavel: Federação Sagrada Família dos Mosteiros da Ordem de Santa Clara do Brasil, 2009.

AUTOR:
Dr. João Mannes, OFM
Doutor em Filosofia pelo Pontifício Ateneo Antonianum, Roma (1998).
Professor do Centro Universitário Franciscano do Paraná, Curitiba, PR, e da Faculdade Padre João Bagozzi
freimannes@franciscanos.org.br

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Clara hoje: Uma voz que não se cala


Frei Almir Guimarães


Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4ª. Carta a Inês de Praga).

Cada geração é salva pelo santo que a contradiz (Chesterton).

Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente junto a um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência de “cura” recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos de minha vocação e missão, graças à ajuda das irmãs clarissas. Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, irmãs clarissas, por esta função “terapêutica” tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada (Fr. Giacomo Bini, OFM, Ex- Ministro Geral).

1.
Clara entrou na história ao nascer em 1193 e continua presente no até nossos dias depois de sua morte ocorrida em 1253. O que Clara tem a dizer aos nossos tempos? Como as Irmãs Pobres poderão ser um grupo significativo nesses nossos tempos? Como os franciscanos seculares poderão beber da fonte que brotou ( e continua jorrando) desse abençoado espaço que se chama São Damião, por onde circulavam Clara de Assis e suas irmãs? O que tem Clara a dizer aos nossos tempos?

2. O carisma franciscano se completa admiravelmente no binômio Francisco-Clara. Em Carta dirigida às Clarissas por ocasião de outro jubileu da santa, o Ministro Geral dos Menores assim se exprimia: “Irmãs, minha profunda convicção é esta: necessitamo-nos reciprocamente. Mutilaríamos o carisma se caminhássemos separadamente. Não desejamos e não podemos percorrer estradas paralelas. Caminhando unidos, respeitando nossas diferenças, jogamos tudo: a fidelidade a Francisco e a Clara; a eficácia evangélica de nossa missão na Igreja e no mundo; a credibilidade diante daqueles que, hoje como ontem, estão convencidos de que Francisco e Clara são duas almas gêmeas inseparáveis”. Admirável e delicadamente feminino e masculino se encontram na busca ardorosa do seguimento do Cristo todo despojado.

3. Os Ministros Gerais da Primeira Ordem e da TOR publicaram Carta por ocasião do jubileu de 2012. As clarissas são as guardiãs do carisma clariano: “Chamadas pelo Espírito a seguir o Cristo pobre, crucificado e ressuscitado, vivendo o santo Evangelho em obediência, sem nada de próprio e em castidade, vós sois as guardiãs do carisma clariano, mulheres consagradas que interagem com o mundo, contemplando os sinais que o Espírito semeia e difunde na história. Na escuta de Deus, vós falais hoje ao coração dos homens e das mulheres do nosso tempo com a linguagem do amor, cujas palavras se fundam na raiz da existência habitada por Deus” (…). As irmãs saberão conjugar as raízes do passado com a profecia do futuro: “Aos consagrados e consagradas se pede manifestar o absoluto de Deus. Vós, de um modo particular, sois chamadas a viver uma vida fundada sobre os sinais e símbolos que não remetem ao vazio de um estéril doutrinamento, ritualismo ou ativismo, mas que saibam conjugar hoje as raízes do passado e a profecia do futuro: estruturas, sinais e símbolos que simplesmente fazem ver a Deus”. Há, pois, um apelo a que, também, as clarissas sejam fiéis criativamente. O carisma de Clara não pode ser blindado a uma época. O Espírito não se deixa amarrar. Coloca-se sempre essa questão: Como as clarissas, nesse mundo que é o nosso, saberão unir o passado e o presente?

4. Houve naquela noite do domingo de ramos a fuga noturna de Clara. Ela ouve a voz do Amado que a chama ao deserto. Ela se dá conta que um caminho se abre diante dela. A decisão podia ser tomada, mesmo que comportasse desafios. Estava na hora de sair e procurar uma terra distante como havia feito Abraão, caminhar sem mapa na mão para uma terra que Deus haveria de mostrar. Claire-Pascale Janet, numa biografia original, coloca as seguintes palavras na boca de Clara: “Está decidido. Como esperar mais ainda aquele que se entregou totalmente? Nesse tempo da Quaresma ouço o convite que ele me faz: ‘Vem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu coração, e tu me responderás com todo o teu ser, com todo o teu coração e com todas as tuas forças. Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura. Eis o que eu procuro: a pobreza de Cristo. Um caminho novo diante de meus passos”.

5. Na história de nosso seguimento de Cristo à maneira de Francisco também deixamos para trás tudo e lançamo-nos na aventura franciscana. Uma quase menina ousa deixar a família, vender os bens, seguir um caminho que lhe é sugerido pelo Altíssimo sem maiores indicações. Acredita, tem fé no Senhor. Vislumbra em Francisco e seus irmãos a porta por onde deve passar. Cada franciscano e cada cristão à luz dessa fuga da nobre Clara iluminará sua própria vocação. Não se pode apenas dizer-se franciscano mas ir em frente, esperar que o Senhor nos mostre seus desígnios, estar atento à loucura e insensatez do coração e à terrível tentação do desencorajamento e do desencanto. A fuga de Clara leva-nos a rever o modo como estamos vivendo a nossa aventura espiritual. Clara saindo de casa, foi à Porciúncula, depois esteve em São Paulo das Abadias e Santo Ângelo de Panzo… e São Damião. E ali, no exíguos espaços de uma clausura teve um coração de forasteira e peregrina repetindo a ladainha do “queres de mim Senhor?”

6. Hoje vivemos o tempo da pós-modernidade. Nessa era da liberdade contra as imposições, do respeito pela pessoa, do diálogo, da tolerância assiste-se também à degradação dos valores absolutos surgindo a era do vazio e o crepúsculo do dever, como dizem os especialistas. A sociedade dita do vazio é fraca, fragmentada, descontroladamente pluralista, que aplaude os valores como o hedonismo, o uso imediato das coisas e das pessoas, essa era do relativismo. Os que contemplam Clara ficam admirados de ver o modo como ela concebeu a vida, a leitura que faz dos acontecimentos e de amá-los em Cristo. Clara fascina pela nitidez no seguimento de Cristo e, sobretudo, na busca desse valor absoluto que é o Senhor na incansável busca de seus desígnios.

7. Pobreza e alegria – Quando Clara escolhe seguir radicalmente o Cristo abandona realmente a tudo: segurança da família, as riquezas e os privilégios de linhagem nobre, o casamento, a possibilidade de ajudar melhor os pobres. Liberta-se de tudo e ganha um coração alegre e livre, aberto e transparente. Nenhum tipo de posse pode cobrir de nuvens sua alegria. A pobreza de Clara e de Francisco é seguimento radical do Cristo. O caminho de Cristo em sua humilhação é o que revela a Clara a grandeza da altíssima pobreza. Identificar-se com Cristo pobre dá acesso à alegria do Reino e a seus tesouros. “Esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas irmãs caríssimas, herdeiras e rainhas do reino dos céus, pobres em coisas, mas sublimadas em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos” (Regra 8). Clara não canoniza a miséria e a pobreza, mas abraça a pobreza de Cristo. Num mundo que não conhece a verdadeira alegria, mas o ruído e agitação, num mundo marcado por um consumismo devorador, num mundo insatisfação e de vazio, mundo em que o fundo dos olhos dos homens revelam desencanto Clara brilha como mulher alegre em seu despojamento. A grande maioria dos mosteiros de clarissas tem espaços de beleza na singeleza da pobreza. Eis aí uma grande lição!

8. Dirigindo-se às clarissas, os Ministros Gerais escrevem: “Cada fraternidade se torna sinal alternativo nos lugares de opulência e sinal de esperança entre aqueles que vivem na precariedade, através do testemunho e da própria entrega e da confiança no Pai revelado por Jesus Cristo. Não uma pobreza ideológica ou intelectual, mas um estilo de vida que testemunha a confiança total no Pai, que toma forma no cotidiano da existência. Não faltam de fato no mundo algumas experiências de fraternidades que escolhem testemunhar uma vida extremamente sóbria, para serem solidárias com os pobres e confiarem somente na Providência, viver cada dia da Providência, na confiança de colocar-se nas mãos de Deus” (…). “Vós nos ajudais a degustar a alegria da liberdade porque, contemplando, vedes a Deus em cada aspecto da vida. Demonstrais que não seguis as modas de hoje, que não estais em concorrência com o mundanismo, onde as aparências, a exageração exposição do ego, o individualismo, a auto-referência colocam na sombra a obra de Deus. Vós nos contais a vossa história com Deus que se nutre do silêncio, da escuta e da profundidade espiritual”. A pobreza de Clara e de Francisco atribuem a Deus toda força e todo louvor. Só ele é o bom, o sumo bem… Só ele é o Senhor.

9. O amor em fraternidade - A fraternidade é outra das marcas do carisma clariano. A pobreza brota do Amor. Amor que vem de Deus que une as irmãs, promove a estima pelos de fora, pela criação. Amar aos homens e ao mundo porque Deus os ama. Para Clara, o sopro do Espírito do Deus-Amor é quem reúne as irmãs em fraternidade para a partilha da vida evangélica sugerida por Francisco. Cada irmã é um presente do amor do Pai e todas constituem a fraternidade para construir a unidade no mútuo amor. O amor verdadeiro é o oposto do individualismo e o egocentrismo. É amor para dar amor. Clara sabe viver o mútuo amor feito de prestações de serviço e da reciproca obediência. Ela e suas irmãs tinham a consciência de terem sido chamadas a construir uma Igreja viva, construída do amor fraterno, vocação de ser fraternidade, porque o projeto de Deus Pai é criar uma família de filhos e irmãos. Por isso, a fraternidade para Clara será tecida de relacionamentos de amor que unem as irmãs de um modo familiar, fraterno, materno com uma tão grande profundidade que só pode brotar do Evangelho. “Se uma mãe ama e alimenta a sua filha segundo a carne com quanto mais solicitude não deverá amar e nutrir sua irmã espiritual” (Regra 8).

10. A Fraternidade é o âmbito privilegiado em que se dá testemunho de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade na comunhão. Por isso, a fraternidade será sempre um elemento irrenunciável do projeto franciscano-clariano. A fraternidade se manifesta em gestos marcados pelo afeto que mostram uma relação transparente, sem duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento dos dons que Deus deu a cada um. Corações puros como os de Francisco e de Clara são capazes de descobrir com admiração e respeito a obra do Espírito nos outros. “Se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé e gratidão é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal deve ser construída e guardada. Por uma lado, edificamo-la em base a relações humanas profundas, através do cultivo das qualidades requeridas em todas as relações humanas. Por outro lado, por ser a Fraternidade um tesouro que trazemos em vasos de barro é necessária guardá-la atentamente. Nesse contexto, não nos admiramos que Clara faça suas as exortações de Francisco. Quer que as irmãs se guardem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissenção e da divisão” (Regra 10). Será preciso uma colaboração entre o dom de Deus e o esforço pessoal.”.

11. O Ministro José R. Carballo observa ainda: “Para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade deve ser autêntica, concreta, íntima. Por esse motivo, ao mesmo tempo que pede às irmãs que uma manifeste à outra com confiança suas necessidades (Regra de Clara 8; cf. Regra Bulada 6), Clara as exorta a manifestar através de obras, o amor que professam: “Amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio de boas obras, o amor que tende por dentro, para que provocadas por este exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade (Testamento 59-60). E se entre elas houve alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem manter a paz no coração e apressar-se em perdoar para curar as feridas (cf. Regra 8; cf;. Regra Bulada 6), conscientes sempre do fato de que a unidade no amor mútuo é o vinculo da perfeição” (Regra 10) e que a fraternidade se constrói a preço da reconciliação e do perdão” (Vida Fraterna em Comunidade). (Clara de Assis e de hoje. Um coração conquistado e seduzido pelo Senhor. No 750º aniversário da morte de Santa Clara e da aprovação de sua Regra).

12. Vivemos numa sociedade onde impera o egoísmo, temos que reconhecer os efeitos demolidores do individualismo que nos assedia de todos os lados. O amor fraterno de Clara em fraternidade é tão atual quanto necessário. Trata-se de um espírito de família. As irmãs possuem o espírito de amoroso serviço, tentativa de converter o afã de dominação de uns sobre os outros pelo espirito de doação. “Neste mundo dessolidarizado da pós-modernidade, em que cada um cuida de suas coisas, em que se reivindica a ambiguidade como estilo, em que o hedonismo é tido como valor, onde o homem quer o mínimo de coações e o máximo de escolhas particulares, o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, Clara nos oferece a mensagem do amor em fraternidade, amor solidário com todos os homens, para realizar o projeto de Deus Pai: uma família solidária que viva relacionamentos de amor, que viva o amor na fraternidade” ( El legado carismático de Clara en um mundo postmoderno, Maria del Carmen Elcid , revista Vida Religiosa, n. 3, 1994, p. 228).

13. O valor do Absoluto – Clara é essencialmente uma grande contemplativa, toda a sua vida consistiu em amar absolutamente, em viver face a face com o Absoluto para ir conformando-se com ele cada vez mais. Para ela, a oração vivida como um relacionamento esponsal e pessoal é como a respiração da alma, é diálogo de amor, é o querer e realizar as coisas de seu Amado Jesus. Unida intimamente a Jesus quer apresentar ao Pai toda honra e toda a sua glória. A contemplação foi constante em sua vida. Embora ela não consistisse para ela em fenômenos extraordinários, Clara recebeu iluminações excepcionais a respeito do mistério de Deus. Compreendeu existencialmente o que quer dizer abertura à graça e docilidade ao Espírito. Para poder adorar o Pai em espírito e verdade será preciso cuidar do centro vital do espírito que conecta com o Absoluto: o coração como lugar e diálogo amoroso da frágil criatura com o Deus Altíssimo.

14. A oração é um exercício de amor. Que as irmãs trabalhem e trabalhem diligentemente. Assim evitarão o ócio que é inimigo da alma. Mas que não percam o espírito da santa oração (cf. Regra 7). Antes de tudo a oração. Vivendo intensamente esse relacionamento íntimo, Clara não deixou nenhum tratado sobre a oração, não sistematizou seu relacionamento pessoal com o Cristo Pobre. Através de seus escritos, no entanto, descobrimos a contemplativa, a orante por excelência que convida ao silêncio interior e exterior como espaço privilegiado para perceber e acolher o Absoluto.

15. O coração de Clara nunca se saciava. Tanto na saúde quanto na doença, entregava-se à oração. A Bula de Canonização diz que ela consagrava à oração a maior parte do dia e da noite. Clara se serve do vocabulário bíblico para descrever a união com Cristo, seu amor esponsal: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês).

16. O que é a contemplação? Frei José Rodriguez Carballo assim fala sobre o assunto: “Partamos de um texto da virgem Clara. A Santa escreve para Inês com o intuito de ensinar-lhe a contemplar. Não lhe pede que fale, cante ou reflita, mas somente que ponha a sua mente, sua alma e seu coração em Jesus Cristo: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gloria. Ponha o coração na substância da figura divina e transforme-se inteira pela contemplação, na imagem da divindade” (3ª. Carta a Inês 12-13). Nisso consiste a contemplação: pôr, colocar, ordenar a mente, a alma e o coração que estejam constantemente “voltados para o Senhor”, como diz São Francisco. Ele, e só Ele, deve ser o centro da capacidade de compreensão (a mente), o centro da capacidade de amar ( o coração) e o centro da capacidade de viver no mundo de Deus ( a alma). Desse modo, a contemplação abarca toda a pessoa” (Carta às Clarissas do ano de 2006).

17. Pela contemplação de Cristo, Clara se tornou imagem da divindade e com todas as veias de seu coração escrevia a Inês de Praga: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei Celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti. Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês, 27-32). Em seus escritos e suas cartas, Clara levanta o véu de sua contemplação marcada pelo ardor do desejo e o experimentar a doçura escondida que Deus revela aos que o amam.

18. Essa centralidade do Absoluto em Clara está em contradição com a época pós-moderna em que busca coisas e satisfações fragmentadas. Não existe a história, mas acontecimentos isolados. Não existe o absoluto, mas o relativo. Tudo é provisório. Tudo é parcial. A vida de oração e, sobretudo de contemplação, é uma contribuição de Clara para os nossos tempos. Essa imersão no Amado lança luz sobre nossa oração tão separada de nossa vida e de nosso projeto de vida, oração tão mecânica e tão pobre. Somos convidados a rever nossa vida de busca do Absoluto. Clara grita aos nossos ouvidos.

Concluindo

A. Clara viveu a aventura de Deus. Entregou-se nas mãos do Senhor. Saiu de casa sem o mapa do caminho. Entregou-se sem reservas à maneira de Abraão. Ele quer que hoje questionemos o “nosso ponto” de partida, a vivência de nossa vocação que haverá de fazer numa entrega irrestrita ao Senhor dentro das condições de seculares que são os terceiros franciscanos e de religiosos que são os frades. Por sua vida, Clara grita esse testemunho. Não somos donos de nós. Que o Senhor possa fazer uma obra de arte em cada um de nós! As coisas não estão acabadas.

B. Os franciscanos, sejam eles quais forem, são pessoas despojadas, sem trunfos, sem exigências, sem reivindicações na linha do poder, do prestígio, do ter. Clara e as irmãs de São Damião viviam em total simplicidade e modéstia, viviam de esmolas e, nos começos, as pessoas não eram generosas nas esmolas. Casa modesta, cama modesta, comida modesta, muitas vezes vida de penúria. Clara ensina os franciscanos da Ordem 1ª a levar a sério o compromisso de pobreza evangélica. Sugere que as Fraternidades Seculares sejam constituídas de pessoas simples, sem pose, sem pompas. Gente que não dá importância às aparências, aos aplausos e todo tipo de superioridade, gente com um estilo de vida pobre. Muitas irmãs clarissas, em nossos dias, vivem realmente a pobreza e espelham a alegria de terem pouca bagagem na caminhada da vida.

C. Ser franciscano é ser cultivador da fraternidade. Desafio constante. Nunca matamos completamente o Caim que existe em nós. Vemos Clara cuidando das irmãs, cobrindo-as no tempo do inverno, acolhendo com carinho as que saíam para esmolar, sendo mãe e irmã. Tudo se passa no exíguo espaço dos lugares de São Damião. O nome verdadeiro das clarissas é o de irmãs pobres. O exemplo de Clara e as observações de sua Regra pedem que nos interessemos mais uns pelos outros, que preparemos cuidadosamente nossos encontros fraternos. Os franciscanos seculares, no momento atual, estão empenhados e rever a qualidade de sua vida fraterna e, de modo particular, a maneira como realizam os encontros fraternos. Clara grita que precisamos viver o bem-querer concreto.

D. A grande atividade de Clara e de suas irmãs era a da oração: ofício, missa, longas horas de meditação, contemplação da Paixão de Jesus e do Crucifixo bizantino. Clara, como Francisco, pede que as irmãs, no meio de seus trabalhos, não venham a perder o espírito da santa oração. As cartas dirigidas a Inês de Praga nos falam de uma oração de união. Os franciscanos, tanto os seculares quanto os da Ordem 1ª, gostam de passar um tempo junto ao mosteiro das clarissas. Clara está gritando que toda esse nossa correria, esses discursos e essa nossa fala pouco adiantam. Sentimos que precisamos rever a qualidade de nossa oração. Não é possível viver sem saudades do Senhor. Precisa haver lugar em nossas agendas a tentativa, nem sempre fácil, de buscar o Esposo que não quer partes de nós mas a inteireza de nosso ser.

E. Os Mosteiros de clarissas serão cada vez mais próximos das pessoas, sem que percam o essencial o carisma. Suas liturgias serão eloquentes. Momentos de oração e tarde de retiro podem ser feitos em nossos Mosteiros. Franciscano seculares poderiam melhor haurir as riquezas desses Mosteiros.

F. De toda nossa reflexão ficou claro que os franciscanos e as clarissas precisarão descobrir caminhos novos a serem trilhados. Não cansamos de repetir que se torna urgente uma fidelidade criativa. Renovar ou morrer.

G. “Hoje somos vítimas de tensões, do estresse e da depressão que ameaçam nossa ‘saúde’ espiritual. Talvez uma das tarefas de Santa Clara poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos, a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões de eficiência. É fácil sermos instrumentalizados pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente, daquilo que é necessário; preocupamo-nos com muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser “projeto de Deus”. Creio que seja urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar toda forma de “insânia”, de “esquizofrenia” que destrói a própria vida consagrada” (Frei Giacomo Bini, OFM).


Clara não reivindicou para ela e suas irmãs o direito de pregar ou ensinar, mas desejava ardentemente continuar vivendo em simbiose com os irmãos menores e recusava a ideia de ver a sua comunidade transformar-se em um mosteiro de virgens reclusas e dotadas de rendas; se parece não ter tido dificuldade em aceitar a estabilidade e a clausura, à semelhança das reclusas, que, aos mesmo tempo que se dedicavam à contemplação, guardavam contato como mundo que as rodeava, Clara sempre recusou ceder no capítulo da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente constituía o ponto sobre o qual a sua fundação podia, diferenciando-se do monarquismo beneditino clássico, permanecer fiel ao Espírito do Poverello e, através dele, com as aspirações evangélicas que haviam animado os movimentos leigos do século XI e começos do século XIII.

André Vauchez
Santa Clara y los movimientos
religiosos femininos de su tiempo
Selleciones de Franciscanismo, 1977, vol 26, p. 452

Santa Clara de Assis



Neste dia 11 de agosto, a Família Franciscana celebra Santa Clara de Assis, uma das Santas mais amadas, que viveu no século XIII, contemporânea de São Francisco. “O seu testemunho mostra-nos o quanto toda a Igreja é devedora a mulheres corajosas e cheias de fé como ela, capazes de dar um decisivo impulso para a renovação da Igreja”, dizia o Papa Bento XVI em 2010.

A história nos diz que o Papa Gregório IX escreveu as primeiras orientações para as mulheres da comunidade de Santa Clara. Mas depois Clara tomou as coisas em suas próprias mãos.

Na verdade, os historiadores católicos consideram Santa Clara a primeira mulher a escrever uma regra, ou um conjunto de diretrizes, para a sua comunidade religiosa. Numa época em que a maioria das comunidades religiosas viviam de acordo com regras escritas por homens, a decisão de Clara de compor uma regra para sua própria comunidade foi um gesto ousado.

São João Paulo II, falando às Clarissas do Protomonastério de Santa Clara, falou da importância da vida contemplativa das Clarissas. “Não sabeis vós, escondidas, desconhecidas, quanto sois importantes para a vida da Igreja: quantos problemas, quantas coisas dependem de vós. É necessário a redescoberta daquele carisma, daquela vocação. Faz-se mister a redescoberta da legenda divina de Francisco e Clara”.

Neste especial, apresentamos uma coletânea de artigos para celebrar a memória de Santa Clara e também mostramos o quão admiravelmente se completa o binômio Francisco-Clara. “Seu profundo desejo de seguir Cristo e sua amizade fraterna e grande admiração por São Francisco de Assis a inspirou a deixar a vida aristocrática e rica da sua casa paterna para consagrar-se inteiramente a Cristo, pobre e humilde. Temos aqui um exemplo de como a amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados, que a graça divina purifica e transfigura”, completa o Papa Bento XVI.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Encontro 07.08.2016

Irmãos e irmãs,
Paz e bem!

Na santa missa do dia 07/08/16 na igreja das Chagas rezamos dentre outras intenções pelas vocações sacerdotais, religiosas e leigas, bem como pelos aniversariantes do mês de agosto.

O presidente da celebração Frei Guido, OFM tratou na homilia sobre a Fé no antigo testamento e a fé nos dias de hoje em testemunhar nossa vocação secular franciscana no meio do mundo diante de tantos desafios da vida moderna.

Após a comunhão, o grupo de iniciantes e formandos da fraternidade preparou um momento de apresentação sobre o mês vocacional e da alegria que sentem com o chamado á vocação franciscana. Com cartaz e música foram se colocando à frente e apresentados á assembleia e ao som de um canto bem bonito tocado no cavaquinho pelo irmão Yuri que agradou a todos.

O grupo de iniciantes é na maioria bem jovem e se preparam para abraçarem oportunamente na Profissão a Regra e Vida da Ordem Franciscana Secular. São alegres, comprometidos com o ideal de vida á maneira de Francisco e Clara de Assis.

Nossa fraternidade se alegra com a chegada de novos membros para vivenciarem em fraternidade o carisma e a espiritualidade franciscana.

Após passamos para o sorteio do Quadro de Santo Antonio doado pelo pintor Paolo Quaglio para colaborar com a manutenção da Igreja das Chagas.

Foi sorteado o nome de: Maria Helena Martiniano. Ela estava presente e agradeceu muito pela oportunidade de colaborar e fez doação do referido quadro diante da assembleia para ser novamente rifado e ajudar na manutenção da igreja.

Ao final da missa passamos ao refeitório e cantamos parabéns aos aniversariantes e entregamos a cada um uma linda coroa franciscana pela data natalícia. E saboreamos um delicioso café com bolo de festa ao som de cantos alegres e festivos. A festa do Encontro!
Em seguida os iniciantes foram para os estudos próprios e os professos para a formação e avisos da fraternidade.

Como é bonito o encontro dos irmãos para cantar as maravilhas do Senhor!

Ao final da manhã nos reunimos novamente para o almoço e oração da coroa franciscana na capela.

Por tudo Deus seja louvado!

Maria Nascimento          
















terça-feira, 2 de agosto de 2016

Jubileu do Perdão de Assis



No calendário litúrgico franciscano, o dia 2 de agosto é dedicado à celebração da Festa de Nossa Senhora dos Anjos, popularmente conhecida como “Porciúncula”. Na introdução do texto litúrgico do missal e da liturgia das horas, se diz o seguinte:

“O Seráfico Pai Francisco, por singular devoção à Santíssima Virgem, consagrou especial afeição à capela de Nossa Senhora dos Anjos ou da Porciúncula. Aí deu início à Ordem dos Frades Menores e preparou a fundação das Clarissas; e aí completou felizmente o curso de seus dias sobre a terra. Foi aí também que o Santo Pai alcançou a célebre Indulgência , que os Sumos Pontífices confirmaram e estenderam a outras muitas igrejas. Para celebrar tantos e tão grandes favores ali recebidos de Deus, instituiu-se também esta Festa Litúrgica, como aniversário da consagração da pequenina ermida”.

Particularmente solenes e festivas, como em todos os anos, serão as celebrações na Basílica Santa Maria dos Anjos, onde os Franciscanos preparam-se para celebrar no próximo dia 2 o Grande Jubileu do Perdão no oitavo centenário (1216-2016) do pedido do Pobre de Assis na Porciúncula, em “feliz e providencial” concomitância com o Jubileu extraordinário da Misericórdia convocado pelo Papa Francisco.

Como parte dessas celebrações, o Papa Francisco visitará a Porciúncula na tarde de 4 de agosto por ocasião do Jubileu do Perdão de Assis.

O Pontífice se fará peregrino de forma simples e privada na Basílica papal de Santa Maria dos Anjos, onde se deterá em oração e oferecerá o dom da sua palavra.

A propósito da Porciúncula, o Santo Padre se expressou recentemente nos seguintes termos: “O caminho espiritual de São Francisco teve início em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da Ordem, onde a fundou e onde, por fim, entregou sua vida a Deus, foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, por sua fé tão firme e por seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações a chamarão bem-aventurada.”

Por Frei Régis Daher, OFM

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Assis espera por Francisco


Assis (RV) – Há 800 anos, Francisco de Assis, mergulhado em oração na Porciúncula, pediu a Jesus para conceder o perdão total de todas as culpas àqueles que, arrependidos e confessados, visitassem a pequena igreja.

Assim, o Papa Honório III (1148 – 18 de Março de 1227) concedeu a ele o direito de celebrar a Festa do Perdão no dia 2 de agosto.

Por ocasião da recorrência – a Festa do Perdão e a Abertura do VIII Centenário da Indulgência da Porciúncula – realizou-se uma celebração esta segunda-feira (1º/8) em Assis, presidida pelo Ministro Geral dos Frades Menores, Padre Michael A. Perry.

Os olhares também estão voltados para o dia 4 de agosto, quando o Papa Francisco fará uma peregrinação à Porciúncula. Sobre a expectativa para a visita, a Rádio Vaticano entrevistou o Padre Enzo Fortunato, Diretor da revista “San Francesco”:

“São sentimentos de grande alegria, acompanhados por aquilo que está acontecendo no mundo. Portanto, dá uma grande esperança que esta alegria possa traduzir-se em esperança por meio de novos comportamentos, mas sobretudo por meio de um estilo, que é aquilo que o Papa Francisco quer sublinhar com a sua visita: o da acolhida e do perdão. Eu diria que estes são os trilhos sobre os quais devemos andar e fazer com que Assis torne-se realmente um grande megafone, que alcance os corações de quem não quer viver o perdão e não quer dá-lo. Pensemos sobretudo àquilo que está acontecendo hoje, com os graves atentados terroristas que criam desconcerto e preocupação”.

RV: Neste sentido, a mensagem do Perdão de Assis é ainda atual para o homem de hoje?

“É atualíssima, e é de tal forma atual, que nós assistimos a uma das mais belas coincidências a nível histórico, a nível de acontecimento espiritual: vivemos um Jubileu Franciscano - os 800 anos do Perdão de Assis - com o Jubileu da Igreja dedicado ao perdão. Eu acredito que realmente que não poderia haver melhor coincidência e sintonia de datas, e uma coincidência de mentes, pensando também aos dois Franciscos”.

RV: Existe alguma inciativa especial em função da visita do Papa na quinta-feira?

“Sim, fizemos um número especial da Revista ‘San Francesco’, inteiramente dedicado ao perdão - pensamentos, gestos e olhares de misericórdia – que se vale das assinaturas das maiores autoridades do panorama intelectual italiano e religioso. Será um número que nós entregaremos pessoalmente ao Papa, antes da partida”.

Fonte: Rádio Vaticana