sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Retorno às atividades - 2015

Irmãos e Irmãs,
Paz e bem!

Aconteceu no dia 17/01/15 outra apresentação de concertos do CCBB na Igreja da Ordem Terceira.

O número de pessoas é grande a cada nova apresentação. O público chega cedo para apreciar o ensaio dos músicos.  Com aproximadamente 300 pessoas a igreja fica repleta.

No domingo dia 18/01/15 na missa das nove horas rezamos em sufrágio da Irmã Maria Madalena Salomé falecida no dia 14/01/15 e do Dr. José Welington, procurador jurídico da VOT falecido no dia 15/01/15.

Após o café a formação foi conduzida pelo Irmão Milton sobre a Consciência de Pertença. Ele foi bem dinâmico e alegre, contando com a participação da assembleia  enriquecendo ainda mais o tema.

Depois do almoço tivemos a formação para iniciantes e formandos, enquanto os professos rezaram a Coroa franciscana na capela.

Começamos o ano com várias pessoas procurando ingressar na OFS. 

Deus seja louvado!

Maria Nascimento










Abdullah II elogia posição do Papa sobre liberdade de expressão



Amã (RV) – O Rei da Jordânia Abdullah II considerou positivas e fez como suas as considerações do Papa Francisco sobre a liberdade de expressão e o respeito pela fé e símbolos religiosos, expressas durante a recente viagem à Ásia. Ao encontrar a Tribo beduína Beni Sakhr, o monarca fez claras referências às palavras do Santo Padre de que a liberdade de expressão é um direito e até mesmo um dever, ao mesmo tempo que tem seus limites, não podendo chegar ao ponto de ofender as convicções religiosas dos outros. O fato foi confirmado pelo Vigário Patriarcal de Jerusalém, Maroun Lahham.

O monarca jordaniano reiterou ainda que os extremistas não representam o autêntico Islã e que a reputação dos muçulmanos deve ser tutelada e defendida. Abdullah II explicou sua participação na Marcha de Paris contra o terrorismo, como uma “intenção de mostrar a própria solidariedade a um país amigo, onde vivem mais de 6 milhões de muçulmanos”.

No encontro com os chefes beduínos, o monarca do Reino Hashemita lançou um alarme sobre o crescimento da islamofobia na Europa, insistindo sobre a necessidade de proteger a imagem de moderação e de tolerância do autêntico Islã e de envolver toda a comunidade muçulmana na condenação dos grupos extremistas e terroristas que instrumentalizam o Alcorão. (JE)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Convite para missa de sufrágio: Maria Madalena Salomé - 18.01.15


CONCERTOS CCBB DE MÚSICA CLÁSSICA

A série, em cartaz até maio de 2015, promove a música clássica por meio de diversos compositores europeus e brasileiros do séc. XV ao XX e faz uma homenagem a um dos espaços mais representativos do estilo barroco em São Paulo, a Igreja das Chagas do Seraphico Pai São Francisco, construída no séc. XVII e reaberta em 2014.

Em 17 de janeiro apresenta-se o Quarteto de Cordas Quadrus Chordarum, formado por Edgar Leite (Violino), Alexandre Cunha (Violino), Davi Caverni (Viola), Alberto Kanji (Violoncelo), com a participação da soprano Natália Áurea. A programação inclui A. Borondin, Alexandre Levy, Puccinie Piazzolla, entre outros.

13h – Quarteto de Cordas Quadrus Chordarum, com participação da soprano Natalia Aurea


Nota de Falecimento Frei José Carlos Pedroso - 09.01.2015


Moacir Beggo

São Paulo (SP) – Às 23h30 da sexta-feira, 9 de janeiro, a irmã morte visitou o estudioso e mestre da espiritualidade franciscana e clariana, Frei José Carlos Corrêa Pedroso. Seu corpo foi velado na Capela do Seminário São Fidelis no Centro de Espiritualidade de Piracicaba (SP) e o sepultamento foi às 17 horas. Frei José Carlos vinha lutando contra um câncer e estava internado desde o último dia 30 de dezembro.

Segundo o Provincial dos Capuchinhos, Frei Carlos Silva, ele lutou até o fim. “Eu o visitei recentemente e ele me disse: ‘ainda estou com esperança'”, contou Frei Carlos. Segundo o Provincial, Frei José Carlos doou sua vida pela espiritualidade franciscana: “Até o último minuto de sua vida, ele se dedicou a esta missão. Ele dormia, comia, respirava a mística franciscana clariana”, disse Frei Carlos.

Para Frei Carlos, o céu ganha com a sua partida, mas nós ficamos com o legado que ele deixou. “Por onde ele passou, deixou essa marca, que é única. Viveu intensamente a vida que abraçou. É um exemplo para nós”, acrescentou Frei Carlos.

Frei José Carlos é frade capuchinho da Província Imaculada Conceição dos Capuchinhos de São Paulo (OFMCap). Licenciado em Letras Clássicas pela Pontifícia Universidade de São Paulo, Frei José Carlos nasceu em São Paulo, no dia 14 de agosto de 1931. Fez a primeira profissão na Ordem Franciscana no dia 8 de janeiro de 1950, há 65 anos. Professou solenemente na Ordem no dia 11 de janeiro de 1953 e foi ordenado presbítero no dia 24 de junho de 1956.

Frei José Carlos era diretor e um dos fundadores do Centro Franciscano de Espiritualidade, em Piracicaba, que foi criado em 1990. Além de grande escritor e palestrante, ele foi Definidor Geral da Ordem Franciscana para América Latina e Grécia por dois sexênios e foi Ministro Provincial também em dois mandatos.

Na entrevista que fiz com ele em 2011, Frei José Carlos Corrêa Pedroso dizia que vivia “inteiramente entregue” em mostrar às pessoas qual é o sentido de vida que São Francisco propõe.

Além da série de livros publicados sobre espiritualidade franciscana, das palestras e aulas que ministrava, Frei José Carlos se dedicava com muita paixão ao Curso Franciscano de Verão, anualmente no mês de janeiro. Ele foi o idealizador do curso em 2008. “É interessante porque sempre sonhei alto, mas neste caso (do curso), a realidade ultrapassou o sonho. Estou feliz com o andamento do curso como nem esperava”, dizia em 2011.

Frei Vitório Mazzuco, que está participando do curso em Águas de São Pedro, escreveu o seguinte texto sobre a morte de seu amigo:

“A Irmã Morte nos visitou para convidar Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap, aos 83 anos, para entrar no Paraíso que ele brilhantemente conquistou! Frei José Carlos fez a sua travessia para a eternidade, às 23h30 da noite do dia 9 de Janeiro, no Hospital dos Plantadores de Cana, de Piracicaba, SP. Este frade de olhar profundo e paternal, sereno, amigo, fraterno e amável, foi sempre uma presença necessária na Família Franciscana e Clariana do Brasil.

Fundou e organizou o Centro de Espiritualidade Franciscana de Piracicaba, hoje uma referência para os que querem conhecer a Espiritualidade, Mística, História e Vida Franciscana e Clariana. Amou profundamente as Fontes Franciscanas e Clarianas. Traduziu, comentou, divulgou. Foi o primeiro a lançar no Brasil as Fontes Clarianas. Dedicou toda sua vida à Espiritualidade Franciscana. Cuidou com carinho todo empenhado e particular, da Formação Contínua dos seus confrades Capuchinhos, das Irmãs Clarissas, das Congregações Femininas e de toda Família Franciscana do Brasil e da América Latina.

Desde 1990 trabalhei e trabalho com ele no Curso de Mística Franciscana, no antigo CEFEPAL, em Petrópolis e no Curso Franciscano de Verão, em Piracicaba e São Pedro (SP), e estive com ele em muitas assessorias, encontros, congressos, jornadas e retiros. Um verdadeiro Mestre. Um apaixonado pela causa franciscana. Foi o primeiro a colocar “on line” a tradução das Fontes Franciscanas. Organizou com carinho a excelente Biblioteca Franciscana do Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba.

Foi o maior orientador de Retiros Franciscanos do Brasil. Acompanhava Irmãos e Irmãs que se preparavam para os votos. Fazia acompanhamento personalizado, capaz de orientar retiro para uma, duas, três e 100 pessoas com a mesma vibração. Memorável as Noites Franciscanas que criou em Piracicaba! Dezenas de livros e artigos publicados. Traduções e ensaios, legendou filmes e musicais, tudo para fazer São Francisco e Santa Clara mais conhecidos, mais amados e mais seguidos. Homem de sonhos e projetos. Vigor e ternura, segurança e leveza. Um dos pioneiros na reflexão sobre as relações de gênero, concretizou um natural encontro das potencialidades femininas e masculinas à luz do franciscanismo.

Foi Definidor Geral da Ordem dos Capuchinhos, Provincial, Guardião, Mestre e sempre um expressivo confrade. Fez a sua passagem para a eternidade em pleno Curso Franciscano de Verão, onde me encontro agora e vamos celebrar com os seus Confrades Capuchinhos, Irmãos e Irmãs das três Ordens, das Famílias Regulares, dos Leigos e Simpatizantes do Franciscanismo que a ele devem o acesso fácil e rápido às Fontes Franciscanas e Clarianas, mas sobretudo devem a ele o testemunho transparente de uma vida apaixonada pela causa de Clara e Francisco.

Inteligente, poliglota, grande professor e pregador, nunca deixou de ser humilde e simples. Uma Presença para Sempre! Morreu durante o Curso de Verão que ele criou e incrementou, um dos seus grandes amores! Estamos aqui, emocionados, saudosos, porém não estamos tristes, pois sua vida conquistou a Eternidade no Amor! Vá em paz Frei José Carlos Pedroso! Nós vamos continuar a sua Herança! Paz e Bem! “

Fonte: www.franciscanos.org.br


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Retrospectiva 2014

Este ano de 2014 foi repleto de muitas emoções!

 A grande alegria foi a Reabertura da Igreja em maio com a presença do Governador do Estado, Dr. Geraldo Alckmin para entrega das Obras de Restauro da Igreja das Chagas!
A igreja ficou cheia de autoridades, convidados, imprensa, Povo de Deus.

A alegria estava no ar! Nas pessoas que admiravam a beleza da igreja depois de quase sete anos fechada. Tudo era festa! A Festa da reabertura da Igreja das Chagas!

Logo em seguida, no domingo da Ascensão do Senhor, 1º de junho, o Cardeal Dom Odilo Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, presidiu a celebração, às 9 horas, tendo como concelebrantes o Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel, da Província Franciscana da Imaculada Conceição, e o pároco e reitor do Santuário e Convento São Francisco, Frei Luiz Henrique de Aquino.

Quanta emoção para a preparação da missa!

Quanta alegria! Quantas coisas a providenciar para a liturgia!

Contamos com o coral da Catedral...  Entrada solene... A emoção tomava conta de todos!
Nos últimos dois anos a Fraternidade se preparou para o momento da reabertura.

Confeccionamos camisas para os irmãos (homens e mulheres); alfaias e toalhas para o altar; bandeira, tudo bordado com o brasão da Ordem. Que bonito!       

Logo no início do ano fomos como Fraternidade ao Santuário Nacional de Aparecida rezar aos pés da Mãe agradecendo pelas graças e bênçãos recebidas e pedir forças e luzes para todos os acontecimentos que viriam com a reabertura da Igreja.

Rezamos também na noite de Vigília, colocando aos pés de Jesus Eucaristia nossas intenções e providências para a reabertura da igreja.

Encomendamos um coffe-break para o dia da missa de reabertura para que todos os irmãos pudessem aproveitar o máximo o momento que iríamos vivenciar.

Ainda no mês de junho aconteceu a santa missa em Ação de graças pelos trabalhadores que atuaram no Restauro da Igreja.  Foi muito emocionante ver cada um dos trabalhadores entrando na procissão do ofertório com a ferramenta de trabalho que utilizou na obra e colocando-a no altar.

Tivemos a grande alegria de receber a visita do Irmão Antonio Benedito Bitencourt, Ministro nacional da OFS. Ele gostou de tudo e conversamos bastante sobre perspectivas, projetos e trabalhos na igreja. Que Bom!

Foram muitos encontros de mutirão para deixar tudo em ordem na igreja e nas dependências da fraternidade. Quanto trabalho! Quanto prazer nos trabalhos para colocar as coisas em seu devido lugar!

Mas não descuidamos da vida em Fraternidade!

Cumprimos com a agenda de Formação.  Visitamos nossos irmãos idosos e doentes (SEI).
Logo após a reabertura da igreja, sediamos o Encontro do nosso Distrito nas dependências da Igreja. Recebemos mais de 300 irmãos vindos de várias fraternidades. Todos queriam apreciar a igreja reaberta e restaurada. Que Benção!

A igreja das Chagas já recebeu mais de 3.000 visitantes após o mês de Junho: pesquisadores, professores, crianças, jovens, peregrinos de todos os cantos de nosso Brasil e do exterior.

Temos a visita monitorada nas quintas-feiras ás 14 horas.

Temos também Santa Eucaristia ás 13 horas todo dia 08 de cada mês em honra a Santo Antonio de Categeró;  todo dia 19 em honra a Santo Ivo e na 1ª Sexta-feira do Mês em honra ao Sagrado Coração de Jesus. Bem como aos 1ºs e 3ºs domingos do mês ás 09 horas, quando acontecem os encontros da Fraternidade.

Já tivemos também na Santa Eucaristia o sufrágio de parentes dos irmãos; Entrada para o Período de Formação e Profissão à OFS; renovação do compromisso de casamento de 10 anos; jubileus e renovação da Profissão dos irmãos.

E desde o mês de Novembro até maio de 2015 acontecerão na igreja Concertos. A realização da série de 07 concertos do Evento CONCERTOS CCBB DE MUSICA CLÁSSICA, com curadoria do Maestro Julio Medaglia.

Logo de manhã os músicos chegam para o ensaio. As pessoas vão chegando ao som das músicas e aos poucos a igreja fica repleta, todos querendo ocupar os lugares e apreciar boas músicas.

Enfim, a grande alegria desse ano foi a reabertura da Igreja das Chagas do Seráphico Pai São Francisco.

A todos que colaboraram e colaboram conosco para a manutenção da Igreja: Muito Obrigado! Que Deus abençoe a todos!

Nossa alegria será completa quando conseguirmos honrar com todos os compromissos da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência da Cidade de São Paulo.

Temos trabalhado incansavelmente para regularizar sua difícil situação financeira. Já fizemos bastante, mas temos ainda pela frente um longo caminho.

Com a graça de Deus cumpriremos com todos!

A Obra é de Deus!

Agradecemos a todos os leitores do nosso blog, pelas visualizações e orações.

Que Deus conceda a todos muitas bênçãos e graças.

Por tudo Deus seja louvado!
Fraternalmente,

Maria Nascimento  































quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Feliz Natal!





A Encarnação do verbo eterno de Deus



Na noite luminosa do Natal celebra-se o mistério central da nossa fé: o Verbo eterno de Deus, “subsistindo na condição de Deus, não pretendeu reter para si ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo por solidariedade aos homens” (Fl 2,6-7). Esse hino sublinha o empenho pessoal do Filho de Deus que renuncia absolutamente a si mesmo e assume a condição de servo (natureza humana), embora subsistindo na condição divina.

O Verbo eterno (Lógos em grego), o Filho de Deus Pai, assume a natureza humana de Jesus, ao encarnar-se no seio da Virgem Maria. Não pode haver maior paradoxo à razão humana do que dizer que o Deus experimentado e vivido pelo cristianismo não é somente o Deus transcendente, eterno e infinito, mas é também o Deus que se autocomunica, por Sua livre graça, na pequenez e na fragilidade de uma criança. Como entender que este homem, criado no tempo, seja ao mesmo tempo Deus? Isso é um escândalo para os judeus e para todos os que adoram e veneram um Deus totalmente inobjetivável.

O Deus experimentado e vivido pelo cristianismo é, sim, santo, absoluto, eterno e infinito, mas bem porque Ele é o máximo que se pode pensar, tem o poder de revelar-se “para fora” de forma tão desconcertante e paradoxal. Ou será que não há nada de desconcertante na declaração joanina de que o Verbo eterno de Deus tornou-se “carne” (Jo 1,14)? A palavra “carne” indica, por um lado, a fragilidade e mortalidade próprias da pessoa humana e, por outro, indica a grandeza do abaixamento (kénôsis) de Deus. A alteza e profundidade do mistério quenótico, que se radicaliza na entrega de Jesus na cruz, transcende infinitamente ao máximo que se pode pensar. Por outras palavras, parafraseando Leonardo Boff, o Deus que em e por Jesus se revela é tão humano e o homem que em e por Jesus emerge é tão divino que a linguagem humana não pode dizer adequadamente.

O Verbo (Filho) eterno do Pai assumiu a natureza humana, conservando a Sua divindade. Isso quer dizer que Jesus Cristo, em pessoa, é humano e divino. Enquanto pessoa, Ele é essencialmente relação. A pessoa toma consciência de si e constrói sua individualidade no relacionamento de doação e de recepção da alteridade do outro. Ora, sabe-se da mútua implicação das três pessoas divinas e do quanto Jesus Cristo doou-se incondicional e gratuitamente a todos, bem como abraçou a cada um em seu amor ilimitado (Mc 2,13-17), inclusive aos inimigos (Mt 5,43-44). E devido ao Seu absoluto desprendimento e inominável receptividade, o eu humano de Jesus foi de tal maneira assumido pelo Lógos, a ponto de dizer, como Paulo: ”Já não sou eu que vivo, mas Cristo [o Lógos] vive em mim” (Gl 2,20). Jesus viveu uma relação tão íntima com Deus, invocado por Ele pelo termo “Abba” (Paizinho), que se igualou a nós em tudo, exceto no pecado.

Pensadores clássicos da Filosofia e da Teologia cristãs colocaram muitas questões acerca da criação do mundo e da encarnação do Filho de Deus. Destacamos primeiramente a seguinte: Por que Deus criou o universo? Entre as muitas respostas figurava a idéia de que Deus criou o mundo porque quis, por pura e absoluta gratuidade do amor, manifestar-se ad extra, isto é, para fora de si mesmo. O Sumo Bem cria o mundo contemplando o Verbo, pois é Nele que se encontram as razões ideais (rationes idealis) de todas as coisas criadas e criáveis no tempo. Assim, o Filho de Deus é o princípio; é o primogênito de toda a criatura porquanto todas as coisas visíveis e invisíveis são criadas à luz do Verbo: “Todas as coisas foram feitas por ele [Verbo] e sem ele nada se fez de tudo que foi feito” (Jo 1, 1-3).

Todavia, a suprema comunicação ad extra de Deus não se dá na criação, mas na encarnação do Seu próprio Filho. Poder-se-ia então pensar que Deus criou o cosmos para possibilitar a Sua encarnação em Jesus de Nazaré. Por isso, ao se colocar a questão da criação do mundo indaga-se também pelo motivo da encarnação do Verbo eterno. Onde se fundamenta a decisão divina de encarnar-se em Jesus Cristo? Teria o Verbo se encarnado simplesmente para resgatar a humanidade do pecado? Tradicionalmente afirma-se que a encarnação foi condicionada pelo pecado humano. Mas será que essa é uma resposta exaustiva à questão: Cur Deus homo? (Por que um Deus-homem?). Será que Deus poderia ter-se utilizado de outros meios para realizar a obra da redenção?

Para Santo Agostinho, Deus poderia, sem dúvida, ter-se utilizado de outros meios para realizar a obra da redenção. Porém, “não existia nenhum outro modo mais conveniente para remediar nossa miséria” (De Trinitate, XIII). Também Santo Anselmo e Santo Tomás de Aquino entendem que o motivo da encarnação é a redenção do pecado do homem. Conseqüentemente, sem o pecado, a encarnação não teria acontecido.

No entanto, para o pensador franciscano João Duns Scotus, a encarnação não é só um pressuposto para o sacrifício redentor, mas é um acontecimento que faz parte do plano de amor do Pai. Duns Scotus afirma que o Verbo seria encarnado, mesmo se o homem não tivesse pecado, visto ser a encarnação totalmente incondicionada. Ao encarnar-se, evidentemente quis a salvação de todos, pois, era conveniente que o fizesse por amor a cada pessoa na sua singularidade. Não se nega, portanto, que a encarnação do Verbo tem também a finalidade redentora. Sabiamente Scotus acentua que a segunda pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, por Sua livre graça, para demonstrar o profundo amor salvífico de Deus pela humanidade pecadora e para conduzir a criação toda à sua plenitude. O Verbo encarnado é simultaneamente o princípio da criação e o fim último para o qual tende a pessoa humana, integrada ao cosmos.

Assim, acenamos para a imensidade do mistério do Natal de Jesus Cristo. A Igreja alerta-nos de que devemos nos preparar adequadamente para a celebração de tão grande mistério. O Deus revelado por Jesus Cristo encarnado é essencialmente um mistério transbordante de amor e, portanto, somente apreensível na experiência (ascese) da liberdade e do amor. E o esforço ascético que precede a solenidade do Natal do Senhor é liturgicamente denominado de “advento”. No advento a humanidade prepara-se para a vinda do Filho de Deus na carne humana de Jesus Cristo. No entanto, o Filho de Deus já veio; o Verbo já se encarnou. Qual é, então, o sentido do advento, se o tempo da espera e das trevas já passou e se o Esperado já veio?

É verdade que Deus veio de forma definitiva para dentro de nossa história, mas apesar disso, Ele é sempre aquele que ainda deve vir para cada um de nós. A natureza humana é assumida pelo Verbo não só por um momento, mas por meio de um ato que se realiza constantemente em cada filho e filha de Deus. O Verbo eterno quer encarnar-se em cada um de nós a ponto de também podermos dizer, como Paulo: ”Já não sou eu que vivo, mas Cristo [o Lógos] vive em mim” (Gl 2,20). No advento espera-se, portanto, que o amor de Deus se revele maximamente em cada criatura humana. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Cada ser humano vive no desejo da redenção e na ânsia do Libertador. Porém, não somente os seres humanos, mas toda a criação espera pela chegada do Reino da Liberdade: “A criação toda geme e sofre em dores de parto até agora e nós também gememos em nosso íntimo esperando a libertação” (Rm 8, 22-23). De fato, o sonho de harmonia cósmica do profeta Isaías ainda não se realizou. O lobo ainda não é hóspede do cordeiro, a pantera não se deita ao pé do cabrito, nem o touro e o leão comem juntos; não é verdade ainda que a vaca e o urso se confraternizam e o leão come palha com o boi; não é ainda verdade que a criança brinca à toca da serpente e o menino mete a mão no buraco do escorpião (Is 11, 6-8). Em suma: a harmonia entre os seres humanos e entre estes e todos os seres da natureza, é ainda um sonho muito distante da realidade. No entanto, Jesus proclamou a grande novidade de que o Reino de Deus já chegou e atua nesta nossa história (Mt 12,28). O Reino de Deus, muito sutilmente, já “está no meio de vós” (Lc 17,21). Mas, enquanto Deus não for tudo em todas as coisas, enquanto não se restabelecer a paz entre todos os seres do universo, continuaremos na expectativa, suplicando como os primeiros cristãos: Vinde, Senhor Jesus!

Enfim, ressaltamos a especial ternura que nosso pai e irmão Francisco de Assis nutriu pela festa do nascimento do Filho de Deus (2Cel 199). Para ele, o Natal do Menino Jesus era a festa das festas porque nesse dia Deus revelou todo o Seu amor para com a humanidade, tornando-se criança pequenina, e porque no Filho encarnado encontramos um modelo para o nosso viver e o nosso agir segundo a vontade de Deus. O “Filho amado” do Pai convoca a todos os seus irmãos e irmãs a responderem amorosamente Àquele que tanto nos amou e a louvá-Lo com todas as criaturas. Então, sim, não será mais advento, mas NATAL.

Frei João Mannes, OFM

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Natividade



Até o fim de sua vida, Francisco foi solícito em desejar acima de tudo o Espírito do Senhor. E o Espírito não cessou de conduzi-lo num caminho de renúncia de si sempre mais profunda. Mas este despojamento íntimo, longe de ser um empobrecimento de sua verdadeira personalidade, abria nele um espaço cada vez maior de acolhimento, uma capacidade crescente de comunhão e de fraternidade. Nada retendo para si, ele tornou-se presente a toda criatura. Sua pobreza era sua riqueza, a chave do Reino. No espírito de doçura, Francisco nascia ao mesmo tempo para Deus, para o mundo e para si mesmo.

Não há melhor maneira de compreender esse itinerário do que invocando aquele acontecimento que iluminou seus últimos anos. Mais que um simples episódio maravilhoso na sua vida, o Natal que ele celebrou, três anos antes de sua morte, entre as pessoas simples da montanha, foi uma experiência mística, um novo nascimento. Seu primeiro biógrafo não se enganou. Naquela noite, diz ele, Francisco se fez “menino com o Menino (2Cel, 35). O Espírito do Senhor renovava nele seu “advento de doçura”, no auge do rude inverno da natureza e dos homens.

Estamos no fim do ano de 1223, numa pequena aldeia da montanha que domina o vale de Rieti, no centro da Itália. Esta aldeia se chama Greccio. Para seus habitantes, parece que o ano deve terminar como todos os outros: no frio, no isolamento e na pobreza. A primeira neve começou a cair. E a aldeia tomou seu aspecto invernal.

As pequenas casas se escondem sob sua capa branca. As atividades externas vão se tornando raras. As mulheres fiam a lã dentro de casa. Os homens cortam e racham a lenha… E, quando cai a noite, todos reunidos diante da lareira contemplam em silêncio o fogo que crepita e faz sonhar. Eles esperam. O que esperam? O retorno de dias melhores, a primavera, o sol? Sem dúvida, mas acima de tudo um pouco de calor humano, um pouco de amizade e de alegria. Sonham com um sopro de inocência e de ternura. Mas o que pode trazer-lhes naquele instante a verdadeira felicidade?

Em toda a cristandade, através da liturgia do advento, eleva-se de novo a voz suplicante do profeta, o insistente pedido que vem do fundo dos tempos: “Ah! Javé, oxalá rasgasses os céus e descesses…” (Is 63,19). “Céus, destilai orvalho lá do alto; nuvens, fazei chover o Justo…” (Is 45,8). E eis a resposta lá do alto, radiosa, cheia de esperança: “Consolai-vos, consolai-vos, meu povo, diz o vosso Deus, falai ao coração de Jerusalém
e gritai-lhe que seu tempo de escravidão terminou…” (Is 40,1-2).

Mas, em Greccio, não há ninguém para falar ao coração das pobres. Por mais que as pesadas nuvens se abaixem sobre a montanha, caindo em flocos de neve, o céu não se abre e o Justo não dá sinais de descer.

De manhã, não se vê ninguém vindo sobre a neve intacta. E de noite, muito menos, quando as encostas brancas e desoladas se tingem de cor de malva sob os passos da noite. Ninguém. É a imensa solidão do inverno. E como são longas as noites de inverno na montanha! Ouve-se apenas o gemido e o rachar das árvores sob o peso da neve, ao sopro do vento, no bosque vizinho. E às vezes também o uivar dos lobos. Terra regela-
da, terra ansiosa, à expectativa de um pouco de amor, “quando enfim verás nascer a aurora divina?”

Entretanto, os habitantes desta pequena aldeia não ignoram que por todos os cantos do país se fala muito de um homem chamado Francisco, ou o Pobre de Assis. Sua reputação de santidade é grande. Filho de um rico negociante de tecidos, converteu-se ao Evangelho depois de uma juventude um pouco desvairada e esbanjadora. Renunciou à riqueza, às honras, ao poder, à violência. Fez-se pobre por amor de Cristo e para ser o irmão de todos.

Muitos jovens se juntaram a ele, às dezenas, depois às centenas. Agora são milhares. Vêm de todas as camadas da sociedade, de todas as condições. Francisco ensina-lhes a viver segundo o santo Evangelho, em grande fraternidade entre eles e com todos as pessoas. Revela-lhes o verdadeiro rosto de Deus. Não do Deus dos domínios da Igreja, nem das cruzadas, nem do dinheiro, mas do Deus dos pequenos que vêm a nós com doçura. “Vede a humildade de Deus!” – gostava Francisco de dizer-lhes, mostrando-lhes o exemplo de Cristo humilde e pobre.

Mas eis que naquele mês de dezembro de 1223, às vésperas do Natal, Frei Francisco foi como que tomado por um grande desejo. Revelou este desejo aos seus irmãos: “Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro” (ICel, 84).

Naquele tempo ainda não existiam os presépios de Natal, principalmente os presépios vivos. A idéia era completamente nova e até ingênua. Tinha surgido de repente no coração de Francisco, como uma chama de amor. Era uma idéia extraordinária como só os poetas podem ter, pois são eles que nos fazem voltar aos olhos da infância. E, de súbito, reencontramos os segredos perdidos. Um boi e um burro na penumbra de um estábulo, e o Natal nos é restituído com o realismo de sua ternura.

“Ver” e “fazer ver” o altíssimo Filho de Deus, nascendo ao mundo na humildade e na pobreza de um presépio entre animais, nada era mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade de cunho mercantil, onde o soberano era o dinheiro, o que podia ser mais útil do que fazer brilhar a gratuidade de Deus? Num mundo de clérigos ávidos de honra e poder, o que podia ser mais salutar do que lembrar a humildade de Deus? E num tempo de violências, de cruzadas e de guerras santas, o que podia ser mais urgente, mais necessário do que fazer ver a doçura, a mansidão de Deus?

Não, não se tratava simplesmente de uma idéia tocante. Era toda a vida ardente de Francisco, todo o seu ser, toda a sua busca de Deus que se expressava neste desejo de ver o Menino divino na penúria do presépio.

“Reinventar” o Natal, reencontrar a humanidade de Deus, a ternura de Deus, eis o que Francisco queria para si e para seus irmãos e para o mundo inteiro, imaginando aquele presépio vivo. Ele via longe, muito longe. E a coisa mais simples do mundo. Fora dos caminhos comuns, dos caminhos batidos, ele encontrava a fonte oculta da ternura e da fraternidade.

E quem melhor do que as pessoas simples da montanha poderia compreender e acolher esta mensagem? Como outrora os pastores de Belém, eles serão os primeiros a ouvir a Boa Notícia. Sem hesitar, Francisco decide então fazer o presépio em Greccio.

Apressa-se em confiar seu projeto a seu amigo, o Sr. João Velita, que, apesar de sua alta linhagem e seus cargos importantes, é muito simples e achegado aos irmãos. Francisco tem muita estima por ele e lhe diz: “Se quiseres, é em Greccio que vamos celebrar a festa do Natal este ano. Sim, quero ver o Menino divino, com meus olhos de carne, assim como estava no presépio de Belém, dormindo na palha, entre um boi e um burro… Vai, começa a fazer os preparativos…”(ICel, 84)

O Sr. João, inteiramente de acordo com o projeto de Francisco e feliz pela confiança que o Poverelio depositava nele, apressa-se e vai à humilde aldeia da montanha. Que alegria para os habitantes de Greccio e que orgulho também, quando souberam que Frei Francisco, aquele de quem todo mundo fala com veneração, escolheu sua aldeia para lá celebrar a festa da Natividade que se aproximava! E que surpresa e deslumbramento quando o Sr. João lhes fez saber que Fr. Francisco quer que se prepare um estábulo, exatamente como em Belém, com uma manjedoura provida de palha e com um burro e um boi.

No mesmo instante, toda a aldeia acordou de sua letargia. Todos queriam ajudar o Sr. João a preparar a festa. O lugar escolhido foi uma gruta bem grande, no flanco da montanha. Ali foi instalada uma manjedoura com feno. Foi levado para lá um burro e um boi. Em pouco tempo tudo estava pronto. No dia 24 de dezembro ao anoitecer chegou Frei Francisco com alguns frades.

Havia chegado enfim a noite abençoada em que toda a cristandade celebra o nascimento do Salvador. Os moradores de Greccio e das redondezas acorrem em massa com tochas e lanternas. Nos bosques, ressoam seus cantos. E uma noite extraordinária, toda iluminada com centenas de luzes que enchem a gruta e tudo em redor dela. “Uma noite tão deliciosa para os homens como para os animais”, conta Tomás de Celano (ICel, 85).

Francisco “passa a vigília de pé diante do presépio, comovido e cheio de uma indizível alegria” (ICel, 85). Na verdade, ele experimentou naquela noite um longo momento de êxtase. Com os olhos fixos na manjedoura, parecia ver o Menino Deus deitado no feno, entre os animais. Com toda certeza, seu espírito estava em Belém.

Mas o que via então o Poverelio naquela noite de Natal? Não era apenas uma cena maravilhosa. Ele contemplava o mistério do Natal em sua profundidade. Se ele quis este presépio, não foi para oferecer uma representação simplesmente comovedora. Sua visão ia muito mais longe: via toda a criação com Deus num mistério profundo. Queria tudo que existia, tudo que vivia para este instante único, para esta comunhão com a vida divina no Deus-Menino.

Portanto, a vida divina não devia ser buscada fora das fragilidades da vida humana e de suas raízes obscuras, fora da criação material. No Deus-Menino tudo se encontrava. E o que estava oculto se tomava visível. O sentido do mundo se tornava bem claro. A unidade da criação se revelava. Era uma epifania de luz. Não se podia acolher a vida divina sem respeitar toda vida: a vida humana é claro, mas também as formas de vida mais humildes. Não se podia comungar com a vida divina sem fraternizar com toda vida, com toda criatura. Com toda a criação.

E o caminho desta comunhão e desta fraternidade era a humildade do presépio, aquela humildade original que nos aproxima das mais humildes criaturas, aquela proximidade e doçura que nos fazem reintegrar o vasto círculo da criação. Não era exatamente esta a mensagem dos anjos aos pastores na noite de Natal: “Hoje vos nasceu um Salvador. Este é o sinal pelo qual o reconhecereis: encontrareis um recém-nascido, envolto em panos e deitado num presépio…” A criação inteira, com suas criaturas mais humildes, se havia tomado o “berço divino”. Só podia aproximar-se do Menino, só podia encontrá-lo, quem entrasse no presépio, quem se fizesse a si mesmo bem próximo das criaturas mais humildes.

Nesta noite de Natal, em que Deus mesmo vinha a nós na humildade de um estábulo, era pois preciso manifestar um infinito respeito e uma grande ternura para com toda a vida, por humilde que fosse. Francisco queria que, naquele dia, os pobres e esfomeados fossem saciados pelos ricos, e que se concedesse uma ração maior e mais feno para os bois e burros (2Cel, 200). E não esqueceu os passarinhos: “Se eu pudesse falar com o imperador, pediria que promulgasse esta lei geral: que todos que puderem joguem pelas mas trigo e outros grãos, para que nesse dia tão solene tenham abundância até os passarinhos, e principalmente as irmãs cotovias” (ICel, 200).

Toda esta ternura transbordava do coração de Francisco, enquanto contemplava, extasiado, a manjedoura, como se estivesse de fato em Belém e visse o Menino com seus próprios olhos. Renovou-se então para ele, de uma maneira sensível, o mistério de um Deus nascendo nas profundezas da terra, entre os animais. “Uma das testemunhas – conta Tomás de Celano – viu, deitado na manjedoura, um bebê dormindo que acordou quando o santo chegou perto”.

Não devemos deter-nos neste lado maravilhoso do evento sem ver seu significado profundo. Se quiséssemos traduzir de uma maneira simbólica a experiência espiritual de Francisco naquela noite, sem dúvida nada seria melhor do que relatar este traço maravilhoso. Tomás de Celano não se enganou a este respeito. Ele escreve em sua “Vita Secunda”: “Foi nesse lugar [Greccio] que Francisco recordou pela primeira vez o Natal do Menino de Belém, fazendo-se menino com o Menino”. Assim, para o seu biógrafo, esta celebração externa traduzia uma transformação interna: “Fazendo-se menino com o Menino, factus cum Puero puer” (ICel, 86).

Este presépio vivo, no fundo de uma gruta onde acorda um lindo bebê quando Francisco se aproxima, simboliza o nascimento oculto do Deus-Menino nas profundezas da alma, num homem plenamente reconciliado com sua arqueologia. O presépio é a expressão
sensível de uma aproximação interna de Deus por caminhos de humildade e de reconciliação: por caminhos de encarnação.

Atribuem-se ao teólogo Bultmann estas palavras: “Eu quero Cristo sem o presépio”. Querer Cristo sem o presépio é querê-lo sem suas humildes inserções naturais, sem sua matriz cósmica. Numa tal perspectiva idealista, o evento da salvação nada mais tem a fazer com a Terra-Mãe, com tudo que nos liga ao cosmos e à vida; ele se desenrola à primeira vista na pura interioridade, acima de qualquer condição carnal; não nos atinge em nossas raízes vitais e psíquicas. Numa palavra, não assume o destino total do ser humano, deste ser “que lança raízes na natureza animal e, ultrapassando o que é simplesmente humano, se eleva até à divindade” (Jung). A criação material e animal é deixada de lado. Ela não é atingida pelo evento da salvação. Portanto não há reconciliação do homem com suas forças obscuras, nem transfiguração da agressividade, nem da libido. Cristo não desceu às nossas profundezas. A paz do Natal ficou pendurada nas estrelas.

Completamente diferente é o caminho de Francisco. Ele encontra o Menino-Deus na humildade do presépio, fraternizando com nossos irmãos os animais e com toda a vida. Ele o encontra lá onde estão as nossas raízes. Deus, para nascer no homem, tem necessidade do homem todo e primeiramente de suas raízes obscuras, vitais e cósmicas. É com isto que ele conta: “Vede a humildade de Deus”, dizia Francisco aos seus irmãos.

Depois desta longa vigília de oração e de canto na gruta transformada em estábulo, a missa do Natal foi celebrada na manjedoura como altar. Francisco, que tinha vestido a dalmática em sua qualidade de diácono, cantou o Evangelho da Natividade. Com sua voz “vibrante e doce, clara e sonora”, proclamou a Boa-Nova: “Não temais, pois eu vos anuncio uma grande alegria que será para todo o povo: hoje vos nasceu um Salvador…” (Lc 2,10-11).

Depois deste anúncio, Francisco dirigiu-se ao povo, convidando todos a regozijar-se com o evento. Não era um sermão que ele fazia, era sua própria vibração interior que lhes transmitia. Em palavras bem simples, evocou a pequena cidade de Belém e o nascimento do Menino-Deus na pobreza do presépio. Ouvindo-o, tinha-se verdadeiramente a impressão de que naquela noite o céu havia perdido todo o seu orgulho e se havia tomado próximo e fraternal. O Deus de majestade se havia feito nosso irmão em Maria sua Mãe.

Pode-se encontrar um eco da homilia de Francisco na oração que ele compôs para as vésperas de Natal, em seu Oficio:
Naquele dia Deus nosso Senhor concedeu a sua graça
e de noite ressoou o seu louvor.
Este é o dia que o Senhor fez,
alegres exultemos por ele.
Pois foi-nos dado um Menino amável e santíssimo,
nascido por nós à beira do caminho
e deitado numa manjedoura,
porque não havia lugar na estalagem.
Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade.
Alegrem-se os céus, rejubile a terra,
ressoe o mar com tudo o que contém,
rejubilem-se os campos e o que neles existe!…

“Paz na terra!” A mesma paz que Francisco foi anunciar aos cruzados, depois ao sultão, no Oriente Próximo, foi nesta pequena aldeia da montanha que ela floresceu naquela noite de Natal. Não era necessário correr para o país de Jesus para encontrá-la: Greccio se havia tomado uma nova Belém. O Menino-Deus nasce em toda parte onde há seres humanos bastante humildes para reconhecer-se irmãos uns dos outros e de toda criatura.

Trecho do livro “O Sol Nasce em Assis”, de Éloi Leclerc, Vozes, 2000

Éloi Leclerc

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

A Mensagem Franciscana do Presépio



Segundo a tradição, a primeira representação visualizada, teatralizada e celebrada de um presépio aconteceu no ano de 1223, num bosque próximo de Greccio, na Úmbria, região italiana. Quem tomou esta iniciativa foi Francisco de Assis, e ,com isso, ele passa a ser o primeiro a organizar de um modo plástico a cena da Encarnação do Filho de Deus.

Não é de se discutir se o fato é verídico ou legendário, pois Francisco de Assis foi um apaixonado pelo modo como Deus fez morada no mundo dos humanos, e certamente, mais do que palavras quis mostrar o maior evento de todos os tempos: na carne de um Menino, Deus está para sempre no meio de nós. Vejamos o texto das Fontes Franciscanas: “A mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o Santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina, imitar e seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância, com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo o fervor do coração.

Recordava-se em assídua meditação das palavras e com penetrante consideração rememorava as obras dele. Principalmente a humildade da encarnação e a caridade da paixão de tal modo ocupavam a sua memória que mal queria pensar outra coisa. Deve-se, por isso, recordar e cultivar em reverente memória o que ele fez no dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, no terceiro ano antes do dia de sua gloriosa morte, na aldeia que se chama Greccio. Havia naquela terra um homem de nome João, de boa fama, mas de vida melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com especial afeição, porque, como fosse muito nobre e louvável em sua terra, tendo desprezado a nobreza da carne, seguiu a nobreza do espírito. E o bem-aventurado Francisco, como muitas vezes acontecia, quase quinze dias antes do Natal do Senhor, mandou que ele fosse chamado e disse-lhe: ‘Se desejas que celebremos, em Greccio, a presente festividade do Senhor, apressa-te e prepara diligentemente as coisas que te digo. Pois quero celebrar a memória daquele Menino que nasceu em Belém e ver de algum modo, com os olhos corporais, os apuros e necessidades da infância dele, como foi reclinado no presépio e como, estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno’. O bom e fiel homem, ouvindo isto, correu mais apressadamente e preparou no predito lugar tudo o que o santo dissera.

E aproximou-se o dia da alegria, chegou o tempo da exultação. Os irmãos foram chamados de muitos lugares; homens e mulheres daquela terra, com ânimos exultantes, preparam, segundo suas possibilidades, velas e tochas para iluminar a noite que com o astro cintilante iluminou todos os dias e anos. Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se. E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez com que uma nova Belém. Ilumina-se a noite como o dia e torna-se deliciosa para os homens e animais. As pessoas chegam ao novo mistério e alegram-se com novas alegrias. O bosque faz ressoar as vozes, e as rochas respondem aos que se rejubilam. Os irmãos cantam, rendendo os devidos louvores ao Senhor, e toda a noite dança de júbilo. O santo de Deus está de pé diante do presépio, cheio de suspiros, contrito de piedade e transbordante de admirável alegria.” (Cel 30,4).

Sob a inspiração deste fluo, baseando-se nas Fontes Franciscanas, toda a celebração de Natal ganha um novo vigor interpretativo e celebrativo em toda Itália, da Itália para a Europa e da Europa para o mundo. A cidade de Nápoles transforma a cena de Natal num movimento artístico, e a partir dali e dos anos 1700, o presépio é pura arte.

Unindo a Palavra de Deus, a representação artesanal e o folclore, os presépios vão destacando as típicas figuras regionais, e unem fé e beleza estética. As missões franciscanas levam o presépio para o mundo, e assim, cultura local e tradição cristã mostram o maior feito histórico da cristandade.

O presépio tem a forma dos momentos culturais: barroco, colonial, rococó, renascentista, moderno, vanguardista, arte popular, oriental, latino-americano, indiano e africano. O Deus Menino está no campo, na cidade, nas tendas, favelas e arranha-céu; está no centro urbano e na periferia. Une a força do sinal, do sacramental, do sagrado, da teologia da imagem, a fala da fé.

Nos presépios temos a harmonia das diferenças. O mundo do divino encontra-se com o mundo do humano. A grandeza, a onipotência de um Deus revela-se na fragilidade de uma criança. Ali o mundo animal, ovelhas, boi, burro, queda-se contemplativo abraçado pelo silêncio do mundo mineral: pedras e presentes. Há também o toque brilhante daquela Estrela Guia aproximando o mundo sideral.

As plantas formam o colorido arranjo do mundo vegetal. Anjos e pastores, um pai sonhador e uma mãe silente que guarda tudo no coração; afinal todos são conduzidos pelo mesmo mistério. O curioso e controlador mundo do poder representado pelos Reis Magos vem conferir. Fazer presépios é unir mundos! Aquele Menino fez-se Filho do Humano: veio experimentar a nossa cultura, o nosso jeito, a nossa consangüinidade.

Num presépio cabe todos os rostos! É o grande encontro dos simples, dos normais, dos marginais, dos ternos, fraternos, sofridos e excluídos. Quando o diferente se encontra temos a mais bela paisagem do mundo. Tudo se torna transparente na unidade das diferenças. Num presépio não existe preconceito, existe sim aquela silenciosa e calma contemplação da beleza de cada um, de cada uma. Encarnar-se é morar junto e respeitar o diferente! Paz na Terra aos Humanos de vontade boa e bem trabalhada! Isso é que encantou Francisco de Assis!

O presépio nos lembra que Deus não está no mercado das crenças, nem no apelo abusivo do comércio natalino que faz uma profanização deste universo de símbolos: pinheiros e estrelas, animais e pastores, presépios variados. Deus nem sempre está nas igrejas e nem nas bibliotecas; mas Ele está num coração que pulsa de Amor. Esta é a sacralidade inviolável do Natal: Deus está no seu grande projeto, que é Humanizar-se, fazer valer o Amor, Encarnar o Amor!

Deus não está na violência e nem onde se atenta contra a vida. Deus não está no orgulho dos poderosos nem entre os caçadores de privilégios hierárquicos. Mas Ele está na leveza deste Menino, Filho do Pai Eterno, a grande síntese das naturezas humana e divina.

Ele está aqui na mais bela doação do Sim de José e de Maria. Quando há disponibilidade, todo sonho é fecundo. Ele está onde se faz um presépio: lugar do Bem e da Beleza. É o grande momento de refletir este presente que ele nos dá. Isso é que encantou Francisco de Assis!

O Amor tem que ser Amado! A Verdade e a Beleza têm que ser apreciadas. Este é o lugar de Luz no meio das sombras humanas. A luz vale mais do que todas as trevas. Deus está ali com você e com Francisco diante do presépio, e abraçando você com silêncio, paz, harmonia, serenidade; acolhendo você e passando-lhe Onipresença, Onipotência eterna para a fragilidade da criatura. No presépio, Deus olha você, pessoa humana, contemplando a suprema humildade da Pessoa Divina.

Artigo “A Mensagem Franciscana do Presépio, da Revista Franciscana, uma publicação da FFB

Por Frei Vitório Mazzuco Fº


Fonte: http://www.franciscanos.org.br