quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Evangélicos participam das Missões Franciscanas



Moacir Beggo

Mais de 500 jovens serão acolhidos nesta quinta-feira (19/1) pela Fraternidade São Boaventura de Rondinha e pelo Serviço de Animação Vocacional da Província Franciscana da Imaculada Conceição, dando início à quarta edição das Missões Franciscanas da Juventude. O encontro, que começa às 9 horas desta quinta-feira, terminará ao meio-dia de domingo, em Curitiba (veja programação ao lado). Segundo Frei Diego Atalino de Melo, o animador provincial deste evento, as Missões são um espaço de convivência, partilha e troca de experiências entre os jovens que vivem no grande território da Província. É também um momento forte de espiritualidade e diálogo ecumênico.

O frade não esconde a alegria de ver o engajamento e comprometimento dos jovens com as Missões. “A juventude mostra que assumiu o seu protagonismo na Igreja, na evangelização, na construção de um mundo melhor. Fato é que nós temos aí, em pleno mês de janeiro, mês de férias, mais de 500 jovens que saem de suas casas para investir numa experiência de doação, entrega e serviço ao próximo. Então, isso tudo nos enche de esperança. Basta motivá-los que eles, sem dúvida, abraçam a proposta e se colocam a serviço, querendo de fato contribuir para a construção do mundo melhor e para a evangelização da Igreja”, avalia Frei Diego.

PROGRAMAÇÃO

Quinta-feira (19/01)

09H00 – Acolhida em Rondinha no BJ Aldeia
10h30 – Apresentação, orientações e acolhida dos grupos
12h00 – Almoço
14h00 – Momento de formação
14h45 – Partilha em grupos
15h45 – Cafezinho
16h15 – Encontro
19h30 – Jantar
20h30 – Oração da Noite e Mística
21h30 – Festa do Brega
Sexta-feira (20/01)
07h00 – Café da manhã
08h00 – Oração da Manhã preparada pelos Evangélicos
09h00 – Formação sobre as missões, divisão das equipes e ofi‑cinas
10h00 – Intervalo (Cafezinho)
10h30 – Missa de Envio
12h00 – Almoço
13h30 – Partida para Curitiba
14h30 – Acolhida – 15 minutos MFJ Curitiba
15h00 – Intervalo (Lanche)
15h40 – Caminhada pelo centro histórico até o Bosque do Papa
18h00 – Retorno ao Centro (Lanche)
19h00 – Noite Cultural no Teatro Bom Jesus do Centro: “A Encruzilhada”
21h30 – Envio para as comunidades
Sábado (21/01)
Atividades nas comunidades

Domingo (22/01)
08h00 – Início da acolhida dos Grupos no Bom Jesus Centro
09h30 – Missa de Encerramento na Igreja Bom Jesus
11h00 – Partilha, avaliação e encaminhamentos no ginásio do Colégio Bom Jesus
13h00 – Almoço de encerramento no ginásio do Colégio Bom Jesus, que será preparado na Paróquia BJ.

Este é a quarta vez que as missões ocorrem na Província. As edições anteriores se realizaram em Ituporanga-SC (2014), Concórdia-SC (2015) e Chopinzinho-PR (2016). Desde sua origem, quando reuniu cerca de 100 pessoas, até esta edição, o evento atingiu o seu objetivo de envolver todas as Paróquias da Província da Imaculada, que está presente nos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Segundo Frei Diego, a cada experiência surgem novas lições que possibilitam melhorias na organização. “Essa é apenas a quarta edição e nós, graças ao envolvimento de muita gente e também às sugestões dos próprios jovens, tivemos desta vez um grande crescimento qualitativo, de modo que todos os jovens aqui presentes já puderam fazer uma preparação melhor. Eles tiveram três encontros de formação nas suas comunidades, foram motivados a envolver seus grupos de jovens, mesmo aqueles que não viriam para as Missões, em uma pré-missão”, explicou o frade. Para ele, fica claro que esse encontro não tem um fim nele mesmo, mas quer repercutir e dar uma resposta à toda a realidade onde os jovens estão inseridos. O Tau Franciscano, com as diferentes realidades dos jovens, forma o símbolo das Missões.

“Nós vemos também a criação de novos grupos de jovens e se percebe, com alegria, o crescimento e surgimento de novas lideranças juvenis. Além dos jovens da Província da Imaculada, temos jovens de duas outras Províncias: a Província de São Francisco de Assis (RS), que está trazendo 21 jovens, e a Custódia do Sagrado Coração de Jesus (Garça, SP), que também está participando conosco, somando e aprendendo esse jeito de trabalhar com a juventude”, adianta Frei Diego.

Trinta frades desta Província estarão em Curitiba, além de religiosas de várias congregações e padres diocesanos, que trazem os jovens de dioceses para participar. “Outro fato que nos causa alegria é a participação de jovens evangélicos. Já é o terceiro ano que temos aí um grupo que se sente acolhido e participa sem nenhum problema. Por conta disso, nesta edição, queremos dar um destaque à participação deles como uma maneira de formar nossos jovens para esse ecumenismo prático”, adiantou o frade.

Frei Diego, que é o animador vocacional desta Província, vê também com alegria o despertar vocacional. “Aos poucos, a gente percebe que os jovens vão se encantando cada vez mais por São Francisco e Santa Clara e isso tem feito despertar novas vocações para os diferentes ministérios na Igreja”, festeja Frei Diego.

Nos quatro dias de atividade, os jovens terão muitos momentos de oração, confraternização e atividades de voluntariado em escolas, hospitais, presídios e famílias.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Papa: os cristãos sejam corajosos e não estacionados


Cidade do Vaticano (RV) - Sejam cristãos corajosos, ancorados na esperança e capazes de suportar momentos difíceis. Esta é a forte exortação do Papa na Missa matutina na Casa Santa Marta nesta terça-feira, (17/01). Os cristãos preguiçosos, ao invés, são parados, destacou Francisco, e para eles a Igreja é um belo estacionamento.

O Papa desenvolve a sua homilia partindo da Leitura da Carta aos Hebreus. O zelo de que fala, a coragem de ir avante deve ser a nossa atitude diante da vida, como os que treinavam no estádio para vencer. Mas a Leitura fala também da preguiça, que é o contrário da coragem. “Viver na geladeira”, sintetizou o Papa, “para que tudo permaneça assim”:

“Os cristãos preguiçosos, os cristãos que não têm vontade de ir avante, os cristãos que não lutam para fazer as coisas mudarem, coisas novas, coisas que fariam bem a todos se mudassem. São os preguiçosos, os cristãos estacionados: encontraram na Igreja um belo estacionamento. E quando digo cristãos, digo leigos, padres, bispos… Todos. E como existem cristãos estacionados! Para eles, a Igreja é um estacionamento que protege a vida e vão adiante com todas as garantias possíveis. Mas esses cristãos parados me fazem lembrar de uma coisa que nossos avós diziam quando éramos crianças: ‘Fique atento porque água parada, que não escorre, é a primeira a se corromper’”.

Ancorados na esperança

O que torna os cristãos corajosos é a esperança, enquanto “os cristãos preguiçosos” não têm esperança, estão “aposentados”, disse o Papa. É belo se aposentar depois de tantos anos de trabalho, mas – advertiu -, “passar toda a sua vida aposentado é ruim!”. Ao invés, a esperança é âncora à qual se agarrar para lutar inclusive nos momentos difíceis :

“Esta é a mensagem de hoje: a esperança, aquela esperança que não desilude, que vai além. E diz: uma esperança que ‘é uma âncora segura e firme para a nossa vida’. A esperança é a âncora: nós a lançamos e ficamos agarrados na corda, mas ali, indo ali. Esta é a nossa esperança. Não se deve pensar: ‘Sim, mas tem o céu, ah que belo, vou ficar aqui…’. Não. A esperança é lutar, agarrados na corda para chegar lá. Na luta de todos os dias, a esperança é uma virtude de horizontes, não de fechamentos! Talvez seja a virtude que menos se compreende, mas é a mais forte. A esperança: viver na esperança, viver de esperança, olhando sempre para frente com coragem. ‘Sim, padre –vocês podem me dizer -, mas existem momentos difíceis, o que devo fazer?’. Agarre-se à corda e suporte”.

Cristãos estacionados olham apenas a si mesmos, são egoístas

“A nenhum de nós a vida é presenteada”, observa Francisco, devemos ao invés ter a coragem de ir avante e aguentar. Cristãos corajosos, tantas vezes erram, mas “todos erram”, disse o Papa, “erra aquele que vai em frente”, enquanto “aquele que está parado parece não errar”. E quando “não se pode caminhar, porque tudo é escuro, tudo está fechado”, você tem que suportar, ter perseverança. Em conclusão, Francisco nos convida a nos perguntar se somos cristãos fechados ou de horizontes e se nos maus momentos somos capazes de suportar com a consciência de que a esperança não desilude: “porque eu sei - afirmou – que Deus não desilude”:

“Vamos nos fazer a pergunta: como sou eu? como é a minha vida de fé? é uma vida de horizontes, de esperança, de coragem, de ir para a frente ou uma vida morna que nem mesmo sabe suportar os maus momentos?

E que o Senhor nos dê a graça, como pedimos na Oração da coleta, para superar os nossos egoísmos, porque os cristãos estacionados, os cristãos parados, são egoístas. Olhando somente para si mesmos, não sabem levantar a cabeça para olhar para Ele. Que o Senhor nos dê esta graça”.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Para onde sopram os ventos (II)

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Frei Almir Guimarães

1. Para que o amanhã da Ordem Franciscana Secular tenha força e vigor será fundamental que as pessoas que nela ingressem tenham clareza a respeito de um chamamento, de uma vocação. Não se trata de inscrever-se numa pia associação de fiéis de boa vontade, apenas desejosos de rezar juntos. Trata-se de pessoas que, depois de um certo discernimento, chegaram à conclusão de que podem chegar a uma santidade de vida e dar uma colaboração efetiva à Igreja e ao mundo ingressando nas fileiras de uma fraternidade franciscana. De alguma forma, trata-se de uma consagração da vida a Deus e aos irmãos. São pessoas que experimentam o Evangelho como algo que tem que ser vivido em profundidade. Com sua opção e escolha “fazem diferença”.

2. Os que começam sua caminhada na OFS e nela progridem são pessoas que desejam iluminar a sua vida com a claridade do Evangelho. Leitura, meditação, jogo de movimento entre leitura das páginas, encontro com Cristo e a vida. Tais pessoas desejam ser discípulas e missionárias. O documento de Aparecida fala dos discípulos missionários: sentam-se à mesa ou aos pés do Mestre e estão sempre com a bagagem leve pronta para ir, para tornar a o amor amado. São pessoas que se deixaram fisgar pelo Evangelho. O amanhã da OFS tem que ser feito por contemplativos em ação. Os que nos vêm têm o direito de os perguntar: “O que vocês fazem?”

3. O amanhã da OFS é feito de pessoas muito conscientes de que morreram com Cristo em sua morte e com ele ressuscitaram na manhã de Páscoa. Renovam seu batismo, vivem intensamente as festividades pascais. Adentram-se no mistério pascal. Depois de um certo tempo de estudo e de discernimento fazem uma profissão que nada mais é do que uma retomada do batismo que receberam mas talvez sem dele terem consciência. Profissão livremente feita, compromisso, fidelidade à palavra dada, para sua santidade, serviço da Igreja.

4. A OFS terá futuro na medida em que se preocupar com o cultura do encontro: no seio da fraternidade, no ambiente paroquial (proximidade), com os diferentes, os vizinhos, pessoas de outros credos, encontro com os que mais sofrem. A vida dos franciscanos seculares é sala de encontros.

5. O amanhã da OFS será vigoroso precisamente na medida em que encontrarmos novo tônus para nossos encontros:

• Reuniões mensais de alta qualidade, não longas, mas densas e que sejam, de fato, tonificantes.
• Reuniões e encontros em que se haverá de discutir e estudar assuntos da atualidade, questões quentes e polêmicas, aprofundamento da fé. Precisamos ser cristãos adultos e não daqueles que se fanatizam por modismos.
• Alguns de nossos encontros serão realizados com a presença de familiares. Pensamos em reuniões especiais, abertas, algumas vezes por ano.
• Nossos encontros terão constantemente presença da fraternidade de JUFRA, sem o que, seremos rios paralelos que não se encontram.

6. Nossos eventos e encontros serão marcados por alegria que não quer dizer arruaça. A presença da música bela, de jovens que cantam é de suma importância. Um apostolado sempre válido é das pessoas que não ruminam ressentimentos e tristezas, mas se mostram contentes e alegres.

7. Não podemos imaginar o amanhã de nossos regionais sem sólidas lideranças. O líder é aquele que se impõe por seu exemplo, seu caráter, seu temperamento marcado pelo ânimo, pela confiança no amanhã, nos outros, na fraternidade. Nossos irmãos precisam frequentar cursos, assumir responsabilidades em diferentes níveis para poderem, na força do Espírito, levar a Ordem para paisagens novas.

8. O amanhã da OFS será risonho se for constituído de pessoas que alimentam e cultivam intimidade com o Senhor, isto é, pessoas que têm uma vida de oração pessoal, que adotam a prática da meditação frequente, da leitura dos santos místicos da Ordem como Boaventura e outros.

9. A OFS não se constitui como um grupo de casais ou de famílias. É aberta a todos: solteiros, casados, viúvos. Temos o direito de imaginar que as fraternidades de amanhã tenham um número razoável de casais. Estaremos assim dando nossa colaboração para formar Igrejas domésticas com as cores evangélico-franciscanas. Poucas espiritualidades são tão propícias para a formação de novas famílias em nossos tempos.

10. Na medida em que nossas fraternidades franciscanas seculares estiverem antenadas no ar do tempo, desejosas de maneira bem prática de dialogar com esse mundo terão chances de seres espaços buscados e apreciados. Em reuniões, encontros, os franciscanos seculares haverão de buscar refletir sobre certas sombras: indiferença, superficialidade, consumismo, relativismo, falta de cuidado com nossa casa comum, política, atenção especial a ser dada aos mais frágeis. Seremos um laicato profético, questionador, atuante. O lugar dos franciscanos seculares não é a sacristia, mas o mundo.

11. Fazemos agora um elenco de posturas evangélico-franciscanas que precisam estar estampadas na vida dos franciscanos seculares e que, automaticamente constituem propaganda vocacional e renovação das fraternidades:

• postura de simplicidade;
• sensibilidade para com o irmão (amar como uma mãe que ama seu filho);
• não querer sobrepor-se aos outros;
• não extinguir o Espírito;
• trabalhar e a agir sem perder o espírito da santa oração;
• ir pelo mundo e, ao mesmo tempo, ter saudade do eremo;
• exercitar-se na práxis da desapropriação;
• saber extasiar-se das coisas simples: a beleza de uma criança, o encanto da natureza e a delicadeza de um ninho de beija-flor;
• saber levar as coisas ao fundo do coração como Maria;
• aderir ao projeto pastoral do Papa Francisco, colocando-nos numa Igreja em saída.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Para onde sopram os ventos? (I)

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Frei Almir Guimarães

1. É curto o espaço entre nosso nascer e o fim de nossa aventura existencial. Tudo passa depressa. Passamos nós, passa o tempo, passam todas as coisas, passam as pessoas e passam as modas. A criança começa a caminhar, falar e viver. Vem o tempo da juventude, tempo dos projetos e depois das concretizações. Chega o tempo da maturidade. Todos sentimos que a vida vai se escoando por entre nossos dedos. Podemos viver por viver. Podemos simplesmente viver pelo fluir dos acontecimentos ou dar um sentido aos dias que se sucedem: casamento, família, trabalho profissional, cuidado pelos parentes mais próximos, educação dos filhos, saúde e doença, vida e morte. Entre o momento que não existíamos e aquele em que seremos levados ao cemitério ou ao crematório aconteceu a vida, a nossa vida, que ninguém pode viver em nosso lugar.

2. Somos católicos. Não queremos que o adjetivo “católico” seja para nós simplesmente um rótulo. Num determinado momento de nossa vida deixamos de viver uma fé herdada, apenas fé de costumes, devoções, ritos e encontramo-nos pessoalmente com Cristo vivo e ressuscitado. Houve uma iluminação em nossa vida. Fomos despertados e quisemos ser, de fato, cristãos, discípulos do Ressuscitado, no seio da Igreja. Vivenciamos como que uma saudade de Deus. E vivemos nossa fé no seio da Mãe Igreja. Procuramos nos interessar pelas coisas da fé e dar nossa colaboração às necessidades da Igreja. Começamos a ser “espetados” pela força nem sempre cômoda do Evangelho.

3. Aconteceu que, por diferentes circunstâncias, quisemos ou viemos fazer parte de uma família espiritual inspirada em Francisco e Clara de Assis, continuando a viver no meio das tarefas da vida e do mundo, não nos tornando religiosos e religiosas com votos. Como nasceu esse desejo de sermos franciscanos seculares? Cada um tem sua história e conhece sua biografia. Há pessoas acreditaram que essa espiritualidade as ajudaria a chegar a uma santidade de vida: “No seio da dita família ocupa posição específica a Ordem Franciscana Secular que se configura como uma união orgânica de todas as fraternidades católicas espalhadas pelo mundo e abertas a todos os grupos de fiéis. Nelas, os irmãos e irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado secular, são empenhados pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra aprovada pela Igreja” (Regra n.2). Um desejo de santidade, vontade de viver com outras pessoas, fazendo a experiência do “vede como eles se amam”. Houve um tempo de enamoramento, de formação e de assunção de um compromisso alegre, de uma profissão.

4. Regra, reuniões, reflexões, convivência fraterna, tarefas ad intra e ad extra foram alimentando nosso projeto humano, cristão e franciscano. Por detrás de tudo o que foi e vai tecendo nossa vida franciscana está uma presença importante fundamental: o Cristo vivo e ressuscitado. Vivemos em sua presença. Contemplamos seu amor na cruz olhando com Francisco e Clara o crucificado que pede aos dois que restaurem a Igreja com sua vida, Cristo vivo no rosto dos mais desgraçadas como os leprosos, presente no seio da fraternidade. No seio da Ordem queremos ser discípulos do Cristo vivo e ressuscitado. O amanhã da Ordem passa por uma purificação de nossa colocação diante de um Jesus vivo e presente.

5. O amanhã da Ordem Franciscana Secular não acontece com mudanças organizacionais. Depende, antes de tudo, da transformação do coração de cada irmão. Em nossas fraternidades locais somos convocados a viver em estado de conversão, de penitência, de transformação. O amanhã da OFS será viçoso se os irmãos e irmãs forem capazes de alimentar a conversão segundo as orientações do Sermão da Montanha (Mt 5, 1-12). Como se opera e se alimenta a conversão? Vivendo verdade para consigo mesmo, leitura do Evangelho, meditação, retiros, constantes revisões de vida, compreensão nova do sacramento da penitência ou da confissão.

6. Trata-se de um propósito de sair da mediocridade e da superficialidade. Para que nos próximos tempos a OFS tenha significação importante que seus membros tendam explicitamente para a santidade, sem “carolice”. Trata-se de fugir de toda vivência cristã epidérmica, sem profundidade, rotina. Importante o estudo, a leitura espiritual, o abeirar-se das fontes, principalmente dos escritos de São Francisco.

7. A palavra fraternidade é mágica. Não se pode imaginar o amanhã dos franciscanos seculares sem nítidas expressões de estima e de bem-querer. Pensamos aqui na qualidade humana e cristã de nossas fraternidades. As reuniões dos irmãos, mormente a reunião geral, constituem sacramento da fraternidade. O amanhã da OFS depende de vigorosas fraternidades marcadas pela presença de irmãos com espírito de fé. Não se trata apenas de uma mera simpatia, mas da convivência, anos a fio, com irmãos e irmãs que aprendemos a estimar e com os quais fazemos a experiência do “vede como se amam”. A OFS do amanhã será feita na medida em que tivermos reuniões “suculentas”, bem preparadas, bem participadas. Nossos encontros deixarão sempre o gosto de “quero mais”. Vivemos tempos de individualismo, violência e indiferença. A OFS é de amanhã viverá inteiramente a fraternidade-serviço no seio dos irmãos e para fora. Nossa vida fraterna e nossa abrangente compreensão do fraternismo constituem um antídoto do mundo que nos cerca.

8. Vivemos um mundo plural, de questionamentos, de dilaceramentos, perplexidades. As fraternidades OFS serão lugares para discussão dos grandes temas da fé e do mundo. Isso se concretizará em dias de estudo, tardes de mesas redondas, leitura de obras que formem os irmãos para sua ação no mundo e na pastoral.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

Missa pelo 30º dia de falecimento de Dom Paulo Evaristo Arns


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dia de Reis e da Epifania do Senhor


A origem oriental desta solenidade está implícita no seu nome: Epifania (revelação, manifestação). Os latinos usavam a denominação festividade da declaração ou aparição com o significado de revelação da divindade de Cristo ao mundo pagão através da adoração dos magos, aos judeus com o batismo nas águas do Jordão e aos discípulos com o milagre das bodas de Caná.  O “Dia de Reis” é uma das festas tradicionais mais singelas celebrada em todo o mundo católico. Neste dia se comemora a visita de um grupo de reis magos (Mt 2 1 -12), vindos do Oriente, para adorar a “Epifania do Senhor”. Ou seja, o nascimento de Jesus, o Filho por Deus enviado, para a salvação da humanidade.

O termo “mago” vem do antigo idioma persa e serviu para indicar o país de suas origens: a Pérsia. Eram reis, porque é um dos sinônimos daquela palavra, também usada para nomear os sábios discípulos de uma seita que cultuava um só Deus. Portanto, não eram astrólogos nem bruxos, ao contrário, eram inimigos destas enganosas artes mágicas e misteriosas.

Esses soberanos corretos esperavam pelo Salvador, expectativa já presente mesmo entre os pagãos. Deus os recompensou pela retidão com a maravilhosa estrela, reconhecida pela sabedoria de suas mentes como o sinal a ser seguido, para orientação dos seus passos até onde se achava o Menino Deus.

Foram eles que mostraram ao mundo o cumprimento da profecia de séculos, chegando no palácio do rei Herodes, de surpresa e perguntando “pelo Messias, o recém-nascido rei dos judeus”. Nesta época aquele tirano reprimia a população pelo medo, com ira sanguinária. Mas os magos não o temeram, prosseguiram sua busca e encontraram o Menino Deus.

A Bíblia diz que os magos chegaram à casa e viram o Menino com sua Mãe. Isto porque José já tinha providenciado uma moradia muito pobre, mas mais apropriada, do que a gruta de Belém onde Jesus nascera. Ali, os reis magos, depois de adorar o Messias, entregaram os presentes: ouro, incenso e mirra. O ouro significa a realeza de Jesus; o incenso, sua essência divina e a mirra, sua essência humana. Prestada a homenagem, voltaram para suas nações, evitando novo contato com Herodes, como lhes indicou o anjo do Senhor.

A tradição dos primeiros séculos, seguindo a verdade da fé, evidenciou que eram três os reis magos: Melquior, Gaspar e Baltazar. Até o ano 474 seus restos estiveram sepultados em Constantinopla, a capital cristã mais importante do Oriente, depois foram trasladados para a catedral de Milão, na Itália. Em 1164 foram transferidas para a cidade de Colônia, na Alemanha, onde foi erguida a belíssima Catedral dos Reis Magos, que os guarda até hoje.

No século XII, com muita inspiração, São Beda, venerável doutor da Igreja, guiado por uma inspiração, descreveu o rosto dos três reis magos, assim: “O primeiro, diz, foi Melquior, velho, circunspecto, de barba e cabelos longos e grisalhos… O segundo tinha por nome Gaspar e era jovem, imberbe e louro… O terceiro, preto e totalmente barbado chamava-se Baltazar (cfr. “A Palavra de Cristo”, IX, p. 195)”.

Deus revelou seu Filho ao mundo e ordenou que o acatassem e seguissem. Os reis magos fizeram isto com toda humildade, gesto que simboliza o reconhecimento do mundo pagão desta Verdade. Isso é o mais importante a ser festejado nesta data. A revelação, isto é, a Epifania, que confirma a divindade do Santo Filho de Deus feito homem, que no futuro sacrificaria a própria vida em nome da salvação de todos nós.

A Igreja também celebra hoje a memória dos santos:  André Corsino e Nilamão

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

sábado, 31 de dezembro de 2016

Dezembro 2016

Irmãos e Irmãs,
Paz e bem!

No mês de dezembro aconteceu na Igreja das Chagas a 2ª Exposição Internacional de Presépios com a organização de Wilson J Silva. A abertura aconteceu no dia 04/12 (1º domingo), contamos com a apresentação do coral infanto juvenil coordenado pela cantora lírica Joana Matera. E a missa foi animada pelo coral MOP (Movimento Pró Idoso). O encerramento da exposição ocorreu no dia 23/12/16. Com mais de 450 visitantes a exposição estava muito bonita.

No terceiro domingo dia 18, na santa missa celebramos o Jubileu de Prata de Profissão dos irmãos José Martiniano Souza e Rosalina Marques dos Santos.  E após todos os professos renovaram o compromisso da Profissão na Ordem Franciscana Secular.

Ao final aconteceu nossa confraternização de natal com o café festivo no refeitório da fraternidade.

Desejamos aos colaboradores na exposição de presépios, especialmente ao Wilson muitas bênçãos e graças de Deus nas dificuldades vivenciadas pela fragilidade de sua saúde nestes tempos difíceis.

Que Deus em sua infinita bondade e misericórdia conceda aos irmãos que renovaram pela 25ª vez a Profissão na Ordem Franciscana Secular e todos os professos da Fraternidade a perseverança na caminhada franciscana no meio do mundo.

Desejamos também aos nossos leitores muitas bênçãos e graças de Deus em suas famílias, trabalhos e ações pela paz e justiça e nos cuidados com a Criação.

Que o ano de 2017 traga a Paz ao mundo inteiro.

Por tudo Deus seja louvado!
Fraternalmente,

Maria Nascimento   



















sábado, 24 de dezembro de 2016

Saborear com Júbilo e alegria a Festa das Festas



Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM

Caríssimos irmãos e irmãs,
Que o Senhor nos dê a Paz e todo o Bem!

As Fontes Franciscanas exaltam a sensibilidade e a ternura com que São Francisco de Assis se prepara para celebrar a Natividade do Senhor. E entre tantas razões que justificam esses preparativos, três me parecem de fundamental importância porque vão ao encontro do seu desejo principal e plano supremo de observar o Santo Evangelho: “Imitar com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo”; “Lembrar a humildade de sua encarnação” (cf. 1Cel 84); “Celebrar com incrível alegria, mais que todas as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, pois afirmava que era a festa das festas, em que Deus, feito um menino pobrezinho, dependeu de peitos humanos” (2Cel 199).

O Mistério do Natal começa com a dedicação que se deve dar ao tempo de preparação para acolher Aquele que está por vir: é o Advento do Senhor! Por isso esse tempo de expectativa e de espera da “festa das festas” exige muita atenção, esforço, dedicação e fervor. Ainda hoje me recordo, quando criança, a tamanha ansiedade com que aguardávamos em família a chegada do Menino Jesus (não do Papai Noel). Era muito natural contar os dias que faltavam para o Natal. E assim, a cada dia que passava e noite que chegava, até bem mais comportados do que qualquer outra época do ano, a ‘fome da festa’ crescia como se quiséssemos sentir em nós a célebre expressão de Cícero, mesmo sem dele nunca ter ouvido falar: “O melhor tempero da comida é a fome”.

Sentir fome, aguardar com ansiedade, preparar-se para acolher, endireitar o que não é reto, justo e virtuoso nos caminhos da paz e da fraternidade, são exigências penitenciais desse Tempo do Advento. As grandes figuras bíblicas, de modo especial o profeta Isaías, São João Batista, São José e a Virgem Maria, ajudam-nos a fazer do nosso tempo do Advento um itinerário espiritual que nos fala de acolhida, alegria, consolação, conversão, esperança, humildade, justiça, libertação, oração, pobreza, respeito e vigilância.

São estes os ingredientes necessários que realmente nos fazem ‘sentir fome’ para o grande dia da “festa das festas” do Menino Jesus, e participar da grandeza e da fartura do banquete que o Senhor Deus nos preparou na gruta de Belém. Felizes os pobres pastores, sedentos e famintos, que naquela noite da “festa das festas” saborearam do banquete da humildade e da pobreza oferecido misericordiosamente por Deus a todos os famintos da terra. Porque a outra festa, a do ‘papai noel’ do consumismo e das exigências dos enfastiados e insensíveis porque nunca experimentaram a fome, se desenrola no palácio de Herodes por personagens que preferem o tempero das essências sofisticadas e que, infelizmente, levou Herodes e comparsas a perder o sabor daquele que nasceu para nós como Pão da vida e sem fermento e a nós se apresentou como Sal da terra e Luz do mundo.

São Francisco de Assis, ao rezar o Evangelho da Encarnação do Filho de Deus, quer imitar a pobreza e a humildade do Filho de Deus na gruta de Belém e compreende que estas duas virtudes são pontos de partida para contemplar a riqueza do Amor divino. Festejar o Natal é celebrar com incrível alegria o Amor que dá sentido e sabor à vida! Por isso, “precisamos recordar com todo respeito e admiração, o que fez no dia do Natal, no povoado de Greccio” e o que lá sucedeu quando “aproximou-se o dia da alegria e chegou o tempo da exultação”, quando homens e mulheres do lugar foram chamados, quando a noite foi iluminada com tochas e “Greccio tornou-se uma nova Belém, honrando a simplicidade, louvando a pobreza e recordando a humildade” (cf. 1Cel 84-85).

A pobreza e a humildade, tão próximas à visão que teve do “menino exânime no presépio” (1Cel 86), na verdade brilham para São Francisco como “glória de Deus aos homens por ele amados” (Lc 2,14), capaz de saciar plenamente a todos os que se prepararam para ter fome na noite da “festa das festas”. Afinal, a própria Serva da festa maior, Mãe do Senhor recolhida silenciosamente na gruta de Belém, magnificamente preconizou isso no seu Cântico: “Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1,52-53).

Que o tempero da fome, provocado em nós neste tempo do Advento, nos leve a saborear com júbilo e alegria a “festa das festas” e contemplar a apropriada visão retratada por Tomás de Celano: “O menino Jesus tinha sido relegado ao esquecimento nos corações de muitos, mas neles ele ressuscitou, agindo a sua graça por meio de seu servo São Francisco, e ficou impresso na diligente memória deles” (1Cel 86).

Natal, a “festa das festas”, é “o dia que o Senhor fez” e nele Francisco reza: “Pois naquele dia Deus nosso Senhor concedeu a sua misericórdia, e de noite ressoou o seu louvor. Pois foi-nos dado um Menino amável e santíssimo, nascido por nós à beira do caminho e deitado numa manjedoura, porque não havia lugar na estalagem. Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. Alegrem-se os céus, rejubile a terra, ressoe o mar com tudo o que contem…” (OfP 15, 3-10). Por isso Francisco queria que naquele dia “os pobres e esfomeados fossem saciados pelos ricos, e que se concedesse uma ração maior e mais feno para os bois e os burros… e que se jogassem pelas ruas trigo e grãos, para que nesse dia solene tenham abundância até os passarinhos, e principalmente as irmãs cotovias” (2Cel 199).
E desde agora desejo a você os melhores votos de um abençoado Natal e todas as bênçãos do Senhor para o Ano Novo.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

GS: A missão da Igreja no mundo de hoje


Cidade do Vaticano (RV) - No nosso Espaço Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II - vamos tratar no programa de hoje do terceiro elemento da Gaudium et Spes, a missão da Igreja no mundo de hoje.

Na Gaudium et Spes elaborou-se uma reflexão sobre a relação entre a história da salvação e a história humana, abandonando definitivamente a tentação da competição com a sociedade civil e respeitando a autonomia da sociedade terrena, enquanto a Igreja realiza sua contribuição de acordo com a sua finalidade religiosa e, por isso, ela não é de ordem política, econômica ou social. Dentro dessa relação com a história é que se pode perceber a relação entre eclesiologia e Doutrina Social Cristã.

A relação entre a história da salvação e a história humana, foi o segundo elemento da Constituição Gaudium et Spes abordado pelo Padre Gerson Schmidt, que no programa de hoje, nos fala sobre um terceiro elemento: a missão da Igreja no mundo de hoje:

"Estamos pontamos os três elementos na Gaudium et Spes, relacionados com a Lumen Gentium. O primeiro elemento é a concepção de Igreja, que situa o documento no âmbito doutrinal; o segundo elemento é a relação entre a história da salvação e a história humana; o terceiro elemento é a missão da Igreja no mundo de hoje.

Já aqui aprofundamos os dois primeiros pontos. Comentemos aqui hoje esse terceiro elemento - a missão da Igreja no mundo de hoje – objetivo propriamente dito da Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Tal é o título do documento, que, por sua vez, lhe dá o tom e traça o percurso da Igreja no mundo de hoje.

A segunda parte do Constituição Gaudium et Spes propõe um diálogo com o mundo contemporâneo sobre problemas concretos vividos pelos homens e pelas mulheres da época, sob o prisma, é verdade, de uma nova concepção de Igreja. Ela própria é a propiciadora dessa abertura, que a capacita a ouvir – como são as palavras iniciais do documento - “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as alegrias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem” (Palavras de abertura da Gaudium et Spes, do número 1 da Constituição). 

Ou como são as palavras conclusivas da Gaudium et Spes: “Em virtude de sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de Cristo e de reunir em um só espírito todos os homens, de qualquer nação, raça ou cultura, a Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível e fortalece o diálogo sincero” (Gaudium et Spes, 91). Ou ainda como diz claro no número 40 dessa constituição que define a missão da Igreja: “Deste modo, a Igreja, simultaneamente ‘agrupamento visível e comunidade espiritual’, caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus”.

Portanto, a Igreja dever ser fermento e alma da sociedade humana – essa sua missão, essa sua tarefa, como é intitulado o quarto capítulo: O PAPEL DA IGREJA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO. Não é alma da sociedade humana para legitimar simplesmente a sociedade como está, mas a frase se completa na GS: o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus. Ou seja: não podemos nos contentar com a sociedade humana como tal, mas transformá-la em família de Deus por Cristo.

O hino de São Paulo aos Efésios é aqui importante ser lembrado Canta o hino que Deus nos “deu a conhecer o mistério de seu plano e sua vontade que propusera em seu querer benevolente na plenitude dos tempos realizar: o desígnio de em Cristo reunir todas as coisas: as da terra e as do céu” (cf Ef.1,9-10). A tradução atual, rezada na Liturgia das Horas, na impressão brasileira, é muito pobre, quando usa o verbo “reunir”, quando no texto original a tradução mais correta é “recapitular”. É muito diferente dizer que o desígnio de em Cristo é capitular todas as coisas, as da terra e as do céu. Recapitular é fazer com que Cristo-cabeça recomponha, refaça, renove, reconfigure tudo nele, a partir dele, sem o qual nada foi feito, sem o qual nada será redimido.

O papel da Igreja no mundo é recapitular tudo em Cristo, toda a história humana, transformando e renovando tudo em Cristo, transformando as relações e realidades humanas não simplesmente em sociedade qualquer, mas numa família de Deus, numa grande fraternidade e solidariedade universal. Só em Cristo que a Igreja encontra sua missão. É na sua páscoa que a humanidade encontrará sua vocação e seu destino último. A humanidade caminha para Deus, para a renovação e recapitulação de tudo em Cristo".

Fonte: http://br.radiovaticana.va/

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Falece Dom Paulo, o Cardeal da Esperança


Aos 95 anos, faleceu nesta quarta-feira (14/12, Festa de São João da Cruz) o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito da Arquidiocese de São Paulo. Ele estava internado no Hospital Santa Catarina em decorrência de uma broncopneumonia.

“Comunico, com imenso pesar, que no dia 14 de dezembro de 2016 às 11h45, o Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, entregou sua vida a Deus, depois de tê-la dedicado generosamente aos irmãos neste mundo”, informou o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, em nota divulgada hoje às 13 horas. “Louvemos e agradeçamos ao “Altíssimo, onipotente e bom Senhor” pelos 95 anos de vida de Dom Paulo, seus 76 anos de consagração religiosa, 71 anos de sacerdócio ministerial, 50 de episcopado e 43 anos de cardinalato. Glorifiquemos a Deus pelos dons concedidos a Dom Paulo, e que ele soube partilhar com os irmãos. Louvemos a Deus pelo testemunho de vida franciscana de Dom Paulo e pelo seu engajamento corajoso na defesa da dignidade humana e dos direitos inalienáveis de cada pessoa. Agradeçamos a Deus por seu exemplo de Pastor zeloso do povo de Deus e por sua atenção especial aos pequenos, pobres e aflitos. Dom Paulo, agora, se alegre no céu e obtenha o fruto da sua esperança junto de Deus!”, acrescentou D. Odilo, convidando a todos a elevarem preces de louvor e gratidão a Deus e de sufrágio em favor do falecido Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e  também a participarem do velório e dos ritos fúnebres, que serão realizados na Catedral Metropolitana de São Paulo.

Em nota, a Arquidiocese informou que o FUNERAL terá início às 19h desta quarta-feira (14), e o SEPULTAMENTO ocorrerá na sexta-feira (16), após a missa das 15h, presidida pelo Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer. Durante o funeral, acontecerão missas a cada 2 horas. 

MISSA DOS FRANCISCANOS

A Missa dos Franciscanos pela alma de Dom Paulo será às 10 horas, de sexta-feira (16), na Catedral da Sé. 

A história deste franciscano se confunde com a história da cidade de São Paulo e com a história do país. Foi o 5º Arcebispo e 3º Cardeal de São Paulo, permanecendo 32 anos como bispo na Arquidiocese de São Paulo e 43 anos como Cardeal. No dia 2 de julho de 2016 celebrou na Catedral da Sé os 50 anos de sua Ordenação Episcopal.

Estudou na Universidade Sorbonne de Paris, onde formou-se em Patrística e Línguas clássicas. Foi professor e mestre dos clérigos, diretor do CIC e jornalista profissional. Trabalhou como vigário nos subúrbios de Petrópolis, onde era amigo das crianças e dos pobres dos morros, quando foi indicado bispo auxiliar de Dom Agnelo Rossi, no dia 02/05/1966 e sagrado em 03/07/1966, como bispo titular de Respecta.


Atuou intensamente na Região Norte de São Paulo. Foi nomeado Arcebispo de São Paulo no dia 22/10/1970, tomando posse dia 01/11/1970.
Perante o núncio apostólico, 28 bispos e arcebispos, diante do governador, do prefeito e cerca de cinco mil fiéis, Dom Paulo tendo a mãe presente, Sra. Helena Steiner Arns, com 76 anos, e seus quatorze irmãos, fez comovente exortação:

“Venho do meio do povo desta Arquidiocese a que já pertencia, do clero a quem amo e de quem sou irmão, dos religiosos que comigo se esforçam para serem sinal e esperança dos bens que estão para chegar, dos leigos que entendem o serviço aos irmãos como tarefa essencial de sua existência.”

Ao longo de sua trajetória, trabalhou como jornalista, professor e escritor, tendo publicado 57 livros. Durante a Ditadura Militar, destacou-se por sua luta política, em defesa dos direitos humanos, contra as torturas e a favor do voto nas Diretas Já.

Ganhou projeção na militância em janeiro de 1971, logo após tornar-se arcebispo de São Paulo, e denunciar a prisão e tortura de dois agentes de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini.

No mesmo ano, apoiou Dom Hélder Câmara e Dom Waldyr Calheiros que estavam sendo pressionados pelo regime militar.

Em 1972 criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo e, como presidente regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), liderou a publicação do “Testemunho de paz”, documento com fortes críticas ao regime militar que ganhou ampla repercussão à época.

Presidiu celebrações históricas na Catedral da Sé, no Centro de São Paulo, em memória de vítimas da Ditadura Militar. Dentre eles, do estudante universitário Alexandre Vannucchi Leme, assassinado em 1973, e o ato ecumênico em honra do jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo, em 75.

Atuou contra a invasão da PUC em 1977, em São Paulo, comandada pelo coronel Erasmo Dias, à época secretário de Segurança, e a operação para entregar ao presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, uma lista com os nomes de desaparecidos políticos.

Também teve papel importante em favor das vítimas da ditadura na Argentina, em 1976. O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Perez Esquivel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, disse que foi “salvo duas vezes” por Dom Paulo Evaristo Arns durante a ditadura no Brasil.

Em 1980, acompanhou a primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil, em 1980. Em São Paulo, João Paulo II falou no estádio do Morumbi para 200 mil operários.

Em 1985, criou a Pastoral da Infância, com o apoio de sua irmã, Zilda Arns, que morreu no terremoto de 2010 no Haiti, onde realizava trabalhos humanitários.

Em 28 anos de arcebispado, criou 43 paróquias, construiu 1200 centros comunitários, incentivou e apoiou o surgimento de mais de 2000 Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) na capital paulista.

Por seus feitos, recebeu inúmeros prêmios e homenagens no Brasil e no exterior. Dentre eles, o Prêmio Nansen do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), o Prêmio Niwano da Paz (Japão), e o Prêmio Internacional Letelier-Moffitt de Direitos Humanos (EUA), além de 38 títulos de cidadania.

Sua biografia foi relatada em dez livros, sendo o mais recente lançado em outubro deste ano, no Tuca, teatro da PUC, na Zona Oeste de São Paulo, durante uma homenagem pelos 95 anos de Dom Paulo.

Passou os últimos anos de sua vida entre orações, leituras e assistência aos idosos, recebendo ainda inúmeras homenagens, entre as quais a da presidente Dilma Roussef que, em 18 de maio de 2012, foi visitá-lo na Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, da Congregação das Irmãs da Ação Pastoral, que cuidaram de Dom Paulo desde que se tornou cardeal emérito. Dom Paulo residia em Taboa da Serra (SP).

Frei Diego Melo, coordenador do SAV (Serviço de Animação Vocacional), esteve com Dom Paulo na última semana e partilhou um pouco deste momento em seu perfil no Facebook:


“Há dois dias atrás visitei a Dom Paulo na UTI do hospital. Embora já não demonstrasse consciência, chamou-nos atenção que no momento em que Frei Mário e eu rezamos e demos a benção, ele mostrou uma certa reação, fazendo-nos entender a sua participação naquela hora. Mas o que realmente mais me marcou, foi vê-lo segurando fortemente a sua cruz peitoral. Fiquei por uns instantes segurando a sua mão que abraçava aquele Cristo que por tantos anos ele carregou não só peito, mas principalmente nas suas atitudes e no seu coração, agradecendo a Deus e a Dom Paulo pelo testemunho de amor e doação como frade menor. Tenho certeza de que esse mesmo Cristo a quem ele tanto amou durante a sua vida, a quem ele tanto serviu na pessoa dos mais pobres, e a quem ele se agarrou até o último instante de sua vida terrena, já o acolheu no seu abraço caloroso e misericordioso. Descanse em paz, Dom Frei Paulo Evaristo Arns.”

odilo