domingo, 12 de outubro de 2014

Consagração a Nossa Senhora Aparecida

Ó Maria Santíssima, que em vossa imagem querida de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil, eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas, mas cheio do desejo de participar dos benefícios da vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos o entendimento, para que sempre pense no amor que mereceis; consagro-vos a língua para que sempre vos louve e propague vossa devoção; consagro-vos o coração para que depois de Deus vos ame sobre todas as coisas.

Recebei-nos, ó Rainha incomparável, no ditoso número de vossos filhos e filhas, acolhei-nos debaixo de vossa proteção; socorrei-nos em nossas necessidades espirituais e temporais, e sobretudo na hora de nossa morte.

Abençoai-nos, ó Mãe Celestial, e com vossa poderosa intercessão fortalecei-nos em nossa fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possamos louvar-vos, amar-vos e render-vos graças no céu, por toda a eternidade.

Assim seja.

Fonte: http://franciscanos.org.br

Virgem Maria, a Mãe de Deus: História

Seis décadas depois de criada a Vila de Guaratinguetá, um certo capitão José Correia Leite, adquiriu terras em Tetequeras, nas margens do Rio Paraíba do Sul, cerca,de três léguas abaixo de Pindamonhangaba. O Porto existente em sua fazenda, ficou então conhecido pelo nome de Porto José Correia Leite (atual Porto Itaguaçú).

Em dezembro de 1716, o rei D. João V, nomeou D. Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, conhecido como Conde de Assumar, para governar como Capitão General a Capitania de São Paulo e Minas Gerais, que pouco depois seria desmembrada em duas, por sugestão dele mesmo. Foi homem importante, viria a ser mais tarde vice-rei da Índia. Embarcou no Rio de Janeiro para Angra dos Reis, Parati e Santos, daí galgou a Serra do Mar e foi a São Paulo, onde tomou posse em 04 de setembro de 1717. Pouco depois seguiu para Minas Gerais, pela chamada estrada real, hospedando-se com toda sua comitiva em Guaratinguetá de 17 a 30 de outubro, à espera de suas bagagens que deixara no porto de Parati.

A Câmara Municipal da Vila de Santo Antonio de Guaratinguetá viu-se em apuros para abastecer a mesa de tão ilustre visitante, por isso convocou os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves, e os mesmos saíram em pescaria pelo Rio Paraíba. Desceram e subiram o rio várias vezes e nada conseguiram, chegando ao Porto “José Correia” o pescador João Alves arremessando sua rede às águas do Rio Paraíba sentiu que algo ali se prendera, puxou-a de volta ao barco e viu que se tratava de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça. Arremessou novamente a rede e apanhou a cabeça da imagem. Os três pescadores sem nada entender continuaram a pescaria, quando para surpresa de todos os peixes surgiram em abundância para aqueles homens.

Segundo o relato daquelas humildes pessoas, foram tantos peixes logo conseguido, depois de “aparecida” a imagem, que a canoa ficou cheia. Até ameaçava afundar. Alegraram-se muito com o ocorrido e foram levar o pescado à Câmara Municipal de Santo Antonio de Guaratinguetá, mas primeiro passaram pela casa de Felipe Pedroso e deixaram a preciosa encomenda confiada aos ciudados de Silvana da Rocha, mãe de João, esposa de Domingos e irmã de Felipe. Puseram-na dentro de um baú, enrolada em panos, separada uma parte da outra.

A casa de Silvana foi o primeiro oratório que teve aquela imagem, e ficou com ela cerca de nove anos, até 1726, data provável de seu falecimento. O marido e o filho, Deus já os chamara antes. Assim tornou-se herdeiro da imagem seu irmão, Felipe Pedroso, o único sobrevivente da milagrosa pescaria. Sua casa foi o segundo oratório, por seis anos, perto da Ponte Sá (proximidade da atual Estação Ferroviária) e também o terceiro, por mais sete anos, na Ponte Alta, para onde se mudara. Em 1739, Felipe Pedroso mudou-se mais uma vez, já velho, para o Itaguaçú, e fez a entrega da imagem a seu filho Atanásio. Até então a imagem ficava dentro do baú, guardada, e só era tirada de lá nas horas da preces, quando era posta sobre uma mesa. Na casa de Atanásio Pedroso, que ficou sendo seu quarto oratório, ela passou a ter altar e oratório de madeira, feitos por ele. Chamava sempre parentes e amigos e com eles rezava o terço e entoava cânticos. O número de devotos começou a aumentar, alguns sentiram-se favorecidos por graças e até por milagres, que apregoavam. A fama da Santa Aparecida foi crescendo e a notícia dos prodígios chegou aos ouvidos do vigário da Paróquia, Padre José Alves, que mandou seu sacristão, João Potiguara, assistir as rezas e observar. Baseado nas informações desse, e tendo ouvido outras pessoas, resolveu o vigário construir uma capelinha ao lado da casa de Atanásio, que, nessas alturas, estava morando no Porto Itaguaçú, onde a imagem fora encontrada.

Consta que o vigário quis levar a imagem para Guaratinguetá, levou-a por duas ou três vezes, mas o povo ia às escondidas e a trazia de volta. Depois corria a notícia de que a imagem fugira de volta para o bairro Itaguaçú. Resolveu o padre José Alves Vilela, no ano de 1743, construir uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros, a qual terminou sua construção dois anos depois, abrindo a visitação pública em 26 de julho de 1745 (dia consagrado a Santa Ana), dia em que foi celebrada a primeira missa.

Assim, 28 anos depois de “aparecida” a imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul, ela teve sua capela, que iria durar 138 anos, até 1883.

Em 1894, chegou em Aparecida um grupo de padres e irmãos da Congregação dos Missionários Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que acorriam aos pés da Virgem Maria para rezar com a Senhora “Aparecida” das águas.
No dia 8 de setembro de 1904, D. José Camargo de Barros coroou solenemente a Imagem de Nossa Senhora Aparecida. Em 29 de abril de 1908, a igreja recebeu o título de Basílica Menor, passados vinte anos, no dia 17 de dezembro de 1928, a vila que se formou ao redor da Igreja no alto do Morro dos Coqueiros tornou-se Município, e em 1929, Nossa senhora foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira oficial, por determinação do Papa Pio XI.

Com o passar do tempo o aumento do número de romeiros foi aumentando e a Basílica tornou-se pequena. Foi então que os Missionários Redentoristas e os senhores Bispos iniciaram no dia 11 de novembro de 1955 a construção da atual Basílica Nova, o maior Santuário Mariano do Mundo. Em 1980, ainda em construção, recebeu o título de Basílica Menor pelo Papa João Paulo II. Em 1984, foi declarada oficialmente Basílica de Aparecida Santuário Nacional, pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)


Virgem Maria, a Mãe de Deus



Frei Regis Daher, OFM

A Virgem Maria, a Mãe de Deus, é invocada conforme a história do povo cristão, em locais e regiões as mais distintas. Mesmo no Brasil, ela é chamada por muitos ‘nomes’. É quase automático nos lábios das pessoas, diante do inesperado ou do mistério grande das coisas, a exclamação: “Virgem Maria”! ou “Nossa Senhora”!

Para o descrente ou apenas o racional, a exclamação pode simplesmente ser um reflexo religioso inconsciente… No entanto, é curioso e muito significativo, que culturalmente o povo brasileiro chame sempre pela “mãe”, por uma “mulher”… que a fé sabe ser uma “bendita entre as mulheres”, porque é “cheia de graça”!

No Brasil, ela ganhou as feições simples e humildes de seu povo. É simplesmente a “Aparecida”, porque surgiu das águas, nas redes de gente simples como ela, os pescadores do rio Paraíba. A água escureceu sua imagem da argila, cor da terra. Apareceu negra, cabeça separada do corpo, que o homem colou e uniu. Outros sinais da identificação com o seu Filho e os seus irmãos: os renascidos da água e do espírito, membros do mesmo e único corpo, do qual o Cristo é a cabeça.

Antes dela ser “Aparecida”, já era a “Conceição”, aquela que concebe e dá à luz à própria Luz que veio a este mundo. Sabiamente diziam os Padres da Igreja que, primeiro Maria concebeu seu Filho na fé, crendo na Palavra que lhe foi anunciada e, por isso concebeu-O também no seu corpo. Tornou-se, então, o modelo e protótipo da Igreja, de todos os que, como ela, geram o Cristo pela fé.

São Francisco de Assis, na sua 2ª Carta aos Fiéis (48-53), depois de falar sobre a necessidade da completa conversão da atitude de egocentrismo, afirma:

“Aqueles que assim agirem e perseverarem até o fim, verão repousar sobre si o Espírito do Senhor e ele fará neles sua morada permanente, e serão filhos do Pai celestial cujas obras fazem. E serão esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade de seu Pai, que está nos céus. Somos suas mães, se com consciência pura e sincera o trazemos em nosso coração e nosso seio e o damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo para os outros”.

Para São Francisco a grandeza e a importância de Maria está no fato dela ter feito Cristo nosso irmão, dando-lhe a carne de nossa humanidade. Ele a vê sempre unida ao seu Filho. Por isso, a devoção a ela se faz na vida conforme o Evangelho. Francisco não só recorre à proteção de Maria, mas assume as atitudes dela frente a Deus, e como ela, concebe, gera e dá à luz à Palavra de Deus, dando-lhe vida e forma. É a fecundidade espiritual dos que, como Maria, geram o Cristo em suas vidas.

Fonte: http://franciscanos.org.br

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sínodo: renovação das linguagens da fé

Cidade do Vaticano - Uma maior preparação para o matrimônio a ser visto não como um ponto de chegada, mas como um caminho rumo a uma meta mais alta para um autêntico crescimento pessoal e do casal.

Essa foi uma das prioridades indicadas nesta terça-feira durante o debate da Assembleia do Sínodo dos Bispos dedicado à família. O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, disse que na abertura dos trabalhos foi também feito um importante anúncio.

O Oriente Médio está no coração da Igreja. No próximo dia 20 deste mês de outubro será dedicado um novo momento de reflexão e discussão sobre a complexa situação nesta terra martirizada, disse Pe. Lombardi:

"Foi anunciado, por desejo do Santo Padre, que no dia 20 – para o qual já estava previsto um Consistório para as Causas de canonização – este Consistório alargará a temática: todos os cardeais e patriarcas que poderão estar presentes falarão sobre a situação do Oriente Médio baseados nas considerações do encontro dos núncios, realizado semana passada, como bem sabem..."

Os pronunciamentos dos Padres sinodais abordaram vários temas. Foi reiterada, em particular, a exigência de renovar a linguagem do anúncio do Evangelho:

"Vários pronunciamentos versaram sobre a atenção à linguagem e às linguagens que a Igreja deve usar para responder e fazer-se entender. Outro grande núcleo, em torno do qual giraram vários pronunciamentos, versou também sobre o respeito ao gradativo: ou seja, o fato de haver um caminho mediante o qual os fiéis cristãos se aproximam daquilo que é o ideal da família cristã e do matrimônio cristão na apresentação do Magistério da Igreja."

Esse tema do gradativo foi abordado com várias interessantes considerações:

"Em particular, gostaria de recordar uma delas. É uma analogia com o que diz o Concílio: a Igreja subsiste plenamente na Igreja Católica, mas que existem elementos preciosos e importantes para a santificação também fora da Igreja Católica. Assim, por analogia, se pode raciocinar sobre o fato que há uma visão plena, ideal do matrimônio e da família cristã, mas existem elementos absolutamente válidos e importantes, inclusive de santificação e de amor verdadeiro, que podem existir mesmo quando não se alcança ainda plenamente este ideal."

Vários Padres sinodais – acrescentou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé – recordaram a importância da promoção do conhecimento do Magistério da Igreja:

"Muitos pronunciamentos, naturalmente, insistiram sobre a importância de promover o conhecimento objetivo e profundo do Magistério da Igreja, que muitas vezes não é suficientemente conhecido. Portanto, também os aspectos da catequese, da preparação para o matrimônio. E não somente no momento da preparação para o matrimônio, mas em continuidade com todas as etapas da vida cristã, de modo que haja uma continuidade e uma coerência na formação da vida cristã, da preparação e da compreensão do matrimônio e da família."

O pensamento dos Padres sinodais voltou-se também para as famílias que vivem em terras e países dilacerados por tensões e conflitos:

"Houve muitos pronunciamentos interessantes, naturalmente, que evidenciam as diferentes situações que existem na Igreja. Em particular, chamaram a atenção também pronunciamentos que referiram sobre as dificuldades das famílias nas situações de conflito. Naturalmente, com referências às situações do Oriente Médio, mas também recordando outras situações, como a dos conflitos nos Bálcãs. E os reflexos que tiveram sobre a situação da vida da família, os problemas das migrações e as dificuldades que apresentam, e assim por diante."

Em vários pronunciamentos foi também ressaltado que a Igreja deve apresentar aos casais em dificuldade e aos divorciados recasados não um juízo, mas uma verdade, com um olhar de compreensão. Em particular, num mundo marcado pela influência da mídia ao apresentar ideologias muitas vezes contrárias à doutrina cristã, a Igreja deve oferecer seu ensinamento de modo mais incisivo. Ainda Pe. Lombardi:

"Outros temas importantes, que foram tocados, dizem respeito às passagens do Evangelho e de São Paulo, em que se fala da indissolubilidade do matrimônio e não se coloca em dúvida que isso faça referência à vontade e à mensagem de Jesus. Porém, se veem já no Novo Testamento elementos de experiência de dificuldade com os quais – já no tempo da Igreja primitiva – se devia cotejar para uma interpretação, uma aplicação da vontade de Jesus. Isso sem chegar a conclusões específicas, mas para dizer que a problematicidade da aplicação das exigências radicais do Evangelho acompanha toda a história da Igreja."

A necessidade não é a de uma escolha entre a doutrina e a misericórdia, mas do início de uma pastoral iluminada para encorajar, sobretudo, as famílias em dificuldade:

"Muitos pronunciamentos, falando também de diferentes situações concretas, dão conselhos, dão exemplificações de modelos de pastoral familiar, com o serviço para a preparação para a família, para o acompanhamento dos casais ou das famílias em dificuldade. Em muitos pronunciamentos se insiste sobre o tema do acompanhamento de modo que também quem está em dificuldade não se sinta rejeitado ou abandonado, mas sinta o amor e a atenção da Igreja."

Durante o debate – referiu, por fim, Pe. Lombardi – foi reiterado que os cônjuges devem ser acompanhados constantemente em seu percurso de vida, mediante uma pastoral familiar intensa. Não se deve olhar somente para os remédios para a falência da união conjugal, mas também para as condições que a tornam válida e frutuosa. Uma preparação para o matrimônio é fundamental:

"A importância de verificar que existam as necessárias disposições para o matrimônio: ser também bastante exigente no aceitar os casais que se apresentam para o matrimônio religioso, para o matrimônio na Igreja, e não ter por demais receio de ser exigente porque, evidentemente, se se casa muito facilmente, sem as premissas necessárias, é depois também compreensível que haja tantos casos de famílias que se esfacelam, de matrimônios que entram em crise."

Papa Francisco abre o Sínodo sobre a Família

Começou nesta segunda-feira, 6 de outubro, no Vaticano, os trabalhos da 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo, cujo tema é: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Oficialmente, o Sínodo foi aberto ontem, domingo, durante a celebração eucarística que reuniu no vaticano as autoridades eclesiásticas e demais participantes que farão parte desta assembleia sinodal na qual também serão tratados outros temas "urgentes", como a pobreza, a imigração e a violência. Os encontros terminarão no dia 19 de outubro, com a beatificação do papa Paulo VI, que, além de concluir o decisivo Concílio Vaticano II, instituiu o Sínodo dos Bispos.

Nesta segunda-feira, o Papa deu as boas vindas aos bispos e destacou também a responsabilidade dos padres sinodais na sua saudação inicial. “Levar as realidades e as problemáticas das Igrejas, para ajudá-las a caminhar naquele caminho que é o Evangelho da família”.

Uma condição de base nesse processo é falar claramente, disse o Papa, tudo aquilo que se sente com parresia (palavra grega que remete à coragem, ao destemor de dizer a verdade). Ele contou que, após o Consistório de fevereiro deste ano, recebeu uma carta de um cardeal, em que este se lamentava pelo fato de alguns cardeais não terem tido coragem de dizer algumas coisas, sentindo que talvez o Papa pensasse algo diferente.

Segundo o Papa, esta não é uma atitude boa, pois é preciso falar com clareza, sem temores. “Ao mesmo tempo, deve-se escutar com humildade e acolher com o coração aberto o que os irmãos dizem. Com essas duas atitudes se exerce a sinodalidade. Por isto, eu vos peço, por favor, essas atitudes de irmãos no Senhor: falar com parresia e escutar com humildade”.

Francisco também mencionou o espírito de colegialidade que reveste a reunião de cardeais, patriarcas, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos para o bem da Igreja e das famílias. Esta sinodalidade foi desejada pelo Papa desde a eleição do relator, do secretário-geral e dos presidentes delegados. Os dois primeiros são eleitos diretamente pelo Conselho pós-sinodal. Já os presidentes delegados são escolhidos pelo Papa, mas Francisco pediu que este mesmo Conselho propusesse nomes. “Eu nomeei aqueles que o Conselho me propôs”, contou.

O Pontífice lembrou, ainda no domingo, que as assembleias sinodais "não servem para discutir ideias brilhantes e originais, ou para ver quem é mais inteligente". "Servem para cultivar e guardar melhor a vinha do Senhor".

O Papa enfatizou a responsabilidade do clero de cuidar da família, mas alertou que também os membros da Igreja podem ter "a tentação de se apoderar" da sociedade. "O sonho de Deus sempre confronta a hipocrisia de alguns servidores seus. Podemos frustrar o sonho de Deus se não nos deixamos guiar pelo Espírito Santo", acrescentou.

Nesta assembleia sinodal participarão 253 pessoas, entre bispos, presidentes de Conferências Episcopais de todo o mundo, chefes de Iglesias católicas orientais e membros da Cúria Romana.

DIVORCIADOS RECASADOS

O relator geral do Sínodo sobre família, Cardeal Péter Erdó, apresentou um relatório na 1ª Congregação Geral realizada nesta segunda-feira, 6. O documento dedica uma parte ao tema dos divorciados recasados, às convivências e casamentos civis.

“Os divorciados recasados civilmente pertencem à Igreja, precisam e têm o direito de ser acompanhados por seus pastores”, disse o cardeal na leitura do relatório. O documento assinala ainda que muitas contribuições enviadas pelas Igrejas locais reiteram a importância de levar em conta ‘a diferença entre quem rompeu o matrimônio e quem foi abandonado’, sugerindo que a Igreja cuide deles de modo especial.

“Em cada igreja deve haver um sacerdote ‘devidamente preparado, que possa prévia e gratuitamente aconselhar os casais sobre a validez de sua união’. Depois do divórcio, esta verificação deve prosseguir no contexto de um diálogo pastoral sobre as causas do fracasso do matrimônio precedente, identificando as razões da nulidade. Se tudo isso se der na seriedade e na busca da verdade, a declaração de nulidade libertará as consciências de ambas as partes”.

Neste campo, o Sínodo vai trabalhar na hipótese de que, em certos casos, o próprio bispo diocesano possa formular uma declaração de nulidade matrimonial, em via extrajudicial.

O relatório sublinha ainda que “seria desejável que o Sínodo olhasse além da esfera dos católicos praticantes e, considerando a situação complexa da sociedade, tratasse das dificuldades sociais e culturais que pesam na vida matrimonial e familiar”.

“Os problemas não se referem apenas à ética individual, mas a estruturas de pecado hostis à família, em um mundo de desigualdade e de injustiça social, de consumismo por um lado e pobreza do outro. As rápidas mudanças culturais, em todos os âmbitos, empurram as famílias para um processo que coloca em dúvida a tradicional cultura familiar e muitas vezes, a destroi. Por outro lado, a Família é quase a última realidade humana acolhedora neste mundo dominado exclusivamente pelas finanças e a tecnologia. Uma nova cultura de Família pode ser o ponto de partida para uma nova civilização humana”.

Segundo este relatório apresentado por Dom Erdó, o maior desafio desse Sínodo é dar respostas “reais e impregnadas de caridade” aos problemas que, de forma especial nos dias de hoje, atingem a família.

O documento aborda ainda outros temas, como o Evangelho da família no contexto da evangelização, as pastorais familiares e o Evangelho da vida.

O que é o Sínodo?



Sínodo” vem de duas palavras gregas: “syn”, que significa “juntos”, e “hodos”, que significa “estrada ou caminho”. Logo, o Sínodo dos Bispos pode ser definido como uma reunião do episcopado da Igreja Católica com o Papa para discutir algum assunto em especial, auxiliando o Santo Padre no governo da Igreja.

O Sínodo dos Bispos foi instituído pelo Papa Paulo VI com o Motu proprio “Apostolica sollicitudo”, de 15 de setembro de 1965. Desde então, foram realizadas 25 Assembleias Sinodais. Segundo definição do próprio Pontífice, no Angelus de 22 de setembro de 1974, o Sínodo dos Bispos: “É uma instituição eclesiástica, que nós, interrogando os sinais dos tempos, e ainda mais procurando interpretar em profundidade os desígnios divinos e a constituição da Igreja Católica, estabelecemos, após o Concílio Vaticano II, para favorecer a união e a colaboração dos bispos de todo o mundo com essa Sé Apostólica, através de um estudo comum das condições da Igreja e a solução concorde das questões relativas à sua missão. Não é um Concílio, não é um Parlamento, mas um Sínodo de particular natureza”.

A metodologia dos trabalhos é baseada na colegialidade, um conceito que caracteriza cada fase do processo sinodal, desde a preparação até as conclusões das Assembleias. Os trabalhos alternam análises e sínteses, com uma dinâmica que permite a verificação dos resultados e o exame de novas propostas. “Cada fase desse processo se desenvolve em um clima de comunhão colegial”, informa a Santa Sé em seu site oficial.

Quem escolhe o tema do Sínodo é o Papa, após um estudo elaborado pelo Conselho da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, que avalia as sugestões recebidas. Com o tema definido, prepara-se a “Lineamenta”, documento que apresenta as linhas principais do tema do Sínodo e, após a aprovação do Papa, é enviado ao episcopado. Após um estudo, os bispos enviam uma relação sobre essa Lineamenta para a Secretaria Geral. Só então é redigido o “Instrumentum laboris”, documento que é ponto de referência durante a Assembleia sinodal.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O tríduo e a Festa de São Francisco - 2014

Irmãos e Irmãs,
Paz e bem!

O tríduo e festa de São Francisco que ocorreu nos dias 01 a 04/10/14 foi uma bênção!

O Largo São Francisco recebeu um novo ardor, muita alegria, fiéis em busca de receber uma bênção, um sorriso, um abraço.

Muitas pessoas para lá e para cá. Entravam numa igreja, entravam na outra.

As missas e o trânsito na igreja das Chagas foi uma beleza!

Muitos irmãos estiveram presentes.

Agradeço a todos que colaboraram, trabalharam e vivenciaram a Fraternidade.

Isto é a Fraternidade. A Vida em Fraternidade!

Que Deus em sua bondade infinita conceda muitas bênçãos e graças a todos!

Deus seja louvado!

Maria Nascimento   

Tríduo termina com Transitus de São Francisco de Assis

O Tríduo Preparatório para a Festa de São Francisco, no Convento São Francisco, no centro de São Paulo, terminou nesta sexta-feira, 3 de outubro, às 18 horas com o Transitus do Seráfico Pai Francisco, uma tradição na Ordem Franciscana. Foi no entardecer deste dia que o Santo de Assis passou deste mundo para a eternidade, como tão bem encenaram os doze jovens vocacionados do Convento São Francisco, que representaram os primeiros companheiros de Francisco, e as cinco jovens da Paróquia São Francisco de Assis da Vila Clementino, que representaram Clara e as suas primeiras irmãs.
A última Missa do Tríduo foi presidida por Frei Gustavo Medella e concelebrada por Frei Alvaci Mendes da Luz, às 15 horas. No primeiro dia, foi o ramo masculino da Ordem Franciscana que abriu o Tríduo; no segundo dia foram as irmãs religiosas e, neste encerramento, a Ordem Terceira Secular foi convidada para estar à frente da celebração e falar do modo de vida dos terceiros franciscanos.

“Eu não tenho nenhuma dúvida de que os três ramos da Família Franciscana são igualmente amados pelo Pai Francisco de Assis. Tanto os frades, as religiosas e os leigos da Ordem Franciscana Secular. Agora uma opinião pessoal. Tenho a impressão de que para a Terceira Ordem Franciscana Secular é um desafio maior ainda apresentar a identidade franciscana. Isso porque nós, os frades, mesmo que às vezes não sejamos ‘aqueles’ frades, mas se pusermos o hábito as pessoas logo identificarão: “Ali vai um franciscano!”. As irmãs também. Mas, agora, o leigo franciscano tem como distintivo dele o testemunho, o modo de  ser, os valores que ele apresenta pelo seu jeito de ser e aí, só convivendo ou falando “sou um terceiro franciscano” que nós descobrimos. Então, tornar visível o carisma, o modo de ser de Francisco de Assis na vida dele, na vida secular, é um grande desafio. Tanto que temos diversos irmãos aqui e, que se vocês não os conhecem, não vão saber se são ou não franciscanos. Por exemplo, quem fez a Primeira Leitura foi o irmão Carlos Milton dos Santos, vice-ministro da Fraternidade das Chagas e quem vai falar sobre o tema do dia e um pouco sobre a Ordem Franciscana Secular é Maria Aparecida Crepaldi, a Cidinha, Conselheira da Presidência do CIOFS (Conselho Internacional da Ordem Franciscana Secular)”, esclareceu Frei Medella.


ORDEM FRANCISCANA SECULAR

“Hoje no século XXI, a grande Família Franciscana no mundo inteiro tem a maior parte de seus membros na Ordem Franciscana Secular – OFS, dimensão leiga do carisma franciscano, que atrai a si também a Juventude Franciscana – JUFRA, pela qual a OFS se sente responsável e, com a assistência espiritual de nossos frades e religiosas, procura levar adiante esta presença franciscana na vida da Igreja e do mundo”, explicou Maria Aparecida.

Segundo ela, no mundo inteiro a OFS está em 112 países, com Fraternidades nacionais constituídas oficialmente e as emergentes, que estão em formação, sobretudo no Leste Europeu e Ásia. No Brasil, tem cerca de 17.000 membros em 16 áreas do país. “Todos os dias devemos agradecer a Deus o dom da vida, da fé e da vocação. E honramos a Nosso Senhor se com a vida o testemunhamos, com a fé o glorificamos e com a vocação exercemos a nossa missão fazendo sua Santíssima Vontade. Se assim vivermos, com certeza podemos rezar o Pai Nosso confiantes e sermos testemunhos neste mundo que tanto necessita do carisma franciscano para cultivar a justiça e a paz”, ensinou a conselheira da OFS.


TRANSITUS DE SÃO FRANCISCO

Com muita seriedade, fé e devoção, os jovens vocacionados do Convento São Francisco emocionaram as pessoas que lotaram a Igreja das Chagas no Largo São Francisco para a encenação da morte de São Francisco.

Frei Anacleto Gaspski presidiu a celebração e Frei Alvaci fez a narração dos últimos momentos de vida do Seráfico Pai. Segundo conta São Boaventura na Legenda Maior (14,6),  “as cotovias, que são amigas da luz e detestam as trevas dos crepúsculos, na hora do trânsito do santo homem, sendo que o crepúsculo da noite já estava iminente, chegaram em grande multidão sobre o teto da casa e, rodeando longamente com uma insólita jubilação, davam testemunho alegre e evidente da glória do santo que costumava convidá-las ao louvor divino”.

Naquele dia 3, como conta seu biógrafo Frei Tomás de Celano, “colocando assim sobre a terra, despojado da veste de saco, ele elevou, como de costume, o rosto ao céu e, fixando-se todo naquela glória, cobriu com a mão esquerda a chaga do lado direito para que não fosse vista. E disse aos irmãos: ‘Eu fiz o meu dever, que Cristo vos ensine o que é vosso”.
Terminada a encenação, os jovens ainda estavam tensos – especialmente Breno Nascimento, que representou Francisco -, mas não saíram correndo para descontrair. Formando um círculo, abraçaram-se e agradeceram a Deus por terem concluído o desafio de representar um momento tão sagrado para os franciscanos.

E São Francisco de Assis deixou sua mensagem…

As celebrações e bênçãos durante todo dia de São Francisco nas igrejas franciscanas de São Paulo, deixaram ainda mais viva a mensagem de São Francisco de Assis. Seus devotos aproveitaram o sábado, neste 4 de outubro, para homenagear o santo das criaturas, do amor ao Crucificado, do amor aos pobres, do amor ao Menino Deus, do amor às pessoas nas periferias. Foi assim durante todo o dia deste Santo tão querido pelo povo. Tanto na Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Clementino, como no Convento do Centro de São Paulo, onde São Francisco é Padroeiro, o dia foi intenso. No largo São Francisco, a Missa das 15 horas estava repleta de fiéis, e foi transmitida ao vivo pela rede de TV Canção Nova. A Missa foi presidida pelo Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel e concelebrada pelo pároco Frei Luiz Henrique de Aquino, pelos vigários paroquiais, Frei Gustavo Medella, Frei Alvaci Mendes da Luz e Frei Diego Melo. A celebração teve ainda a presença de Frei David Raimundo, Frei Anselmo München, Frei Virgílio e Frei Elias, além da participação de religiosos e religiosas.

Em sua homilia, Frei Fidêncio contou aos devotos um pouco da vida de São Francisco. “Todos nós conhecemos a vida de São Francisco, quando ele, um dia, na procura da vontade de Deus, entra na igrejinha de São Damião e se coloca diante do Cristo crucificado. E Francisco estava numa inquietação muito profunda, se perguntando, ‘Senhor, que queres que eu faça?’ E naquele dia, ele ouviu uma voz que dizia: ‘Francisco vai, restaura a minha igreja’!”, contou o frade. 

O Ministro Provincial falou a respeito desta restauração, que não era apenas física, como Francisco concluiu num primeiro momento, mas uma restauração profunda, nas estruturas da Igreja mesmo: “Deus queria dele algo muito maior do que meramente restaurar três igrejas”, acrescentou. 

Frei Fidêncio falou ainda sobre o Papa Francisco e vários episódios de seu Pontificado, como a visita do Santo Padre a Assis, no ano passado e a Lampedusa. Nestas visitas, o Papa Francisco esteve com crianças deficientes, com refugiados, e com outros necessitados. O frade ressaltou que estes gestos do Papa Francisco foram um modo de resgatar a imagem de São Francisco, restaurador da casa de Deus, da vida e do coração humano. “Nós hoje, cristãos, precisamos ter esta sensibilidade, em primeiro lugar, com o nosso próximo, com os nossos leprosos, com a lepra da modernidade”, afirmou o frade. 

O Ministro Provincial falou também a respeito dos desafios que os cristãos devem enfrentar hoje. “Mais do que nunca, nós, cristãos, precisamos ser profetas e profetizas da paz e da esperança no nosso mundo de hoje. Quantos conflitos no Oriente Médio? Mas ao sairmos na porta da nossa igreja, aqui no centro histórico de São Paulo, quanta dor, quanta violência, quanta indiferença. Quanta necessidade de paz, quanta insegurança, nós temos também nas nossas vidas, nas nossas famílias”, disse Frei Fidêncio. 

Ele lembrou ainda do pedido do Papa Francisco aos cristãos que estejam nas periferias. Mas recordou que não são apenas os espaços geográficos, mas também as periferias existenciais. “Estas periferias existem em toda parte. Até nos apartamentos mais chiques, lá também existem pessoas que vivem a periferia do isolamento, da solidão”, concluiu o frade. 

No momento do ofertório, Frei Alvaci apresentou as crianças que entraram, representando as fases da conversão e da vida do santo de Assis. A vida como jovem rico, a conversão, o encontro com Santa Clara, a ligação com a natureza e as criaturas e, por fim, as chagas em seu corpo. Ao final da missa, Frei Alvaci fez os agradecimentos aos presentes, e a todos que ajudaram na organização e execução da Festa de São Francisco de Assis. 

Presença dos surdos na festa 

A tarde dedicada a São Francisco de Assis teve continuidade no Largo São Francisco. A missa das 16h30 foi presidida por Frei Diego Melo, coordenador do SAV – Serviço de Animação Vocacional. A missa contou ainda com a presença de Frei Alvaci Mendes da Luz, que ajudou na tradução da celebração em libras, a linguagem de sinais usada pelos surdos, que participaram da celebração e a tornaram ainda mais especial. 

Em sua homilia, Frei Diego destacou a figura de São Francisco de Assis, e sua importância não somente para os católicos, mas para toda a humanidade, por sua bondade, radicalidade e sua relação com o meio ambiente. “A decisão de São Francisco, e a alegria, tão radical, de deixar tudo, de ter descoberto na Palavra do Senhor a resposta para sua vida, a maneira como ele não só ouviu, mas encarnou e viveu esta Palavra, de fato nos interroga e nos faz perguntar se nós já descobrimos a verdadeira palavra, capaz de causar uma revolução dentro de cada um de nós. Faz-nos perguntar a nós mesmos, qual é o verdadeiro amor de nossas vidas”, disse o frade. 

Frei Diego questionou ainda aos presentes: “Qual é a medida da nossa alegria e do nosso entusiasmo ao abraçarmos a nossa vocação, seja ela qual for, religiosa, matrimonial, laical. Qual é a medida da minha adesão a este chamado que o Senhor nos faz?” 

O frade falou ainda a respeito da realidade em que vivemos, num mundo individualizado, onde as pessoas não se conhecem mais, não têm o desejo de começar novas relações, e o desafio de ser seguidor de São Francisco neste contexto. “Diante deste mundo, que, cada vez, mais está fechando-se, enclausurando-se, tornando-se egoísta, São Francisco hoje vem nos apresentar o grande dom e a alegria da fraternidade. De olhar para as pessoas e não enxergar nelas concorrentes, pessoas que podem ameaçar a minha liberdade, mas olhar para as pessoas e enxergar o reflexo e a bondade de Deus que está ali no irmão, na irmã, seja ele conhecido ou não”, concluiu. 

No momento do Pai Nosso, o celebrante pediu que os surdos ficassem no presbitério, e falou a respeito do gesto na oração do Pai Nosso, onde eles encostam os pés uns nos outros, como modo de união. E eles rezaram o Pai Nosso em libras, junto com a comunidade. No final da celebração, Frei Diego convidou aqueles que estavam com seus animais, para receberem a bênção de São Francisco - 

Fonte: http://franciscanos.org.br

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Programação Festa São Francisco - 2014

O fascínio de São Francisco de Assis: Dançar o amor

Por Frei Vitório Mazzuco Filho

Pretendo fazer três colocações. Sou filho de Francisco de Assis, que não é mais patrimônio apenas dos frades nem só do cristianismo católico. Como prova disso, compartilho com vocês a lembrança de um episódio, ocorrido em 1988, quando eu morava na Itália. Nessa ocasião, junto ao governo italiano estava sendo empossado o novo embaixador da União Soviética. No rápido curso da história, em 1988 ainda existia a União da República Socialista Soviética.

“Após a cerimônia de passagem, no Palácio Quirimale, quando o embaixador apresentou ao governo italiano suas credenciais, foi-lhe oferecido um jantar e, no dia seguinte, uma visita acompanhada à cidade de Roma. O embaixador aceitou o protocolo e visitou a Roma dos césares, a Roma dos papas e a Roma moderna. No terceiro dia foi-lhe oferecida a possibilidade de encontrar-se com o papa João Paulo II. Ele, de forma gentil e diplomática, recusou o convite, dizendo que agradecia, mas que o governo da União Soviética não mantinha relações diplomáticas com o Estado do Vaticano.

Dois dias depois, o jornalista Domenico Del Rio, do jornal La Repubblica, encontrou esse embaixador na cidade de Assis. Junto com a esposa, acompanhado pelo seu segurança, ele caminhava pelas ruelas da cidade. Domenico Del Rio, com sua perspicácia de jornalista, perguntou à queima-roupa ao embaixador russo: “Por que o senhor, estando em Roma, o centro do governo italiano, e morando na Itália, não aceitou visitar o Vaticano, e agora eu o vejo aqui nas ruas de Assis?” O embaixador respondeu com toda a calma: “Se vou a Roma e me encontro com o Papa no Vaticano, visito apenas o mundo cristão católico. Em Assis, visito a humanidade´.”

Francisco, uma porta aberta

O que acontece neste nosso evento é exatamente isto: o encontro de pessoas profundamente unidas no amor que buscam resgatar e recuperar o humano. Essa é a proposta de Francisco, um homem apaixonado: só os apaixonados são criadores e criativos; e só os apaixonados conseguem aproximar-se profundamente da vida na sua totalidade.

Francisco de Assis, atualmente, escapou até do nosso patrimônio franciscano. Ele pertence ao mundo, à vida. Ele é um santo, e não porque foi canonizado, mas porque foi uma grande alma. Ser santo é ser uma grande pessoa – esse é um aspecto muito importante, e sinto-me muito feliz por poder dividi-lo com vocês.

No que se refere a uma terapia das religiões, vivi muito essa experiência, em primeiro lugar pelo fato de ser franciscano. Tenho uma porta de entrada em todo o mundo religioso porque Francisco tem o menor índice de rejeição de toda a história, tem um bilhete de entrada em todas as culturas. Ele entrou tanto no Oriente quanto no Ocidente. Há uma outra história ilustrativa.

“Em 1219, em Damieta, no Egito, confrontavam-se dois grandes exércitos: o muçulmano, comandado pelo sultão Melek-el-Kamel, e o exército cristão, comandado pelo rei de Leão e Castela. Também estava presente um representante do papa, Pelagro Galvan, um prelado da península Ibérica, mais precisamente de Portugal. Eles estavam prontos para um grande combate pela Quinta Cruzada. De um lado o Islã, do outro lado a Cruzada. Ambos motivados por um belo nome: guerra santa.

Francisco, descalço, chegou com mais três companheiros ao campo de batalha. Pediu para ir ao outro lado. O comandante cristão não permitiu. Diante da insistência de Francisco, o comandante acabou concordando, mas como quem diz: “Se ele quer ser um mártir, um suicida, que vá”.

Francisco atravessou as colunas muçulmanas e declarou na frente dos soldados: “Sou um cristão e quero falar com seu comandante, o sultão”.

Os soldados, mesmo reconhecendo que era loucura, encantaram-se com a simplicidade desarmada daquele homem, que não vinha com lança nem escudo; vinha vestido como camponês, com uma coragem tranqüila, apesar de estar do lado adversário. Melek-el-Kamel recebeu-o em sua tenda. E Francisco disse diante dele: “Eu vim falar com você sobre aquilo em que eu acredito: o Evangelho do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo”. E conversou longamente com o sultão, que o escutou atenciosamente – nessa hora ele não se comportou, como escreveram os cronistas do século XII e XIII, como um animal cruel. O sultão era um líder religioso. Era líder religioso de um povo monoteísta, que tem a mesma estrutura teológica do cristianismo, a mesma estrutura teológica do judaísmo e de outras grandes religiões.

O sultão o ouviu e depois o mandou de volta, pedindo: “Reze ao seu Deus para que dê ao meu espírito a sabedoria que for melhor”. E Francisco voltou vivo e tranquilo para o outro lado.

Os laços do coração

Esse significativo episódio ilustra, exatamente, as afirmações de Pierre Weil (escritor e psicólogo). Não houve a violência da guerra: houve o encontro do que a humanidade tem de mais belo: o espírito comum. Sabemos que não são os laços econômicos que unem a humanidade, não são os laços políticos que unem o grupo humano. Há pouco tempo o Brasil celebrou quinhentos anos de colonização. Politicamente, ainda nem nascemos, nem fomos descobertos. São os laços afetivos que unem um grupo humano. Pode haver inveja, ciúme, competição. Apesar disso, o que mais une o grupo humano? O espírito comum. Foi o que Francisco e Melek-el-Kamel fizeram: conversaram sobre o que a humanidade tem de mais fecundo, a partir da interioridade, da profundidade do humano, daquilo que eles crêem.

Porque o ser humano, quando é profundamente humano, encarna o divino. Por isso, todos os sinais dados pelos xeiques, pelos rabinos, pelos sacerdotes, pelos pastores, indicam que haverá solução para os conflitos no Oriente Médio quando eles tiverem coragem de se encontrar, cada um falando do que se passa nas profundezas do seu coração, em vez de brigarem por montanhas em Golan e por lugares estratégicos da faixa de Gaza.

Um outro aspecto que quero lembrar e considero muito importante na proposta da terapia das religiões, foi o que ocorreu em 1989, quando morei por alguns meses em Assis. Assis é mais do que uma cidade; é um estado de espírito. É mais do que um lugar; é um ponto de encontro, é a cidade da paz.

Na leveza da dança

Por morar em lugar tão especial, passei a andar pela cidade em momentos diferentes – de madrugada, à tarde, ao meio-dia, à noite – para sentir todo o seu fascinante mistério. Um dia, levantei-me de madrugada e encontrei uma jovem paquistanesa sozinha, dançando no meio da praça. Era seguidora de um segmento popular da religiosidade muçulmana com forte influência dos dervixes. Ela realizava aquilo que é tradição do povo do interior de São Paulo, de onde venho: a dança de São Gonçalo. Existe uma música do cantor Pena Branca, fiel escudeiro e companheiro do saudoso Xavantinho, que diz: “Os santos querem que eu reze, São Gonçalo quer que eu dance!”

Ela dançava a dança dos dervixes, girando, com as mãos abertas em concha para colher a energia divina e trazê-la à Terra. Nunca me esqueci do nome dela: Merril Parakaratarambill. Perguntei-lhe: “O que você está fazendo?” Surpreendentemente, ela respondeu: “Orando, rezando”. Tornei a perguntar: “Para quem?” Porque ela usava vestes de cor laranja e estava muito bonita, muito serena. E ela disse: “Eu estou rezando para Francisco”. “Por quê?”, perguntei. E ela: “Porque aprendi com os dervixes, aprendi com a minha religião”.

Nós nos apresentamos e seguimos conversando. Ela disse que a religião era como a dança. Que a sua filosofia era esta: para dançarmos, temos de dar um passo. Para darmos o passo, temos de amar profundamente o chão que pisamos, conhecê-lo muito bem e, ao mesmo tempo, não ficar preso a ele ou não haverá nem passo nem dança. Disse, finalmente, que rezava para Francisco porque ele a ensinava a viver a vida um pouco de pernas para o ar, na leveza da dança…

Então, com esses encontros, fui aprendendo com as diversas culturas o que é esse caminho da terapia das religiões.

Encerro, contando mais um fato. Realizei alguns retiros no Monte Alverne, na região da Toscana, onde Francisco vivenciou os estigmas. Lá, encontrei um monge budista. Quando perguntei o seu nome, ele respondeu: “Eu não tenho nome. Chamamos este lugar de encontro. Quero que você me chame Francisco”.

O serafim do amor

As boas fontes franciscanas dizem que, de repente, Deus tocou profundamente Francisco. Ele é um imitador perfeito dos caminhos do Senhor Jesus, e todo aquele que é marcado pelos dedos terríveis desse amor, a ele é impossível não trazer essas marcas em seu corpo. Teologicamente, espiritualmente, dizemos que o anjo, o Serafim alado, veio e marcou o corpo dele com aquelas chagas do Amado. E para sempre o amor tomou forma num corpo. Porque o amor estava no seu coração, e o que está no coração toma conta do corpo, da história, da vida e deixa marcas profundas.

As pessoas que se amam verdadeiramente vão ficando parecidas, não é mesmo? Às vezes observamos que, quanto mais velhos ficam nossos pais, mais se assemelham fisicamente. Naquele retiro eu queria entender o que significavam as chagas de Francisco. O monge me respondeu que, de acordo com sua cultura oriental, todas as nossas energias, o nosso potencial de amor, a nossa fonte do amor, brotam de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele disse que, em sua grande capacidade de amar, Francisco explodiu, seu coração se fez como o Sagrado Coração. O coração de quem ama muito faz assim: Pluf! Salta para fora. E o coração dele abriu-se em chagas, em estigmas. Enraizado naquela terra, naquele chão que ele conhecia e pisava, seus pés ficaram marcados com as chagas do Amor.

A concretude do amor estava nas suas mãos, nos seus pés. É nas extremidades vitais que circulam as energias mais poderosas. E foi aí que o amor transbordou na vida de Francisco. Penso que, quando amamos profundamente, todas as experiências humanas e religiosas nos marcam com as marcas profundas do amor. Quem dá o coração, recebe corações. Isso eu aprendi com Francisco, com o cristianismo e também com o budismo. Eu tenho um mestre taoísta, Chuang Tzu. Eu o leio com a mesma paixão que leio o Evangelho, com a mesma paixão com que leio as fontes franciscanas.

Fonte: http://franciscanos.org.br